O Voo Do Passarinho

16 Capítulo 16 - Aço, Água e Fogo


O corpo estava dolorido. Caíra por sobre um caixote de madeira que sucumbira ao seu peso no momento em que o navio sofrera uma colisão com algo. Sandor a ajudara a ficar em pé, mas o horror de ter visto e estado tão próxima à um corpo humano naquele estado de decomposição não permitia que o seu espírito ficasse calmo. Tem pessoas nessas caixas... Percorria com os olhos todos os caixotes que estavam sendo iluminados pela forte luz do archote. Várias mãos e olhos tentavam passar pelas frestas e muitas vozes de choro pedindo por socorro eram ouvidas. Haviam pessoas de diversos sexos ali, mas no coro de pedido de ajuda era uma voz feminina que predominava. É a Mãe quem suplica para salvar a vida de seus filhos... Sansa interpretou a situação como uma intervenção divina.

– Não olhe — Sandor a alertara, puxando-a em sua direção a modo de esconder o rosto da jovem em seu peito.

– O que está acontecendo com essa gente? Por que eles estão assim? — Questionou com o rosto escondido, contudo arriscava um olhar para a cena de vez em quando. Sua curiosidade estava tão grande quanto o medo.

– Escravos... — Clegane parecia tão afetado quanto ela. A escravidão em Westeros fora condenada há muito tempo atrás e os envolvidos se não mandados para a Muralha eram exilados do continente — Venha, devemos sair daqui antes que nos descubram — Com um braço passado ao redor do ombro da jovem em um abraço, tentou conduzi-la para longe daquele andar da nau marítima. Sansa se negou dar um passo sequer e o impediu de seguir o seu caminho.

– Não podemos deixá-los desta forma! — Seus olhos encontraram os de Sandor e a sua atitude pode ter sido a mais próxima de ajuda que alguém se ofereceu para dar para àqueles prisioneiros.

– Esse problema não é nosso — A advertiu, o semblante estava tão fechado que as sobrancelhas quase se uniam, exceto que no lado queimado da face não havia nenhum resquício de uma.

– Se os deixarmos, eles irão morrer! — O senso de justiça dos Starks sempre falara alto em sua veia e não se culpava por ignorar o bom senso.

– E depois de soltá-los pretende fazer o quê? — A desafiou — Tomar o Sufrágio com um exército de moribundos que ficarão felizes em jogá-la ao mar ou a utilizarão para aquecer os seus leitos!? Você não sabe como eles são!

– Eles não são como você – Retrucou, afastando-se de Sandor, todavia permaneceu de costas para os outros indivíduos do lugar.

– Tem razão, eles não são, por isso me preocupo com você — A frase não saíra exatamente como ele queria, a garota pôde dizer. Sem esperar por uma resposta, ele entrelaçou os seus dedos de uma de suas mãos em uma dela e a puxou para fora do andar, arrastando-a pelo corredor enquanto a moça se debatia. A garota Stark sabia que aquela não era a hora nem o lugar para pensar tais coisas, porém o contato dos dedos deles em sua mão a fez recordar do momento em que eles estiveram dentro dela e sentiu um formigamento em sua vagina. Ela se lembra... E independente à vontade de Sansa, sua genital ainda respondia de forma positiva a memória.

– Isso não é certo! — Exclamou, tentando convencê-lo.

– Estou pouco me fodendo.

Foi quando chegaram no andar da tripulação que ficava acima do transporte das mercadorias que eles compreenderam que havia algo errado com o navio. Muitos marujos entravam e saiam de seus quartos levando consigo espadas e qualquer coisa que pudesse ser utilizada como uma arma. Eles estão embriagados. Sansa percebeu e não era pra menos, há pouco tempo estavam festejando no convés. Alguns tripulantes escoravam-se nas paredes para se manterem em pé enquanto outros lutavam com o peso do aço. São marujos, não soldados, essa foi a explicação que arrumou para justificar a falta de preparo dos homens.

– Rápido homens! — Um dos mais sóbrios gritou o comando — O seu Capitão precisa de vocês!

Das quase duas dúzias de homens que estavam se preparando para o que quer que fosse, apenas dois haviam conseguido chegar ao fim do corredor até onde os olhos de Sansa conseguiam alcançar quando os seus sangues coloriram as paredes de madeira do navio. Gritos de outro idioma vinha dos agressores que descia pela rampa de acesso ao andar. Baixo valiriano, reconheceu a língua, mesmo nunca tendo aprendido. Eles traziam consigo espadas em forma de foice arredondada e um olhar feroz de insanidade. Piratas! Gritou mentalmente. Sua mão segurou de volta a de Sandor em busca de proteção.

