O Voo Do Passarinho

17 Capítulo 17 - Gelo e Fogo


Uma corrente de ar frio fez com que Sansa despertasse. Já não estava mais em mar aberto, mas não conseguia dizer se estava ou não dentro de um navio. O cômodo onde se encontrava era feito de pedras, o teto revelava o material da construção e por um breve instante pensou ser uma torre. Todo o ambiente estava iluminado por uma luz azulada que mal exercia sua função. Embora não houvessem portas ou janelas, podia sentir um vento frio percorrer o lugar. A garota se pôs em pé a procura de alguém. Ela conseguia ouvir o murmurinho de um grupo de pessoas conversando não tão distante de si e no entanto não via vivalma.

– Olá? — Chamou, sem obter resposta.

Conforme os seus olhos iam se acostumando com a escuridão ela pôde perceber que nas paredes haviam espelhos tão grandes que começavam no solo e terminavam no teto com molduras feitas da madeira mais refinada possível e toda talhada a mão em figuras abstratas, contudo não conseguia enxergar nada refletido neles, nem mesmo a si própria.

– Alguém pode me ajudar? O navio no qual eu estava foi atacado — Começou — Eu saltei no mar junto com... — Ela não poderia dizer o nome dele, não enquanto não soubesse com quem estava falando — ... um homem muito alto, com um lado da face queimada. Havia também um cavalo de pelagem negra.

Os murmurinhos finalmente terminaram, contudo ninguém se dirigiu a ela e nenhum barulho de passos foi ouvido, mas a sua pergunta ecoara pelas paredes espelhadas. O frio por sua vez aumentou e a jovem abraçou o próprio corpo para manter-se aquecida.

– Diga o nome — Uma voz dupla ordenou. Conseguiu distinguir um tom masculino e um feminino que ressoava uníssono.

– Licença? — Alarmou-se.

– Diga o seu nome, moça — A voz tornou a pedir, ressoando por todo o ambiente sendo impreciso dizer de onde exatamente ela vinha.

Sabia que não era sensato dar o seu nome verdadeiro, porém podia sentir que aquelas pessoas possuíam pleno conhecimento sobre a sua real identidade, e ela sempre fora uma terrível mentirosa em situações como esta. Sandor a repreenderia se desse o nome verdadeiro e estava decidida a receber um elogio pela bravura, mas em todo o caso, não sabia que resposta dar. Diferente de Arya, Sansa nunca recebera tantos apelidos e os que tinha sentia vergonha em dizer em voz alta. Em Porto Real ela fora chamada de Pombinha pela Rainha Regente, Cersei Lannister, enquanto era chamada de Passarinho por Sandor Clegane desde que ela o elogiara durante o Torneio da Mão, logo que chegara a capital do reino e não podia se esquecer de que na última quinzena fora Jonquil, a musa inspiradora do bardo Yros que se considerava o seu Florian, como na canção. De todas as formas que fora conhecida, essa era a que mais fez sentido no momento.

– Jonquil — Disse, sem emoção, tentando esconder os nervos.

Jonquil– A voz repetiu e uma rajada de vento procedeu os dizeres acompanhada por uma luz que emergiu de dentro de um dos espelhos localizado à esquerda de Sansa.

A moça posicionou os olhos direto para o seu reflexo depois de piscar diversas vezes devido à claridade abrupta. O reflexo mostrado não condizia a imagem atual dela e sim ao dia em que cantara em público com Yros na pousada de Alíria em Felwood. Não entendia como aquilo era possível, espelhos comuns não tinham o poder de exibir o passado, na realidade, Sansa nunca ouvira falar de algo que tivesse esta habilidade, e se surpreendeu ainda mais quando a sua versão de Jonquil começou a cantar a canção Florian e Jonquil, ainda que naquela noite tivesse cantado o mais alto sem perder a harmonia na melodia, agora o seu tom saia suave como uma canção de ninar e não ecoava pelo lugar como o diálogo que travava com a voz dupla sem forma. A felicidade da sua imagem era tão grande que foi impossível não se sentir contagiada por ela. Ganhar a atenção e a admiração de uma multidão era uma das coisas que sempre desejara e quando isto se tornou realidade não pôde negar o sentimento de realização que a consumiu.

– Quem é você, criança? — A voz voltou a lhe perguntar.

O coração disparou e foi bater em sua boca. Esta questão só provava que o que suspeitara era real, as vozes realmente sabiam quem era ela.

Engoliu em seco.

– Sou Jonquil... — A frase saiu trêmula, dominada pela insegurança.

– Não há nenhuma criança com este nome — A voz era áspera. Sansa sentiu que ela lia os seus pensamentos.

Podia insistir na mentira e acabar irritando aquelas pessoas ou respirar fundo e entregar-se à obviedade. Preferiu optar pela segunda opção, qualquer que fosse a consequência.

