Assim que abrir os olhos, o rosto de querubim de lábios carmins olhava-me com demasiado carinho e solicitude, tão transparente em seu reconforto.

Eu estendi a mão, maravilhada, ele poderia ser fruto do meu sonho, era importante comprovar, a pele macia e lisa solidificava o que eu acreditava fazer parte da minha cabeça.

— O que houve comigo?

— Ao abrir a caixa você libertou a maldição que a beleza de Perséfone é para os mortais, eu aprisionei-a de novo na caixa.

O ombro outrora ferido de Eros já estava curado da sua queimadura.

— Obrigada por ter me salvado. Eu o agradeci.

Os braços abertos me receberam, e eu chorei ao sentir o seu aperto, o seu toque em meus cabelos, como eu sentia falta disso.

Do toque doce dos nossos lábios, logo suas mãos vieram para a parte de trás das minhas pernas, ele me suspendia no ar e prendia-me ao seu corpo esculpido. Eu me sentia leve como uma pluma, a sensação libertadora de estar nos seus braços, me fazia voluntariamente fechar os olhos e aproximar o meu nariz do pescoço dele, o aroma adocicado que exalava da sua pele encheu os meus pulmões.

Pacientemente ele me disse.

— Você precisa levar a caixa a Afrodite e cumprir o seu propósito.

Abri os olhos para mirar o rosto de maçãs rosadas que me encaravam cheios de devoção.

Eu faria tudo que ele me ordenasse. Eu era dele de corpo e alma.

Os meus pés foram posicionados numa superfície sólida tão dura quanto uma pedra, a mudança me surpreendeu.

Concordei sem nenhuma objeção, preparada para sair daquele bosque florido, eu me deparei com a estrutura majestosa com colunas frontais surpreendentemente altas, a estátua esquia da bela mulher, localizado na entrada do templo afirmava silenciosamente a quem aquele lugar pertencia.

Mas como...

Eros se afastou o semblante calmo não revelou o seu próximo passo, as suas asas bateram no ar e eu me desesperei ao pensar que ele me abandonaria outra vez, quando ele se preparava para voar eu o perguntei.

— Aonde você vai?

O afago doce em meu rosto enviou conforto ao meu coração, eu o amava tanto...

— Não se preocupe, eu irei ao seu encontro assim que possível.

A confiança depositada naquelas palavras me fez aceitar, com toda a tenacidade que havia em mim, depois de um último sorriso compartilhado.

Iniciei a minha caminhada que selaria o meu destino, a caixa que continha parte da beleza de Perséfone. Entrei entre as colunas de abertura da entrada, o extenso piso corria sob os meus pés.

A projeção sobrenatural de um ser jovem bonito de pés alados se transladou com agilidade e rapidez, apresentou como Hermes pediu a caixa para si e de maneira sobre humana a fez sumir no ar, quando pisquei, ele me agarrava. Ao olhar em volta nós estávamos numa fortaleza acima das nuvens de uma magnífica acrópole de enormes palácios dourados e construções menores em prata.

Olhei em volta admirada.

—Bem vinda ao lar dos Deuses.

— Por que me trouxe aqui?

— Foi um pedido de Eros.

— Ele está aqui?

— Sim. Está a sua espera.

O jovem mensageiro me guiou para dentro de um salão onde era servido um suntuoso banquete, mas nada afastava o meu olhar de Eros que estava incrivelmente belo naquelas roupas douradas.

Lancei-me aos seus braços, com toda a necessidade de tê-lo comigo, como se lesse a minha mente ele me disse.

— Não se preocupe minha Psiquê, a partir de hoje nós ficaremos juntos para sempre se assim for o seu desejo.

O poder de escolha me foi estendido, mas eu não queria viver uma vida sem ele, não poderia seguir numa existência tendo menos do que eu conheci ao lado do meu Cupido.

Na Assembleia dos Deuses me foi oferecida uma taça de ambrosia que me uniria ao meu marido de uma vez por todas, eu pertencia a ele.

Zeus ao vir até mim, me disse.

— Beba-o dele e serás imortal para que assim o seu casamento com Eros seja perpétuo.

Assim o fiz, bebi o néctar dos Deuses transformando-me em imortal igual a Eros.

A ratificação do nosso casamento teve uma cerimônia formal e sob as bênçãos de Afrodite a nossa união foi finalmente firmada.

— Que Eros possua Psique e a conserve para sempre, que goze de seu amor e a tenha em seus braços por toda a eternidade.

O nosso beijo simbolizava muito mais do que eu poderia dizer, uma vida humana não nos bastaria para vivermos o nosso amor. A nossa união havia sido escrita por um ser divino que nos transformou em um só e juntos nós existiríamos por toda a eternidade.

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