Capítulo cinco

1

– E assim... Agora eu estou devendo 10 mil... – ele suspirou e tomou um longo gole da garrafa.

– Baby, eu falei pra você não perder a cabeça...

Koki sacudia a cabeça, em sinal de reprovação, quando Kamenashi lhe contou que havia transado, de novo, com Akanishi. Estavam tomando cerveja no apartamento do mais velho enquanto assistiam a uma reprise de basebol. Era sábado e ambos estavam de folga. Akanishi tinha ido embora após o sexo enquanto Kamenashi dormia. De novo.

– Esse cara é muito estranho. Chega assim do nada em sua vida e some quando quer. Você já procurou saber quem ele é de verdade?

Não era como se Kamenashi não tivesse feito essa pergunta a si mesmo antes. Ele fazia constantemente, principalmente por causa das diversas personalidades de Akanishi que ele já testemunhou. Acontecia só que... Ele simplesmente não era capaz de resistir. Ele já pensou em investigar o seu passado, mas temia que isso o fizesse ir embora. E que ele nunca mais pudesse ter aqueles brindes de novo. Suspirou, derrotado, ele realmente não conseguia pensar direito quando o assunto era sexo.

– Vou deixar isso pra depois do caso Kimura. Só posso me concentrar nessa investigação por enquanto... E, por falar nisso, o que você tem realmente pra me contar sobre o caso Hayami?

Koki sorriu, adorava a cumplicidade que mantinha com Kame. Somente ele conseguia entender seus sinais mais discretos, só ele o conhecia bem para isso. Um olhar bastou para o jornalista entender que ele não seria idiota a ponto de contar tudo na frente de Akanishi.

– Eu não contei nenhuma mentira. É isso mesmo, os tiras da divisão de drogas entraram no caso... Pode não ter sido um crime passional depois de tudo. Pode ser que Kimura estivesse devendo alguma grana para os traficantes.

– Isso é bem estranho... Pelo que investiguei de Kimura e o que se sabe sobre ele, fica difícil de acreditar que ele tenha envolvimento com drogas... Mas também se acreditava que ele era praticamente um santo e que ninguém iria querer o seu mal e... Agora ele tá morto... E o que mais, Koki, o que mais?

– Ah... Lembrando disso agora... Minha fonte é muito cruel, sabe? – ele cruzou os braços, inclinou o rosto, enquanto se recordava – Ele apertou Hayami de jeito! De alguma maneira, ele soube que ela tem um filho pequeno e disse a ela que ele ficaria muito bem como seu irmãozinho se ela não abrisse o jogo.

– E ela estava escondendo alguma coisa?

– Sim, ela não era amante do Kimura afinal. Parece que ela só emprestava o nome, que também é falso. O nome dela é Kobayashi Atsuko... E esse nome, Hayami Minami, foi arranjado pela pessoa quem pediu que ela se encontrasse com Kimura.

– Espera, espera, espera... Não tô entendendo! Ela era um laranja?

– Bem, pode-se dizer assim... Ela marcava os encontros com Kimura, aparecia no local e o levava até o quarto, mas nunca entrou. Sabia que a verdadeira amante já estava lá e depois ela esperava em outro quarto e ia embora com Kimura no final.

Kame terminou sua cerveja e se inclinou para frente, apoiando-se nos joelhos. Pensava naquela informação.

– Tudo isso seria pra preservar a imagem dele na mídia?

– Eu pensei isso primeiro... – Koki admitiu – Mas se fosse o caso, não era Kimura quem deveria ficar esperando no quarto? Em todos os encontros, Hayami disse que nunca viu a cara da moça... O que te faz pensar que, ao invés dele, é a moça que precisava ser mantida em segredo... Estranho, não é? Será que é uma pessoa tão famosa quanto ele? Se for, justifica. Kimura era um cavalheiro, jamais iria expor a sua amante.

Kame concordou.

– Mas quem será essa pessoa? – refletiu, seus dedos batucando em sua perna.

Isso, Koki não soube lhe responder.

2

Shibutani Subaru era uma pessoa cuja presença intimidava mais por conta do seu histórico de dez anos na polícia e com 100% dos casos resolvidos do que pela sua aparência física. Na verdade, a sua baixa estatura não era capaz de ameaçar a ninguém, embora sua expressão fria e seu olhar astuto deixassem qualquer um em alerta. Ele não falava muito, quem fazia esse papel era seu parceiro, Okura Tadayoshi, que sempre era o encarregado de fazer as perguntas e Subaru ficava longe, mas próximo o suficiente para escutar as respostas, e normalmente brincando com a sua moeda de ouro. Como naquele instante.