– Sansa Stark — Respondeu com altivez, fincando as unhas na palma de sua mão em sinal de arrependimento. Sandor vai me repreender quando souber, pensou. Vou ser levada de volta para Porto Real e entregue à Joffrey que me castigará me esfolando viva diante de toda a Corte. O terror a consumia e a fazia tremer como vara verde. Ser castigada não era o pior de sua imaginação, o pior era visualizar as mãos pesadas de Sor Boros Blount aplicando os golpes ao comando do Rei, e mesmo que fosse Sor Meryn Trant a puni-la, as cicatrizes seriam garantidas. As mãos de Sandor são as mais gentis, recordou quando ele batera-lhe na face na Matadorrei, talvez se fosse ele quem tivesse sido o seu agressor em Porto Real ela conseguisse aturar melhor os golpes que lhe foram proferidos e carregaria menos cicatrizes. E no fim eu não teria aceito a proposta dele, constatou.

Sansa Stark– A voz repetiu com satisfação e mais um espelho se iluminou, este estando na parede oposta ao primeiro.

Fechou os olhos o mais forte que pode e além do frio, nada de ruim acontecera, nada de passos, nada de correntes ou gritos de ordem, apenas o som da música Florian e Jonquil ressoava pelo lugar. Convencendo-se de que estava segura, abriu um olho e depois o outro. Um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto e sem nada o que temer, virou-se para o novo espelho que teve o seu conteúdo revelado.

O que viu na imagem não condizia com quem ela era atualmente, o que ela viu foi o seu eu passado. Olhando de volta para ela estava a garotinha ruiva que vivia em Winterfell com um grande sorriso nos lábios, aquela menina que sonhava com donzelas e cavaleiros, a filha de Eddard Stark e Catelyn Tully, não a filha do traidor e da captora do Duende. O seu reflexo não tinha mais do que oito anos de idade e tudo a respeito dele tinha característica do Norte, ela até podia sentir o cheiro do casco da árvore coração, dos bolos de limão, dos tecidos que praticava o corte e costura sob a supervisão de sua Septã e até dos seus sais de banho. Era pra essa vida que ela queria voltar, foi para resgatar o seu passado que aceitara a proposta do Cão de Caça, foi por isso e apenas por isso que ela aguentara todos os infortúnios pelos quais passara até agora.

– Diga o seu nome, criança — A voz tornou a ordenar. Sansa se assustou, sendo retirada de seu transe. Havia lhes dado o verdadeiro nome, ela era Sansa Stark, ainda que o seu eu atual fosse diferente daquele que estava sendo refletido no espelho — Diga o seu nome, criança, quem você é– O tom da voz era como o carinho de um adulto que se dirigia à uma criança que se separara de seus pais.

– Sansa Stark — Tornara a dizer — Eu sou Sansa Stark!

Dessa vez dois outros espelhos em lugares diferentes se iluminaram e o reflexo dela apareceu. Ela se viu com catorze anos no primeiro, ela já havia aderido características do Sul, suas roupas eram sulistas e o seu penteado também o era. Sua pele estava corada, ela agora vivia em um lugar em que os dias quentes eram constantes, mesmo que o longo verão estivesse chegando ao fim. Seu sorriso era mais comportado e em seu pescoço descoberto via-se um pingente de leão, o primeiro presente que recebera de Joffrey e que ela tinha orgulho em exibir. Se eu soubesse como realmente era o seu caráter, nunca teria aceitado nada vindo dele. A recordação lhe despertara maus sentimentos e desviou o olhar para o outro espelho aceso à dois vãos de distância do anterior. Ali encontrava uma versão sua mais velha do que a atual, já próxima a casa dos vinte anos. Seus cabelos voltaram a exibir sua cor natural, apenas as pontas traziam a tintura escura que tinha atualmente, o restante exibia o belo pigmento cobre, herança do lado Tully de sua descendência. Seu olhar era diferente das outras imagens. Havia ali um senso de maturidade que superava o de muitas mulheres adultas mais velhas do que ela. Sua expressão facial era rígida e seus olhos severos, ainda assim era possuidora de uma beleza incontestável. Dessas duas imagens, nenhuma emitia som.

– Diga o seu nome, mulher — A voz pediu depois de um longo momento em silêncio.

– Sansa Stark — Disse novamente, agora sem pestanejar.

Dessa vez nada aconteceu, nenhum espelho se acendeu e nenhum vento frio percorreu o cômodo.

– Diga o seu nome, mulher, quem é você — A voz repetiu o pedido.

Estava confusa. Já havia dito quem era diversas vezes e, ainda assim, aquelas pessoas insistiam em obter o seu nome.

– Eu já disse, sou Sansa Stark, filha de Eddard Stark e Catelyn Tully — Exclamou suas certezas.

– Diga o seu nome, mulher, como é conhecida — A voz ressoou, áspera como lixa de madeira. Sansa reconheceu pesar e frustração na frase que cada vez tinha uma entonação diferente.

Havia juntado os dedos de uma mão na outra e transpirava frio, mesmo o calor estando isento no ambiente. Aquelas pessoas insistiam em lhe obter um nome e já havia lhes dado dois: o seu verdadeiro e um que criara para ocultar a identidade. Da lista que havia criado de como era conhecida apenas dois restavam.

– Pombinha — Respondeu — Eu sou Pombinha — Ainda não daria a forma como Clegane a chamava como resposta, tinha certeza do que veria e embora o resultado fosse previsível em seu conceito, sentia medo; um medo saudável e sensato do que estaria por vir.

– Diga o seu nome, mulher – A voz trazia um elemento de raiva.

