O amor e suas faces

1 Além dos espelhos.


Notas iniciais
Bom...Essa é a primeira oneshot.Espero que gostem e peço que mandem suas opiniões e sugestões nos comentários.

Olhos negros fitavam a si mesmos no antigo espelho. Procuravam enxergar além da íris sombria, mas não havia nada, além de sua própria imagem, que aquela superfície pudesse refletir. Enxergava-se da mesma forma que acreditava que todos a viam.

Observava a pele escura, que não possuía uma mancha ou espinha, enrugar-se entre suas sobrancelhas. Aquele ato de franzir o cenho era tão característico a ela quando tentava entender algo complicado que as pessoas poderiam acreditar ser uma herança genética de sua mãe.

De fato, era difícil o que ela queria entender. O espelho refletia a imagem de uma jovem alta, negra, de longos cabelos que caíam em perfeitos cachos cheios na altura de sua cintura, fazendo contraste com seu corpo franzino. Mostrava-lhe o uniforme velho da escola, que escondia as curvas que seu corpo acabara de formar com o fim da puberdade. Revelava seus olhos amendoados e os lábios grossos.

Mas ele não mostrava sua alma.

Não mostrava seu caráter.

Acabara de ver uma mensagem no facebook que dizia que caráter é aquilo que você é quando não tem ninguém olhando. O que era ela, então? Ela não sabia definir.

“Você é uma das piores pessoas que eu tive o desprazer de conhecer”. – Dissera sua antiga amiga, Emily, no dia anterior. – “Você diz que vai mudar, mas nunca consegue. É um caso perdido mesmo”.

Você é a garota mais inteligente que conheço” – Dissera o único amigo que ainda conseguira manter, Paul, seu professor de matemática.

O que a definia? Ela era realmente o caso perdido que Emily dissera? Ou a pessoa de inteligência rara que Paul tanto ressaltava? O espelho não mostrava nada disso.

Entretanto, à medida que ela mirava sua face, seu peito enchia-se de ódio pela garota que estava a sua frente. Seus erros e egoísmo fizeram com que as pessoas que ela amava fossem se afastando uma a uma. Sua memória trazia a tona lembranças das lágrimas e da dor de cada pessoa que ela havia magoado de alguma maneira.

Não sabia quem era... Não conseguia definir nada.

Mas sabia que sentia uma imensa raiva de suas escolhas.

Viu os olhos ficando vermelhos, enchendo-se de lágrimas e, antes que a primeira escorresse por seu rosto, socou o espelho com toda a força que conseguiu colocar no impacto.

O som daquela superfície quebrando foi tão intenso que cobriu o próprio grito da garota. Os pedaços cortaram várias partes de seu corpo, o sangue escorria por seu braço como se fosse se esvair por completo. As lágrimas já preenchiam seu rosto. Ela queria gritar pra si mesma “eu odeio você!”, mas o segundo som que cortou o ar foi o de uma voz infantil desesperada.

- Lizza!

A velha porta do quarto abriu-se repentinamente enquanto uma menina que possuía uma parte do cabelo presa em uma trança e a outra solta corria até a jovem que chorava. As duas possuíam feições bem parecidas. Porém a criança lançava um olhar de desespero que se encontrava com os olhos avermelhados da mais velha.

- Irmã! O que ta acontecendo maninha? – A pequena olhava os pedaços cortantes no chão e associava-os ao sangue se sujava as roupas brancas do uniforme. – Você ta toda cortada! Ta doendo?

A menina aproximou-se sem medo tentando tocar os machucados da irmã mais velha, que não fazia nada além chorar compulsivamente.

- Maninha fala comigo! – A criança gritou. Enquanto tocava suas mãos. – Elizabeth! Fala comigo!

A jovem moça caiu de joelhos e usava as mãos para tentar afastar a irmã.

- Sai daqui, por favor, princesa. – Disse Liza, não queria que sua irmã mais nova fosse mais uma pessoa atingida pelos seus erros.

