O assassino do Cantor
4 Capítulo 4
Capítulo quatro
1
– Hayami Minami...
Nakai uniu as mãos em cima da sua mesa e olhou seriamente para o menino a sua frente. Acompanhava a carreira de Kamenashi praticamente desde o começo, ele havia sido seu estagiário e por isso tinha certo carinho por ele. Além disso, ele sabia muito bem da sua capacidade e tinha certeza de que o jovem faria muito sucesso no jornalismo. Era esforçado, engajado, curioso e teimoso. As características principais de um jornalista.
Porém, mais do que sua capacidade profissional, foi o caráter honesto e confiável de Kamenashi que fez Nakai lhe confessar:
– Sim, este é o nome da amante do Takuya.
– Eh?! É verdade então que...
Ele sacudiu a cabeça e se encostou na cadeira. Olhou para a janela da cafeteria e observou o movimento da rua por algum tempo. Parecia absorto em suas lembranças. Eles tinham ido até ali para conversarem sobre o caso com mais privacidade. Kame tomou consciência de que aquelas informações que obteria seriam totalmente em off, mas, mesmo que não pudesse publicá-las, seriam ótimas guia para continuar com suas investigações.
– Você sabe... Meu amigo casou muito cedo. – Nakai prosseguiu com a voz carregada de mágoa: – E ela estava grávida, aquela raposa. Não tinha como ser um casamento feliz. Eu disse isso a ele muitas vezes “você não é feliz, Takuya!”.
– Mas... Eles tiveram a segunda filha, não é?
Nakai sacudiu a cabeça.
– Takuya tentou transformar seu casamento. Ele não é... Ele não era do tipo que desistia. Honrou a sua responsabilidade, aceitou o casamento e tentou que ele desse certo. Mas o que começa errado não tem como terminar certo. Takuya conheceu Hayami há quase dois anos. Não foi um longo período, mas... – um sorriso curto surgiu nos lábios de Nakai –... Os olhos dele voltaram a ter brilho. Se você o tivesse conhecido, Kame, aposto que notaria a diferença... Era como se Hayami tivesse soprado para longe uma fumaça negra que encobria todo o meu amigo. Foi por pouco tempo, mas nesse período, eu digo com certeza de que ele foi feliz.
Outra pausa. Agora Nakai parecia emocionado. Kamenashi respeitou o seu momento e aproveitou para fazer suas considerações. Kimura tinha uma amante e agora isso era confirmado pelo seu melhor amigo. Hayami Minami existia. Era um fato, Koki se encontrou com ela. Mas porque um relacionamento que estava dando tão certo terminou desse jeito? Hayami é a suspeita da polícia, mesmo que isso não esteja sendo divulgado. Certo, não queria dizer que era a culpada e, pelo relato de Nakai, Kame estava inclinado ainda mais pela inocência dela.
Contudo, a cena do crime aponta para um encontro íntimo. Kimura estava semi-nu, drogado e foi estrangulado. Se Hayami não era a culpada, talvez pudesse ter sido...
... A esposa?
Ela poderia ter descoberto sobre a amante e, enraivecida, vingou-se. Isso soava melodramático demais, mas as mulheres tendem a ser dramáticas. Mas algo não encaixava. Porque Kimura e não a amante? Normalmente nossa raiva se volta contra a pessoa intrusa em um relacionamento, por mais que o errado seja o marido em estar saindo com outra pessoa quando já tem uma mulher.
–... É... Eu tenho certeza de que ele foi feliz...
Nakai repetiu e chamou atenção de Kamenashi de volta.
– E mais alguém sabia sobre esse relacionamento?
– Hum... Acredito que não. Temos bons amigos... Goro-chan, Shingo-chan, Tsuyoshi-chan... Mas Takuya não era alguém que falava abertamente sobre seus relacionamentos, mesmo na época em que éramos garotos. Ele só contou a mim porque acho que precisava de uma pessoa para compartilhar. Não sei dizer porque ele me escolheu... Mas é comum que eles me procurassem para desabafar, sempre fui o “ouvidor” do grupo... Sou um pouco mais velho que Takuya e os outros são mais novos que nós. Na época em que éramos jovens, eles me colocaram na posição de “líder”... Essas coisas de crianças... – riu – Ah... Bons tempos aqueles... Nós costumávamos passar bons momentos no rio perto de casa... Ah, nós não morávamos em Tóquio... Cada um a seu tempo, nós viemos para cá fazer faculdade.
– E esses outros amigos, Kimura mantinha contato?