– Sou Pombinha — Tornou a insistir. Já havia passado por uma fase na qual era a Pombinha de Cersei, não havia como aquela voz negar-lhe a realidade. Ela sabia mais do que essa coisa a respeito disso — Fui Pombinha — Corrigiu-se — Após a morte de meu pai, quando estava sobre a proteção da Rainha Regente.

Um espelho foi iluminado, aquele ao lado do qual estava o seu reflexo infantil que ainda a encarava. Uma nova imagem foi revelada. Sansa abriu um pequeno sorriso de satisfação. Afinal de contas, eu estava certa, pensou. Porém a imagem refletida não era uma das mais felizes. Ela se recordava daquela expressão de desespero, foi quando a Rainha lhe chamara aos seus aposentos após o seu pai ter sido preso como traidor, dando sequência à série de acontecimentos desastrosos para o reino que procedeu à morte do rei Robert I. Sansa engoliu em seco. Agora ela entendia que a sua confissão serviu como prova de que o Lorde Stark era de fato um traidor. Se eu soubesse o que estava fazendo na época... O pensamento sobre o acontecido morreu no ar. Havia tantas coisas que ela podia ter feito diferente se tivesse sido corajosa, honesta e agido como a Lady que era esperada que fosse; ainda poderia estar com a família, em Winterfell, podia ter se casado com um Lorde do Norte, talvez Theon para por fim definitivo na rivalidade dos Starks com os Greyjoy através de uma aliança, não que o rapaz de cabelos cor de palha lhe agradasse, mas seria uma escolha sensata e poderia aprender a respeitá-lo como marido. Nunca a amá-lo, confessou internamente.

Por outro lado, se as coisas realmente tivessem seguido um rumo diferente ela não teria conhecido Sandor Clegane e esta constatação lhe causou um aperto inexplicável no peito. Ele não se importa com o dinheiro ou o dever... fora o que Alíria lhe dissera pouco tempo antes de falecer. Tudo o que Sandor estava fazendo por ela não era em busca de riquezas e nem de glória, ele fazia porque se importava com a jovem que carregava p sobrenome da Casa dos lobos gigantes, não com o seu brasão, seus bens e sua família. Talvez ele seja a única pessoa a me ver dessa forma. Não estava errada sobre isso, tinha absoluta certeza. Todos que se aproximavam dela faziam questão de lembrá-la quem era: a segunda filha de Lorde Eddard Stark com Lady Catelyn Tully, a quarta na linha de sucessão de Winterfell. Com dois de seus irmãos mortos e Robb enfrentando inúmeras batalhas para vingar a morte do pai, Sansa era a candidata mais forte para herdar o Norte. Claro que ainda havia Arya na lista, mas esta era a última na linha de sucessão e com o paradeiro incerto, estava sendo mais fácil tratá-la como morta do que aceitar a sua pretensão.

Se eu nunca o tivesse conhecido... Deixou-se mergulhar em seus pensamentos sobre a possibilidade. Se Sansa nunca tivesse ido para Porto Real ela não conheceria Sandor. Ele esteve em Winterfell, se recordou. Clegane estava na comitiva do rei que foi até às suas terras persuadir o Protetor do Norte para aceitar o cargo de Mão do Rei. No dia ela estava tão hipnotizada com a presença do Príncipe Joffrey que registrou poucas coisas sobre a chegada deles, mas se lembrava do homem vestindo o elmo em forma de cabeça de cão ao lado do seu amado Joff. Aquela foi a primeira vez que o viu e uma das únicas em que não o temeu, não até ver o seu rosto deformado pelo fogo. Arya o achou fascinante, se lembra de ter conversado sobre isso com a irmã e com a amiga, Jeyne Poole. Septã Mordane as alertou para não olhar diretamente para o rosto do cavaleiro. A curiosidade cresceu dentro dela. O que será que ele deve ter pensado quando me viu em Winterfell? Se questionou. Ele já pensava em mim como sendo um Passarinho? Nunca saberia a resposta, tinha o bom senso de não perguntar este tipo de coisa para ele. As respostas do homem eram na maioria das vezes amargas e não teria paciência para suas palavras, independente do que ele dissesse, sentia que poderia ser ferida facilmente. Há portas que não devem ser abertas, se recordava de ter aprendido isto. Como a porta do meu quarto, interpretou ao pé da letra a recomendação. Na Fortaleza Vermelha abrira a porta de seu quarto para se refugir durante a Batalha de Blackwater, apenas para encontrar Sandor em sua cama à sua espera. Esta tinha sido a primeira oportunidade de mudar o seu destino em relação à ele, a segunda foi no Sufrágio da Donzela, minutos antes de perder a virgindade nos braços do homem que prometeu levá-la em segurança para a família.

– Diga o seu nome, mulher– A voz tornou a ordenar.

Havia apenas um nome restante e estava pensando na pessoa que a chamara assim. Fechou os olhos e inspirou profundamente. A imaginação era mais cruel do que os olhos, o que veria nos reflexos seria a verdade, enquanto os seus pensamentos vagueariam entre as lembranças e as possibilidades.

Passarinho– Disse por fim. Sua voz saiu altiva e sem nenhuma outra emoção além da aceitação de quem era.

