Era sábado de manhã e quando acordei me sentia descansada. Ainda era cedo, 08:00 da manhã, só iria para o trabalho mais tarde, então aproveitei meu tempo livre para relembrar sobre a conversa que havia tido com minha mãe na noite anterior.

Flash Back On

— A culpa é minha, eu sei, devia estar cuidando de você e não o contrário filha. Eu realmente sinto muito. – Ela desculpava-se.

— Mãe, não é a primeira vez que ouço isto. Se não houver mudanças, não adianta pedir desculpa. – Retruquei friamente.

Ela me encarou frustrada por um momento, depois sorriu me deixando confusa.

— Você é idêntica ao seu pai. – Ela esclareceu – Sinto falta dele. – Emendou.

— Eu também mãe, mas temos que seguir em frente, por nos e por ele. – Digo.

Mamãe evitava ao máximo falar dele, eu sabia como era delicado pensar em sua morte.

— Vou fazer o máximo de esforço para não beber. Vou trabalhar mais dias por semana para ocupar minha cabeça e a Senhora Angry até conseguiu algumas consultas para mim com sua filha que é psicóloga. – Diz esperançosa.

— Eu quero que dê certo, torço por sua felicidade mamãe. – Digo tentando dar apoio, e escondendo qualquer sinal de minha descrença.

— Obrigado meu amor. – Ela diz segurando uma de minhas mãos. – Eu te amo. – Ela diz me deixando surpresa, há tempos não escutava isso.

— Eu também te amo. – Retribuo suas palavras de carinho.

— Vou deitar agora. – Ela diz levantando-se. – Alias, seu namorado é uma graça. – Ela comenta com um sorrisinho.

— Ele não é meu namorado. – Digo levantando-me também.

— E por que não? É obvio que existe uma faísca entre vocês. – Ela diz, enquanto subimos as escadas juntas.

— Não é tão simples assim mamãe, no momento somos amigos e estou satisfeita com isto. – Minto para ela e para mim mesma.

— Tudo bem, confio em suas escolhas, só não quero que deixe o amor lhe escapar. Você merece ser feliz filha. – Ela comenta e por um instante fico emocionada com sua declaração. – Boa noite. – Ela despede-se, indo para seu quarto.

Flash Back off

Eu queria me apaixonar? Toda vez que pensava no amor sentia muito medo. Medo de me magoar, medo de perder a pessoa amada, medo de não ser correspondida, eram muitos tipos de medo relacionado a este sentimento.

Mamãe já havia ido trabalhar, e como Derek tinha organizado a casa praticamente toda na noite anterior, não tinha muito o que fazer. Liguei meu computador e comecei a adiantar o trabalho de biologia. Fazer dupla com Derek depois do nosso quase beijo seria bem constrangedor.

Esquentei o restante da comida da noite anterior e almocei assistindo TV. Logo depois tomei um banho e estava me arrumando para ir trabalhar quando ouvi a campainha tocar. Desci apreensiva as escadas, não recebíamos muitas visitas e como estava sozinha fiquei um pouco receosa.

Olhei pelo olho mágico e não pude acreditar, era ele! Respirei fundo e abri a porta.

— Olá. – Derek me cumprimentou, entrando sem cerimonia em minha casa.

— Oi Derek, pode entrar viu?! – digo com sarcasmo fechando a porta.

Ele me olha, tentando conter um sorriso.

— Pensei que fosse de casa a essa altura do campeonato. – Ele diz, mantendo-se a uma distância segura de mim.

— Acho que é, virou meu melhor amigo depois de ontem. – Digo tentando ser amigável. Ele sorriu genuinamente satisfeito em saber disto.

—Vai sair? – Perguntou notando minha blusa do uniforme.

— Sim, tenho que estar na lanchonete as 14hrs. – Explico, subindo as escadas e voltando ao banheiro para ajeitar meus cabelos. Derek me acompanha e fica me observando.

— Vou te dar uma carona. – Ele anuncia.

— Ok, eu agradeço. – Digo sem discutir. Ele ri e me encara atordoado. – Que foi? – Pergunto curiosa.

— Há uns dias quase tive de implorar para que entrasse em meu carro, mas hoje você aceitou sem reclamar. Estou impressionado! – Ele diz satisfeito.

— Somos amigos, não tem nada de mal em tirar proveito de uma carona. – Digo divertida e nos dois rimos.

Termino de me arrumar e volto para meu quarto para pegar minha bolsa e alguns objetos.