– Sim, sim... Bem escasso, mas mantínhamos contato. Tsuyoshi é advogado e se casou pouco depois de Kimura, tem uma boa família e seu tempo é consumido pelo trabalho e o lar. Poucas vezes conseguimos arrastá-lo para beber em algum lugar... O Shingo também foi pelo caminho da música... Ele ajudava Takuya-chan a compor suas letras. Eles formavam uma excelente dupla. Talvez fosse o Shingo-chan quem mais tivesse contato com Takuya nos últimos tempos, por causa da profissão. Quanto a Goro-chan... Bem...
Nakai hesitou.
– Não, não acho que seja o caso. Isso não tem nada a ver com o crime. Bem, e o que mais você tem pra mim?
Kamenashi se sentiu frustrado pelo editor não terminar o que dizia, mas pelo menos tinha um novo nome para investigar. Ficou claro que esse tal de Goro tinha algo com Kimura. O que poderia ser? Uma briga? Pensaria nisso mais tarde.
Ele tirou do bolso o envelope com as fotos que Koki lhe entregara e esperou enquanto Nakai as analisava.
– Um isqueiro interessante... Estava na cena do crime?
– Sim, próximo a um móvel. Aparentemente ele caiu sem que seu dono ou dona notasse. Certamente deve ser do assassino, não acha?
– Tem certeza de que é do assassino? – Nakai levou a mão ao queixo – Lembro-me de ter ido comprar esse isqueiro com Takuya-chan.
– Eh?! – Kame se mostrou desconcertado – De acordo com a minha fonte, a informação da polícia é de que não pertencia ao morto. Parece que a esposa não reconheceu o objeto.
– Naquela vez... Takuya-chan havia me dito que precisava de um novo. Tenho certeza de que é dele.
– E porque Kimura-san não identificou esse objeto?
– Porque é uma esposa relapsa?
Era uma hipótese, mas Kamenashi duvidava que fosse isso. Porque a esposa de Kimura negaria a existência daquele objeto?
– Em todo caso, por favor, chegue ao fim dessa história. Não conseguirei descansar enquanto ao assassino do Takuya está andando tranqüilo por aí... E a polícia é incompetente. Não confio nela para descobrir esse caso!
– Continuarei fazendo o máximo, Nakai-san.
Ele sacudiu a cabeça e sorriu, ainda assim, o rosto de Nakai era triste.
2
Já era noite quando eles saíram da cafeteria. A conversa foi longa, mas Kamenashi achou muito produtiva. Ficou com um pouco de dó de seu editor, ele parecia muito solitário depois de relembrar o passado. Mas logo a mente prática do jornalista afastou esse sentimentalismo e ele começou a apurar as informações que obteve.
O primeiro passo foi pesquisar sobre Goro. Alguns segundos bastaram para que Kamenashi descobrisse quem era Inagaki Goro. Uma pesquisa na internet do seu celular e ele encontrou várias entrevistas em que Kimura mencionava seus quatro melhores amigos. Nakai Masahiro, Katori Shingo, Kusanagi Tsuyoshi e Inagaki Goro.
Inagaki trabalhava em uma produtora, a mesma que produzia os álbuns de Kimura. Os primeiros discos, Inagaki cuidou deles pessoalmente. Porém, depois de um tempo, Inagaki passou a cuidar de outros trabalhos e os de Kimura foi repassado para outro funcionário. Na época surgiram boatos sobre uma briga e depois disso o contato entre eles diminuiu, mas Kimura passou a mandar recados em suas entrevistas. Sempre dizia que estava com saudades e que queria ver mais a Inagaki. Houve uma em que ele disse que esperava que o amigo aceitasse ser o padrinho de seu casamento.
Kamenashi lia essas informações enquanto andava pelas ruas. Havia dito ao editor que precisava colher dados para outras fontes e que passaria o resto do dia fora. Isso teria sido verdade se não tivesse surgido aquele braço em volta do seu ombro. Kame brecou com o peso que se jogou contra ele fazendo seu corpo arquear para frente.
– Mas que porra...
Ele não terminou a frase quando viu quem era. Agarrado ao seu pescoço estava o menino Akanishi Jin, com aquele sorriso arteiro, mas com as roupas do Akanishi sedutor. Um chapéu da máfia italiana encobria seu olho e sua pinta e seus cabelos estavam cheios, com as pontas encaracoladas.
– O que você está lendo com tanta atenção, Kame-chan?
Akanishi estava pronto para o ataque, Kame concluiu.
– É você...
– Nossa, que recepção fria... Achei que depois do sexo selvagem de ontem você estivesse mais ansioso em me rever! – ele encheu a boca de ar, emburrado, e o soltou.
– O que você queria? Um pedido de casamento?
– Porque você é tão agressivo, Kame-chan?
– Não sou agressivo. Só que você não me deixa trabalhar em paz.