Passarinho– A voz tornou a repetir.

Diversos espelhos se acenderam ao som da palavra, mesmo ela tendo pronunciado apenas uma vez o seu nome. Circulando pelo lugar, Sansa pôde contar um total de cinco reflexos novos, nenhum ao lado do outro.

O primeiro que viu foi o que exibia uma mulher na primeira metade de seus vinte anos. Seus cabelos por completo estavam cobres e presos em uma longa trança raiz com flores silvestres fincadas ao longo do penteado. Sua pele possuía uma coloração rósea, resultado de constante exposição ao sol. Um sorriso tímido brotava de seus lábios rubros. O olhar mantinha-se baixo, distante e, nas mãos, segurava algo que preferia manter oculto. Se não fosse pelos traços faciais e o formato do corpo, Sansa podia jurar que era uma versão mais nova sua. Fazia mais de dois anos que não se permitia ficar feliz dessa forma.

Mudando de posição, encontrou o segundo reflexo dos novos que aparecera, este estava entre a sua versão de Pombinha e a de Jonquil, seu lábio inferior estava cortado e havia leves marcas de agressões antigas em baixo de seu olho esquerdo. Porto Real, constatou. Suas mãos infantis lidavam com os botões e os laços de seu vestido de forma desajeitada. Estava se arrumando para encontrar Joffrey. Sansa engoliu em seco. Aquele belo corpete que utilizava seria em breve rasgado e sua nudez seria exposta para toda a corte presente no conselho daquele dia por um breve momento que acabaria com a chegada de Tyrion Lannister. As marcas das agressões que sofrera até os dias de hoje permaneciam em sua pele, tanto externamente quanto em internamente.

Fazendo uma volta de cento e oitenta graus encontrou a terceira imagem. Esta não fazia contato visual consigo, seus olhos estavam fixos no teto, com os seus lábios entreabertos e o rosto rubro exibindo o verdadeiro significado de vermelho na região das bochechas. Imitando o seu reflexo, também corou. Ela estava nua. A camisa de linho branca que trajava era inútil para lhe cobrir o sexo por estar cortada na parte frontal. Oh não... Desviou os olhos. Estava se vendo no momento em que Sandor tocara em seu ventre com a boca. Abraçou o próprio corpo em proteção, sentindo-se ameaçada com a possibilidade de voltar a ser invadida. Sansa não o perdoara pelo o que fizera, talvez nunca o perdoasse de fato, ela só aceitara a realidade de que apesar de tudo, Clegane era sua única opção para se manter a salvo. Quando atracarmos no cais, qualquer cais que seja, dissera para si mesma enquanto estava a bordo do Sufrágio da Donzela, eu o deixarei. Havia se decidido sobre isto, até que o flagrara trocando intimidades com Alíria. Seu sangue voltou a ferver com a recordação. Convencera-se de que não sentia nada por Sandor que não fosse desprezo e pena, entretanto, o seu corpo não correspondia as suas decisões racionais. Estava frustrada por seu protetor não lhe ter cobrado o beijo de recompensa que prometera por ter retornado para levá-la embora do caos que estava acontecendo no navio. Mesmo com o risco de vida após ter saltado ao mar, sua atenção fora depositada nos lábios do homem que a mantinha em segurança fora d'água. Como era de conhecimento comum, o Cão de Caça dos Lannisters tinha metade da face queimada e os seus lábios não fugiram da sina. Ao redor da boca, diversos pelos pobremente aparados cresciam, do lado direito, a parte intacta do rosto, seu número era maior e mais regular, na parte esquerda, a parte destinada as queimaduras, eles eram poucos e se perdiam no meio das cicatrizes. Quando sóbrio e de mau humor, os sorrisos eram escaços e podia-se observar bem o formato de sua boca; seus cantos eram caídos acentuando o seu ar de poucos amigos. Do lado queimado da face os lábios não passavam de meros fios de carne disforme, sendo difícil separar a boca e o maxilar, o restante de lábio que lhe sobrava era fino e rachado. Não havia muito o que beijar ali, muito menos o que desejar e por esta razão não conseguia entender como ele era capaz de causar tanto estrago em seu emocional, fosse beijando-a na boca ou naquela região que o reflexo diante de si revelava. O calor subiu pelo corpo. Queria ver sua imagem, mas a sensação de que estava fazendo algo errado a impedia. Do mero relance que teve percebeu que da cintura para baixo onde Sandor se encontrava no exato momento em que a cena foi registrava estava transparente, deixando visível todo o seu corpo. Sansa nunca antes tinha visto o próprio sexo, era mais uma injustiça que acreditava ter sofrido pelo homem que a vira nua antes dela tê-lo feito.

Sem poder suportar um segundo a mais aquela revelação constrangedora, procurou o novo reflexo e o encontrou com grande facilidade, estando separado dos demais entre seis espelhos com o conteúdo oculto pelo vidro fosco de tonalidade fumê. A Sansa da imagem não estava tão mais velha do que ela, não sabia dizer se haviam se passado anos ou dias desde o momento atual. Seus cabelos continuavam escuros até a raiz, sua pele estava clara e rígida como marfim e de seus olhos escorriam cascatas de água. Como a sua versão de Jonquil, essa versão do Passarinho também emitia som, porém não era uma música e sim uma única palavra dita em um sussurro lamuriento. Sansa precisou se aproximar mais do reflexo para o ouvir.