– Por favor, prendam esse maldito o quanto antes... Kimura era o meu melhor amigo... Ele fazia letras incríveis... É uma perda lastimável para música, mas era o meu melhor amigo... Ele cuidava de mim... Quem vai cuidar de mim agora?

Katori Shingo era um rapaz alto e robusto e estava em um estado deplorável. Vestia moletom há alguns dias, seus cabelos estavam bagunçados e fedia a álcool. Bastante abatido com a morte do amigo, havia se entregado às bebidas. Segundo algumas vizinhas, era Kimura quem o colocava na linha. Algumas vezes Nakai-san, um editor de jornal, também vinha cuidar do rapaz, mas era nítido que quem convencia melhor Katori era Kimura. Eram como se fossem pai e filho, não tanto pela postura madura de Kimura, mas sim pela postura imatura de Katori. Kimura lhe falava suavemente e Katori prontamente lhe obedecia. Eles se entendiam perfeitamente e isso era refletido nas letras que compunham juntos.

– Me diga... Vocês vão prender o monstro, não vão? – e ele se agarrou à gola do jovem sentado ao seu lado.

Okura assentiu, um elegante movimento lento e suave da cabeça. Era um jovem criado nos padrões mais alto da sociedade e muitos se perguntavam o motivo dele ter escolhido uma profissão com salário tão baixo e pouco prestígio. A resposta estava em seu avô materno e seu trabalho árduo no tempo em que a polícia tinha mais prestígio.

– Estamos nos esforçando para isso, Katori-san... Agora, por favor, nos diga novamente sobre o dia em que Kimura-san foi assassinado.

– Oh, me fazem lembrar isso de novo? Que dia terrível! Muito triste, muito triste... Porque ficam me fazendo lembrar da morte do Taku-chan?

– Eu peço mil desculpas, mas é necessário para prendermos o assassino.

– Ah... Aquele dia... Aquele dia... Se eu soubesse, eu nunca o teria deixado sair do meu apartamento. Nunca. Eu juro que o teria amarrado numa cadeira se fosse preciso... Mas não o teria deixado partir...

Okura se sensibilizou com o rosto sofrido de Katori. Um dos seus defeitos era se emocionar com as vítimas e ele se forçou a controlar o choro.

– Ele veio até aqui porque vocês terminariam uma música, não é?

Katori fungou e sacudiu a cabeça.

– É a música mais bonita que ele já escreveu... Acho que era pra sua esposa... Falava de amor... Vai ser um belo trabalho. Sabe, vou terminá-la... Vou terminar os detalhes, não vou mexer muita coisa, acho que tem que ser gravada do jeito que ele deixou. Vai ser um sucesso, vai sim...

– E vocês ficaram muito tempo juntos?

– Passamos o dia todo praticamente. – e ele esboçou um sorriso enquanto se recordava com carinho daqueles momentos – Eu tive sorte mesmo de ter tido a companhia de Taku-chan por tanto tempo naquele dia horrível... Ficamos o dia todo metidos naquela letra, ele queria terminá-la o quanto antes... Antes do começo de julho... Eu não sei pra que a pressa, talvez uma data especial da esposa, do casal, da filha, não sei... Mas Taku-chan estava feliz e empolgado com aquela canção como há tempos eu não o via... Nem nos lembramos de almoçar... Só fomos comer quando a fome já era insuportável e aí ele viu o relógio... Dezenove horas e se assustou. Disse que tinha um encontro...

– Amoroso? – Subaru indagou, sua voz baixa, mas perfeitamente audível.

– Iie... Ao menos, não me pareceu... Ele parecia chateado e cansado quando mencionou esse encontro. Não perguntei também... Estava casando e com fome e precisava dormir. Não dei a atenção devida a Taku-chan e agora ele está morto... Se ao menos eu...

– O local do encontro foi o local de sua morte. – Shibutani sentenciou – Ele foi se encontrar com o seu assassino.

– Precisamos de qualquer recordação sobre esse encontro, Katori-san. É muito importante. – Okura explicou, disfarçando uma lágrima solidária à tristeza do compositor, mas sua voz soou bastante emocionada.

– Yadaaaaa... Eu não consigo me lembrar de nada! – ele levou as mãos na cabeça – Não consigo, não consigo!

