O assassino da Caneta de Pena

1 Introdução ao assassino


Splash! Splash!

“ Não é nada Irene, é só sua imaginação!” repetia em sua mente de forma alarmada, enquanto começava a caminhar cada vez mais rápido pelo piso de calcário molhado, até que, em um dado momento se viu correndo de forma desesperada. “ vai ficar tudo bem, nada de mal vai me acontecer”, orava em sua mente, após vários metros corridos e uma esquina ultrapassada para o lado direito, se encostou na áspera parede de concreto que formava a construção rústica. Enquanto resfolegava pesadamente, mas mesmo assim de uma forma silenciosa, “ preciso fazer isso”decidiu-se em sua mente após alguns cautelosos passos acabou por pisar em um copo de plástico, emitindo um som que composto de estalidos, parecidos com o som que se tem ao esmagar um pequeno osso de galinha, que por efeito acabou amedrontando ela própria, “se eu soubesse que era tão assustador aqui em Londres, nunca teria me mudado!” lamentou, enquanto voltava a caminhar com todo cuidado, para não produzir nenhum som, e ao chegar no ponto onde a rua dava uma guinada para a esquerda, respirou, e fez de tudo para reunir coragem o suficiente para olhar. Nada. Uma onda de felicidade e calma se apoderou dela, causando de súbito uma sensação de que estava segura:

- Como vai doçura? – lhe perguntou uma voz masculina, forte e retumbante, nesse mesmo instante, todo o alivio que sentira segundos antes sumira, e fora substituído por um medo, tal que gelou-lhe o sangue:

- Q-quem está ai??- perguntou nervosa, enquanto forçava a vista, para depois distinguir uma figura disforme, como que misturada a escuridão, parada, olhando-a.

Não ouve resposta, mas sim o lento e pausado som de passos se aproximando, cada vez mais perto, até que em um ponto foi possível sentir o repugnante cheiro de bebida, como se a pele do indesejável personagem estivesse impregnada com tal fragrância pútrida. Com sua aproximação Irene pressionava seu corpo cada vez com mais força contra a parede, fechando seus olhos no processo. No momento em que já estavam a um mero palmo de distância um do outro, e por conseqüência, o odor adocicado de cerveja choca estava mais perto, inundando-lhe as narinas, voltou a ouvir a retumbante e desagradável voz:

- O que uma garota tão gostosa faz aqui, no meio da rua, e a noite? – em realidade, mesmo que tivessem sido somente palavras de uma lamentável e triste existência, que por sabe-se lá quais crueldades já cometera em sua misera vida, e que acima de tudo nem merecia ser chamada de pessoa, pois, a um denegrido como “este”, tal titulo era definitivamente inapropriado , casos aparte, o incomodo em seu âmago ficava mais forte, como se percebesse algo errado, alguma coisa que teria ignorado, se tal criatura não estivesse terrivelmente próximo teria simplesmente rechaçado a idéia:

- deixe me passar!! — gritou desesperada Irene, vendo com estremo medo, um sorriso de dentes podres começar a se formar, e no breve segundo de uma batida de coração, finalmente percebeu a lamentável verdade

E ele, ao ver dor e o horror do que viria a seguir, refletidos nos olhos da estranha porem bela ( isso ele tinha que reconhecer, ela era linda) moça, gargalhou, se é que isso poderia se chamar gargalhar.

E ela ficou imóvel, enquanto o bêbado ( e seu possível futuro estuprador) ululava

, porem uma onda de alivio a acometeu repentinamente, o que quando o estranho a encarou, depois de sua onda de urros ( os quais ele chamava de risadas) havia terminado:

- o que ocorre com você mulher? Está tão assustada que está em coque?? – escarnou, cuspindo desvaraidamente, enquanto sorria.

Um flash repentino; um grito gutural, parecendo como se tivesse vindo das profundezas do inferno.