– Fique atrás de mim — Ele lhe dera a ordem, soltando a mão da jovem e caminhando em direção a luta.

Os invasores não eram tão amigáveis quantos os tripulantes do Sufrágio da Donzela. Eles tinham sede por sangue, fazendo questão de decepar e cortar as pessoas, as deixando para morrer em sofrimento. Sandor era um dos únicos que conseguiam chegar até os piratas, mas diferente deles o seu ataque era limpo, sua lâmina certeira atacava os pontos vitais dos inimigos, causando uma morte instantânea.

– Eu pego aquele! — Um invasor anunciou, avançando para cima de Sandor. Foi inútil a tentativa, o cão de caça que havia dentro do homem o derrubou antes que tivesse a oportunidade de levantar a espada.

É como se eu fosse invisível..., constatou. Pessoas morriam à sua frente e aos seus lados, entretanto ela não estava sendo atingida, permanecendo imóvel como uma estátua enquanto o caos caía perante os seus olhos. Seu instinto mandava-a desviar o olhar, todavia ela não o faria. O mundo não é uma canção, ela entendia isso agora, e eu não estou isenta à ele. Boa parte dos tripulantes do Sufrágio que estavam naquele andar foram estraçalhados logo nos primeiros minutos do confronto e aquela primeira dúzia de homens sanguinários que foram enviados para saquear a embarcação fora derrotada principalmente pelo gume da espada de Clegane, que nem suara ao fazê-lo.

– Sansa! — Chamou-a, fazendo um pequeno gesto com a mão que não segurava a espada. Já não se importava mais que as pessoas soubessem a sua identidade, o seu tempo a bordo estava chegando ao fim e poucos viveriam até o pôr do sol. Sansa correu até seu protetor e aceitando o que lhe era oferecido, permitiu que fosse guiada para fora dali.

Subindo mais um andar e chegando no lugar onde o aposento de ambos se localizava, Sandor se livrou de mais saqueadores que correram em sua direção trazendo consigo a pior das intenções para com ele. Com sucesso conseguiu abrir caminho entre os seus inimigos, saindo com pequenos ferimentos ao longo do corpo. A ausência da armadura lhe dava mobilidade, mas não proteção.

– Está ferido? — Perguntou alarmada vendo o sangue escorrer pelo rosto do homem quando já não mais existia perigo naquele andar.

– Fique aqui, não abra a porta para ninguém, exceto para mim quando retornar — Passou-lhe as ordens, empurrando-a para o quarto que ela dividia com Alíria — Entendeu? Repita o que eu lhe disse, Passarinho– Ameaçou abrir um sorriso. Ele sente prazer em matar, podia ver claramente as palavras estampadas em seu rosto manchado pelo fogo e pelo sangue.

– Não devo abrir a porta pra ninguém, exceto para você — Repetiu os dizeres, como era boa em fazer — Você irá retornar, não é mesmo?

– Eu prometi não a tocar contra a sua vontade — Mudou de assunto, não respondendo a pergunta que lhe fora direcionada — Quando eu voltar para você, irá me presentear com um de seus beijos como uma donzela faria para o seu campeão? — Provocou. Ele nunca havia feito tal coisa anteriormente, não que ela se recordasse de uma liberdade desse calibre durante um momento tão decisivo.

– Se você voltar... — Não sabia o que responder, as palavras a pegara de surpresa. Foi com um menear positivo de cabeça que ela concordou com o proposto. O sorriso na face de Clegane se alargou e os dentes dele ficaram a mostra.

– Tranque a porta — Lhe disse, antes de desaparecer de sua vista. Sansa o obedecera, seus membros superiores e inferiores estavam trêmulos. Passos, gritos, som de aço encontrando com aço e rasgando carne vindos do andar superior eram ouvidos dentro de seu quarto. Não sentia tanto medo com isso, ele prometeu que voltaria, essa promessa a acalentava. Sandor nunca perdia uma batalha. Guerreiro, dê-lhe forças para que essa vitória seja conquistada, orou. Ela não o perdoara pelo o que fizera consigo e ainda sentia vontade de abandonar a companhia de Sandor, mas ele era a sua única esperança naquela ocasião e acima de tudo a morte de uma pessoa era algo ruim de se desejar.