Reyla...– Chamou o nome feminino diversas vezes antes de esconder o rosto em um manto branco.

Sansa já ouvira este nome antes, só não conseguia se lembrar onde e quem o dissera. Muitas coisas de seu passado não eram nada além de lembranças de um sonho ou páginas puladas de um livro que só foi lido uma vez e pelo próprio autor. O manto! exclamou internamente ao reconhecer o pedaço de pano que outrora estivera sobre a posse de Sandor. Suas mãos rapidamente encontraram o caminho até as suas costas e se surpreendeu ao reconhecer o tecido. Durante a fuga teve pouco tempo para pegar o que lhe era necessário e/ou estimado, sendo que a capa da Guarda Real fora um dos únicos pertences escolhidos. Desatando o nó que o prendia as suas costas, trouxe-o para frente de seu corpo. Estava aliviada por ter um pouco de conforto ao encontrar em si um souvenir dos últimos momentos de consciência que precederam o seu despertar neste lugar estranho. Entretanto, quando ergueu o manto na altura de seu rosto identificou algo peculiar na lã e ao cerrar os olhos para ver melhor do que se tratava naquela iluminação azul-amarelada que vinha das paredes e de seus eus revelados, Sansa viu o bordado negro de um enorme cão na região central do manto. A cabeça do cão estava voltada para as costas e seu maxilar estava aberto, como se estivesse rosnando. Não conseguiu, a princípio, identificar para o que ou quem, todavia com um pouco mais de atenção aos detalhes pôde perceber a presença de um pequeno pássaro pousado no rabo do cachorro, olhando-o diretamente nos olhos.

– O quê... — A frase morreu em sua boca.

A capa branca estava todo este tempo em suas costas, não tinha como aquele bordado ter sido feito sem que ela percebesse. Isso não é real, disse para si mesma. Esta sala de espelhos não passa de uma farsa, assim como todo o conteúdo revelado nestas paredes. Não conseguia entender o que tudo aquilo significava e muito menos quem de fato era ela. Se todas aquelas Sansas nos espelhos eram um pedaço dela, isto as faziam tão reais quanto ela que disse os nomes que revelaram os reflexos. Fechou os olhos. Fosse os pensamentos confusos ou fosse o frio, sentiu uma forte dor de cabeça que fez com que o manto escorresse por entre seus dedos até atingir o chão. Quando voltou a abrir os olhos, tornou a encontrara o seu último reflexo e viu que o manto que estava segurando tinha o mesmo bordado do que o atual. Eu não a reconheço, constatou, você só pode ser o meu futuro recente... conversou mentalmente com a sua imagem chorosa. Em algum lugar eu estou vivendo esta cena, em algum tempo que eu não sei o qual... A cabeça tornou a doer. As emoções da mulher eram palpáveis.

Reyla...– Sua versão chamava o nome com um grande pesar.

Seu corpo tremia e não era mais pelo frio. Poucas coisas faziam sentido e se faziam, não sabia explicar o porquê.

– Quem é você!? — Foi a vez de Sansa questionar. Seu tom saiu mais alto do que desejava e não estava perguntando para a sua imagem e sim para todo o lugar.

Tudo indicava que ela não seria ouvida. Ainda havia mais espelhos para serem descobertos, mais nomes para serem dados. Aquelas vozes só sabiam lhe dar ordens atrás de ordens e mesmo as suas respostas eram incompreensíveis. Ela viu-se em diversas fases da vida, contudo o que de tudo aquilo era real? O futuro é algo impossível de se determinar, aquilo afinal de contas era a realidade ou um simples sonho? Onde estava e por que estava ali? Havia tantas coisas que queria perguntar, contudo, no momento, a única pergunta que saia era a mesma:

– Quem é você!? — Gritou a mesma incógnita.

Um silêncio ensurdecedor brotou no quarto. Todos os reflexos se apagaram; os espelhos voltaram a ser foscos e sem nenhuma luz. Uma nova rajada de vento frio irrompeu pelo ambiente. O ar era neve sólida, ainda que invisível aos olhos. Sentiu-a perfurar-lhe a carne ao passar por si, ricocheteando por todo o ambiente até morrer no meio do salão. Uma luz azulada apareceu no lugar e, então, do chão brotou uma chama duas vezes maior do que ela e três vezes mais larga, em tonalidades de vermelho, laranja e amarelo. Não havia nenhum combustível que justificasse o seu aparecimento; não havia carvão, toras ou panos, o fogo simplesmente surgiu do nada e do nada ele se manifestou:

Sansa Stark– As vozes vieram de dentro da chama.

Sansa caiu de costas no chão tamanha foi sua surpresa. A dor de cabeça parecia capaz de estourar os seus miolos. Isto não é real, continuava tentando se convencer. Tudo ao seu redor fora engolido pela noite e apenas a fogueira se fazia visível no quarto. Estranhamente, não sentia medo das chamas.

– Quem é você? — Perguntou mais uma vez. A voz estava isenta de toda a selvageria das perguntas anteriores.