– Está tudo bem, se acalme por favor. – Okura pediu – Caso lembre-se de algo, por favor, entre em contato conosco.

– Sim, sim, farei isso... Eu farei.

Okura se despediu polidamente, Shibutani fez um breve aceno com a cabeça, e os dois se retiraram. Na rua, enquanto Okura vestia sua jaqueta, o mais velho comentou:

– Está mesmo desnorteado.

– Parece que ele era mesmo dependente de Kimura.

– Bem... Agora vai ter que se virar sozinho ou morrer junto com ele.

– Cruel!! Como pode dizer essas coisas?

– Essa é a realidade. – ele definiu de forma simples – Quem vai ser o próximo?

– Tsuyoshi-san. Advogado. Mal via Kimura nos últimos anos. Não vamos conseguir descobrir mais do que a primeira investigação... A única coisa que ele disse foi que Kimura comentou algo sobre se sentir enganado. Tsuyoshi não sabia se ele estava se referindo à mulher ou algum negócio...

Shibutani assentiu.

– Vamos conversar com ele.

3

Havia algo incomodando o sono de Yamashita Tomohisa e ele não sabia dizer o que era. Estava cansado, mas não conseguia dormir e ele precisava. Precisava recuperar as energias gastas com Tegoshi Yuya e, posteriormente, com Masuda Takahisa. A ideia de como eles reagiriam se soubessem que ele saía com os dois fez surgir um sorriso. Seria engraçado. Masuda provavelmente sacudiria os ombros e sugeriria algum restaurante com guiozás deliciosos para os três jantarem juntos, enquanto Tegoshi certamente faria um escândalo.

Yamapi gostava de Tegomass. Eles tinham canções que tinham um ar inocente, infantil, mas eram boas músicas para se ouvir e ficar tranqüilo. E ele gostava dos dois rapazes, eram divertidos. Menos quando Tegoshi insistia com aquele assunto de tê-lo como amante. Mas sempre passava bons momentos com eles... E ficava exausto. Por isso, ele precisava descansar. Ainda mais que no dia seguinte atenderia um cliente especial. Um produtor famoso e que tinha uma personalidade difícil, precisava estar em seu melhor desempenho.

Ele estava bem acordado quando a porta do apartamento se abriu e seu ouvido sensível registrou um soluço. Pulou da cama e correu para a sala, encontrando Jin de costas, sentado no chão, tirando os sapatos. Teve a confirmação de que ele chorava quando viu seus ombros sacudirem. Yamapi andou devagar até ele e se sentou ao seu lado. Puxou-o para seu ombro e afagou seus cabelos cacheados.

– Às vezes... Seria melhor se ele estivesse morto... Eu me sentiria livre – Akanishi disse de repente – Eu realmente acho que seria muito mais fácil se Kimura morresse!

Yamapi não lhe respondeu, apenas o abraçou mais forte tentando fazer aquele choro cessar.

Sempre que Yamapi se recordava desse dia, ele tinha a certeza de que não tinha dormido porque havia pressentido a tristeza de Jin. Dessa vez, ele estava pensando nesse dia por causa daquela caixa que havia encontrado no lixo. Mesmo morto, Kimura ainda trazia problemas a Jin. Sentiu-se triste em se lembrar disso agora. Pegou seu isqueiro e brincou com ele. Gostava do barulho da tampa abrindo e fechando.

– Yamapi!

Ele saiu de seus pensamentos quando escutou a voz de seu melhor amigo. Virou-se na direção da porta da cafeteria e o viu entrando apressado.

– Atrasado, Keii. – ele protestou com uma careta.

– Gomen ne... Eu estava trabalhando... Minha irmã demorou em vir tomar conta da quitanda. – ele respondeu com o olhar ainda preocupado.

– Relaxa, eu já me acostumei!

– Eh? Não me atraso tanto assim!

– Só em 90% dos nossos encontros. Sabe, minha hora é cara... Se eu cobrasse de você, estaria ferrado. Sua quitanda já é minha pra quitar essa divida.

– Só com o que você come de bananas sem pagar já quitaria essa divida... – ele disse, num tom infantil, devolvendo a brincadeira. – O que vai pedir?

– Quero a torta de morango. É uma delícia.

– Muito doce... Sempre né?

– Você é quem é muito amargo!

Yamapi apenas riu e depois fez um sinal para atendente, que rapidamente anotou os pedidos. Eles conversaram assuntos triviais enquanto esperavam e só entraram no assunto que ele estava esperando depois que Keii devorou o seu doce.

