O assassino do Cantor
3 Capítulo 3
Capítulo três
1
Ficou frustrado porque Kame não pode sair para beber com ele. Falou alguma coisa sobre sair com um cara que Koki não entendeu direito, mas não podia ser alguém que merecesse mais valor do que um amigo de infância. Ainda mais um amigo que estava se arriscando tanto para conseguir mais informações no submundo para a matéria da vida dele.
Esses pensamentos foram embora rapidamente. Koki não conseguia guardar rancor de ninguém por muito tempo e seu rancor também raramente era verdadeiro. Como não conseguiu encontrar companhia decente para beber, foi atrás das indecentes. Quem sabe, com um pouco de sorte, não descobria algo novo para Kamenashi?
Aquele bar ficava em uma rua famosa pelas casas noturnas e era conhecido pelos boatos de que ali era ponto de encontro da Yakuza. Koki sabia bem que não eram apenas boatos. Ele desceu um lance de escada, o bar era no subsolo, o que dava ao local um ar ainda mais misterioso.
Ali embaixo era mais quente e ele sentiu vontade de beber algo bem gelado. Pediu uma cerveja no balcão e enquanto esperava, deu uma rápida olhada no lugar. Estava bastante cheio e havia muitas pessoas desconhecidas naquela noite. Koki sabia o que isso significava. Estava acontecendo alguma transação ilegal nos fundos do bar e era preciso distrair a atenção. Se a polícia fizesse uma blitz, certamente perderiam algum tempo com os clientes antes de chegarem aos fundos. E aí já seria tarde, eles já teriam fugido.
Koki pensava que era tudo muito organizado, realmente não dava pra julgar a polícia incompetente. Aquela era uma guerra muito difícil e, até certo ponto, desvantajosa para o “lado do bem”. A máfia tinha muitos braços e estava sempre crescendo.
– Hoje tá bem morto... Isto aqui... Feh... – alguém murmurou perto dele.
Koki virou o rosto e reconheceu Nishikido Ryo. Ele era alguém a se respeitar dentro da facção local da Yakuza. Ele era o herdeiro, afinal. Ainda era novo, mas sua personalidade dava a certeza a todos de que ele não teria problemas em assumir os negócios da família. Mas, como ele ainda não assumiu as responsabilidades, podia viver com um jovem normal da sua idade.
– Um pouco, não é? – Koki concordou e sacou seu maço. Ofereceu a Nishikido.
– Koki... – ele pegou o cigarro e esperou que o rapaz o acendesse – Você estava buscando informações sobre Hayami Minami, não é?
O interesse dele aumentou com aquela pergunta.
– Un. Parece que ela está envolvida no caso Kimura.
– Sei, ouvi sobre isso também... Soube que ela trabalha como acompanhante em um bar noturno da região. Posso arranjar um encontro pra você.
– Você poderia fazer isso, Nishikido-kun?
O moreno riu de leve e Koki o acompanhou.
– Você devia morrer por me tratar com tanto informalidade! – mas a ameaça saiu carregada de gracejo.
– Você não poderia, não se pode matar quem lhe salvou a vida, certo? Como os chineses, agora você tem que me proteger!
– Agora você deveria morrer duplamente. Não me compare com os chinas, seu cretino! – ele ainda estava rindo. – De qualquer forma, você quer este encontro?
– Tá brincando? É claro que sim!
– Farei isso, então.
Não disseram mais nada. Nishikido pediu mais bebidas e eles aproveitaram a noite com assuntos mais amenos.
2
Kamenashi tossiu e ajeitou o cachecol. O tempo havia virado durante a madrugada e, como ele dormiu pouco, acabou resfriado. Ainda assim, ele teve que acordar relativamente cedo, se for pensar que ele tinha ido para a cama por volta das cinco, para se encontrar com Akanishi Jin.
– Mou~... Preste atenção em mim!
Kamenashi ergueu o olhar do laptop e encontrou um Akanishi emburrado, ele mantinha as bochechas infladas e os lábios, franzidos. O observou por alguns segundos e depois voltou a digitar, enquanto pensava em como sua vida estava de cabeça para baixo nos últimos dias.