O fogo não lhe respondeu com palavras. Suas chamas aumentaram e diminuíram, se modelando a partir de uma sombra negra que emergiu como uma pequena mancha no meio do brilho alaranjado até se transformar na imagem de um homem sem rosto.

– Pai? — O chamou, mesmo tendo certeza que não era a sombra de Lorde Eddard. Seu pai era mais alto do que aquele reflexo e o seu gibão sempre fora mais curto do que aquela mancha negra exibia.

O fogo crepitou e aumentou um pouco o seu tamanho, a sombra também se modificou e no lugar onde era a cabeça de um humano surgiu uma coroa. Joffrey, pensou a primeira vista, mas ao piscar os olhos viu que a cabeça aumentava de tamanho e duas grandes orelhas cresceram na lateral da cabeça e afinaram no topo. Uma cabeça de lobo! Franziu as sobrancelhas. Estava vendo uma cabeça canina coroada em um corpo humano, a imagem era assombrosa, ainda que fosse só uma sombra. Isto não é real, continuava a dizer para si própria. A cabeça de lobo continuou intacta, mas o corpo humano foi diminuindo até que alcançou as proporções de um lobo gigante e quando o tamanho estava na proporção exata, a coroa que trazia na cabeça desapareceu e a cabeça foi inclinada para trás em pose de uivo. Lady, chamou pela loba que o pai matara sob ordens do Rei Robert Baratheon; até os dias de hoje sentia um forte pesar com a perda da companheira. O lobo continuou diminuindo, entretanto o formato canino permaneceu e não durou muito. Quando a sombra abaixou a cabeça cessando o uivo silencioso o animal voltou a crescer, ficando em pé nas duas patas traseiras e o seu corpo cresceu tanto que o queixo de Sansa caiu.

– Sandor! — O chamou. Sabia que aquilo era apenas uma ilusão, mas só o fato de ser algo que o representava acalentou o seu espírito e lhe trouxe o desespero de querer encontrá-lo.

Tinha absoluta certeza que era Sandor na sombra, a cabeça de Cão se transformara em seu elmo e somente ele utilizava aquele formato de armadura. A sombra estava trajando a habitual vestimenta do Cão de Caça e era bem mais alta do que a primeira imagem projetada. Sansa só conhecera mais duas pessoas que eram tão grandes quanto o seu protetor, sendo eles Hodor e Sor Gregor Clegane, ambos facilmente reconhecíveis pela estatura diferenciada, embora fossem considerados gigantes pelas pessoas do tamanho de Sansa. Sor Gregor era o maior destes três, seguido por Hodor e finalmente por Sandor. A sombra retirou o elmo e o atirou no chão aos pés da garota, que soltou um grito, porém até mesmo o elmo era uma ilusão criada pelo fogo e sumiu em uma fumaça negra. Quando Sansa ergueu os olhos de volta para a mancha que ela julgava ser Sandor ela já não estava mais trajando a armadura, um capuz cobria-lhe a cabeça e nas mãos, onde tinha uma espada, se encontrava uma bengala. A primeira vista pensou que ainda fosse a espada, mas esta não tinha o botão tradicional da arma. Sansa piscou algumas vezes e por fim reparou que a sombra havia diminuído de tamanho e apenas a bengala continuava inalterada. A sombra atual continuava sendo masculina, mas os seus contornos eram suaves e os cabelos batiam um pouco abaixo dos ombros.

– Sandor! — Tornou a chamá-lo e arrastou-se para ficar um pouco mais próxima do fogo, sem se levantar do chão. Já não queria mais saber o que as chamas tinham para lhe mostrar, muito menos sobre os espelhos.

Porém os responsáveis por tudo aquilo tinham outros planos e a última forma diminuiu ainda mais de tamanho, ficando duas cabeças mais baixas do que Sansa. Uma mulher, reconheceu. A sombra retirou a bengala do chão e Sansa visualizou um cetro. A sombra tornou a aumentar e ficar um pouco mais alta do que Sansa, ainda possuindo as formas femininas. Olhos... Sansa visualizou duas pupilas vermelhas na face da mancha negra.

– Quem é você!? — Exigiu a resposta. Sentia-se familiarizada com aquela forma, mesmo não a reconhecendo.

Havia um enfeite na ponta do cetro que fora levantado pela sombra anterior e que continuava com esta nova forma. Cerrou os olhos para tentar ver melhor até que o enfeite se separou do corpo do objeto e se tornou uma bola de fogo. As chamas crepitaram e a esfera incandescente voou para fora da grande fogueira. Estando separada do fogo que a criara, a faísca alaranjada mudou de formato, abrindo duas longas asas.

– Um pássaro! — Sansa exclamou perplexa com o que via.