– Isso é um ataque..? — A voz de Alíria ressoou do outro lado do quarto. A mulher que sempre trazia consigo um espírito corajoso estava abraçada as próprias pernas em cima da cama, recusando-se a acreditar no que estava acontecendo com o navio. No meio daquele amontoado de cobertas, era difícil distingui-la.

Mesmo com todo o alvoroço, algo dentro de Sansa não permitia que se esquecesse da relação que Sandor possuía com Alíria. Não seja estúpida, eu não sinto nada por ela! foi o que Clegane lhe respondera. Se não sente, então por que dormiu com ela duas vezes?, questionou-o apenas em pensamento. E recusou-se a dançar comigo, mas foi de bom grado servir como par para ela? Gostaria de ter feito essas perguntas para o homem, contudo não o fez. A adrenalina para enfrentá-lo a havia abandonado e acima de tudo, não cabia à ela questionar as atitudes de um homem com assuntos que não lhe diziam respeito. Ainda assim, por que isso me aborrece tanto?

– Vai ficar tudo bem — A passividade de Sansa em momentos de guerra era uma qualidade forte que descobriu que possuía durante a Batalha de Blackwater quando a Rainha Cersei a levou junto à outras nobres para o seu esconderijo na Fortaleza Vermelha. Pelo menos dessa vez não terei de cantar, aliviou-se. Não era para a vitória de todos do Sufrágio da Donzela que ela torcia, era apenas para um dos combatentes, se eles não tivessem aprisionado aquelas pessoas, eu poderia orar por todos. Se ela pudesse, ela voltaria para o andar das mercadorias e soltaria todos das caixas que os aprisionavam, mas não podia, o risco que corria de ser morta durante o percurso era muito grande, e tinha a possibilidade de isso acontecer logo no primeiro salvamento, como Sandor a alertara.

Sansa sabia que não ficaria muito mais tempo por ali e a sua atitude imediata foi juntar os seus pertences fáceis de carregar. Já não preciso mais carregar esta boneca, ninguém fora capaz de consertá-la e já não se importava mais. Estava velha de mais para brincar com bonecas quando a ganhara e agora estava ainda mais longe de voltar a ser criança, sendo o brinquedo apenas um estorvo. Poderia levar algumas roupas, mas não acredito que elas sejam práticas. Entretanto, a capa branca de cavaleiro da Guarda Real ela não podia deixar para trás. Havia tantos significados naquele pedaço de pano que nem mesmo ela conseguiria enumerar e por isso cobriu-se com a mesma. Meu punhal! O presente que recebera de Shae era o bem mais útil que possuía e se não estivesse carregando consigo, estava de baixo de seu travesseiro.

– Onde está indo? — Alíria a questionara, o medo aos poucos sendo substituído pela curiosidade.

– Embora — Confessou no impulso do momento. Não sabia se a sua resposta era correta, tudo dependeria da decisão de Sandor. Sansa tinha o seu plano de fugir quando chegassem em terra firma, mas as coisas mudaram, ou melhor, ela mudou.

– Sandor irá nos levar? — A camponesa perguntou, esticando-se para fora de sua cama. A coragem lhe havia retornado e sentia a obrigação de imitar a colega de quarto, procurando os seus pertences mais preciosos para empacotar.

Como ela se atreve? O sangue ferveu em suas veias. Nem eu o chamo pelo primeiro nome. Nunca teve esse sentimento anteriormente, ainda que fosse familiarizada à ele. Em Winterfell, Arya sempre disputara a atenção dos pais e dos irmãos com Sansa, tudo o que a irmã mais velha fazia era visto como talento natural ao contrário dos feitos de Arya, que para chegar no nível da irmã precisava de um grande esforço, fosse no bordado, fosse nas aulas de dança. Não devo pensar nisso...

– Ele irá me levar — Suas tentativas foram inúteis e estava demonstrando um senso de maturidade no nível da irmã.

– O que quer dizer? — A camponesa parou de mexer em sua sacola e virou-se para Sansa, com os olhos esbugalhados e as sobrancelhas franzidas.