Desde aquela noite estranha em que teve o prazer máximo de sua vida, Kamenashi se viu na constante presença de Akanishi Jin. Isso porque estava lhe devendo dinheiro, então tinha que obedecer a seus caprichos, como naquele instante, em que estavam almoçando no shopping.
Estavam na praça de alimentação, mas Kamenashi estava com dead line apertado e precisava terminar umas matérias, o que estava sendo praticamente impossível com Akanishi pedindo atenção de minuto em minuto. O jornalista não entendia muito bem o que o garoto de programa realmente queria com aqueles pedidos de encontro. Não que fosse algo muito complicado para ele atender, na verdade, era até mesmo divertido estar com Akanishi, mas Kame queria entender porque estavam brincando de namorados.
Kame encontrou uma justificativa na carência. Não seria algo assombroso que, tendo inúmeros clientes, Akanishi se sentisse sozinho. E parecia combinar com ele isso de montar um cenário, uma história, para se sentir bem. Em todo caso, Kamenashi poderia conviver muito bem com essa situação. Só havia um único problema.
O pior era que não era um namoro como os outros. Não havia sexo, era óbvio. E, se ele quisesse, era só pagar a quantia, Akanishi lhe disse tranquilamente. Essa era a pior parte: ter que se controlar. Não era algo fácil, em se tratando de Kame, e era ainda mais difícil se o amante era Akanishi, ele era naturalmente gostoso. Ficava ainda pior quando ele tentava seduzi-lo. Kamenashi tinha que focar sua mente em suas contas e no saldo do banco para se lembrar que não poderia ficar devendo dez mil dólares por causa de sexo!
Eles haviam feito um acordo. A dívida seria abatida com os gastos desses encontros. O que certamente deveria render uns quatro meses ou pouco mais de namoro se eles continuassem se encontrando com aquela freqüência. Akanishi queria lhe ver pelo menos uma vez por dia, mesmo que fossem apenas minutos.
– O que você tá escrevendo? – ele tentou mudar o foco do seu ataque. Já que Kamenashi não deixava de se concentrar em seu trabalho, tentaria compartilhar isso. – Sobre o que é essa matéria?
– Uma matéria sobre a taxa de natalidade do país.
– Eh~? Porque se intrometer na vida sexual das pessoas?
– Porque isso afeta diretamente a economia do país.
– Que coisa mais chata.
– E a culpa disso é sua! – Kamenashi lhe fitou com uma expressão séria.
– Minha?? O que foi que eu fiz? – ele se assustou com o tom sério dele.
– Ora, se fosse não ficasse esfregando seu traseiro em outros homens, eles poderiam estar procriando e garantindo a força de trabalho para o país! – riu.
– Nani? O que foi isso? Não é como se eles ficassem inférteis depois de transarem comigo! Eles podem muito bem achar uma mulher e se casarem com ela e ter uma vida de fachada. E eu estarei sempre pronto para oferecer conforto a eles. Neste ponto, você não acha que eu ajudo o país? Eles não precisam abandonar suas famílias para ter seus desejos sexuais atendidos e podem continuar procriando tranquilamente! – comentou e então ele percebeu algo: – Peraí! E você é gay também, como pode me acusar desse jeito? Não acha que foi muito cínico da sua parte e...
Kamenashi não havia escutado uma palavra daquele discurso. Nos poucos dias de convivência, já tinha aprendido uma arma eficaz contra Akanishi: fazê-lo falar. O rapaz era um linguarudo! Era só saber jogar um assunto, que ele não calava mais a boca e nem percebia se estava sendo ouvido ou não e assim Kame podia se concentrar em seu trabalho.
Estreitou os olhos para a tela do seu notebook. Um site concorrente havia conseguido uma entrevista com a viúva Kimura. O país ainda acreditava na imagem de homem honesto do falecido e por isso a esposa estava sendo tratada com bastante elegância pela imprensa. Não estava sendo devorada pelos lobos atrás de um escândalo, obrigando-a a falar de sua mágoa e decepção, contas estas que ela jamais poderia acertar com Kimura. Ainda assim, era uma matéria que colocou o concorrente na frente e deu a Kame ainda mais motivação para ir em frente e descobrir o assassino. A sua história, a sua matéria, certamente teria uma repercussão maior que aquela entrevista. Estava confiante disso e...
De repente, o seu note foi virado com brutalidade.
– O que está tão interessante nesse computador?