— Se quiser podemos ir ao depósito amanhã olhar uma porta nova. – Ele diz apontando para o batente agora sem porta do meu quarto.

— Não sei se quero gastar dinheiro com isso. – Digo com honestidade, eu era bem mão-de-vaca para ser sincera.

— É questão de privacidade e de segurança Anna. – Ele me repreende levemente. Olho para ele e reflito por alguns segundos.

— Vou pensar nisso. Vamos? – Pergunto caminhando em sua direção.

Verifico se a casa está toda trancada e saio com Derek em direção ao seu carro. Ele abre a porta do carona para mim e eu entro. De repente uma questão passa por minha cabeça. Espero ele entrar e pergunto.

— Porque veio aqui hoje?

— Para ver se estava bem. – Ele responde, esboçando um sorriso.

— Estou melhor obrigada. – Digo ruborizando. Sua preocupação comigo me fazia sentir bem.

Ficamos o restante do caminho em um silêncio agradável, quando estacionou em frente a lanchonete, virou-se para mim e perguntou:

— Que horas você sai?

— As 22:30, por que? – retruco, desafivelando meu cinto.

— Vou vir te dar carona. – Ele diz confiante.

— Nem pensar, eu sei andar e me viro sozinha. – Digo saindo do carro, não precisava de babá. Dei a volta e me aproximei da janela do motorista. – Obrigada pela carona. – Eu agradeci e entrei na lanchonete.

Senhora Jones me encheu de perguntas sobre o incidente ocorrido e a cada detalhe ela parecia ficar mais preocupada comigo e minha mãe. Felizmente os clientes de sábado apareceram e não tive tempo de escutar o sermão que ela estava prestes a me dar.

Lá pela hora do jantar, Patrick, Joyce e Derek entraram na lanchonete juntos, eles conversavam animadamente e quando me viu Derek acenou com a cabeça e sorriu. Pelo visto tinham voltado as boas.

— Boa noite! O que vão querer hoje? – Perguntei, evitando contato visual, olhando apenas para meu bloco em branco.

— Vou querer salada e um frango assado. – Joyce foi a primeira a se pronunciar.

— Macarrão na chapa para mim. – Patrick disse em seguida.

— Vou querer arroz, fritas e bife de boi. – Derek falou.

— E para beber? – Pergunto.

— Duas latas de coca e uma limonada. – Joyce conclui.

— Ok, já trago. – Digo dando as costas para eles e voltando ao balcão.

Não pude deixar de notar que Joyce e Patrick não deram uma de antipáticos como sempre faziam quando viam aqui, nem sequer deram risadinhas e apontaram para mim. Talvez Derek os tivesse proibido de fazer algo do tipo e no fundo fiquei agradecida com este pensamento.

Depois de prontos os pedidos, eu os servi e comecei a limpar as mesas vazias.

O resto da noite passou de forma tranquila, antes de ir embora para casa eu pretendia passar no banco para depositar o dinheiro que havia recebido na noite anterior em minha conta. Porém, lá estava ele no estacionamento me esperando, caminhei em sua direção com a melhor cara de indignação que tinha.

— O que faz aqui? – Perguntei incrédula para Derek.

— Vim te levar para casa. – Respondeu inocente.

— Que pena, porque não estou indo para lá. – Digo, dando as costas e começando a caminhar.

Derek segura meu braço, virando-me de frente para ele.

— Posso saber aonde vai? – Ele pergunta.

— Porque isso importa? – Retruquei.

Derek soltou um suspiro pesado, parecia bem frustrado comigo e senti um leve aperto no coração por causar aquela sensação nele.

— Você tem razão, não devia me importar. – Ele diz me encarando.

— Eu não estou acostumada com isso, não sei como é ter de dar satisfações a alguém e muito menos como ser cuidada. Eu agradeço tudo que está fazendo por mim, acho que só preciso de tempo para me acostumar. – Explico-me tentando suprir a louca necessidade de agradá-lo.

— Tudo bem. – Ele diz. – Isto quer dizer que se eu me oferecer para leva-la aonde precisa ir, porque está escuro e pode ser perigoso, você não iria se importar?

— Tenho que ir ao banco, usar o caixa para fazer um deposito. – Respondo, dando um suspiro derrotado e caminhando para o carro.

Derek corre para abrir a porta para mim, seus modos de cavalheiro nem me surpreendiam tanto mais.

Quando chegamos ao banco, ele desceu comigo e me acompanhou. Eu preenchia o envelope enquanto ele ficava me rodeando, olhando para o lado de fora, como se esperasse que alguém aparecesse por ali.

