—Eu tenho uma filha? –Perguntou atônito e embranquecendo, eu mereço ter que aturar o pobre homem descobrindo que o seu amor de verão foi mais longe do que deveria –Rita, por que não me contou?

—Primeiramente, por que você está aqui? Deixe minha mãe em paz, como fez todos esses anos –Me opus a ele caminhando até a cama dela para ficar ao seu lado.

—Ele não teve culpa, foi obrigado a se afastar da gente –Interviu mamãe com a voz relutante, tentando amenizar a situação que se estreitava cada vez mais.

A mulher que estava naquela maca entubada era linda, loira e de olhos cor de mel, alta e elegante, levava uma vida difícil como faxineira e ainda sim sempre havia um sorriso em seu rosto e uma energia ao seu redor que contagia quem está por perto.

—Mãe, ele já é bem crescido para tomar suas próprias decisões, não tente passar pano para esse canalha não, que nem sei porque resolveu aparecer –Disparei furiosa enquanto o ruivo olhava aturdido, paralisado tentando digerir as informações. Marcha lenta demais esse meu “pai”.

—Filha, ele é o rei de Omarin –Disse em um tom baixo e recluso, como se estivesse envergonhada da situação.

Olhei surpresa para os dois, então agora sou uma cria bastarda, por que o cara provavelmente decidiu pular a cerca? Comecei a sentir a raiva subir e cerrei meus punhos querendo socar ele bem no meio da fuça.

—Eu sei que errei, mas quero me redimir –Começou fazendo pausas buscando as palavras –Me dê uma chance, por favor, eu não sabia da sua existência a cinco minutos atrás, só que quero ajudar –O homem apontou para meu estado deplorável, deixando bem clara a minha situação.

Considerei. Observando o estado da minha mãe, o preço de tudo sairia bem caro e embora ainda tivesse algum dinheiro, não era o suficiente para sustentar nós duas, além de que receber alguma ajuda não seria de todo mal.

Por alguns instantes senti-me hipócrita por pensar isto, entretanto receber apoio dele não significava perdão ou ódio dissipado, apenas um momento onde precisei engolir o orgulho e aceitar a triste realidade.

—Está bem –Cedi afinando a voz e abaixando levemente a cabeça, derrotada. Seu rosto abriu-se em um bonito sorriso com dentes perfeitamente brancos, espero que não seja por especular o começo de uma aproximação entre pai e filha, porque isso não vai rolar.

Mamãe foi transferida para o hospital de Omarin, e eu fui para onde o tal rei estava hospedado para que pudesse arrumar-me e passar a noite. Uma mudança tão radical quanto aquela me dava medo, não queria confiar em ninguém, mas de certa forma era refém dele, não havia o que fazer se não enfrentar.

Fomos de limusine até a capital do estado em silêncio e chegamos no hotel mais luxuoso da cidade, no melhor e mais bonito quarto que já vira na vida. Tudo parecia reluzir, chão, parede, teto, portas, janelas, até as poucas pessoas que estavam no solão brilhavam, pelas roupas cheias de brilhantes ou por conta da oleosidade na pele.

Entrando no quarto, nos deparamos com um homem baixo e magro, com um terno alinhado e cabelo moreno lambido, seus olhos eram acastanhados e o nariz protuberante destacava-se em seu rosto, parecia um passarinho mal-humorado.

Ele tomou um susto quando nos viu e ficou encarando-me abismado. Então Theodor, como o rei disse que se chamava, apresentou-o a mim como Paulo, o assistente, e contou a história sobre descobrir ser pai.

Eu entendo seu lado de certa forma, não deve ser fácil de repente saber que é pai de uma garota de 18 anos, ainda mais com seu status e tanto a perder, ainda sim está supostamente me acolhendo e se isto for verídico, é muito nobre de sua parte.

—Mas o que você pretende fazer com ela? –Perguntou receoso, olhando para mim como se eu fosse um objeto manuseável, não olhando para mim como ser humano, e sim como uma coisa.

—Vou reconhece-la como filha, é obvio –Respondeu dando de ombros e caminhando comigo pela sala dizendo cada cômodo e onde ficava, ignorando a presença de seu assistente.

—Desculpe a intromissão, mas como seu conselheiro devo alertar de que não faça isso, já pensou em como sua reputação pode ser prejudicada se um fato como este vier à tona? O que seus súditos ou sua mulher vão pensar? –Discursou com os ombros encolhidos e a voz branda, como se fosse alguém dando um bom conselho, ainda que deixasse claro em seus gestos sua posição de submissão –Além de que uma princesa precisa ser uma dama e perdão a palavra, mas, esta garota parece uma maltrapilha.

Então Theodor fez um movimento com a mão com o semblante aborrecido e de saco cheio, gerando um silêncio da parte do criado que recuou contrariado. Um clima estranho estabeleceu-se, mas o rei logo tratou de colocar um sorriso no rosto para acolher sua “filha”.

—Paulo deu uma ótima ideia, vou coloca-la em uma escola que educa a realeza para um dia subir ao trono, está decidido, você vai para a escola de princesas! –Exclamou animada abrindo os braços aumentando a voz em tom de glória.

—Não! Eu não quero ir para uma escola de princesas e não faço questão nenhuma de ser reconhecida como sua filha –Esbravejei impondo minha presença. –Eu só quero um lugar para tomar banho, depois disso me deixem em paz.

Saí rápido e entrei no banheiro antes de poderem tentar argumentar, estava cheia de tanta ladainha sobre o que fazer comigo, meu real desejo era de voltar no tempo e impedir que tudo aquilo acontecesse.

Suspirei e sentei no chão exausta, relembrando o dia anterior e como ele pesava como uma bigorna em meus ombros, e antes que percebesse, lágrimas desciam pelas minhas bochechas e caiam no tapete branco felpudo. Tentei limpa-las, porém quanto mais a mão passava pela minha pele, mais as gotas rolavam.

Até que desisti e deixei o sofrimento entalado sair, segurei com força minha camisa preta, arranquei-a com brutalidade e rasguei o tecido barato como se pudesse descontar todo o misto de raiva, tristeza, aborrecimento, decepção e outros mais, em uma simples e coitada da roupa.