Como que em choque, depois da terrível pontada de dor, o bêbado desvairado simplesmente olha para si mesmo. Para sua infelicidade, confirma os fatos “ mas que droga”, penca ele enquanto olha para si mesmo, bem no meio de seu enorme estomago, despontava uma laça, tão gentilmente embutida e ainda assim tão natural, como se sempre tivesse sido parte de tal horrenda criatura depravada, era como uma obra de arte, pendendo para o lado mais sórdido da situação:

- Você está bem, senhorita? – pergunta uma refinada e muito elegante voz, com um leve sotaque polonês, que era tão agradável aos ouvidos que por muito Irene não simplesmente se ofereceu em casamento, vejam só, mesmo em funesto momento.

Antes que pudesse interpelar ao nada, para saber de onde vinha tão garbosa e melodiosa voz, Irene viu despontar por traz do ombro de seu pertenço agressor, uma cartola branca, que por sua vez estava apoiada em belos cabelos brancos, lisos e compridos, mesmo que esse ultimo não pudesse ser comprovado até o presente momento, Irene de alguma forma sabia que eram assim. Logo a seguir veio uma mascara branca, que por sua vez cobria boa parte do rosto, deixando exposto não mais do que parte de uma bochecha, em era de um tom perolado e com um leve fulgor vermelho de vida, levemente pintado, de forma opaca, em tão perfeita pele; seus olhos, mesmo que muito difíceis de serem enxergados, eram de um azul completamente surreal, que fazia com quem quer que olha-se tal beleza, se perdesse de forma irreversível, permanecendo em um eterno velejar nas profundezas desse mero e pequeno oceano particular que era carregado a beleza de sua vista.

Lentamente o ser com aparência, hálito e muito provavelmente hábitos degenerados, começou a cair, como que um saco de areia quando perde sue conteúdo, o estranho sujeito estava perdendo o seu, porem tendo não somente um mero resultado de areia espalhada no chão de calcário, e sim a grotesca cena de suas vísceras espalhadas pelo chão, que mesmo por pouco tempo, já começara a atrair moscas. “até mesmo seu sangue é repugnante” divagara Irene, enquanto via as moscas zunindo por sobre toda a grande poça de sangue e detritos misturados com órgãos que se originaram do enorme talho na cada vez mais azulada, barriga do bêbado.

“Splasht!”

Foi o som do corpo caindo na poça de detritos que se formou a sua volta. Eles ficaram se olhando, ela encantada e ele como..... se estivesse olhado uma presa:

- Não me respondestes – falou a melodiosa voz que era emitida de seu belo semblante.

Ela o ignorou e se jogou em seus braços fortes e musculosos, resfolegando ao sentir a doce e maravilhosa fragrância de pinheiro, um cheiro tão rebuscado que inebriou seus sentidos:

— Meu ...herói – falou Irene entre suspiros, enquanto ele a abraçava e a guiava por entre as vielas, sempre a olhar para frente, impedindo assim que seu belo rosto, e maravilhosos olhos ficassem a mostra, mas ainda assim era possível ver, um mero e discreto, mas ainda estava lá, um sorriso:

- Minha querida, acho que podes me chamar assim se quiser – disse ele quando a abraçava com mais força, o que a principio fez com que seu peito trepida-se, e sentisse o rubor em suas faces vindo, entretanto, algo estava diferente, no decorrer do tempo, começou a perder a segurança, e foi então que , com suas ultimas palavras que seriam proferidas para tal moça, ele , em sua melodiosa voz( tão melodiosa quanto terrivelmente venenosa, começara a perceber Irene) lhe disse:

- A contrapartida , deveria saber, ou ter notado, que eu não sou o herói- e essas foram as ultimas palavras que Irene escutou.

E quando Orfeu já tinha colocado para dormir cada vivalma em Londres, o único som que se poderia ouvir, eram seus gritos, seus últimos gritos, ecoando vielas a fora.