O amor é um mistério
7 Capítulo 6

Era sábado de manhã e quando acordei me sentia descansada. Ainda era cedo, 08:00 da manhã, só iria para o trabalho mais tarde, então aproveitei meu tempo livre para relembrar sobre a conversa que havia tido com minha mãe na noite anterior.
Flash Back On
— A culpa é minha, eu sei, devia estar cuidando de você e não o contrário filha. Eu realmente sinto muito. – Ela desculpava-se.
— Mãe, não é a primeira vez que ouço isto. Se não houver mudanças, não adianta pedir desculpa. – Retruquei friamente.
Ela me encarou frustrada por um momento, depois sorriu me deixando confusa.
— Você é idêntica ao seu pai. – Ela esclareceu – Sinto falta dele. – Emendou.
— Eu também mãe, mas temos que seguir em frente, por nos e por ele. – Digo.
Mamãe evitava ao máximo falar dele, eu sabia como era delicado pensar em sua morte.
— Vou fazer o máximo de esforço para não beber. Vou trabalhar mais dias por semana para ocupar minha cabeça e a Senhora Angry até conseguiu algumas consultas para mim com sua filha que é psicóloga. – Diz esperançosa.
— Eu quero que dê certo, torço por sua felicidade mamãe. – Digo tentando dar apoio, e escondendo qualquer sinal de minha descrença.
— Obrigado meu amor. – Ela diz segurando uma de minhas mãos. – Eu te amo. – Ela diz me deixando surpresa, há tempos não escutava isso.
— Eu também te amo. – Retribuo suas palavras de carinho.
— Vou deitar agora. – Ela diz levantando-se. – Alias, seu namorado é uma graça. – Ela comenta com um sorrisinho.
— Ele não é meu namorado. – Digo levantando-me também.
— E por que não? É obvio que existe uma faísca entre vocês. – Ela diz, enquanto subimos as escadas juntas.
— Não é tão simples assim mamãe, no momento somos amigos e estou satisfeita com isto. – Minto para ela e para mim mesma.
— Tudo bem, confio em suas escolhas, só não quero que deixe o amor lhe escapar. Você merece ser feliz filha. – Ela comenta e por um instante fico emocionada com sua declaração. – Boa noite. – Ela despede-se, indo para seu quarto.
Flash Back off
Eu queria me apaixonar? Toda vez que pensava no amor sentia muito medo. Medo de me magoar, medo de perder a pessoa amada, medo de não ser correspondida, eram muitos tipos de medo relacionado a este sentimento.
Mamãe já havia ido trabalhar, e como Derek tinha organizado a casa praticamente toda na noite anterior, não tinha muito o que fazer. Liguei meu computador e comecei a adiantar o trabalho de biologia. Fazer dupla com Derek depois do nosso quase beijo seria bem constrangedor.
Esquentei o restante da comida da noite anterior e almocei assistindo TV. Logo depois tomei um banho e estava me arrumando para ir trabalhar quando ouvi a campainha tocar. Desci apreensiva as escadas, não recebíamos muitas visitas e como estava sozinha fiquei um pouco receosa.
Olhei pelo olho mágico e não pude acreditar, era ele! Respirei fundo e abri a porta.
— Olá. – Derek me cumprimentou, entrando sem cerimonia em minha casa.
— Oi Derek, pode entrar viu?! – digo com sarcasmo fechando a porta.
Ele me olha, tentando conter um sorriso.
— Pensei que fosse de casa a essa altura do campeonato. – Ele diz, mantendo-se a uma distância segura de mim.
— Acho que é, virou meu melhor amigo depois de ontem. – Digo tentando ser amigável. Ele sorriu genuinamente satisfeito em saber disto.
—Vai sair? – Perguntou notando minha blusa do uniforme.
— Sim, tenho que estar na lanchonete as 14hrs. – Explico, subindo as escadas e voltando ao banheiro para ajeitar meus cabelos. Derek me acompanha e fica me observando.
— Vou te dar uma carona. – Ele anuncia.
— Ok, eu agradeço. – Digo sem discutir. Ele ri e me encara atordoado. – Que foi? – Pergunto curiosa.
— Há uns dias quase tive de implorar para que entrasse em meu carro, mas hoje você aceitou sem reclamar. Estou impressionado! – Ele diz satisfeito.
— Somos amigos, não tem nada de mal em tirar proveito de uma carona. – Digo divertida e nos dois rimos.
Termino de me arrumar e volto para meu quarto para pegar minha bolsa e alguns objetos.