– Você não significa nada para ele — As palavras fluíam de sua boca. Os seus pensamentos estavam se materializando e o resultado não a agradava. Não é assim que uma lady deve agir, se auto repreendeu na voz de Septã Mordane. Eu não sou um maldito passarinho, essa era a sua versão de Porto Real que repetia o que as pessoas queriam ouvir. Não estava mais presa em sua gaiola de ouro, mas ela também não saiu de lá voando, lobos não possuem asas, se lembrou, eu sou uma loba, não sou como a Lady, ela está morta e eu não. Seus pensamentos não faziam sentido. Alíria fora boa para si na última semana, não havia porque tratá-la mal. Queria se desculpar por suas palavras, entretanto não se atrevia. Eu me desculpo de mais, fora o que ouvira quando estava hospedada na pousada da mulher em Felwood. Se eu não me desculpar, significa que estou tendo amor-próprio? se questionou. Amor... uma palavra tão simples que já lhe causara muita destruição pela sua complexidade de significado, sendo sempre mal interpretado pela jovem. Seria este sentimento capaz de destruí-la novamente? Não, respondeu para si mesma, eu não tenho a quem amar... tenho? Não conseguiu responder a última colocação.

O riso de Alíria ecoou pelo quarto em um dos mais tristes sons que Sansa ouvira nos últimos tempos. Não deveria ter dito aquilo, percebeu. Alíria possuía sentimentos por Sandor, a jovem compreendeu pela maneira que a camponesa reagiu.

– Ele te disse isso ou foi você quem deduziu? — A mulher perguntou, aproximando-se de Sansa.

– Ele — Confessou e o seu conceito de certo e errado se tornou vago. Isso não era o que Alíria queria ouvir, ainda assim era a verdade. Estando acostumada a dizer apenas lorotas, fazer o oposto lhe deixava um gosto estranho na boca e a sensação de que estava agindo de forma errada e egoísta.

– E o que mais que o Sandor disse? — A mulher a desafiou, estando tão próxima de Sansa que se atreveu a arrumar as madeixas escuras que caíam sobre os ombros da jovem — Hein?

– M-muitas c-coisas... — Gaguejou, desconfortável com a proximidade. Havia algo nos olhos de Alíria que beiravam a insanidade.

– E o que você contou? — Perguntou a camponesa — Contou à ele de sua relação com Yros? De como o tocava toda vez que ia trocar suas ataduras? De como a sua mão deslizava por de baixo da coberta até chegar em seu membro viril e como os seus dedos o auxiliava a aliviar-se? Contou à ele? Hein, bonequinha?

– Isso é mentira! — O rosto da garota Stark estava vermelho — Eu nunca tive tal liberdade com Yros! Você sabe disso! — Desde que adotara o perfil de curandeira o máximo de liberdade que teve com o bardo foi preparar os unguentos, nunca aplicá-los em sua pele por mais que lhe fosse pedido. Yros continuava a ser um dos homens mais atraentes que Sansa conhecera, contudo a sua condição mental não permitia que ela tivesse qualquer contato sexual com outro homem, não depois do que Sandor lhe fizera e que a machucara da cintura para baixo.

– Pode até ser, mas não é o que Sandor saberá quando eu lhe contar — Alíria deu-lhe as costas e se dirigiu até a porta do quarto a modo de visualizar o seu reflexo no espelho e ajeitar-se — Será que ele vai querer levá-la quando souber a minha versão? — Fungou uma risada.

– Você não se atreveria — Sansa a desafiou — Ele não acreditaria nisso!

– É o que vamos ver.

– Por que você é cruel comigo algumas vezes e em outras não? — Sansa a questionou. Já tinha tempos que queria uma resposta para isso.

– Eu não gosto de você e algumas vezes eu me esqueço que tenho de ser... tolerante – Alíria respondeu com indiferença — Você tem tudo o que eu nunca terei, não nessa vida pelo menos. Você tem sangue nobre, tem uma casa para onde voltar, família que se importa com você e o seu próprio cavaleiro que se alistou na sua causa por uma força maior do que o dinheiro e o dever. São poucas pessoas nesse mundo que se podem dar ao luxo de ter um homem assim e você nem se dá o trabalho de olhá-lo no rosto! — A camponesa girou sobre os calcanhares e tornou a encarar Sansa — Você é uma coisinha tão bonitinha e tão ingrata. Você só pensa em si mesma e acredita que a guerra só trouxe desgraças para você. Você deveria abrir os seus olhos ao invés da boca... E quem sabe um pouco mais das pernas também — A camponesa riu.

A garota estava com uma terrível dor de cabeça quando a mulher terminara de falar. Suas mãos tremiam conforme o ódio que sentia, a única vez que tivera tal sentimentos foi quando Joffrey a obrigara a olhar para a cabeça decapitada de seu pai. Não faça nenhuma estupidez, Sansa, disse para si mesma. Naquela vez na Fortaleza Vermelha ela quase jogara o Rei da ponte que levava até os espigões em um dos mais altos andares da construção. Agora não havia nenhuma ponte para jogar Alíria, contudo ela possuía um punhal que estava muito bem seguro em suas mãos.