– Então estamos quites... – ele disse, enfiando as mãos nos bolsos da calça, tímido –... Porque eu também não consigo mais trabalhar em paz desde que te conheci. – e ele o olhou profundamente.
Kame entreabriu a boca, sentindo desejo de beijá-lo. Akanishi estava lindo aquela noite e dizer esse tipo de coisa só o deixava ainda mais com vontade de jogá-lo em um beco deserto e possuí-lo de novo.
– Não tenho dinheiro! – foi sua resposta automática. Aquele era seu truque para não cair no encantamento daquele bruxo puto.
– Mou, pare de colocar dinheiro em nossa relação, que coisa mais chata!
– Quem enfiou dinheiro nisso foi você, seu cretino! E que diabo de relação você pensa que nós temos?
Foi então que Akanishi sorriu de novo e, segurando a ponta do chapéu, disse em uma voz baixa, mas em um tom perfeitamente audível.
– Eu gosto de você, Kamenashi Kazuya-chan! – ele apressou o passo e se colocou na frente de Kame.
Aquele foi um momento constrangedor e Kamenashi não soube o que dizer. Desconfiava de que aquele rapaz estava apenas caçoando, mas não pode evitar a cor que surgiu em seu rosto. Olhou para o lado direito, para o asfalto.
Akanishi aproximou seu rosto para intimidá-lo, porém, isso fez com que Kame se irritasse. Kame não gostava de perder nenhuma competição, então o encarou e lambeu o lábio inferior. Era um hábito seu, mas um hábito extremamente sensual.
Então o rosto sério de Akanishi se desfez em um riso zombeteiro. Coçou o nariz e, ainda rindo, comentou:
– Você levou a sério? Não acredito! Você leva tudo muito a sério! – e o riso se tornou escandaloso.
– Feh... – Kame fez um som irritado e passou por Akanishi, prosseguindo o seu caminho.
– Ei, vai ficar bravo com isso? – Akanishi correu para alcançá-lo – Você leva mesmo tudo muito a sério!
– Você não tem que ir trabalhar, Akanishi?
– Eh?
– Está vestido como um puto. – explicou e parou no farol, esperando para atravessar.
– Sabe... Você podia mesmo perder essa mania de agredir os outros quanto fica bravo. E eu estou mesmo indo trabalhar. Quer minha companhia esta noite? Você tem a minha preferência! – Akanishi lhe piscou.
– Não tenho dinheiro.
– Voltamos à estaca zero. – ele sacudiu as mãos no ar, desanimado. – Né, vou dormir na sua casa hoje!
O sinal estava liberado para atravessar, mas Kamenashi, ao escutar aquilo, se virou para Akanishi, que soube que tinha passado dos limites pela expressão que ele lhe mostrava.
– Escuta... Eu estou te devendo dinheiro, mas nem por isso você tem o direito de transformar a minha vida dessa forma. Está pensando o que? Sai pra transar com qualquer um e vai dormir na minha cama?
– Kame...
– Você deve estar com uma ideia errada sobre mim, não sou o tipo que sai pegando todo puto pela esquina. Eu não tenho nada com a sua vida, você pode dar pra quem você quiser, mas não venha me colocar nessa vida também!
– Kame...
– Ora, era só o que me faltava! Servir de estepe pra um puto de luxo!!!
– Kame... – Jin puxou a manga da camiseta dele para conseguir a sua atenção. – Tá todo mundo olhando...
E só então o jornalista se deu conta de que as pessoas em volta pararam de andar e olhavam assombradas para os dois. Um silêncio mortal por alguns instantes, depois os cochichos começaram e, por fim, Kame:
– O que que foi?! Eu dormi com um puto e daí?! O que vocês tem a ver com isso e...
Akanishi o puxou para atravessarem logo a rua.
3
Ele tomou um longo gole da cerveja, depois suspirou, relaxado. Sentiu-se melhor, e poderia até mesmo dizer que estava contente agora. O álcool tem poder milagroso no humor das pessoas. Ele só não estava totalmente tranqüilo por causa da pessoa ao seu lado que bebia tranquilamente como se não fosse o motivo da sua raiva.
Akanishi lhe sorriu de olhos fechados depois que percebeu que estava sendo observado por Kamenashi.
– Por que é que viemos beber juntos? Você não tem que trabalhar?
– Não podia te deixar sozinho com você descontrolado daquele jeito!
–... Se eu me descontrolei, a culpa não foi sua? – Kame murmurou consigo mesmo.
– Você precisa aprender a relaxar mais, Kame-chan! O seu sorriso é muito bonito, porque você fica escondendo ele?
