Notas iniciais
"E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete." Wallace Stevens.

Nada dura para sempre, mas a morte, talvez seja a unica verdadeira, porem triste, imortalidade.

A proximidade de cadáveres nunca me fez muito bem, e confirmei isso ao sentir a onda de náuseas que me acometeu a cada momento que me aproximava cada vez mais da principal prova do crime. Mesmo embalado, o corpo desprendia um cheiro desprezível, como um queijo a muito apodrecido, combinado com o cheiro de ferrugem com sal do sangue, e claro, o bolor formado pelo lixo acumulado no beco. “ meu deus! Acho que vou vomitar” , devo ter me entregado pela minha expressão, pois quando o detetive chefe olho novamente para mim, parecia estar com um ar de reprovação:

- Vocês, cadetes, não são feitos mais como antigamente – e ai esta, o velho papo de “antigamente”, isso, depois de um tempo, acaba enchendo o saco, não importa o quão resistente seja – vá procurar algumas evidencias mais para o fundo do beco, eu cuido por aqui, e olhe direito a propósito.

Como fui mandado, a contra gosto, me ateei a tarefa de inspecionar o beco, que como logo descobri, não era um beco, pois possuía uma saída. Caminhei com cautela, evitando todos os cadáveres de ratos que apareciam ao longo do caminho, assim como os montículos de fezes e lixo. Sentia-me um rato de laboratório naquele momento, como se cruéis e calculistas olhos estivessem me observando, a cada passo, a sensação ficava mais forte, porem, antes que eu me acovarda-se, vi um flash prateado, era algo comprido e bem fino, com um reluzir metálico, que lembrava uma daquelas espadas antigas, do século 19, que ficavam escondidas em bengalas.

Senti-me hipnotizado, como uma força invisível me atrai-se para mais perto, para olha melhor as sinuosas curvas que a espada produzia, para ver com meus próprios olhos, quem a segurava. E este meus amigos, foi o meu maior erro. Antes que toma-se consciência, já tinha sido atacado de forma voraz, com o zunido em meus ouvidos, da espada cortando o ar, e me levando cada vez mais beco adentro. “ meu deus! Meu braço” pensou Roger, enquanto esbravejava de dor. Os ataques aumentavam de velocidade, mas era claro que não eram para matar. “Ferir, talvez, mas não fazia diferença, já estou perdendo a consciência”, desespero, essa era a emoção que transcorria por meu corpo neste fatídico momento, “se eu não estiver mais aqui, quem cuidará de Rebeca?” cada misero gesto, e até mesmo a energia que se era gasta pensando, me faziam arquejar de dor. Cada momento que passava, um novo filete de sangue despontava de minha camisa, como que brotado do próprio tecido, mas isso não era possível, a dor era real, a loucura que começava a me acometer também era:

- O que você quer de mim ! – tentei desesperado outro grito de socorro, mas pronunciar tais palavras era mais do que minha boca e garganta agüentavam, o som se prendia em minhas cordas vocais, e o que saia não era nada mais nada menos que um ganido, como de um animal acuado, prestes a ser sacrificado.

Depois de tantos cortes, contusões de onde a folha a espada bateu, e um interminável grito de dor, que em si expressava toda a loucura que emergia em minha mente devido as incontáveis feridas, finalmente, cai no vazio.

***

“AHA! Esse sim vai ser perfeito! O jeito que olha para aquela casa...AHAHAHA! sim, esse vai servir, tem que servir”, acho que devo me apresentar, mas se o fizesse, estragaria tudo! Fazer o que? Me chamem de O Assassino da caneta de pena se preferirem, ou Sr. A. Mas esquecendo as apresentações, eu serei o seu narrador agora, espero que achem.... agradável.

O sofrimento é disso que se constituem todos os seres, porque, nada deixa de sofrer, mas nem todos chegam a ser felizes... E porque não fazer que alguns sofram um pouco mais ?

“Lembro-me como se fosse ontem” devaneio enquanto espero que ela passe, uma linda moça cruza meu caminho, seu perfume enlouquecendo meu olfato, seu vestido balançando ao vento, com seu belo tom carmesim, típico das damas nessa parte da cidade, uma parte bem rica, e abastarda; vejo-a entrar em um carro, acompanhada, agora, de um distinto senhor, muito velho para ser seu pai e ao mesmo tempo, muito novo para ser seu avô, mas não é ela quem eu estou esperando. Quem eu espero é alguém especial, escolhida a dedo para o que pretendo fazer, meu jeito favorito de diversão: matar. “lá vem ela, a mesma senhora de sempre, um alvo bem fácil e simples, infelizmente não tem nenhum familiar morando nas proximidades, “seria tão mais divertido” o ar inconsolável que tomou sua face foi o bastante para atrair olhares, em sua maioria de jovens senhoritas, entretanto, havia alguns meio suspeitos, como se tentassem avaliar meu caráter.

“Bom, já estava na hora se sair daqui mesmo, porque, afinal, era uma bela noite essa, uma noite perfeita, perfeita para o sofrimento, para a morte e sabe-se lá o que mais”,devo ressaltar, caro leitor, esta é uma personalidade da qual não me orgulho nada, afinal, com ela, nunca consigo fazer tudo que quero antes que morram, “isso é o mais angustiante, ter planejado uma noite inteira de diversão e pronto, ela acaba mesmo antes de chegar na melhor parte, nem pude fazer a metade do que desejava!” meu sofrimento ficava cada vez mais forte, enquanto eu limpava a bisturi.