– Com qual direito me julga? Você... — Precisou inspirar e expirar profundamente para continuar — ... não sabe nem metade do pensa sobre mim.

– E aparentemente sei mais do que você — O sorriso no rosto da camponesa continuava estampado em sinal de que já havia pensado no que dizer a seguida, porém a maçaneta do quarto fora forçada do lado de fora e umas batidas na porta foram ouvidas por ambas. — Vamos ver o que ele acha do que eu tenho para dizer! — Alíria gargalhou com a ideia. Sansa só teve tempo de dar um passo para a frente em uma corrida que iria fazer para impedir a mulher quando a porta fora aberta pela mesma.

O não que a jovem tinha preso na garganta nunca saiu. No exato momento em que a chave virou na fechadura um homem vestido com roupas esfarrapadas e com cheiro de mar cruzara o batente, a única coisa que destoava no sujeito era o elmo de cabeça de cão que utilizava, sendo bem maior do que a sua cabeça. Os olhos da jovem esbugalharam-se e o seu queixo caiu, acreditando que aquele era um mau sinal. Oh, não... lamentou, mantendo-se imóvel. Sandor a alertara para não abrir a porta a não ser que fosse ele... Foi Alíria quem abriu! retrucou em pensamentos, como se estivesse falando com o próprio Clegane, entretanto, o fato daquela criatura estar usando o elmo do Cão de Caça poderia ser um sinal de que o seu protetor tivesse caído na batalha. O desespero a dominou.

O invasor falou diversas coisas em seu próprio idioma que nem Sansa e nem Alíria conseguiram decifrar, exceto pela palavra mulher, que ficou bem claro. Indo até a porta e se certificando que elas não fugiriam, gritou no corredor a sua descoberta e pouco tempo depois passos foram ouvidos se aproximando do quarto. Eu preciso fazer alguma coisa antes que seja tarde... Ela conhecia aquele olhar que o homem lhe dava, tinha plena consciência das intenções dele. O sujeito em questão era careca e duas cabeças menor do que Sansa, seria fácil derrotá-lo, isso é, se ele não estivesse segurando aquela espada. A camponesa demonstrou ter tido a mesma ideia e aproveitando que o pirata estava distraído olhando para o corredor avançou para cima dele a fim de desarmá-lo. A atitude não foi muito esperta, conforme as mãos da mulher se fecharam em torno do aço da espada, os dedos dela foram mutilados em um movimento rápido. Ficou claro que o amadorismo que o invasor demonstrava em seu modo de se comportar era mera enganação, ele era bom no que fazia e possuía anos de experiência. Sansa engoliu em seco. Gostaria que o Sandor estivesse aqui, me sinto como se estivesse revivendo o ataque do dia em que Myrcella embarcou para Dorne... mas não eram as mesmas pessoas e Sandor não estava ali, estava em algum lugar lá em cima, matando ou sendo morto, ela não sabia ao certo. O grito de dor da mulher preencheu o quarto. De todos os dedos perderam as pontas, exceto dos polegares. Sangue fresco pingava na madeira da embarcação e a mulher ajoelhara-se ao chão tamanha sua agonia. A jovem Stark gostaria de dizer que era bem feito, porém como se atreveria a tal atrocidade? Podia ter ido até o auxílio de Alíria, mas não havia nada que pudesse fazer para socorrer a mulher e não sabia como o homem reagiria ao vê-la se mover em sua direção com o punhal na mão. O punhal... havia se esquecido de que tinha a arma em mãos nesse breve momento de adrenalina na presença de um estranho e o pirata também não demonstrou consciência de que ela estava armada. Em um movimento rápido, ocultou-a as suas costas.

– Garota... — O homenzinho a chamou no idioma comum com o seu sotaque carregado. Mais três figuras distintas apareceram na porta, mas nenhum trazia consigo uma peça de armadura. Todos demonstraram satisfação com o que via perante eles. Trocaram não mais que meia dúzia de palavras antes de se separarem.

Dois dos que chegaram por último foram para cima de Alíria que, ferida, não conseguiu fazer muito a não ser cair com as costas no chão. Ágeis do jeito que eram, fosse pela falta de mulher ou fosse pela sede da batalha, rasgaram as roupas da mulher que gritava e esperneava como uma donzela em apuros antes que os outros dois invasores chegassem até Sansa, que assistia abobalhada o destino da amiga.