Porque ele tinha que dizer essas coisas? Kamenashi percebeu que era por causa do seu trabalho. Akanishi vendia companhia, certo? Fazia parte do seu serviço elogiar, bajular, tentar conquistar o seu cliente para conseguir o seu dinheiro. Apenas o ignorou e tomou sua cerveja.
Observou melhor aquele lugar. Era um barzinho aconchegante, com iluminação baixa e cores escuras. Estavam em uma mesa privada, protegidos pelos encostos altos das poltronas. A música ambiente era tranqüila. Era um lugar para casais e Kame se sentiu deslocado ali.
– Como está o seu trabalho? – Akanishi quis saber, retirando-o de seus pensamentos – Alguma matéria muito complicada? É por isso que você está tão preocupado?
– Tô com uma grande pra fazer... Mas ainda estou só recolhendo informações... Eu pareço preocupado? – riu, tentando se lembrar quando foi a última vez que alguém demonstrou tanta atenção assim com ele.
– Sim... Está sempre com a testa franzida... – ele apoiou o queixo no ombro de Kame e o percebeu tenso: – Como agora... Não se preocupe, aqui é um bar gay. Ninguém vai condenar o que estamos fazendo, principalmente porque ninguém aqui sabe que sou um garoto de programa... Que é bem diferente de puto, como você insiste em me chamar!
– Que seja... Puft... – e virou o rosto.
Kame preferiu observar o quadro na parede, fingindo não se incomodar com Akanishi tão próximo. Olhava para o oceano se confundindo com o céu noturno no horizonte e tentava não perceber o calor dele. Fingiu não perceber a mão dele tomando a sua e começar a brincar com seus dedos, preferiu admirar a Lua. O quadro ainda mostrava uma faixa da praia, de areia branca, e uma pessoa solitária caminhando. Ela parecia tranqüila e Kamenashi se sentiu em paz. Olhou para a mão dele em cima da sua e interrompeu a brincadeira de Jin para ele mesmo começar a brincar com os dedos dele. Depois soltou um riso de alguém que admitiu a derrota. Aquele carinho era bom e naquele momento não parecia ter lógica para Kame recusá-lo.
Jin sorriu, aquele belo sorriso, e se aproximou como uma criança contente.
– Por isso você merece um brinde!
Ele o beijou rápido e o olhou. Kamenashi ainda sorria, então Jin mordeu o lábio inferior dele lentamente e o beijou de novo. A sua língua pediu passagem e não encontrou resistência. Kame o tocou no rosto, mas não interrompeu o ato, apenas massageou sua bochecha. Jin se afastou um pouco, de olhos fechados, perdido na temperatura do corpo de Kame e em seu hálito alcoolizado, proporcionando a Kame uma bela visão do seu momento de entrega.
– Você não tem que trabalhar? – ele perguntou, a voz baixa, tranqüila.
– Eu prefiro ficar com Kame-chan. – respondeu, sem abrir os olhos e sem mover o rosto.
E era verdade.
Kamenashi sorriu de canto e atendeu aquele pedido mudo. Voltou a beijá-lo e passou sua mão por debaixo dos cachos, encontrando a nuca dele e a segurou com firmeza. Ainda assim, o beijo continuava lento. Macio. Saboroso. Kame, esquecido de que estavam em um lugar público, deixou sua mão escorregar pelo torso de Akanishi e encontrou o zíper da sua calça. Estava quase adentrando, quando ele o segurou pelo pulso e interrompeu o beijo. Ainda próximo de seus lábios, ele disse:
– Acho que devo avisar que... Se tocar, serão mil dólares a mais!
O tom sensual não foi suficiente para Kamenashi. Ele estalou a língua, irritado, voltou a se sentar direito, e tomou a cerveja tentando ignorar o risinho provocador de Akanishi.
– Ora, ora... Kame-chan é bem liberal em fazer essas coisas num lugar público.
– Vai se foder.
– Você não prefere me foder?
Kamenashi o olhou de canto, ameaçador, e só engoliu o palavrão porque seu celular tocou naquele momento. Era Koki.
– Fala, Koki.
– Yo, Baby... Porque você não está em casa? Não disse pra te encontrar aqui?
Ele tinha se esquecido totalmente do amigo.
– Eu vou embora!
– Não, não! Eu estou indo agora mesmo... Espera mais dez minutos, Koki. Já estou chegando! Não ouse ir embora sem me contar como foi seu encontro com Hayami.
Ele disse isso, retirou algum dinheiro do bolso e jogou na mesa. Ignorou completamente Akanishi lhe chamando e foi em direção à porta. Precisava descobrir como foi aquele encontro, em sua mente hipóteses fervilhavam e ele lambeu os lábios, excitado. Informações valiosas estavam surgindo naquele dia. Correu até o seu carro, mas parou o movimento de abrir a porta quando notou Akanishi do outro lado fazendo o mesmo.