– É esse o cara. – Keii jogou um envelope em cima da mesa e esperou Yamapi analisar a foto que havia ali dentro – Kamenashi Kazuya. Jornalista. Está investigando a morte de Kimura.

Yamapi olhou atentamente para Keii.

– É esse o cara com quem Akanishi tem sido visto nas últimas noites... É com ele que está morando. Será coincidência?

– Não. Não é coincidência. ­– Pi logo rejeitou a ideia.

Koyama entendeu a expressão preocupada do amigo.

– Então... Não pode ser que... Akanishi tenha brigado com você de propósito? Pra sair do seu apartamento e evitar que você soubesse disso?

– Ele está fugindo Keii.

A afirmação de Pi surpreendeu a Koyama, que mordeu o lábio. Pensou no que o amigo queria realmente dizer ao usar aquele verbo. Diante do que eles sabiam e depois de tudo o que Yamapi havia lhe contado sobre Akanishi Jin, ele não podia chegar a outra conclusão.

– Pi... Isso quer dizer que quem matou o Kimura foi o Akanishi? Foi por isso que você me pediu para guardar aquela caixa em minha casa? Aquelas coisas são... Do Kimura?

Yamapi fitou diretamente os olhos pequenos e redondos de seu amigo.

4

Akanishi Jin tinha alguns hábitos quando se encontrava com os clientes. A primeira coisa a se fazer depois do sexo é tomar banho. Sempre. Algumas vezes ele nem chegava a dormir, o cliente ainda estava sentindo o corpo estremecer e ele já estava em direção ao chuveiro.

Daquela vez foi diferente. Foi um dos sexos mais intensos que ele praticou e o mais surpreendente era que não saíram tanto do habitual. Uma ou outra posição mais descontraída, mas Kamenashi era gentil. Não lhe pediu nada estranho. Claro, ele ainda não sabia que estava com um garoto de programa.

A técnica de impedir o raciocínio de um cliente era a que Jin mais gostava. Era bonito e tinha um ar sensual que lhe era natural e ele aprendeu a usar isso a seu favor. Além do mais, o fotógrafo havia lhe dado dicas valiosas como dizer que Kamenashi estava atraído por uma sua imagem. Era uma presa fácil, portanto. Assim, não teve dificuldades em levá-lo para cama. Foi o dinheiro mais fácil que ele já havia conquistado. Talvez nem tanto assim, ele olhou com reprovação para o dinheiro que recebeu daquele sexo.

– Droga, eu tenho que escolher clientes mais ricos. Kamenashi vai me dar prejuízo. – fez um bico.

De todas as formas, não era isso o que mais lhe preocupava. Jin estranhava o fato de não sentir aquele desespero em se livrar dos resquícios dos amantes com um belo banho. Ao contrário, desta vez, após o sexo, sentiu-se tão sonolento, tão tranqüilo, que relaxou e dormiu. Quando despertou, ele se deparou com uma bela imagem que o fez ficar na cama admirando o rosto de Kame até que ele despertasse. Kamenashi era mesmo um rapaz bonito.

Sorriu e depois rolou pela cama, afundando o rosto no travesseiro em que Kamenashi havia dormido.

– Nee~... Parece o mesmo perfume. – o sorriso se alargou.

Fechou os olhos, mas não dormiu, apenas queria ter a sensação de que estava na companhia daquela pessoa. Seu desejo era tão forte, tão intenso, que podia jurar que estava escutando as batidas de seu coração, como quando dormia encostado ao seu peito nu, e sentia o seu calor.

Agora Jin entendia o segundo motivo pelo qual ficou ansioso em conhecer Kamenashi Kazuya. O primeiro era óbvio, ele precisava conhecer Kamenashi, fazia parte dos seus planos, mas o segundo... Era porque ele lhe lembrava aquela pessoa... Será que tinham os gostos parecidos? Esse pensamento o fez olhar a sua volta. Era um quarto pequeno. Havia espaço apenas para a cama, um armário e uma mesa de escritório em que estava um desktop, livros, revistas e jornais devidamente organizados.

Ele se levantou e abriu o armário. As roupas que predominavam eram camisas de flanelas xadrez. As preferidas dele. Jin puxou a manga de uma camisa e a esfregou no rosto. Adorava aquela sensação macia e o perfume era realmente o mesmo, não podia estar enganado.