Implorar pela misericórdia deles seria inútil, ao contrário de lutar com eles, desde que fosse mais esperta do que a mulher que estava sendo estuprada próxima de si. A jovem não possuía força, mas tinha o poder de observação. Eles não perceberam que havia algo em suas costas e conforme iam se aproximando as suas armas ficavam em repouso ao lado do corpo até caírem ao chão. Foi nesse momento, quando eles estavam bem próximos à ela e já desarmados que a garota reagiu. Empurrou o pirata que utilizava o elmo para trás, fazendo com que a boca do cão fechasse e impossibilitasse a visão do indivíduo, que não tinha a proporção da cabeça correta para usar a peça. O outro sujeito que estava ao seu encalço abaixou-se para pegar a lâmina que derrubara e no mesmo momento que o fizera, Sansa o esfaqueou na parte mais próxima que visualizara, no caso, a região entre o ombro e o pescoço. Seu punhal ficou cravado no osso que partira não permitindo que ela fizesse a remoção da arma e os dois agressores de Alíria estavam ocupados de mais para prestar atenção no que estava acontecendo com os colegas. Sem pensar duas vezes, Sansa correu em direção a porta e teria obtido o sucesso se uma massa negra não tivesse obstruído o seu acesso.

– Eu lhe disse para não abrir a porta! — A voz ríspida do Cão de Caça cortou o ar. Sansa precisou piscar algumas vezes até que percebesse que a massa negra que vira não era Sandor e sim Estranho, o enorme corcel negro que ficara preso no último andar do Sufrágio desde que subiram à bordo. Clegane que vinha a pé ao lado do animal não esperou resposta, soltando a rédea do cavalo, balançou a espada com destreza virando apenas o pulso e cortou os dois piratas que atacaram Sansa, fazendo uma neblina vermelha de sangue jorrar.

Os outros dois homens que estavam atacando Alíria ao perceber a fuga da garota se colocaram em pé o mais rápido que puderam, contudo não rápido o suficiente para fugir do gume afiado de Sandor, que com sua habilidade na arte da guerra quase partiu o corpo de ambos ao meio com não mais do que um golpe certeiro para cada um. Sansa levou a mão a boca para abafar o grito de pavor. Não sabia dizer quando ocorreu, ela só sabia dizer que Alíria se encontrava estatelada no chão coberta por uma poça de seu próprio líquido vital que vinha de seus dedos amputados e de um profundo ferimento feito a navalha em suas costelas laterais. Suas vestimentas outrora em boas condições com pequenos remendos estavam em pedaços do quadril para baixo e na região do corpete estava tão laceada que os seios ficaram a mostra, revelando os grandes mamilos marrons. Quando a mulher tentou falar, sangue escorreu por sua boca e se Sandor não tivesse agido com rapidez ela teria se afogado.

– Por favor... — Chamou com o fio de voz que lhe restava das forças antes de tossir — ... Mate-me... — Implorou.

Sandor oscilou por um instante. Não há nada o que se possa fazer por ela... compreendeu. Se ao menos tivesse um Meistre por perto, a história poderia ter um rumo diferente, porém estando navegando com contrabandistas e sendo atacados por piratas a situação era diferente. Sansa havia desejado a morte da mulher, só não esperava que de fato fosse acontecer e sob essas circunstâncias. Morte em agonia não era algo que tinha em mente.

– Tem certeza? — A camponesa assentiu com um menear positivo de cabeça — Sansa — A pronuncia de seu nome a trouxe de volta a realidade — Me dê aquele punhal — Clegane depositou sua espada ao seu lado no solo e estendeu a mão para receber o que pedira a garota.

Encontrar o corpo do homem o qual tinha ferido com a sua arma não foi difícil, o difícil foi retirá-la de lá. Quando o seu agressor morreu seus músculos se retraíram e enrijeceram, prendendo ainda mais forte a lâmina em seu osso. Sandor já havia perdido a paciência e ameaçado fazer o serviço por contra própria quando Sansa obteve o sucesso, cambaleando para trás, desequilibrada pela força que exercera para retirar o objeto cortante do cadáver. Sem dizer palavra, depositou o punhal na mão de Clegane e deu um passo para trás.

Sandor tinha Alíria em seus braços e olhava fixamente para a mesma, como se por um acaso desviasse o olhar durante um segundo sequer podia perder a súplica da mulher para que não lhe desse o presente da misericórdia.

