O bastardo
2 O mundo capota
—Sua mãe Rita teve um infarto e está na UTI em estado grave –Disse calmamente, porém ao ouvir aquelas palavras, gelei e paralisei, deixando o celular frouxo sobre meus dedos a ponto de quase cair.
—Ela ficará bem, temos tudo para ampara-la da melhor forma possível, entretanto seu plano de saúde não cobre –Continuou, transitando do tom calmo e agradável para o frio e calculista.
Oh certo, o dinheiro. O que as pessoas não fazem por ele, não é mesmo? Todavia eu não possuía muito, ainda mais por estar desempregada no momento e morando em outra cidade, mas ela continuava sendo minha mãe e precisava de ajuda.
—Tudo bem, estou aparecendo aí amanhã para acertar o que precisar, obrigada por avisar e tenha uma boa noite –Falei rápido e desliguei após ouvi-lo despedir-se.
Respirei fundo preocupada e fui para casa apressada, sem que eu percebesse já estava praticamente correndo pelas ruas escuras e esburacadas até chegar na república e ver o dono jogando minhas coisas no asfalto.
—Ei! O que pensa que está fazendo, seu imbecil? –Esbravejei gritando e correndo pegar minhas roupas, acessórios e objetos largados.
—Sua mentirosa descarada! Vai enganar outro trouxa, sua golpista! –Respondeu terminando de arregaçar tudo. Perdi o ar quando meu cérebro assimilou que ele havia descoberto e quando olhei para cima, vi minhas colegas apenas olhando da janela.
Comecei a sentir meus olhos marejados e para não dar esse gostinho a eles, peguei meus pertences e os guardei de qualquer jeito na mala (não era muito mesmo), logo após saí pela calçada mandando todos se foderem, irem ao inferno e outros xingamentos a mais.
Sem saber o que fazer, fui para a casa do Tomas, que estava de folga, o choro estava entalado na minha garganta e os dedos brancos doendo por segurar a mala com muita força, o dia parecia piorar a casa segundo e a única coisa que eu queria era um colo para me confortar.
Cheguei e bati na porta, engoli em seco e arrumei minha roupa enquanto esperava ele atender. Já havia passado algumas noites lá, mesmo assim me sentia culpada por aparecer sem avisar, porém, eu não sabia mais onde poderia ficar.
A casa era humilde e pequena, com as paredes do lado de fora ainda por serem pintadas, poucas janelas ao todo feitas de aço e com grades de proteção cobertas por cortinas grossas da cor bege, o teto havia buracos causadores de goteiras em dias de chuva e o quintal era feito de puro concreto branco. Parecia muito um imóvel abandonado.
Quando Tomas apareceu e olhou para mim, sua surpresa e desconforto ficaram visíveis em seu semblante, na hora entendi que não era para ter aparecido, porém quando fui dizer o motivo de estar ali, algumas risadas ecoaram do lugar e isso me deixou ainda mais incomodada.
Eu não deveria estar surpresa de encontrar mais pessoas ali, afinal ele era um homem agradável e cheio de gente em volta, era moreno de olhos verdes e embora seu corpo não fosse atlético como dita o padrão de beleza, continuava bem bonito, as roupas que vestia lembravam muito as de exército, em seu braço direito sempre havia uma ou duas pulseiras e na orelha esquerda um alargador preto.
—Oi Dah, posso te ajudar? –Perguntou olhando fixamente para a mala atrás de mim, fiquei sem jeito e dei um passo para trás sem saber o que falar. Não dava para simplesmente dizer que queria dormir ali porque fui expulsa do meu apartamento por enganar o dono e não tinha onde ficar, ainda mais com visitas ali.
—Bom, sim –Fiz uma pausa pensando nas palavras –Eu vim só avisar que estou me mudando de cidade, e é isso –Terminei dando um riso nervoso para esconder a vergonha que estava sentindo, quem vai na casa do ficante só para dizer isso?
—Ah, entendi.
Ficamos um tempo em um silêncio constrangedor até que resolvi colocar um fim naquela palhaçada, despedi-me e saí rápido de cabeça baixa, sentindo ser uma fracassada.
Suspirei e caminhei até a estação de ônibus, não poderia gastar dinheiro com um taxi porque precisava de cada centavo para pagar o hospital, e quem sabe andar ajudasse a clarear minha mente e diferir o que inferno tinha acontecido para minha vida capotar desse jeito.
Chegando lá, comprei a passagem intermunicipal com todos os olhos em mim, obviamente porque eu parecia um semáforo de tão brilhante, podia sentir o julgamento sobre minhas costas como um fogo ardente.
Como restava um tempo até sairmos, entrei no banheiro, tendo que pagar um real para usar, e troquei de roupa para depois esfregar meu rosto com força apenas usando água, mas o resultado foi deplorável. Ao olhar-me no espelho vi o reflexo das últimas horas, de DJ glamorosa para sem teto com cara de derrotada.
Ao anoitecer, chegamos no nosso destino e eu fui direto ao hospital, estava um pouco melhor por ter dormido a maior parte do trajeto, entretanto sentia meu corpo sujo e fedendo precisando muito de um banho.
Entrei atraindo a atenção de todos e parei na frente da recepcionista que me olhava com desconforto e nojo, pedi para ver Rita Kisuzi explicando ser sua filha, ela então disse o quarto com desprezo e rapidez para que eu saísse logo dali.
Agradeci e subi ao segundo andar sob a vigia dos seguranças, ao chegar próxima do quarto 3B ouvi uma discussão vinda do mesmo lugar, a voz de um homem e uma mulher atropelavam-se e as palavras eram ininteligíveis.
Rapidamente entrei no quarto e o barulho cessou dando início a um silêncio rápido, minha mãe e um moço olhavam para mim surpresos. O cara era estranho, vestia uma blusa cara, aparentemente de linho, calças pretas chiques e uns sapatos brilhosos de couro, além de possuir vários anéis de pedras preciosas e ouro nos dedos, também tinha cabelos ruivos e olhos azuis, alto e com uma postura impecável.
—Quem é você? –Perguntou em um tom surpreso, embora tentasse ser cortês.
—Sou Meridah, filha da Rita –Respondi firme, até parece que deixaria-o ficar importunando mamãe. Será que era o dono do hospital cobrando o dinheiro? –E você, quem é?
—Querida, ele é seu pai.
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