As lembranças iam e vinha pela minha cabeça, em como ela lutou inutilmente, quando a encurralei em frente a porta de sua própria casa, que misteriosamente não abria, obra minha claro. Eu batendo com a empunhadura de minha bengala em sua cabeça, o sangue jorrando, ah! Sim, o sangue, esse material que guarda a vida de uma pessoa, a alma de um ser. Lembro de como a carreguei, mal conseguindo me conter, e esperar até chegar ao lugar certo para começar, em como eu levada uma sacola nas costa, com ela dentro, a esse ponto acordada e desesperada. Os soluços, música para meus ouvidos. O cheiro era insuportável, aparentemente nisto, ela perdeu completamente o controle de seus intestinos:

- Eu não tenho muito ! – ela falava, o mais alto que podia, mas mesmo assim bem baixo – mas posso fazer o que você quiser! Só me deixe em paz!

- AHAHA!- meu riso ecoou por alguns becos, mas não parece ter chamado atenção. Ela tremia ferozmente, sem forças para lutar mais, mas mesmo assim, havia um fio de esperança em sua voz quando falou anteriormente, um fio de esperança de que eu a deixasse viva. Claro, caros leitores, que esse mesmo fio se rompeu, como se tivesse sido cortado por uma tesoura invisível, com meu próximo ato. O som de Gertrude (para quem queira saber, essa meus amigos, é minha mais confiável amiga, e ao mesmo tempo, mais afiada faca) tinindo cada vez que eu passava seu fio em um bloco de tamanho mediano, não excessivamente pesado e nem lamentavelmente pequeno, minha pedra de afiar predileta, sempre proporcionando o melhor dos fios., era magnífico, e fazia minha cara convidada tremer dos pés a cabeça. Se bem que, depois de ter cortado, com o maximo de precisão e falta de sutileza, seus dedos, ela entrou em um estado de torpor que para mim é um tanto desagradável:

- Vamos flor do dia!! Acorde! Temos muito o que brincar ainda – isso é o mais importante, ora! O que eu estou falando, tudo é importante! Mas voltando ao assunto, nunca usar anestesia, afinal, não tem graça nenhuma se a estrela do show não desfrutar do momento!

E eu continuei, compondo minha magnânima sinfonia, alem do que, que espetáculo é maior que a morte?

Sabe, eu tenho um sonho, apesar de parecer pretensioso de minha parte, eu quero que todos vejam minha sinfonia quando completa, apreciem minha arte. Após minha convidada de honra estar completamente acordada, percorri noite adentro com meu hobby.

Então ? O entretenimento apresentado esta a gosto de vossa senhoria, caro leitor? Mesmo que esteja, devo me despedir com uma profunda e terrível amargura cutucando meu delicado estado de confiança e estado mental, mas não se preocupem, eu volto.

***

Finalmente recobrava a consciência, depois de não-sei-quanto-tempo desmaiado. Meus braços estavam imobilizados, como se uma cobra estivesse enrolada neles, e o peso que eu sentia em todo o meu corpo... era indescritível, tão substancial mas ao mesmo tempo irreal, somente uma ilusão de minha deturpada mente. Aos poucos fui abrindo meus olhos, e com isso me encontrando num cenário completamente novo. Uma sala muito mal iluminada; estava sentado em uma cadeira de madeira, com meus braços e pernas atados a ela por tiras grossas de couro.

E em meu fronte jazia uma mesa de mogno, de um estilo renascentista inconfundível, que deveria, pela aparência, remeter a meados do século 19, porem, não fora a devastadora beleza de tal artefato que desviara minha atenção para a mesa, justamente, em um ambiente tão desolado, mas ao mesmo tempo tão rico em caracteres da sociedade atual, pichações, grafitagens e etc.

Fora o que, ou melhor, quem se encontrava no tampo da mesa, deitada, resfolegando e gemendo, incontrolavelmente, de puro terror e com uma lamentável pitada de desesperança. Eu conhecia ela, conhecia até demasiado bem, era minha esposa, minha amada esposa. Quando tentei falar, notei que também estava com a boca vedada por uma tira de algum material, possivelmente fita adesiva. Mesmo incapacitado de falar, e em um torpor inigualável por estar vendo minha Heloise, presa, desesperada e em completo estado de pânico.

Devo ter produzido algum tipo de som, pois de repente seus expressivos olhos estavam voltados para mim, seus expressivos e verde esmeralda, olhos. Suas tentativas de se soltar começaram, ou melhor, pelas marcas que seus pulsos apresentavam, recomeçara a tentar, inutilmente, se soltar.

Depois que todo o torpor tinha ido embora, e o sangue do meu rosto desapareceu, me deixando pálido como mármore. Comecei a tentar me soltar também, retesando meus músculos o Maximo que eu podia, a cada tentativa sentia que estava um passo mais perto de poder salvar minha amada, a carne dos meus pulsos já estavam esfoladas, a fadiga aumentava a cada segundo, meus gritos por sobre a fita adesiva ficavam cada vez mais altos.

“Estou conseguindo! Vou poder me soltar e depois salvar ela, essa é a prioridade, salvar ela...” meus pensamentos corriam a ritmo de bala, cada vez se voltando a uma única pergunta, uma pergunta que me deixava constantemente perturbado: “onde estaria a pessoa que nos fez isso, que nos acorrentou?” estava apavorado, não sabia quando, ele ou ela iria chegar. Passos. “Tem alguém aqui! Preciso me apreçar!” Os passos estavam cada vez mais sonoros e indubitavelmente mais perto, cada segundo parecia uma hora e cada hora uma eternidade, até que pararam. Uma porta se abre. Uma porta se fecha. O trinco ressoa, e ele, quem quer que fosse, está aqui, e sabe-se lá o que pretende fazer...