– Akanishi, eu disse que preciso trabalhar.
– A gente podia fazer coisa mais interessante...
– Não tenho dinheiro pra isso!
– Nee~... Eu não estava falando sobre sexo... Não desta vez! Mas você trabalha demais, deveria relaxar um pouco... Estamos num shopping, não no seu escritório.
– Não trabalho em um escritório! Se trabalhasse, talvez eu tivesse um horário fixo e aí poderia encontrar tempo para relaxar... Como não tenho horário pra trabalhar, tenho que me virar desse jeito!
– E não tem nem trinta anos. Vai morrer cedo, vítima de ataque cardíaco ou de câncer!
– Essas são as doenças que matam jornalistas mesmo de qualquer jeito. – foi a resposta tranqüila.
– Chega disso! Não vou deixar um homem gostoso como você morrer desse jeito! – ele fechou o laptop e tirou a bateria, guardando em seu bolso. – Agora eu sei porque eu me senti tão atraído quando o fotógrafo mostrou a sua foto.
– Eh? O que você está fazendo? Eu preciso terminar esta matéria hoje! E o que você está falando?
– Seu amigo me mostrou sua foto e eu me senti atraído. Eu te falei, quando você me perguntou como descobri seu endereço, lembra? De qualquer jeito, agora eu sei! – ele disse com muita determinação. – Eu senti pena, não foi atração.
– Pe... Pena?! – Kamenashi sentiu seu orgulho ser atacado de forma rápida e sem qualquer chance de defesa.
– Sim, você é um workaholic que não ama ninguém e não tem ninguém que o ame. Isso é muito triste. Então eu vou fazer sua vida mais divertida!
–... A minha vida é muito divertida!
– É? – ele arqueou a sobrancelha. – Com o que? Com as enfadonhas coletivas de imprensa? Correndo atrás das fontes? Perturbando pessoas para descobrir a informação que tanto quer? Escrevendo textos que nem sabe quantas pessoas realmente gostam do que escrevem... Aliás, será que você pensa que pode fazer uma pessoa sorrir ou chorar pelas coisas que você escreve?
E, de repente, aquele discurso apaixonado. Kamenashi já tinha muitos argumentos dentro de sua cabeça para rebater o que aquele rapaz estava dizendo, mas não houve tempo. Em poucos instantes, sua mão havia sido tomada por aquela grande, quente e firme e, então, eles estavam correndo pelo shopping até o estacionamento. Embora perguntasse insistentemente aonde iam, Akanishi não lhe respondeu em nenhum momento.
Quando chegaram diante do seu carro, foi jogado contra a porta do veículo e sentiu a mão dele percorrer os bolsos detrás de sua calça, encontrando a chave. Em seguida, Akanishi abriu e o colocou no banco do carona. Tudo isso com uma força e velocidade impressionantes.
Akanishi Jin parecia estar se divertindo enquanto dirigia e ignorava as suas perguntas. Kamenashi suspirou e se conformou. Contudo, não estava de todo irritado. Experimentava aquela sensação de quebrar as regras, algo que misturava insegurança e excitação. Mas talvez fosse bom ser um pouco irresponsável. Mas era claro que ele estava montando o texto daquela matéria em sua cabeça.
Afinal, ele precisava manter seu emprego.
3
– Você está se envolvendo em algo perigoso, Koki.
Maru estava sério, muito sério, quando lhe disse aquelas palavras. Mas Nakamaru Yuichi sempre era sério em todos os momentos de sua vida e, como o conhecia há muito tempo, Koki não se impressionou.
– Não se preocupe, eu sei o que faço. Apenas entregue o que eu te trouxe para o Baby, certo?
– Ah... Ele também está se envolvendo em algo perigoso. Quando é que vocês vão me deixar sem preocupações?
– Há, há, há. Você devia ser menos tenso, Maru. Aproveitar a vida, sabe como é?
– E jornalistas tem tempo para isso?
– Eu não sei porque você e o Baby quiseram essa profissão. Ser da Yakuza é mais divertido!
– Você tem um estranho senso do que é divertido ou não. – ele disse e esmagou o cigarro no cinzeiro. – Sankyuu pelo café, estava precisando e eu vou entregar isto ao Kazu. – ele sacudiu um envelope branco. – Até mais, Koki.
