O bastardo
1 O começo
Notas iniciais
Eu me chamo Meridah, tenho olhos negros e cabelo ruivo, baixa e bem gostosa viu, além de também ser uma princesa.
Aqui estou, em um baile chique, usando um vestido longo verde, com manga longa e uma fenda sexy na parte da saia, meu cabelo está encaracolado e preso em um penteado simples, além da maquiagem maravilhosa e bem reboco, sem contar um salto alto cheio de pequenas esmeraldas brilhantes. A cara da riqueza né?
Bom, mas nem sempre foi esse luxo de patricinha da Zona Sul, por exemplo a alguns anos atrás, quando eu era uma garota em um bairro distante e apagado, trabalhando como DJ em uma boate e morando em uma república caindo aos pedaços.
Mas vocês não estão aqui para ouvir apenas um breve resumo, não é? Então bora voltar no tempo.
Era um dia comum, minhas colegas de quarto haviam saído para a faculdade e eu fiquei dormindo, pois tinha chego tarde por causa do trabalho.
Acordei por volta do meio dia e arrumei o apartamento, fiz um trato com as garotas de arrumar o lugar e em troca não contavam para o caseiro que eu não era uma estudante. O aluguel para universitários sempre é menor, e eu precisava juntar minha grana.
Depois das tarefas domésticas feitas, estourei pipoca na pipoqueira e fiquei vendo filme o resto da tarde, chorando com o drama romântico e em seguida sentindo vergonha alheia com as comédias de amor.
Por volta das oito da noite, cheguei no trabalho com uma saia rosa neon, um top preto e uma jaqueta cheia de brilhantes, um rabo de cavalo e também com um fone de ouvido com orelhas de gatinho.
A boate chamada Berry Kiss, era grande com muita bebida boa, iluminação gostosa e os donos me davam um ótimo cachê para tocar minhas músicas eletrônicas, além de ter direito a tomar três drinks por semana, e foi em um dia qualquer desses que fui encher a cara com apenas um copo, o qual conheci o barman super gato chamado Tomas, mas isto é outro papo.
A casa estava lotada, depois de uma ou duas batidas eu me animei e arrasei demais na noite, toquei com vontade e paixão mesmo, era um trabalho que deixava essa pessoa aqui muito feliz. Porém só parecia ser um dia bacana, porque em alguns minutos tudo estava prestes a desmoronar.
A música tocava e meus dedos dançavam pelos botões, até avistar um fanfarrão importunando uma garota, passando a mão pelo seu corpo enquanto ela tentava afastar-se, cerrei meus punhos, pausei o som e peguei o microfone.
—Ei, ei, algum segurança poderia levar o homem de terno e cabelo penteado ali na frente do bar? Isso, aquele lá –Comentei apontando para todos verem-no e não demorou muito para as luzes que passavam pelo salão concentrarem-se nele.
—Mas Dah, o que ele fez? –Perguntou Lucas aparecendo perto de mim, ele é o novo sócio do meu chefe a mais ou menos um mês, o cara é baixo, moreno e com implante na parte da frente da cabeça e um corpo que tenta ficar malhado, embora só continua muito magro, mas pelo menos ele tem estilo.
—Ele está importunando a moça! Assediadores não são permitidos aqui, por favor se retir senhor –Falei com uma voz fingindo delicadeza e cortesia, entretanto queria mesmo é mandar ele se foder.
—Ah, mas isso é normal, só uma brincadeira, homem é assim mesmo –Comentou sorrindo fazendo um gesto para que as pessoas que controlassem as luzes voltassem ao trabalho normalmente, tentando abafar a situação.
—Normal o escambau, eu não vou tolerar esse tipo de comportamento enquanto trabalho aqui –Afrontei começando a me alterar, é totalmente inaceitável esse tipo de comportamento, tanto o ato quanto esse passar pano infernal.
—Então não vai tolerar isso em outro lugar, está demitida –Gritou, e vendo a minha cara de espanto, parece que por alguma razão seu ego inflou –Quem você pensa que é? Sou eu que não tolero as coisas e não aguento mais esse seu mimimi, eu pago as tuas contas, já é o bastante para você calar a boca e fazer o seu trabalho.
Por alguns segundos paralisei, Lucas queira me jogar na rua a muito tempo, mas como eu era amiga pessoal do outro sócio, faltava coragem. Na verdade, nunca me senti ameaçada por ele, porém agora que aconteceu, o peso caiu como uma bigorna em cima de mim.
Respirei fundo e larguei o microfone na mesa e fui embora com raiva, tudo bem ser mandada embora, no próximo dia seria contratada novamente e dane-se esse mauricinho de merda, como se eu precisasse desse emprego.
Fui para casa pisando fundo, ombros arqueados e sobrancelhas contraídas, indignada por um homem desses existir na Terra, bufei tentando exalar a raiva do momento e peguei o caminho mais longo para a república.
Passei por uma praça bonita, bem iluminada e com árvores esplendidas, um campo verde bem grande, bancos brancos espalhados embora que malcuidados, com a tinta descascando e sujeira de pombos e animais, observei as crianças passando e brincando de amarelinha sob a supervisão dos pais que conversavam entre si.
Lembrei-me do meu passado, quando a minha maior preocupação era chegar de noite e ter que parar de brincar na rua com meus amigos, a vida as vezes parece tão boa no passado, mas na verdade isso é só hipocrisia, já que eu não sinto as emoções da situação quando lembro dela e isso dá uma falsa ideia de quer “era melhor”, bizarro né?
Voltei a andar pelas ruas tentando esfriar a cabeça e organizar os pensamentos, enquanto andava meu celular tocou e na tela mostrava um número desconhecido me ligando de outra cidade. Incerta, decidi atender, pois não parecia um número de cobrança ou aquelas ligações dos bandidos.
—Alo? –Perguntei com a voz insegura e baixa, por pouco não vacilante.
—Olá, aqui é do Hospital Santa Cruz, quem fala é a Meridah Kisuzi? –Uma voz de homem falou em um tom agradável e carinhoso.
—Sim, aconteceu alguma coisa?
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