– ...Talvez... — Sansa começou — ...tenha algo que possamos fazer... — Sugeriu. Muitas pessoas já haviam morrido, não era necessário que mais uma fosse abraçada pelo mesmo destino.

– Que excelente ideia, Passarinho! Não havia pensado nisso antes! — Zombou — Não há nada que se possa fazer a não ser diminuir o sofrimento — Voltou a ficar sério — Lembre-se onde fica o coração — Dito isso, enfiou o punhal até o pomo entre as costelas da camponesa, dois dedos abaixo do peito esquerdo, em um movimento de baixo para cima dentro da carne. Com a mesma facilidade que a lâmina entrou ela saiu e o sangramento a princípio fora pouco. Com alguma gentileza que possuía no meio de toda sua brutalidade, ajeitou o corpo inerte de Alíria no chão — Conversaremos sobre isso depois — Disse a Sansa em relação a arma que tinha em mãos, lançando-lhe um olhar severo. Ele sabe que fui eu quem a cravei naquele homem... Mordeu o lábio inferior como sinônimo de ansiedade — Venha aqui — Chamou-a e sem ousar desobedecê-lo deu um passo cauteloso em sua direção.

Sandor segurou-lhe a vestimenta e arrancou uma tira de pano dela. Após fazê-lo ergueu o vestido na altura da coxa de Sansa, um palmo abaixo da virilha, a moça de imediato teve o instinto de empurrar o tecido para baixo. A resposta da ação foi segurá-la naquela região com força para mantê-la imóvel. Os olhos de ambos estavam baixos; a garota tentava entender o que ele estava fazendo e Clegane por sua vez não conseguia quebrar a fixação com a pele dela que ficara a mostra. A tira de tecido que arrancara da barra foi amarrada na coxa de Sansa com um nó muito rente a pele, quase a machucando com a pressão, e em seguida prendeu nele o punhal. O rosto de Sandor no fim estava tão próximo a sua pele que pensou que ele fosse lhe beijá-la onde guardara a arma, no fim ele só deu dois tapinhas básicos para se segurar de que ela estava bem presa e deixou que a roupa voltasse a lhe cobrir.

– Não voltara a usá-la — A alertou e a sua voz saiu como uma ameaça. Havia um senão escondido na frase — Pegue o meu elmo — Ordenou, pondo-se em pé e levando sua espada consigo. Não estava em posição de questionamento, por isso o obedeceu resgatando o elmo em forma de cabeça de cão que estava na cabeça de um dos cinco cadáveres do quarto e o entregou para Clegane, que agora estava arranjando um espaço na montaria do corcel para guardar essa peça que faltava em sua armadura, visto que o homem já havia separado os seus bens para deixar o Sufrágio da Donzela – Detesto que mexam em minhas coisas — Confessou em um comentário que foi mais para si mesmo do que para Sansa.

– Sinto muito por Alíria... — Sentiu que deveria lhe dizer algo a respeito da morte da camponesa e pela forma como ela fora tratada antes que ele chegasse para salvá-las.

– Eu não sinto e se tivesse um pouco de juízo dentro dessa sua cabeça oca também não sentiria — Como se ela fosse uma pena ergueu-a no ar e a colocou sentada sobre Estranho.

– Por que você está sendo mau? — Perguntou, sentindo-se desconfortável na presença de Sandor. Era incrível como de uma hora pra outra tudo o que eles desenvolveram juntos desmoronava com uma pequena brisa diferente.

– Eu te dei uma simples ordem: não abrir a porra da porta a não ser que fosse eu! — Gritou, puxando Estranho pelo arreio, caminhando ao lado do animal para evitar qualquer ataque disparado contra eles. O barulho de luta havia diminuído consideravelmente, tanto piratas quanto contrabandistas jaziam mortos por toda a extensão do corredor por onde passavam. Quando chegaram ao convés o número de corpos aumentou, a grande maioria era os tripulantes do Capitão Timothy. A vitória do inimigo era óbvia, eles possuíam um maior número e proficiência em justas.

– E eu não abri! — Se defendeu — Foi Alíria!

– Eu não quero saber de quem é a culpa — Rosnou — E ainda quero o que me prometeu. Um beijo, se lembra? — Seus lábios se contorceram em um sorriso amarelo.

– Agora!? — O estômago se contraiu com a cobrança do beijo, sentia como se diversas borboletas estivesse batendo asas dentro de si.