– Até mais, Maru. Vamos sair pra pegar umas garotas qualquer dia... Ou garotos, dependendo do seu gosto!
Nakamaru lhe respondeu com um dedo médio e ainda escutou a risada alta do amigo antes de atravessar a rua. Subiu no prédio em que trabalhava e, quando chegou em sua mesa, estranhou a ausência de Kame.
– Ele não me contou que teria alguma externa hoje. – murmurou. Sacudiu os ombros, não era anormal ocorrer imprevistos no calendário editorial. Na verdade, era raro conseguirem cumpri-lo.
Deixou o envelope na mesa do amigo e foi para o seu lugar, ligou o computador e navegou pelas principais notícias do final da manhã.
– Então conseguiram entrevistar a Kimura-san? É... Esse caso ainda vai durar mais alguns dias na mídia... Se demorarem a pegar o assassino, as pessoas vão esquecer e só volta à tona quando descobrirem quem for... Mas a moral da polícia vai ficar abalada se não o pegarem logo!
Olhou para o envelope que Koki lhe entregou pouco antes. O amigo havia garantido que ali havia algo relacionado com o caso, algumas fotos sobre uma nova pista. Maru sentiu certa curiosidade, seu instinto jornalístico começando a despertar, mas, depois de algum tempo trabalhando na editoria policial, ele aprendeu a farejar o perigo.
Ele não queria se envolver naquele caso.
4
– Você devia sair dessa vida.
Aquela sugestão não era algo que poderia surpreendê-lo. Yamapi já tinha perdido a conta de quantas vezes lhe deram esse conselho. E era ainda pior se ele fosse contar em quantas vezes ele mesmo havia pensado sobre isso. Uma vez chegou a trabalhar durante meio período em lojas, ele tentou deixar aquela profissão. Mas aí ele conheceu Akanishi e soube que não poderia abandoná-lo. Nunca mais.
Enquanto se arrumava diante do grande espelho da penteadeira, ele olhou para o reflexo de seu cliente, ainda na cama daquele motel caro, usando apenas o lençol para cobrir suas partes íntimas, não que ele estivesse preocupado com isso. Não estava e isso era nítido em seu olhar arrogante.
– Deixe essa vida, eu posso te bancar. – ele insistia nessa ideia, não entendendo ou fingindo não entender que a recusa de Yamapi nada tinha a ver com dinheiro. Mas Yamapi sabia que aquela pessoa preferia acreditar no que existia dentro da sua cabeça do que na realidade.
– As suas fãs vão se decepcionar. – ele o lembrou.
– Elas não precisam saber.
– Então você não está me convidando para morar com você? – fingiu estar chocado.
– Claro que não! Como poderia? Mas eu posso te dar um apartamento.
– Né, Tegoshi-kun. Continuemos do jeito que estamos. Assim é mais barato para você, eu sempre vou continuar te dando prazer, não se preocupe!
– Essa não é a minha preocupação. – ele virou o rosto, contrariado. – É só que eu não quero você dando prazer a mais ninguém!
Aquele tom de voz manhoso não combinava com a atitude que ele mantinha na cama. Lá, ele não tinha a menor frescura, mas, de alguma forma, essas pirraças de Tegoshi chegavam a ser adoráveis. Yamapi se aproximou da cama, bagunçou os cabelos dele, que protestou, e o beijou na testa. Pegou o dinheiro na cômoda e se despediu.
O carro com o qual vieram até ali havia sido alugado por Tegoshi e por isso Yamapi saiu do motel a pé. Na rua, pegou um táxi até a sua casa.
Yamapi se surpreendeu quando, ao chegar em casa, conseguiu abrir a porta. Estranhou ainda mais que isso estivesse acontecendo frequentemente nos últimos dias. Jin mal parava em casa e, quando conseguia encontrá-lo, estava diferente. Aquilo estava começando a preocupá-lo.
Entrou em casa e sussurrou um tímido tadaima. Havia se acostumado a ter a presença constante de Jin que ele havia se esquecido do período em que morou sozinho. Era um apartamento pequeno, mesmo para apenas duas pessoas, mas quando o rapaz não estava, o lugar parecia crescer de forma mágica.