— Se quiser podemos ir ao depósito amanhã olhar uma porta nova. – Ele diz apontando para o batente agora sem porta do meu quarto.
— Não sei se quero gastar dinheiro com isso. – Digo com honestidade, eu era bem mão-de-vaca para ser sincera.
— É questão de privacidade e de segurança Anna. – Ele me repreende levemente. Olho para ele e reflito por alguns segundos.
— Vou pensar nisso. Vamos? – Pergunto caminhando em sua direção.
Verifico se a casa está toda trancada e saio com Derek em direção ao seu carro. Ele abre a porta do carona para mim e eu entro. De repente uma questão passa por minha cabeça. Espero ele entrar e pergunto.
— Porque veio aqui hoje?
— Para ver se estava bem. – Ele responde, esboçando um sorriso.
— Estou melhor obrigada. – Digo ruborizando. Sua preocupação comigo me fazia sentir bem.
Ficamos o restante do caminho em um silêncio agradável, quando estacionou em frente a lanchonete, virou-se para mim e perguntou:
— Que horas você sai?
— As 22:30, por que? – retruco, desafivelando meu cinto.
— Vou vir te dar carona. – Ele diz confiante.
— Nem pensar, eu sei andar e me viro sozinha. – Digo saindo do carro, não precisava de babá. Dei a volta e me aproximei da janela do motorista. – Obrigada pela carona. – Eu agradeci e entrei na lanchonete.
Senhora Jones me encheu de perguntas sobre o incidente ocorrido e a cada detalhe ela parecia ficar mais preocupada comigo e minha mãe. Felizmente os clientes de sábado apareceram e não tive tempo de escutar o sermão que ela estava prestes a me dar.
Lá pela hora do jantar, Patrick, Joyce e Derek entraram na lanchonete juntos, eles conversavam animadamente e quando me viu Derek acenou com a cabeça e sorriu. Pelo visto tinham voltado as boas.
— Boa noite! O que vão querer hoje? – Perguntei, evitando contato visual, olhando apenas para meu bloco em branco.
— Vou querer salada e um frango assado. – Joyce foi a primeira a se pronunciar.
— Macarrão na chapa para mim. – Patrick disse em seguida.
— Vou querer arroz, fritas e bife de boi. – Derek falou.
— E para beber? – Pergunto.
— Duas latas de coca e uma limonada. – Joyce conclui.
— Ok, já trago. – Digo dando as costas para eles e voltando ao balcão.
Não pude deixar de notar que Joyce e Patrick não deram uma de antipáticos como sempre faziam quando viam aqui, nem sequer deram risadinhas e apontaram para mim. Talvez Derek os tivesse proibido de fazer algo do tipo e no fundo fiquei agradecida com este pensamento.
Depois de prontos os pedidos, eu os servi e comecei a limpar as mesas vazias.
O resto da noite passou de forma tranquila, antes de ir embora para casa eu pretendia passar no banco para depositar o dinheiro que havia recebido na noite anterior em minha conta. Porém, lá estava ele no estacionamento me esperando, caminhei em sua direção com a melhor cara de indignação que tinha.
— O que faz aqui? – Perguntei incrédula para Derek.
— Vim te levar para casa. – Respondeu inocente.
— Que pena, porque não estou indo para lá. – Digo, dando as costas e começando a caminhar.
Derek segura meu braço, virando-me de frente para ele.
— Posso saber aonde vai? – Ele pergunta.
— Porque isso importa? – Retruquei.
Derek soltou um suspiro pesado, parecia bem frustrado comigo e senti um leve aperto no coração por causar aquela sensação nele.
— Você tem razão, não devia me importar. – Ele diz me encarando.
— Eu não estou acostumada com isso, não sei como é ter de dar satisfações a alguém e muito menos como ser cuidada. Eu agradeço tudo que está fazendo por mim, acho que só preciso de tempo para me acostumar. – Explico-me tentando suprir a louca necessidade de agradá-lo.
— Tudo bem. – Ele diz. – Isto quer dizer que se eu me oferecer para leva-la aonde precisa ir, porque está escuro e pode ser perigoso, você não iria se importar?
— Tenho que ir ao banco, usar o caixa para fazer um deposito. – Respondo, dando um suspiro derrotado e caminhando para o carro.
Derek corre para abrir a porta para mim, seus modos de cavalheiro nem me surpreendiam tanto mais.