A ave ergueu-se até ficar bem próxima do teto, fazendo um movimento circular na sala. Quanto mais subia no ar mais ela deixava de ser uma fagulha de fogo, até ter sido engolida pelo azul da sala. Gelo, reconheceu no mesmo instante que a ave começou a derrubar suas penas que atingiram o chão como flocos de neve. Sansa esticou a mão para pegar alguns flocos. Seu peito apertou. O Inverno está chegando, lembrou-se do lema de sua Casa. Aquele floco de neve era mais do que a aproximação do frio, era Winterfell, sua família, sua infância e sua inocência, tudo o que lhe fora tirado. Fechou com força a mão, prendendo o floco de neve ali e quando tornou a abri-la viu que o que tinha em mãos era sangue. Arregalou os olhos assustada e ergueu o rosto. O pássaro continuava circulando a sala, cada vez mais baixo e desfigurado. Boa parte do corpo havia sido desfeita quando começou a derrubar suas penas e agora, mais próximo ao fogo, começava a derreter. Ao abaixar novamente os olhos percebeu que os flocos de neve que atingiram ao chão haviam se tornado sangue.

– Não, não, não... — Murmurou em desespero e se arrastou para longe do fogo e foi aí que percebeu; o sangue no chão não vinha só do pássaro, ele escorria pelo vão de suas pernas. Sangue da Lua, imaginou a causa daquilo. Contudo, nunca tivera um sangramento tão intenso quanto o que via diante de seus olhos.

– Quem eu sou? — A voz veio das chamas, direcionando a atenção da jovem para ela. A última sombra projetada continuava intacta, com duas pequenas fogueiras no lugar dos olhos — Você sabe quem eu sou.

A sensação de familiaridade aumentou na garota. A dor de cabeça e a hemorragia que estava tendo a impedia de vasculhar com afinco suas recordações. Já vira aquele formato de corpo em algum lugar, tinha certeza disso, a resposta estava ali em sua mente. A resposta está dentro de mim, disse à si mesma, dominada pelo desespero. Foi com esta última realização que a resposta lhe veio. Seus olhos ergueram-se horrorizados e teria gritado se o ar não tivesse lhe traído. A resposta está dentro de mim, tornou a dizer em silêncio. E se eu só tiver filhas? Uma mulher só se deita com um homem quando são casados. Você já é quase uma mulher. O sexo só pode ser feito para fins de reprodução. As frases passavam em sua cabeça como os escritos de um livro. Conseguia distinguir a sua própria voz assim como a da Septã Mordane, de sua mãe e de Sandor Clegane. Sandor, ele era o principal culpado de tudo isso. Com suas palavras ásperas e ações duras ele a invadiu e plantou-lhe sua semente. Tanto sangue..., as mãos estavam cobertas com o seu líquido vital que lhe empapava as coxas. A senhora minha mãe teve um sangramento parecido quando Rickon nascera, fora o único nascimento que Sansa pôde vislumbrar e apenas por meros segundos antes de ser afastada do quarto de Lady Catelyn por uma criada. O parto era um momento bonito e precioso para todas as mulheres, mas Sansa só conseguia enxergar a bagunça e o caos naquilo.

– Eu sei quem você é... — As palavras não saíram mais altas do que um sussurro. Sentia medo do som de sua voz ao revelar suas suposições.

– Nomeie-me — A sombra ordenou com simplicidade.

Tantos nomes. Desde que teve a consciência de que as mulheres tinham como função parir crianças e que os filhos dela viriam à ser herdeiros, Sansa pensara em diversos nomes para os seus filhos e até chegara a criar uma lista com todos eles, que agora provavelmente estava queimada junto às ruínas de Winterfell. Fechou os olhos com força, evitando o máximo que podia não ser levada pela agonia da dor alucinante em sua cabeça. O cômodo que a princípio tinha cheiro de flores silvestres estava dominado pelo odor ferroso de sangue. Meu sangue, ressaltou. O calor proporcionado pelo fogo havia conseguido mantê-la aquecida desde o momento em que surgira, mas agora, ela aos poucos entregava-se ao frio interno. Eu sou a filha de Winterfell. Utilizou a realidade para justificar o inverno que parecia reinar dentro de si. Preciso de um nome. Poderia chamá-la de Catelyn, em homenagem à sua mãe, porém seria um mau agouro visto que sua progenitora permanecia viva. Talvez Lyanna fosse mais sensato, sua tia que falecera antes que pudesse ter a chance de conhecer fora batizada com este nome. Arya também era uma opção, teria gostado de ter uma filha com o nome da irmã desaparecida, desde que não tivesse um gênio tão terrível quanto a anterior. Preciso de um nome... Sentia a mente esbranquiçar a cada segundo que passava. Nenhum nome parecia bom o suficiente para uma cria sua. Era com muito custo que selecionava os melhores nomes, pois a dor concomitante com o frio eram os únicos que não a abandonavam. Jonquil é um bom nome, a música que seu retrato cantara continuava em sua cabeça mesmo depois de já ter parado de tocar. Se tivesse um pouco mais de estômago até consideraria Alíria uma opção, mas não tinha estômago para tanto. Aquele outro reflexo, ele dizia algo... A última imagem sua que vira pronunciava uma única palavra em um sussurro choroso. O acontecimento fora tão recente e mesmo assim não conseguia se recordar.

– Me dê um nome — Sua filha lhe pedira.

Eu preciso de um nome, forçou-se em selecionar mais alguns. Elia, Nymeria, Lysa e até mesmo Cersei passaram em sua cabeça; nenhum deles eram dignos para uma cria de lobo com cão. Qual era aquele nome? Nomes como Melly, Rhaenys, Sheyla e Shae cruzaram-lhe a mente. Não estava tão longe de chegar onde queria, já ouvira aquele nome antes, tinha certeza. Mas onde? Esta resposta era tão difícil de se obter quanto a própria palavra que dizia respeito à ela.