– O que você pensa que...
– Ué, não vamos pra casa?
– Não fale como se fosse a sua casa...
– Su casa, mi casa!
– A frase não é assim, cretino!
– Kame-chan, eu te falei que ia dormir na sua casa hoje. Já esqueceu? Preste mais atenção no que eu digo.
– Escuta, Akanishi. Eu tenho um encontro importante agora e você só vai atrapalhar. Te deixo na sua casa e amanhã você dorme lá em casa.
– Não, eu quero hoje. – ele abriu a porta e entrou no carro. – Eu quero e vou dormir na sua casa. – disse, firme, enquanto prendia o cinto de segurança.
Kamenashi respirou fundo e depois fez o mesmo.
– Akanishi, eu te peço. Por favor, eu estou te pedindo. Hoje não dá!
– Porque? Você vai me trair?
– Trair? Do que inferno você tá falando?
– Não tô falando de inferno nenhum. – ele sacudiu o ombro, parecendo magoado. – Talvez você prefira resolver a nossa dívida com Nagase.
Não houve resposta e Akanishi olhou para o lado. Viu o rosto sério de Kamenashi. Ele parecia muito bravo e essa expressão era assustadora.
– Se você prefere assim... Vou resolver isso com ele. E você vai sumir da minha vida.
Parecia determinado no que dizia e o olhar feroz que ele lhe lançou fez Akanishi recuar.
– Bem... Tomoya-chan é muito ocupado. Podemos resolver isso de outra forma. – ele fez um bico de canto, refletindo.
– De que forma? – Kamenashi o olhou com receio.
– Bem... Kame-chan quer saber o que aconteceu com Inagaki-san e Kimura-san, certo? Eu sei o que aconteceu. Posso te contar, se você me deixar dormir na sua casa... – e ele aproximou o rosto de Kame. – O que você acha?
– Como...
– Você está investigando o caso Kimura, não está?
A voz dele mudou. Kamenashi percebeu que ele falava mais alto, mais sério, mais grosso. Parecia outra pessoa. Uma mais agressiva. Não era o mimado, o triste e nem o sedutor – embora aquela firmeza que Akanishi demonstrava agora fosse bastante tentadora – era um novo personagem.
Akanishi Jin era uma figura curiosa.
– Sobre isso... Como você sabe?
–... Antes de me jogar sobre você mais cedo, eu espiei o que você estava lendo em seu celular com tanta atenção. Vi que era uma matéria sobre Inagaki falando sobre a briga com Kimura. Bem, eu conheço esta história. E posso te contar... Mas me deixe ir pra sua casa.
Kame não soube o que responder.
4
Tanaka Koki tinha a chave do apartamento de Kamenashi Kazuya, assim como o amigo tinha a chave do seu apartamento. Era uma medida que eles tomaram para eventuais emergências e era raro que um aparecesse sem avisar. Eles eram amigos íntimos e sabiam se respeitar.
Enquanto esperava por Kame, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Voltou para a sala e ligou a televisão. O caso Kimura ainda estava tomando boa parte dos noticiários. O que eles divulgavam e o que as pessoas estavam acreditando era que Kimura havia sido atraído em uma armadilha, suspeitavam de seqüestro por um fã pervertido, e terminou daquele jeito. Eles não sabiam o que a polícia sabia, e o que Kame e ele sabiam.
Kimura havia feito a reserva naquele hotel. Havia uma ligação telefônica, que a polícia rastreou do celular do cantor e, segundo especialistas, tratava-se mesmo da voz dele. Talvez ele tenha sido mesmo atraído por uma armadilha, mas certamente quem o atraiu não lhe era um desconhecido. Como estavam tentando sugerir para justificar a conotação sexual do caso pela forma em que ele foi encontrado. E justificava as drogas também.
– É... Todo mundo tem seu lado obscuro... Qual era o seu, Kimura?
Ouviu um barulho na porta e olhou para a direção dela. Viu Kame entrar e pode perceber, pelo seu rosto, que ele estava irritado.
– Yo, Baby.
– E aí, Koki?
–... Baby?
Koki estranhou aquela terceira voz e viu um rapaz muito bonito entrando depois de Kamenahsi. Suspeitou corretamente que se tratava do tal encontro que Kame vinha mantendo nos últimos dias, mas estranhou que ele estivesse ali. Kame não costumava misturar trabalho e diversão.
Assim como Koki percebeu a sua irritação, Kamenashi notou a sua curiosidade.
– Depois te explico. Akanishi Jin, Tanaka Koki. – ele os apresentou rapidamente.
– Baby? – Jin ignorou Koki e voltou a cobrar Kamenashi.