- Não, Liza! – A pequena bateu o pé e começou a tentar limpar os ferimentos com uma toalha.- Vou ligar pra mamãe levar você pro hospital. Ela precisa saber que você sofreu esse acidente. – Disse, dirigindo-se à mesa onde se localizava um celular ligado ao carregador.

Elizabeth segurou o braço da irmã, impedindo-a de prosseguir.

- Não foi um acidente, Ana. – Ela falou olhando pra garota que, no auge de seus 9 anos, exibia um jeito mandão, idêntico ao da mãe. – E não quero que ninguém saiba.

Ana franziu o cenho, olhando para a irmã sem entender. Quem iria quebrar um espelho de propósito?

- Por que? – Limitou-se a perguntar.

- Você não vai entender princesa. – Liza respondeu, sentando-se encostada à cama. Sua face expressava a dor devido aos cortes. – Eu preciso sentir isso.

Os olhos de Júlia encheram-se de lágrimas. A criança não entendia o significado daquilo. Sangrar não era uma coisa ruim? Por que alguém precisaria disso?

- Eu não gosto de ver você assim! – Ela falou entre soluços — Por que você precisa sentir dor?

Liza fechou os olhos, após um arquejo de dor conseguiu proferir:

- Porque eu sou uma pessoa ruim. Eu não tenho jeito.

Julia olhou para ela sem entender.

- Como assim uma pessoa ruim? Você não é ruim! É chata. Quer mandar em mim. Mas você me compra balas com o dinheiro que sobra do seu lanche todo fim de semana. Você corta as cascas do meu sanduíche pra mim, me ensina todos os deveres de casa e me leva pra sair quando o papai e a mamãe estão brigando! Você é uma pessoa boa!

Os olhares delas se encontraram. As palavras de Júlia remetiam a atos tão simples que seriam facilmente esquecidos por qualquer pessoa. Aquilo jamais seria o suficiente para definir Liza como uma boa pessoa, porém os olhos da pequena pareciam refletir algo que os espelhos não conseguiam.

Elizabeth quase perdeu os argumentos, mas sua consciência fez com que ela tornasse a dizer.

- Eu não tenho jeito. Você é muito criança pra me entender, Júlia.

A mais nova chegou mais perto, enxugando as lágrimas da irmã com suas próprias mãos. Ela não entendia porque sua irmã se achava ruim. Mas sabia que ela estava triste. Júlia não gostava de ver ninguém chorando.

Seus olhares estavam mais próximos. Elizabeth sentiu algo novo ao olhar fixamente para Júlia. Ela refletia algo diferente. Mas Liza não entendia o que era.

- Eu não tinha jeito maninha! – Júlia falou chorando. – E você me ajudou a não reprovar. Me ensinou a me defender daqueles meninos que ficavam me insultando. A mamãe sempre disse que eu não tinha jeito, mas você me ajudou a ter. Você não é uma pessoa ruim!

- Eu já errei demais, pequena. – A mais velha rebateu.

- Mas quando eu tinha errado pra caramba aquelas questões da prova, você disse que eu teria outra prova novinha em folha pra fazer diferente, não é mesmo? Disse que era só eu me esforçar mais e tentar não errar as mesmas questões ou questões parecidas com aquelas. Começa de novo, maninha.

Elizabeth calou-se.

Júlia, com seu olhar e suas palavras tão simples. Conseguira calar todos os argumentos que ela tinha contra si. Liza finalmente reconheceu o que ela era naquele olhar da pequena irmã.

Ela era amada.

Ela era, também, alguém que amava.

O abraço das duas fez-se mutuamente. As duas estavam em prantos.

- Obrigada. – Liza falou entre seus soluços.

- Eu te amo. – As duas falaram ao mesmo tempo.

Agora era a hora de recomeçar.

Notas finais
E a? Gostaram?