Deixou o armário de lado e foi até os livros. Kamenashi tinha muitos romances policiais. Havia um da Agatha Christie que estava com o marcador em uma página avançada do livro.

– O Assassinato no Expresso do Oriente... Hum... Acho que já ouvi isso. – ele não estava certo se era esse o título, mas se lembrava vagamente de um filme.

Era viciado em filmes. Podia se dizer cinéfilo e poderia ser um bom crítico, embora poucos dariam créditos à opinião de um puto viciado em cinema. Ele gostava de verdade e um dia havia sonhado em ser ator e às vezes se consolava pensando que o que fazia era, sob certo ângulo, uma atuação. O único momento em que ele não atuava era com aquela pessoa.

Aquela pessoa também gostava muito de ler, era uma pessoa muito culta, diferente dele. Mas por alguma estranha razão, em sua companhia, Jin gostava de aprender mais coisas e lhe perguntava tudo. E o mais velho lhe respondia de forma gentil e com muita paciência.

Quando Jin percebeu o que fazia, não teve como não se decepcionar consigo mesmo. Tinha que esquecer tudo isso, não podia carregar seu fantasma desse jeito. Decidiu não pensar mais nele e aproveitou que havia visto algumas toalhas limpas no armário de Kamenashi e foi tomar banho.

Após o banho, ele vasculhou novamente pelo quarto, queria conhecer melhor Kamenahsi. Foi quando ele se deparou com aquele jornal e com a foto de Kimura. Na mesa do computador ainda havia um porta-retrato com uma imagem de Kamenashi. Não pode deixar de comparar os dois.

– O que você...

Ele se assustou com a entrada repentina de Kamenashi.

– Mou~... Não me assuste desse jeito! – coçou o nariz com o indicador e depois recolocou o retrato na cabeceira da cama. – Nee~... Vocês são parecidos.

– Hã? Sou parecido com quem?

– Kimura. – ele jogou o jornal no peito do jornalista.

– Não é o primeiro a me dizer isso. Não sei se somos parecidos, sei que não tenho a grana dele.

– Mas tem um pouco da sua beleza, poderia ter usado isso pra ganhar dinheiro!

– O que? Vendendo meu corpo também? – ele riu com deboche.

– Não fale com tanto menosprezo da minha profissão! – ele reclamou.

– Vai dizer que você se orgulha? – arqueou a sobrancelha de forma desafiadora.

– Essa não é a questão! Nee~... O que você fez pra gente comer? Tá um cheiro delicioso! – ele se apressou em deixar o quarto.

5

Chegou em sua casa pensativo. Achou melhor que Yamapi não estivesse ali, pois certamente perceberia o seu estado. Não tinha como se enganar mais. Aquela semelhança havia causado algum impacto. Um forte impacto.

Porque o jornalista que investigava o caso Kimura era parecido com ele?

No quarto, seus olhos caíram no relógio que Pi lhe deu de aniversário. Akanishi sorriu para o presente, sempre se sentia melhor quando percebia o carinho de Yamapi. Não tinha perdido o seu sorriso, afinal. Apenas não teve motivos para sorrir nos últimos dias. Foram dias difíceis, mas Pi permaneceu ao seu lado. Ele sempre estava ao seu lado quando precisava, então tinha que se esforçar por ele também.

Akanishi voltou para o chuveiro e seu corpo, que já estava gelado pelo tempo frio que fazia na rua, agradeceu pela água quente escorrer sobre ele de novo. Ele já tinha se ensaboado, mas fez questão de se esfregar de novo. Sempre se limpava com muito cuidado, mais que o necessário. Ainda se lembrava bem do conselho que ele lhe deu:

– A sua casa é o seu lugar sagrado. Suas impurezas devem ficar da porta pra fora.

Essas palavras, acompanhadas de um olhar de desprezo, o tocaram e ele nunca mais foi capaz de chegar em sua casa e fazer outra coisa que não fosse tomar um banho, mesmo se ele tivesse se banhado em um banheiro público ou na casa de outra pessoa, ainda assim, ele chegava e ia direto para o chuveiro e as roupas que vestia iam direto para a máquina de lavar.

Aquele conselho foi rigoroso, mas Jin sabia que era porque aquela pessoa o amava. O amava, mas não era capaz de aceitar a sua profissão e sempre cobrava que Jin estivesse completamente limpo para ficarem juntos. Jin não podia culpá-lo, ninguém aceitava o seu trabalho. Era até bastante razoável a sua exigência.