Fechou a porta, tirou seus tênis, e seguiu para a cozinha. Percebeu que o lixo dos últimos dias estava acumulado, Jin também se esqueceu das suas tarefas domésticas. Suspirou, recolheu todo o lixo daquele dia resmungando. Era mesmo um incômodo quando Jin se esquecia dessas coisas, porque havia o dia certo para se jogar um tipo de lixo e, quando se esquecia, tinha que esperar uma semana para jogá-lo ou ir até o centro de coleta.
Voltou para a porta, recolocou seu tênis, sem amarrar os cadarços e desceu para a garagem. Lá havia um cesto grande onde todos os moradores do prédio depositavam seus lixos. Ele deixou as sacolas ali e estava indo embora, quando notou uma caixa de papelão encostada próximo ao cesto. Um pedaço de uma camisa estava para fora e Pi a reconheceu.
– Isso...
Ele a abriu e ficou pálido ao reconhecer os objetos que estavam ali. Olhou em volta. Será que alguém já tinha visto aquele conteúdo? De qualquer forma, ele pensou que precisava se livrar daquilo o quanto antes.
Yamapi pegou a caixa e apressou os passos.
Não voltou para o apartamento.
5
– Eu não acredito que você me trouxe aqui... – Kamenashi murmurou e olhou a sua volta.
Fazia muito tempo que ele não ia a uma casa de fliperamas. Tinha até se esquecido de como era o ambiente cheio de luzes coloridas, muito barulhos e com a presença massiva de estudantes do colegial. Como ainda era começo da tarde, a maioria devia estar matando aula.
Deixou de analisar o lugar e fitou o rosto encantado de Jin. Pensou que ele o levaria até a praia ou um lugar mais tranqüilo. Talvez, ao menos para um lugar com jogos de adulto, como sinuca, embora fosse muito cedo. Jin lhe sorriu e apontou para uma máquina de Street Fighter, rejeitada, esquecida em um canto da casa.
– Isso não te traz lembranças? Joguei muito na minha época de estudante. – ele comentou enquanto se dirigia para lá. – Vamos, desfaça essa cara amarrada!
– Não sei se você sabe, mas eu tenho uma dívida para pagar e, para isso, preciso trabalhar!
– Não precisa não! Se você jogar comigo eu abato cem dólares da sua dívida!
– Ótimo, assim eu fico te devendo 4.500 dólares. Que alívio!
– Se não está contente com isso, ótimo, vamos embora conversar com Nagase-kun e...
– Melhor de três. – Kamenashi disse, indo comprar as fichas.
O resultado foi que Jin venceu as três. Fazia mesmo muito tempo que Kamenashi não jogava vídeo-game, não se lembrava de nenhum ataque, foi um oponente fácil e ridículo. Mas o seu espírito competitivo inflamou e ele não sossegou até encontrar um jogo em que vencesse o rapaz.
– Você é muito ruim nisso! – Akanishi o provocou, gargalhando, enquanto apostavam corrida em um jogo de motos.
Kamenashi se virou para xingá-lo, mas viu aquele riso e teve vontade de rir também.
A noite chegou rápido e eles ainda estavam jogando.
6
Kamenashi olhou para o letreiro com o nome da casa de lámen. Era uma casa discreta, praticamente escondida em um bairro residencial, mas Jin lhe garantiu que ali era feito o melhor lámen que ele já tinha comido na vida. Kame não lhe deu muito crédito porque já tinha aprendido que Akanishi era uma pessoa exagerada.
Eles passaram pelo portão principal. Kamenashi ainda admirou o noren com uma gueixa desenhada logo na entrada, era um desenho muito bonito, e depois entrou.
– Sejam bem vindos! – uma senhora baixa, encurvada, os cumprimentou e os guiou até uma mesa para dois.
– Baa-chan... Traga pra gente dois shoyu-lámen! Esta é a primeira vez que meu amigo vem aqui, então peça pro Minoru-chan caprichar, ok?
– Ah sim, seu amigo ... – ela piscou um olho demoradamente para Jin e depois se afastou.
– Kazumi-chan é a velha mais moderna que eu conheço. – ele riu – Ela sabe tudo sobre mim, não me julga e nem me trata mal por causa da minha profissão. Como ela sabe que eu não tenho família aqui, acho que se apegou como se eu fosse um neto... Não sei... Mas eu gosto muito dela como se fosse minha avó!