– Passarinho — Disse por fim. Enquanto não conseguia se decidir por um nome digno, o apelido que o pai daquela criança dera à Sansa era a melhor opção.

– Está errado, pergunte ao meu pai, ele saberá — A sombra falou. Havia pesar na frase.

– Sandor... — Sua boca estava seca. Tudo para ela naquele lugar era ilógico, exceto a possibilidade de ter uma filha com Clegane. Ele me possuiu a força e derramou sua semente em mim e quando saciou o seu desejo me deixou nua, usada e quebrada em meu leito. Poderia tê-lo perdoado com maior facilidade se ao menos tivesse demonstrado preocupação ou arrependimento. Durante uma semana ele a evitara e enquanto Sansa julgava que a vontade dele de a possuir novamente havia diminuído, a vontade dela de ser possuída de novo aumentava, embora não tivesse pleno conhecimento de seus desejos carnais e nem de como eles estavam diretamente relacionados ao homem que os despertaram — ... onde ele está?

A sombra de sua filha riu como uma criança que apronta alguma travessura.

– Você o verá em breve. Quando o cinza se tornar branco, o branco voltar a ser azul e o azul virar pó; quando os peixes voltarem aos rios e uma nova ave ocupar o ninho da antiga. O leão então será domesticado, o ferro já não mais será um inimigo e o coração em chamas encontrará o aço de mil espadas e se saciará com o ouro deixado por elas. Em meio às flores o pássaro cantará a sua mais bela canção e ao norte o lobo uivará pela última vez. Apenas o fogo pode purificar o impuro, mas é o gelo que imortaliza a inocência — Os olhos da criatura queimavam a sua própria fogueira e Sansa pôde jurar ter visto algo neles conforme a profecia ia sendo proferida. Profecia cuja qual não compreendeu uma palavra se quer.

Não soube dizer o que exatamente procedeu os dizeres. Lembrava-se raramente de ter sido consumida pela dor em sua cabeça, pelo frio em seu corpo e pelo fogo nos olhos da sombra. Quando tornou a abrir os olhos já não estava mais naquela torre, mas a grande pira continuava a queimar à sua frente e olhos rubis em um corpo negro pela sombra a encaravam. Seu corpo frio tremia e mostrava-se insubmisso ao calor das chamas e mesmo a cabeça a colocando em um estado de espírito acima dos acontecimentos ao seu redor, tinha resignação o suficiente para encarar aquelas pupilas escarlates com afinco.

– Sandor... — Chamou por seu protetor e a sua voz traiu sua determinação.

– SUA ESTÚPIDA! — A voz de Clegane estava tão áspera quanto lixa de madeira e havia um quê de desespero — Como você ousa dormir em mar aberto!?

Sansa virou-se para a direção de onde veio a voz de Sandor e foi necessário piscar diversas vezes para ter certeza de que não estava em outra espécie de alucinação. Pensava que havia sido transferida para outro cenário dentro de sua imaginação, visto que as chamas e os olhos de fogo continuavam ali, mas agora ela podia ver o seu protetor e ao olhar para o próprio colo percebeu que a umidade que sentia na região de suas coxas era da água do mar e não de sangue. Junto com os gritos de Clegane um outro barulho se sobressaia aos murmurinhos das pessoas no convés e quando a garota procurou saber do que era, viu que o cavalo Estranho estava acabando de ser retirado do mar com seis cordas amarrando suas patas e seu tórax para o resgate. O navio! recordou de que havia visto um navio com estandarte Baratheon pouco antes de entregar-se ao cansaço. Diversos homens mais bem apessoados do que os tripulantes do Sufrágio da Donzela corriam de um lado para o outro no convés tentando conter os coices do grande garanhão negro ou os golpes do pseudo-cavaleiro que tentava libertar-se das amarras que o trouxera em segurança à bordo. Sansa era a única que havia sido liberta.

– Seja bem vinda ao Black Betha, — A mulher de olhos rubis se manifestou. Tendo se movimentado para próximo da garota Stark, as chamas revelaram as suas formas e Sansa notou que tudo nela era vermelho, exceto a pele que era tão alva quanto a sua. A mulher vermelha abaixou-se ao lado dela que estava sentada no chão e sussurrou-lhe no ouvido — Eu a vi nas chamas, Lady Sansa — Tornou a afastar-se da jovem — Sou Melisandre, a propósito.

Ela sabe. O terror consumiu Sansa e não sabia se era porque a mulher sabia a sua verdadeira identidade ou se era porque vira nas chamas algo que poderia ter sido a mesma coisa que ela. Antes que pudesse questionar Melisandre sobre isso, sua visão escureceu e perdeu todos os sentidos do corpo. A garota mais uma vez desmaiou, porém não retornara à torre de paredes espelhadas e nem vira mais fogo algum.

Notas finais
N/A: Aí eu fui brincar de George R.R. Martin e resolvi criar uma profecia própria para esta história misturando os elementos de Gelo e Fogo e o futuro SanSan, rs. Espero realmente que gostem! ;)