Eles tiveram um bom relacionamento. Eles foram felizes. E Jin amou muito aquela pessoa. Um amor impossível, daqueles de romance, que tinha tudo para dar errado. E, diferente da ficção, a história deles deu errado. Porque a sua paixão começou a ficar fora de controle e o ciúme era motivo de diversas discussões. A relação começou a se desgastar para os dois lados nos últimos meses.

Sacudiu a cabeça, tentando afastar essas lembranças. Não tinha mais porque ficar pensando no que havia dado certo e no que tinha errado. Simplesmente porque a relação já não existia mais. Tudo estava terminado.

Para sempre.

E isso era muito triste, porque um dia Jin quis ficar para sempre com ela. Sempre. Agora, isso era impossível. Na verdade, Jin nunca mais se encontraria com a pessoa que mais tinha amado na vida.

Porque agora Kimura Takuya estava morto.

Morto.

E o sentimento de solidão ainda era muito forte. Nunca pensou que seria assim, tinha razão em temer a separação. Às vezes pensava que não seria forte o suficiente para suportar essa dor.

Ele não tinha mais como voltar atrás. Estava tão arrependido, se ao menos pudesse voltar no tempo... Isso era o que mais doía. Ele poderia ter feito tantas coisas, dito tantas outras. Teve a chance. Tudo podia ter sido diferente.

Deixou escapar um soluço.

O choro de Jin estava misturado com as gotas que caíam do chuveiro. Ele nem mais percebia quando começava a chorar, e ele chorava apenas ali, no chuveiro. Havia se tornado o seu refúgio. Assim, Yamapi não seria testemunha do seu sofrimento e não se preocuparia à toa. E assim, impondo um tempo, ele limitava a sua tristeza, ele a treinaria, a domesticaria e então ela iria embora. Um dia, não haveria mais espaço para ela.

Um dia apagaria por completo a existência daquele homem de suas memórias.

6

Foi um dia bastante divertido, jogando jogos a tarde toda, comendo lámen e fazendo um sexo delicioso com Kamenashi. Mas ter visto aquelas fotos acabou com o seu dia.

A gaveta foi aberta bruscamente e Jin se desesperou. Após ver as fotografias daquele isqueiro voltou imediatamente para casa e começou a revirar o local. Não estava ali e ele podia jurar que tinha guardado naquela gaveta. Revirou todos os objetos que estavam lá. Nenhum sinal do que procurava. E, pra piorar, Yamapi não estava em casa. Se ele estivesse ali, sendo organizado como era, poderia lhe ajudar.

Não, não poderia. Jin não poderia contar sobre isso para Yamapi. Nunca.

Foi para o quarto, talvez estivesse nas coisas de Pi. Eles viviam dividindo roupas, objetos, tudo. Podia estar nas coisas dele. Abriu o armário, buscou nas gavetas dali, depois nos bolsos. Nada. Não estava naquela casa.

Definitivamente, o seu isqueiro não estava mais em casa. O seu isqueiro foi encontrado na cena do crime, como provava aquela foto que viu na casa de Kamenashi na noite anterior. Não havia mais dúvidas, tinha comprovado com aquelas imagens, agora tinha que encobrir tudo.

Isso era um grande problema.

Voltou para a sala para procurar de novo.

7

Abriu a porta e a primeira coisa que Yamapi viu foi uma sala bagunçada e um Jin revirando gavetas. Estranhou aquilo.

– Perdeu alguma coisa?

E a reação dele foi ainda mais intrigante, parecia que estava tão absorto no que procurava, que não tinha se dado conta de sua presença. Jin se mostrou assustado, mas depois se recompôs e sorriu para ele.

– Ah... Okaeri, Pi!

Yamapi notou que ele estava nervoso. Jin não conseguia disfarçar seus sentimentos, não para ele. Podia notar pelo modo como ele esquivou seu olhar, por uma breve respiração mais agitada e por ele ter colocado o cabelo atrás da orelha. Ele não gostava de usar o cabelo assim, apenas o fazia quando estava agitado.

– O que você perdeu? – ele repetiu a pergunta, mas de forma tranqüila, querendo acalmá-lo. Deixou de olhar para ele e deu as costas, sentando no degrau e tirando os tênis.

– Anooo... Não consigo achar aquele isqueiro...

– Que isqueiro?

– Aquele que estava no fim... Aquele que eu ganhei de presente... Que você também usava de vez em quando, sabe? Prata e com o desenho de um dragão?