Kamenashi parou de brincar com o saleiro na mesa e o fitou. Jin olhava para seus próprios dedos.
– Seus pais...
Akanishi se mostrou um pouco incomodado com o assunto, mas respondeu.
– Eles moram nos Estados Unidos com meu irmão. Eu vim pra cá pra fazer faculdade, mas... As coisas não saíram exatamente como tinha planejado e aí eu comecei a trabalhar.
– Eles sabem sobre você ser...
– Sabem. E é claro que eles não gostaram nem um pouco disso. Acho que não serei mais chamado para as reuniões de família. – ele gracejou.
Um lampejo. O rosto entristecido de Jin fez Kame se lembrar daquele dia em seu quarto. Mas foi um breve instante e ele logo estava sorrindo de novo.
– E os pais de Kame-chan? Devem se orgulhar em ter um filho jornalista!
– Não é bem assim. Meu pai queria que eu fosse médico, como ele. Também não sou convidado para as reuniões de casa.
– Eh~? Quer dizer que temos algo em comum. Isso é legal! – ele apoiou os cotovelos na mesa e depois repousou o queixo em suas mãos. – Muito legal!
– O que há de tão extraordinário assim?
– Nee~... Você tem muitos amigos?
– Eh? Porque a mudança brusca de assunto?
– Não mudei... É só que acho que Kame-chan não deve se sentir tão solitário, mesmo tendo brigado com sua família, se não consegue entender o meu ponto de vista... Quando a gente fica muito tempo sozinho, é realmente bom encontrar pontos em comum com as outras pessoas... Assim você sabe que não é o único maluco da face da Terra.
– Está me chamando de maluco?
Jin piscou e riu. Os pedidos chegaram e a conversa terminou, o clima descontraído voltou entre eles.
– Hum... Isso é delicioso! – Kamenashi exclamou.
– Não te falei! – Jin jogou o indicador em sua direção, com um ar de vitória – Eu te disse, não disse? E essa carne de porco é deliciosa e... Não é uma matéria sobre o Kimura?
Kamenashi se virou para enxergar a televisão atrás de si, mas não viu nenhum aparelho, virou a tempo de ver a sua carne entrando na boca de Jin.
– Akanishi!!
– Umae!! É muito bom!
– Era?? Não sei! Você comeu!!!!
– Não fique irritado com tão pouco, coma um ovo! – ele pegou o dele e o enfiou na tigela de Kamenashi.
– Aposto que você não gosta disso.
– Bingo!
– Cara de pau!
7
Havia um monte de ligações perdidas em seu celular e Kamenashi xingou a Jin em pensamento por fazê-lo perder tanto tempo. A maioria era de seu editor Nakai e ele teve que explicar que as matérias ainda não estavam prontas. A sorte é que havia algumas matérias frias que poderiam colocar na próxima edição do jornal, mas não evitou uma bronca por isso.
Kame quis ir embora, Akanishi aprovou a ideia e disse que dormiria na casa do jonalista, que não gostou da sugestão, mas não teve como recusar. Chegaram em seu apartamento no exato momento em que o porteiro estava deixando seu turno.
– Ainda bem que chegou! – disse o senhor de cabelos brancos, magro e baixo.
Depois das dez da noite, cada morador usava sua própria chave para entrar, por isso Kame estranhou aquela expressão de alívio.
– Tenho algo para você, Kamenashi-san! – e ele sacudiu um envelope – Aquele seu amigo narigudo deixou isso... Disse que o senhor teria uma boa notícia com o conteúdo aqui dentro. Por isso esperei ao máximo, deve ser importante para o senhor!
Apesar de mais velho, Takahashi-san o respeitava pela sua profissão. Era um deslumbrado pela áurea dos jornalistas, assim como Akanishi. Por muitas vezes Kame tentou dissuadi-lo de tratá-lo com tanta formalidade, mas não conseguiu e acabou aceitando a situação.
– Oh... Arigatou ne, Takahashi-san. Desculpe o incômodo!
– Iie, iie! – ele sacudiu a mão e riu envergonhado – Deve ser uma matéria importante, não?
– Acho que sim... Se for o que eu penso que é, uma grande matéria! Arigatou!