Quando chegamos ao banco, ele desceu comigo e me acompanhou. Eu preenchia o envelope enquanto ele ficava me rodeando, olhando para o lado de fora, como se esperasse que alguém aparecesse por ali.
— Você está me deixando tensa. -Comento indo em direção a um dos caixas. – Por acaso tem medo de sair à noite?
Ele não responde imediatamente e acho que nem pretende.
— Já ouviu falar que a noite é quando os monstros saem? – Ele perguntou e senti seu hálito quente em minha nuca. Dei um pulo com o susto de ter ele assim tão próximo, nem havia escutado sua aproximação.
— Não acredito em monstros. – Respondo.
— Pois deveria. – Ele diz e se afasta.
Não entendo o que ele quer dizer com isto, mas estava cansada demais para pensar, havia tido um dia longo no trabalho. Termino de fazer meu depósito e voltamos para o carro.
Conhecia bem pouco de Derek, era um garoto lindo cuja a legião de fãs no colégio era crescente. Mas não era metido ou esnobe, pelo contrário, ele era um garoto bem reservado e tinha somente um amigo ou pelo menos eu pensava ser seu amigo.
— Você e Patrick são amigos? – Perguntei sem filtrar as palavras. Derek desviou o olhar da estrada para mim por um breve momento, e vi quando sua testa enrugou. Droga! Eu o havia irritado.
— Somos cunhados. – Ele responde depois de um longo período em silêncio.
— Mas antes dele namorar sua irmã, vocês eram próximos? – Insisti, estava bem curiosa.
— Vamos dizer, que eu e ele temos bastante coisa em comum, somos colegas. – Ele responde. Era obvio que estava sendo bem vago em suas respostas pois havia algo a esconder.
— Porque você protegeu ele então? Porque não disse que era ele quem estava dirigindo? – Pergunto.
Derek desliga o veículo e percebo que já chegamos em minha casa. Ele se vira para mim e nos encaramos.
— Patrick já se envolveu em problemas antes, não podia aparecer neste acidente. Se meu pai soubesse que ele estava dirigindo, o acusaria de direção perigosa e subornaria quem fosse preciso para prendê-lo. – Ele responde, olhando em meus olhos. – Não me importo com Patrick, naquela noite estávamos cuidando de um problema de Joyce, este era o único motivo para estarmos juntos. E minha irmã me implorou para que eu não o delatasse. – Ele conclui com amargura.
Eu não tinha irmãos, mas podia imaginar o tipo de lealdade que eles tinham. Eu e meu pai costumávamos ser assim.
— Eu entendo. – Digo, desafivelando meu cinto e dando um sorriso compreensivo para ele. – Obrigada ela carona. Boa noite! – Digo saindo do carro.
— Anna? – Ele me chama antes que eu feche a porta.
— Sim? – Pergunto indecisa.
— Pode me fazer um favor? – Ele pergunta meio ansioso.
— Depende. – Respondo receosa.
— Só fique longe de Patrick, ele costuma ter uma personalidade mais complicada que a minha. – Ele diz.
— Duvido muito. – Digo e ele ri um pouco. – Mas atenderei seu pedido. – Concluo sorrindo e fecho a porta.
Ele espera pacientemente eu encontrar minhas chaves e entrar em casa, só depois arranca o carro e vai embora.
Para minha surpresa, mamãe esta fritando coxinhas na cozinha, em pleno sábado à noite e sóbria. Isso que era milagre.
— Boa noite filha! Como foi seu dia? – Ela me cumprimenta sorrindo.
— Cansativo e o seu? – pergunto sentando junto a bancada e jogando minha bolsa no chão.
— Bom. Fiz uma faxina em toda casa, separei muitas coisas boas e joguei muitas coisas fora. O que acha de vendermos pela internet? -Ela perguntou aproximando a bandeja com as coxinhas de mim.
— É uma boa ideia. Posso criar uma conta para você no Mercado Livre, te ensino a usar e podemos usar aquela câmera profissional sua para bater as fotos. – Digo animada em fazermos algo juntas. – Você é muito boa com a câmera. – Emendo sorrindo para ela.
— Tem tanto tempo que não à uso, mas deve ser como andar de bicicleta. – Ela diz, servindo refrigerante para nos duas.
— Vai se dar bem! – Incentivo-a. – E essa coxinha está uma delícia! – Emendo depois de uma mordida.
— Estou inspirada hoje. – Ele diz, mordendo uma das coxinhas também.
Tinha me esquecido como minha mãe poderia ser uma boa companhia, esperava que sua mudança durasse.
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