– Ahh... Aquela coisa idiota?

– Não fale assim, foi um presente caro!

– Desculpe por te dar coisas baratas.

Jin lambeu um dente e suspirou. Depois se aproximou do amigo e se sentou ao lado dele. Entrelaçou seu braço no de Pi e apoiou sua cabeça em seu ombro. Pi usava roupas confortáveis e Jin sempre se sentia bem em ficar assim com ele.

– Ainda vai levar um tempo, Pi. Gomen ne? Eu sou mesmo um idiota por agir assim. Mas eu já disse que seus presentes são os melhores. E aquele isqueiro não é importante pelo preço...

– Eu também peço desculpas... Não quis dizer isso. É só que... – ele queria dizer que sofria em ver Jin sofrendo daquele jeito, mas não foi capaz. – É só que eu estou meio cansado esses dias... Sobre o isqueiro, ele não estava no fim? Não foi por isso que você parou de usá-lo?

– Dá pra enchê-lo outra vez... Mas... É meio imbecil, mas achei que não deveria fazer isso... Quando o isqueiro terminasse, seria realmente o fim... E eu não queria que ele acabasse... Parei de usar... Mas isso não impediu o que aconteceu. E o fim realmente chegou.

8

O verão estava no fim e o tempo esfriando. Jin colocou uma touca preta, que lhe cobria toda a testa e a sobrancelha. Em uma loja de livros, ele viu sua imagem refletida na vitrine. Pi não gostava daquela touca, dizia que lhe deixar com um ar triste. Jin a achava legal, apesar disso.

Vestia uma camisa de gola branca e com um colete por cima e seu jeans preferido, velho e confortável. Ele gostava de uma roupa mais simples e que lhe fizesse sentir bem para passear sem compromisso. Sempre gostou de andar a ermo e estava fazendo isso com mais freqüência nos últimos dias. E fazia diferente do habitual, estava sempre com um rosto entristecido. E a razão definitivamente não era a touca.

Diante de uma banca ele parou para olhar as manchetes. Todas continuavam comentando a misteriosa morte do cantor Kimura. Jin não conseguia desgrudar os olhos da informação em comum em todos os jornais: não havia pistas ou suspeito. Respirou fundo e voltou a caminhar.

Sem se dar conta, chegou novamente àquela praça e admirou a água sendo jorrada da estátua de um anjo no centro da fonte. O anjo era feito de prata e sua aparência era de um homem com longos cabelos até a sua cintura. Algumas mechas escorriam pelo torso malhado e nu. De novo, ele se sentou no degrau.

Os olhos do anjo estavam fechados. E isso incomodava a Jin. Era como se significasse que ele não estava sob sua proteção. Que Deus havia fechado as portas para ele. Não merecia a benção depois do que fez. Só merecia o inferno. A sombra. A solidão.

Sabia que era um pensamento absurdo. Era uma obra bonita e ela não estava ali para julgar ninguém. Jin havia tomado como uma obrigação ficar diante dela, torturando-se com pensamentos carregados de culpa. Era como se fosse um confessionário. Jin não tinha mais coragem de entrar em uma igreja e encontrou seu consolo ali. Consolo, não conforto.

Foi ali, sentado naquela escada, que seu destino se cruzou com o de Kamenashi. Era irônico, ele estava mesmo pensando em procurar por aquele jornalista. Ouviu rumores sobre uma investigação paralela da morte de Kimura e, então, sentiu a necessidade de acompanhar de perto até onde aquele xereta conseguiria chegar. Não pensou que a sorte estaria ao seu lado. Por intermédio da foto de Shigue, encontrou um bom motivo para entrar na vida do jornalista.

E agora ele sabia por onde a polícia estava se guiando. Eles haviam chegado até Hayami, mas ele também não entendia porque a divisão de entorpecentes estava assumindo o caso agora. Precisava ficar atento e precisava se aproximar mais de Kamenashi.

– Preciso de um jeito de acalmar aquele cara... Ele deve estar muito irritado agora! Não posso deixar ele me afastar agora que está avançando nas investigações. Eu preciso saber tudo o que ele vai descobrir... – mordeu o polegar, enquanto refletia.

9

Kusanagi aceitou encontrar os policiais em casa no período da manhã, enquanto seus filhos estavam na escola. Não queria que eles tivessem esse tipo de experiência tão séria enquanto ainda estavam no fundamental. Kusanagi era um pai amoroso e dedicado que não deixava nem mesmo seu trabalho interferir na educação deles. O mesmo se podia dizer dele como marido. Era um homem que merecia o respeito e o prestígio que conseguiu tendo suas prioridades muito bem definidas e se esforçou para mantê-las.