– Mou, Kame-chan, estou com fomeeeee! – Jin o puxou pela manga.
– Não seja mal-criado! – Kame o bronqueou – Oyasumi, Takahashi-san!
– Oyasuminasai!
No andar em que morava, Kame abriu a porta e um raio passou por ele.
– Eu estou faminto!!! – Jin entrou correndo na casa.
– Você não tem casa não? – resmungou, enquanto retirava seus tênis e ajeitou os de Jin, que haviam sido jogados de qualquer jeito.
– Ah, você encheu a geladeira! Que bom!
Kamenashi o ignorou e foi até a mesa olhando o remetente do envelope que o porteiro havia lhe entregue. Pela descrição que ele lhe deu, era de Nakamaru, mas a letra rabiscada no envelope era de Koki e o coração do jornalista deu um pequeno pulo mais depressa. Tinha que estar relacionado com o caso Kimura.
Abriu o envelope, mas não chegou a ver seu conteúdo porque um barulho de algo se quebrando veio da cozinha, seguido de um palavrão de Akanishi. Kame deixou o envelope sobre a mesa e correu até lá.
Akanishi estava ajoelhado, recolhendo os cacos do que um dia havia sido uma tigela com soba gelado. Os finos fios de macarrão estavam esparramados e o molho shoyu manchava o seu chão branco, Kamenashi notou assim que observou a cena. Respirou fundo, chamando a atenção do rapaz, que lhe olhou com a sua melhor cara de inocente.
– Eu... Tava... Com fome... – disse devagar, tentando ler a expressão que Kamenashi fazia.
– Deixa que eu limpo! – disse seco – Você é pior do que uma criança, como você pode viver sozinho?!
– Eu não moro sozinho. – foi a resposta simples.
– Claro que não, não tem capacidade para fritar um ovo que dirá manter uma casa!
– Anooo nee~?? Porque toda vez que você fica irritado você tem que humilhar os outros? –ele disse, uma voz cansada – Não é a toa que mora sozinho! Ninguém te agüentaria!
Kame o olhou torto, mas não disse mais nada. Começou a recolher os pedaços de vidros e os deixou em um canto. Depois foi até a sala e voltou com jornais velhos para embrulhar a tigela e jogou em um lixo separado. Enquanto isso, Akanishi limpava o chão com um pano que tinha encontrado e Kame notou que era o pano que ele usava para limpar a janela, mas conteve-se para não dizer isso ao rapaz. A si mesmo, ele pensava que tipo de pessoa achava que qualquer pano serve para limpar qualquer coisa. Oras, o pano de chão é de chão, o da janela é da janela!
– Vou tomar um banho. – Kame disse e o deixou na cozinha.
Ainda estava irritado quando foi para o seu quarto. Tirou a jaqueta jeans que vestia e a pendurou corretamente em seu armário, na parte de roupas que já haviam sido usadas uma vez. Ele usava duas vezes no máximo cada peça e depois as lavava e, então, as guardava na parte de roupas limpas.
Tirou a camiseta e a dobrou, deixando-a em cima do móvel em que guardava as toalhas. Parou o movimento de desabotoar a calça. A verdade é que aquelas palavras havia lhe machucado. No fundo, ele também sabia que não morava sozinho por opção. Ele sabia que seu gênio não era dos melhores e por isso mesmo era uma opção mais válida se jogar no trabalho do que procurar por companhia. Sabia disso, não precisava que Akanishi Jin lhe dissesse isso, e havia aprendido a aceitar essa realidade. Então porque agora aquele cretino vinha impondo a sua presença em sua vida achando que tinha direito de reclamar alguma coisa?
Massageou a testa e movimentou o pescoço, sentindo-se muito cansado. Então a porta se abriu devagar e ele entrou vagarosamente. Kamenashi o olhou, Akanishi fitava o chão e foi se aproximando. Quando seus olhos se ergueram, Kame viu que estava diante novamente do Akanishi sedutor.
– Gomen... Não fique bravo comigo. – mas a personalidade mimada ainda estava presente. E essas duas personalidades misturadas era ainda mais atraente. – Falei sem pensar. Sei que estraguei o dia... Estava tudo indo muito bem... Kame-chan estava sorrindo tanto. Por favor, sorria de novo.
Kame não reagiu, apenas continuou com sua expressão brava. Akanishi não se intimidou e continuou se aproximando.