– É um apelido de infância. Não começa com manha.
– Não é manha, não sou eu que é chamado de bebê, afinal! Né, Baby, vou pegar uma cerveja também! – Jin disse ironicamente e foi para cozinha.
– Mas que foi isso? – Koki olhou para o rapaz e depois para Kamenashi.
– Uma confusão que me meti. – e ele lhe contou em rápidas palavras.
– Ehhh??? Cinco mil dólares?
– Atualmente é 4.200... Com esses encontros que estamos mantendo.
– Baby, você precisa de ajuda? Posso espancar esse sujeito.
Kamenashi pensou a respeito. Talvez Koki pudesse mesmo pegar Akanishi, mas e quanto a Nagase? Sacudiu a cabeça, essa não era a solução.
– Né, Koki?
– Diga.
– Você tem 10 mil dólares pra me emprestar?
– Ehhh?? Você quer me matar do coração? Não tenho essa grana. E... Dez mil? A dívida não era de 4.200? – ele perguntou, mas já imaginava a resposta.
Kamenashi sorriu culpado.
– Né... Ele é mesmo bom!
Koki só pode rir.
– Chega dessa conversa... Me conte sobre Hayami.
– Tudo bem falar sobre isso na frente dele?
Kame olhou na direção da cozinha e viu Akanishi encostado no batente. Suspirou, odiando cada vez mais se sentir nas mãos daquele puto.
– Nós temos um trato... – Kame respondeu, sem explicar muita coisa – Não se preocupe com isso. Conte tudo.
Uma troca de olhar. E Koki começou a contar.
5
Um lugar com pouca decoração, mas com bastante requinte, assim era conhecida aquela Casa de Chá Midori. As paredes eram de cores claras, que combinavam com a pouca iluminação, deixando o ambiente dourado. As pessoas falavam no menor tom possível e de forma lenta. A arquitetura era oriental, antiga, o que combinava com as acompanhantes vestidas de quimonos feitos com a mais pura seda e desenhadas com fios de ouro.
Era um lugar chique e freqüentado por poucos. Era a casa exclusiva para personalidades famosas, políticos, e integrantes importantes da Yakuza. Ali eles passavam um tempo agradável na companhia das mulheres mais belas e encantadoras do mundo das acompanhantes.
Koki nunca se imaginou um dia estar ali dentro, mas claro, Nishikido Ryo tinha status, poder e dinheiro suficiente para ser freqüentador assíduo de lá e Koki notou ainda mais a sua influência por terem sido recebidos pela a anfitriã do lugar.
Nishiyama Megumi.
Ela já não tinha a beleza da juventude, ainda assim, não aparentava a idade que realmente possuía – e que ninguém sabia dizer ao certo qual era – mas a sua elegância era ímpar, o que a fazia ser cobiçada por muitos homens. Ela era pequena e magra, mas a sua confiança e atitude faziam-na crescer diante os olhos de todos.
Nishikido beijou sua mão quando ela se aproximou para recebê-los. Koki a cumprimentou tímido, intimidado pela áurea daquela mulher e também influenciado pelo ambiente tranqüilo. Nishikido e ela trocaram uma rápida conversa e, após ele prometer levar as saudações da dama para seu pai, Nishikido explicou que estavam ali para ver Hayami Minami e finalmente foram levados para uma sala mais exclusiva.
Koki pensou que sua casa não dava metade daquela sala em que estavam e, assim como as demais acomodações, era um lugar com pouca decoração. O suficiente para se sentirem bem. Sem quadros, apena as paredes decoradas com desenhos suaves. A maior decoração era a janela, que deixava o cenário do jardim japonês à vista.
– Espero que Minami-chan não tenha feito nada de errado. – Megumi disse enquanto servia chá para os dois. – Vou pedir para que venha o mais rápido possível.
– Na verdade, Megumi-san... É um assunto sério. – Nishikido foi franco. – Há rumores de que ela se encontrava com Kimura. Isso é verdade?
Megumi franziu os lábios, parecendo contrariada com aquele assunto, mas logo voltou a sorri, lembrando-se da presença de seus hóspedes. Koki tomou seu chá enquanto avaliava a expressão da mulher.
– Eu disse a ela para tomar cuidado com os homens casados. Principalmente Kimura-san, que tinha uma imagem impecável. Nós realmente não devemos nos intrometer na vida de nenhum de nossos clientes, não podemos julgar se são casados, comprometidos, gays ou solteiros... Damos atenção e companhia a quem nos vem procurar. Mas... Eu sabia... Vocês ainda são jovens, mas quanto mais experiências tiverem, mais fácil começam a enxergar de onde surgem os problemas... Kimura-san era um problema e isso era nítido. – ela suspirou, desolada.