A senhora Kusanagi os levou até o escritório do marido com bastante educação. Serviu chá verde a todos e deixou alguns biscoitos estrangeiros que um cliente havia presenteado o marido depois que voltou de viagem. Se Kusanagi era um excelente homem, a sua mulher era exemplo de uma bela dona de casa. Delicada, atenciosa, discreta. Certamente era o pilar de sustento de Kusanagi. Ela ficou o tempo suficiente para não ser considerada relapsa com as visitas e também não ser julgada como curiosa, ficando tempo demais e impedindo a conversa de começar.

Okura estava sentado no sofá de três lugares e Kusanagi estava a sua direita, em uma poltrona. Mantinha uma expressão tranqüila, sua voz também era calma, apesar de abatida quando mencionou o quanto Kimura fazia falta. Alheio à eles, Subaru brincava com sua moeda próximo à janela, observando o jardim cheio de flores, muito bem cuidado pela senhora Kusanagi.

– Ele era um amigo inestimável... Se a gente tivesse o poder de adivinhar o futuro... Talvez eu tivesse passado mais tempo com ele. Sei que agora vou sentir a sua falta. – disse, enquanto olhava para o chão.

– Kimura-san poderia ter algum inimigo? – Okura fez a pergunta tendo julgado que aquele era o momento ideal para entrarem no assunto.

Tsuyoshi sacudiu a cabeça. Para ele, era impossível imaginar que Kimura pudesse ter algum inimigo e foi o que ele respondeu. Kimura era um homem raro, que deveria ter sido amado por todos, e ele não conseguia compreender o motivo daquele crime.

– Deve ser como está nos jornais... Algum fã alucinado... Só pode ser isso...

– Tem certeza de que não se lembra de nenhum fato, alguma briga? Pode ser algo sem muita relevância. Precisamos saber de tudo.

– Briga? – ele refletiu naquilo – A única briga que eu soube envolvendo Kimura foi com outro amigo nosso, Goro-chan... Mas Goro-chan não seria capaz de machucar Kimura.

– Porque tem tanta certeza disso? – a voz fria de Shibutani interrompeu o diálogo.

Tsuyoshi o olhou desconcertado. Respondeu de forma vaga, hesitante.

– Goro-chan não é capaz de fazer mal... Ele não é... Ainda mais a Takuya.

– Sim, mas eles brigaram. Qual é o motivo da briga? – Shibutani foi firme.

– Isso eu não sei. Talvez Masahiro saiba, todos sempre confiaram muito nele para contar coisas como essas. Mas nunca chegou até mim o motivo dessa briga...

– E quando foi isso? – Okura voltou a tomar conta das perguntas.

– Hum... Não sei dizer o ano... Mas lembro que foi perto da época em que Takuya noivou... Sim, foi isso. Porque Takuya não gostava de brigadas e ele expressou seu desejo do Goro-chan ser seu padrinho em público porque queria que fizessem as pazes. Sim, foi nessa época.

– Inagaki-san ficou abalado com a morte de Kimura?

O rosto calmo de Kusanagi se alterou. Ganhou uma coloração avermelhada e não escondeu a sua revolta com aquela pergunta.

– O que estão pensando? Como podem perguntar esse tipo de coisa? Amigos há tanto tempo, é claro que estamos todos abalados com esse assunto e eu já disse que Goro-chan não machucaria ninguém e muito menos Takuya! Ora essa, que ideia! Se continuarem insistindo nesse assunto, posso orienar Goro-chan a entrar com um processo por difamação. Não há nenhum motivo para acreditar que foi alguém próximo de Kimura e por isso não há justificativa para acusarem alguém porque teve uma briga com ele anos atrás... Por acaso vão perguntar para todos os colegas do jardim de infância se tiveram alguma briga com ele?

Shibutani deixou um sorriso se formar.

– Sua linha de defesa parece estar pronta há algum tempo... Uma briga antiga que nunca foi resolvida ainda solta algumas faíscas nos dias de hoje... – deixou de olhar para a janela e finalmente encarou o advogado – Quando foi que Inagaki-san o procurou para pedir ajudar?

O advogado não respondeu. Molhou os lábios enquanto tentava resgatar a sua calma.