– Não fique assim. – pediu e tocou o rosto de Kame. – Não fique bravo comigo!
Não era porque se arrependia, afinal. Akanishi só não queria que continuasse zangado com ele. Era mesmo uma criança mimada. Kame não respondeu e então foi beijado demoradamente. Ele ainda não se movia e Akanishi o olhou com um bico.
– Eu não vou cobrar, não desta vez! É melhor aproveitar e...
Um movimento rápido. Akanish caiu na cama, confuso, mas depois sorriu para Kamenashi em cima de si.
8
Acariciou o rosto de Kamenashi e teve a certeza de que ele estava dormindo. Sua respiração era pesada e ele não se incomodou com o seu toque. Akanishi adorava aquela imagem, gostava tanto que sorriu largo, fechando os olhos e encolhendo os ombros, totalmente fascinado.
Não tinha mentido, ele tinha achado o jornalista bonito e parecido com Kimura. E era mais parecido por alguns gestos do que realmente por semelhança física. E isso o deixava feliz. Chegou mais perto e depositou um beijo nos lábios finos.
– Esse também fica de brinde... – sussurrou e depois se levantou.
Akanishi pegou suas roupas do chão e vestiu a calça. Foi para a sala com um destino certo. Pegou aquele envelope e o abriu. Estava escuro demais e ele não quis se arriscar acendendo a luz, então foi para a cozinha e lá, com ajuda do seu celular, ele iluminou aquelas fotografias.
No escuro, ele não escondeu a sua preocupação. Mordeu os lábios, um pouco irritado.
9
Tudo o que encontrou no dia seguinte foi um bilhete rasurado de um apressado Akanishi. Dizia ele que teria um encontro com um cliente na hora do almoço e que precisava correr ou se atrasaria.
Na hora do almoço?
Kamenashi levantou-se de uma vez da cama e encarou o relógio na penteadeira. Estava morto. Definitivamente, Nakai o mataria. Ele sumiu o dia anterior inteiro e ainda não tinha dado sinal de vidas. Quando alcançou seu celular, viu que ele tinha ligado algumas vezes, assim como Nakamaru e Koki.
Apressou-se no banho e tomou o café da manhã na frente do computador enquanto finalmente digitava suas matérias. Por sorte, quando Akanishi não estava vendo, Kame havia rabiscados alguns esboços em guardanapos ou folhetos de rua e, claro, ainda havia suas anotações mentais. Uma boa memória é uma arma a mais para um jornalista.
Quando terminou, salvou as no computador, no celular e enviou por e-mail. E se levantou para sair correndo quando se lembrou a tempo do envelope que Koki lhe entregara por intermédio de Maru e do seu porteiro. Com certeza aquelas fotos salvariam o seu pescoço da fúria de Nakai!
Foi com esse pensamento que ele abriu o envelope e analisou aquelas fotos. Só haviam duas, uma era de um isqueiro no chão que Kamenashi já sabia de cor e salteado que era o local em que o corpo foi achado. O objeto estava ao pé de um móvel, encostado na parede, como se tivesse caído dele depois de um esbarrão ou talvez uma possível briga no quarto.
A outra foto era do mesmo isqueiro, mas ampliada, dando todos os detalhes daquele objeto. Era retangular, de prata e havia o desenho de um dragão incrustado. No envelope havia ainda um recado de Koki.
Hey Baby!
Tenho boas novas! Como pode ver, é sobre uma pista que a polícia não está divulgando nos jornais nem fodendo! É um isqueiro masculino e não era do Kimura... Te faz pensar, aposto!
Sim, o escândalo pode ser ainda maior...
E pega essa : encontrei Hayami Minami, a possível amante dele... Depois te conto mais detalhes!
See ya! Bye bye!
Cuide-se Baby!
Kamenashi xingou baixo. Como Koki se atrevia a deixá-lo curioso desse jeito? Isso só atiçava o seu espírito jornalista. Odiava quando contavam as coisas pela metade! Ele era da opinião de que se não pode contar tudo é melhor nem começar a falar. Ainda assim, ele sorriu. Sentia seus dedos tocando na melhor história de toda a sua carreira... Estava quase lá.
Kame pegou seu casaco e foi correndo para redação.
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