– O que quer dizer? – Koki perguntou.
– Kimura-san... – e ela sorriu com algum carinho e deslizou o dedo sobre sua xícara. Ela tomou um gole suave e só depois prosseguiu: – Era um homem muito bondoso. Era gentil e amável. E era alguém que estava procurando uma paixão. Isso, para nós, acompanhantes, é o pior dos problemas... Ninguém deveria se apaixonar por nós, nós também não devemos nos apaixonar por nenhum dos nossos clientes. Vocês podem imaginar... Esse tipo de coisa nunca dará certo... E eu a avisei. Avisei para não se envolver demais... Agora fica choramingando pelos cantos, sentida pela morte dele.
– Então ela ao amava? – Nishikido franziu a testa.
– Un... Estou certa que sim... Mas... Vocês não estão pensando que ela está envolvida na morte dele, estão? Oh, céus. Aquela menina não é capaz de matar uma mosca, quanto mais a pessoa que ela ama.
Uma menina que não devia ter atingido a maioridade ainda entrou na sala após um pedido tímido. Ela se aproximou e, sem olhar para os rapazes, inclinou-se próxima do ouvido da anfitriã e lhe disse alguma coisa. Megumi assentiu e a dispensou com um sorriso.
– Bem, vou deixá-los sob os cuidados de Minami-chan. Por favor, sejam delicados, ela ainda está bastante sensível. Tanaka-san, por favor, volte mais vezes para nos visitar. – ela fez um breve aceno e se retirou.
– Se ela soubesse o saldo da minha conta, não seria tão gentil assim, aposto. – riu e levou um cigarro à boca.
– Não diga isso, seu cretino. Megumi-chan é uma dama. – Ryo o recriminou, embora risse.
– Você acredita nisso, Ryo?
– No que?
– Você acha que Hayami era apaixonada por Kimura e o matou por algum motivo?
Ele refletiu.
– Difícil responder... Mas eu não apostaria nisso. – foi a resposta vaga dele.
Depois disso a porta novamente se abriu e uma jovem na casa dos vinte e poucos anos entrou. Ela usava um vestido longo, muito apertado na cintura, preso ao pescoço, na cor verde esmeralda. Combinava com a cor de seus olhos mestiços e com o cabelo castanho.
Hayami os cumprimentou com um belo sorriso e, só depois de servir um pouco de saque a eles foi que ela entrou no assunto.
– Megumi-san disse que vocês estavam aqui pelo o que aconteceu com... Kimura-san. – a voz dela evidentemente falhou, parecia engolir uma grande tristeza – Se eu puder ajudá-los.
Ryo se inclinou e apoiou os braços sobre seus joelhos. Ele a olhou muito sério.
– Na verdade, quem vai precisar de ajuda será você.
Ela o olhou assustada.
– Eu não o matei!
– Você...
– Eu saí algumas vezes com ele. É verdade. Fui sua amante, mas não o matei. Oh, foi tão horrível isso que aconteceu com Kimura-san... Porque? Ele era uma boa pessoa... – ela sacudiu a cabeça, consternada. – Desculpem... Ainda não posso acreditar que isso realmente está acontecendo. – ela levou a mão esquerda a boca e mordeu uma unha. – Eu sinto muito. Não vou me descontrolar mais.
– Não, não... – Koki foi gentil – É natural, não é um assunto fácil de lidar. Escute, não estamos te acusando... Mas são os rumores que estão circulando... E os tiras vão vir te interrogar e...
– Eles já vieram. E eu contei tudo o que eu sabia.
– Eles já estiveram aqui? – Ryo franziu a testa – Mas ouvi falar que os policiais encarregados do caso, Hiroshi e Kumada, estavam cuidando dos amigos de Kimura primeiro...
– Não... Na verdade... Como era mesmo seu nome? Um instante, eu ainda devo ter o cartão deles aqui na bolsa. – ela abriu a pequena bolsa preta e retirou dois cartões. Entregou-os a Nishikido.
– Shibutani Subaru... E o assistente é Okura Tadayoshi... Isso...
– O que foi, Ryo? Algum problema? – Koki estranhou a expressão dele.
– Eles são... Da divisão de entorpecentes...
Koki sabia que toda a máfia tinha informações privilegiadas sobre a polícia e conheciam de cor e salteado onde cada um trabalhava. Não era para menos que o herdeiro soubesse isso também. Porém, entendia a preocupação do moreno. O que raios a divisão de entorpecentes estaria investigando num caso, a primeira vista, passional?
6
– E foi isso, Baby. – Koki jogou seus braços no encosto do sofá, sentando-se à vontade. – Parece que tá na cara que a polícia tem novas informações. Os caras das drogas se enfiaram no meio. Mas vou descobrir sobre isso, não se preocupe.