— Você está me deixando tensa. -Comento indo em direção a um dos caixas. – Por acaso tem medo de sair à noite?

Ele não responde imediatamente e acho que nem pretende.

— Já ouviu falar que a noite é quando os monstros saem? – Ele perguntou e senti seu hálito quente em minha nuca. Dei um pulo com o susto de ter ele assim tão próximo, nem havia escutado sua aproximação.

— Não acredito em monstros. – Respondo.

— Pois deveria. – Ele diz e se afasta.

Não entendo o que ele quer dizer com isto, mas estava cansada demais para pensar, havia tido um dia longo no trabalho. Termino de fazer meu depósito e voltamos para o carro.

Conhecia bem pouco de Derek, era um garoto lindo cuja a legião de fãs no colégio era crescente. Mas não era metido ou esnobe, pelo contrário, ele era um garoto bem reservado e tinha somente um amigo ou pelo menos eu pensava ser seu amigo.

— Você e Patrick são amigos? – Perguntei sem filtrar as palavras. Derek desviou o olhar da estrada para mim por um breve momento, e vi quando sua testa enrugou. Droga! Eu o havia irritado.

— Somos cunhados. – Ele responde depois de um longo período em silêncio.

— Mas antes dele namorar sua irmã, vocês eram próximos? – Insisti, estava bem curiosa.

— Vamos dizer, que eu e ele temos bastante coisa em comum, somos colegas. – Ele responde. Era obvio que estava sendo bem vago em suas respostas pois havia algo a esconder.

— Porque você protegeu ele então? Porque não disse que era ele quem estava dirigindo? – Pergunto.

Derek desliga o veículo e percebo que já chegamos em minha casa. Ele se vira para mim e nos encaramos.

— Patrick já se envolveu em problemas antes, não podia aparecer neste acidente. Se meu pai soubesse que ele estava dirigindo, o acusaria de direção perigosa e subornaria quem fosse preciso para prendê-lo. – Ele responde, olhando em meus olhos. – Não me importo com Patrick, naquela noite estávamos cuidando de um problema de Joyce, este era o único motivo para estarmos juntos. E minha irmã me implorou para que eu não o delatasse. – Ele conclui com amargura.

Eu não tinha irmãos, mas podia imaginar o tipo de lealdade que eles tinham. Eu e meu pai costumávamos ser assim.

— Eu entendo. – Digo, desafivelando meu cinto e dando um sorriso compreensivo para ele. – Obrigada ela carona. Boa noite! – Digo saindo do carro.

— Anna? – Ele me chama antes que eu feche a porta.

— Sim? – Pergunto indecisa.

— Pode me fazer um favor? – Ele pergunta meio ansioso.

— Depende. – Respondo receosa.

— Só fique longe de Patrick, ele costuma ter uma personalidade mais complicada que a minha. – Ele diz.

— Duvido muito. – Digo e ele ri um pouco. – Mas atenderei seu pedido. – Concluo sorrindo e fecho a porta.

Ele espera pacientemente eu encontrar minhas chaves e entrar em casa, só depois arranca o carro e vai embora.

Para minha surpresa, mamãe esta fritando coxinhas na cozinha, em pleno sábado à noite e sóbria. Isso que era milagre.

— Boa noite filha! Como foi seu dia? – Ela me cumprimenta sorrindo.

— Cansativo e o seu? – pergunto sentando junto a bancada e jogando minha bolsa no chão.

— Bom. Fiz uma faxina em toda casa, separei muitas coisas boas e joguei muitas coisas fora. O que acha de vendermos pela internet? -Ela perguntou aproximando a bandeja com as coxinhas de mim.

— É uma boa ideia. Posso criar uma conta para você no Mercado Livre, te ensino a usar e podemos usar aquela câmera profissional sua para bater as fotos. – Digo animada em fazermos algo juntas. – Você é muito boa com a câmera. – Emendo sorrindo para ela.

— Tem tanto tempo que não à uso, mas deve ser como andar de bicicleta. – Ela diz, servindo refrigerante para nos duas.

— Vai se dar bem! – Incentivo-a. – E essa coxinha está uma delícia! – Emendo depois de uma mordida.

— Estou inspirada hoje. – Ele diz, mordendo uma das coxinhas também.

Tinha me esquecido como minha mãe poderia ser uma boa companhia, esperava que sua mudança durasse.

Notas finais
Quem mais ai curti capítulo baunilha? kkkkkk Beijos