– Eu não duvido... Só tome cuidado... Não vá longe demais por causa disso. – Kame recomendou – Estamos num bom caminho.
– O que? Você me dando esse tipo de conselho que você mesmo não seguiria?
– Uma coisa é eu arriscar a minha vida por causa das minhas ideias, outra é fazer um amigo arriscar a vida por causa das minhas ideias. – Kame lhe sorriu. – Não se esqueça disso.
Koki bateu em sua coxa e lhe sorriu. E, então, um pigarro de Jin os lembrou de sua presença.
– Vocês já transaram?
A pergunta direta fez Koki engasgar e Kamenashi o olhou sem compreender aquela linha de raciocínio e muito menos a expressão enciumada no rosto de Akanishi.
– Porque vocês são tão íntimos?
– Já ouviu falar em amizade? – Koki indagou – Eu não jogo nesse time, ok? Que cara maluco você foi arranjar, Baby!
– Eu não arranjei... Ele se arranjou pra mim... – Kame suspirou. – E você... – ele apontou o dedo pra Jin – Pare de confundir a realidade, pare de fingir que pode ter essas cenas de ciúmes e vai logo contando sobre Inagaki e Kimura.
– Eh? Ele sabe sobre Kimura? – Koki ficou surpreso.
– Sabe sobre a briga de Inagaki e Kimura... Vamos, Akanishi. Conte.
– Na frente dele? – Jin fez um bico.
– Ora, ele te contou na sua frente! Pare de enrolar!
Jin coçou o nariz com o indicador e olhou para o lado, mas não disse nada. Parecia nervoso com alguma coisa.
– Akanishi...
– Inagaki e Kimura... – ele começou.
Kamenashi se endireitou no sofá para escutar a história e lambeu o lábio inferior, ansioso.
– Sobre eles... Eu não sei nada.
– Como é? – Kame não acreditou no que escutou.
– Não sei nada. Eu menti.
– Você... Mentiu??
Koki pode ver pelo rosto de Kamenashi que o jornalista estava a ponto de trucidar o outro rapaz. Ele não entendia muito bem o que estava acontecendo entre os dois, mas a sua filosofia era de que ninguém deveria se intrometer em assuntos de casais. Além disso, se houver algo para ele saber, era certo que Kame lhe contaria depois. Ele pensou que o mais certo, e o mais seguro, era dar o fora dali o quanto antes.
– Baby... Calma, ok? – ele bateu no ombro do amigo – Vou deixar vocês a sós... Bem, pode estar fazendo isso de pirraça, ele não me parece muito maduro... Vou indo. Qualquer coisa me liga... E não vá perder a cabeça, ok?
Koki se levantou e foi até a porta, mas pensou bem, voltou e sussurrou para Kame.
– Não perca nenhuma das duas cabeças, certo?
E foi ágil para se esquivar do punho que veio em sua direção. Koki saltou para trás, rindo, e foi embora. Quando a porta se fechou, Kamenashi se pôs de pé.
– Que merda foi essa? Porque você está mentindo agora? É por causa do Koki? Pronto, ele já foi embora!
– Eu não estou mentindo agora. Eu estava mentindo antes. Eu não sei de nada. – Ele encostou a cabeça no batente da porta – Não sei nada sobre Kimura e muito menos sobre Inagaki, mas pensei que se dissesse isso, você me traria para sua casa... E você trouxe, não trouxe? – ele sorriu. – Eu estou na sua casa e vou dormir com você.
Talvez fosse o tom autoritário, talvez o olhar arrogante, Kame não saberia dizer exatamente o que fez sua raiva explodir. Ele apenas segurou Akanishi pela gola e o prensou contra a parede. Aproximou-se e, rangendo os dentes, disse:
– Você pode fazer o que quiser com a minha vida privada... Pode me denunciar pro seu cafetão, pode pensar que a casa é sua, pode fazer a fantasia que quiser, eu tô pouco me fodendo... Agora... Se você atrapalhar a minha matéria... Eu acabo com você! Você entendeu?
Akanishi não respondeu, apenas o encarou.
– Você entendeu? – ele repetiu.
Akanishi sacudiu a cabeça e isso pareceu amenizar um pouco a raiva de Kamenashi, que afrouxou seus dedos da gola dele, mas, antes que o soltasse por completo, Akanishi o beijou.
Um beijo bruto, sem chances de Kame reagir, um beijo que roubava todo o seu fôlego e o impedia de pensar. A mão de Akanishi desceu pelo seu peito e adentrou sua camisa. Os toques precisos o levaram facilmente ao delírio, acabando sem piedade com qualquer vestígio de sobriedade em Kamenashi.
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