– Não seja estúpida, agora não é hora.

Um trio de piratas se aproximaram deles e Sandor soltou a rédea do animal para entrar em mais uma luta corporal. Sansa não tinha mais estômago para assistir aquilo, estava dessensibilizada com as mortes, mas isso não era motivo para se tornar espectadora ávida, não quando a justa em questão não fazia parte de um torneio e nem envolvia cavaleiros de verdade. Tinha certeza que Sandor sairia vitorioso de qualquer forma. Alguns grupos de atacantes e atacados ainda permaneciam em pé lutando por sua causa. Procurou por sinal de Yros, de Willem e do próprio Capitão Timothy e não obteve sucesso, talvez estivessem em outro lugar mortos ou vivos. Ao longe dava para se ver terra, tanto à sua frente quanto à suas costas, não sabia dizer a quem pertencia e nem onde estavam. Ao seu lado direito viu um navio do tamanho do Sufrágio, de onde os piratas vinham. Tinha uma ponte improvisada unindo os dois e era por ela que os invasores passavam. Talvez Yros e os outros tenham sido levados para lá, pensou.

– Para onde nós vamos? — Perguntou para Sandor quando ele se sentou no dorso do cavalo atrás de si após ter eliminado os adversários.

– Espero que saiba nadar — Disse.

Antes que a garota pudesse reagir a informação ambos saltaram para o mar. Estranho estava tão relutante quanto Sansa, porém cedeu aos planos de seu dono. A água salgado estava gelada e a sua pele quente de mais, parecia que mil agulhas estava perfurando o seu corpo. Eu não sei nadar! queria ter gritado. Winterfell mesmo durante o verão era frio, a primeira vez que vira o mar foi em Porto Real e nunca entrara nele por motivo de saúde, tamanha a poluição da água, e uma banheira nunca fora grande o suficiente para se permitir dar umas braçadas. Estando na água o seu corpo se tornou tão leve que foi desmontada do garanhão pela força da maré.

– Socorro! — Gritou enquanto água entrava e saia de sua boca. Seus pés não conseguiam encontrar o chão por estar bem longe da costa mais próxima. Para manter-se segura a única opção que lhe restou foi segurar no pescoço do cavalo, utilizando-o como apoio. Estranho por sua vez lutava para manter a cabeça fora d'água. O peso da armadura de Clegane amarrada em seu dorso o puxava para baixo e o homem recusava-se em dar fim à sua proteção de soldado.

– Maldição! — Sandor exclamou, nadando para o lado de Sansa — Mantenha a cabeça dele erguida!

– Como? — Perguntou, tentando ela mesma manter a própria cabeça acima do nível da água.

Clegane percebeu os esforços que Sansa estava fazendo e a abraçou por trás, passando os seus braços por de baixo dos dela e segurou o pescoço de Estranho, para mantê-lo a salvo.

– Segure-se em mim, Passarinho– A frase fora suave, contudo a sua voz continuava áspera como a de um comandante. Sansa virou-se de frente para ele e o abraçou, desconcertada com a atitude. As borboletas mais uma vez voltaram a bater as asas em seu estômago. O rosto de Sandor estava severo, os cabelos úmidos tomaram o seu devido lugar, deixando a parte queimada do rosto livre do penteado que ele fazia para esconder as cicatrizes. Ele não é tão feio, afinal, pensou consigo mesma, analisando cada marca no rosto do homem. O sangue que o cobrira durante a batalha dentro do navio fora lavado pela água e pequenos machucados onde fora atingido continuava, o que prendeu a atenção da jovem foi um corte em seu lábio inferior. Se ele me pedisse o beijo agora, eu o daria. Sentiu uma onda de calor em suas bochechas e Sandor percebeu alguma coisa estranha nela, pois ele desviou os olhos e os depositou sobre a jovem.

– O que foi? — Rosnou.

– P-por que tivemos de pular? — Mudou o rumo da conversa. Sandor fungou uma risada.

– Porque queria te mostrar os golfinhos — Respondeu com sarcasmo — Por que você acha que pulamos, hein!? Acha mesmo que eu ia deixar que eles nos tomassem como prisioneiros e nos levassem sabe-se lá pra onde!? Sete infernos, mulher! Use a cabeça!

O humor de Clegane estava pior e a garota não sabia dizer se foi porque Alíria morrera ou porque os planos dele foram alterados. Sansa soltou-se de Sandor por instinto e esqueceu-se de que não conseguia flutuar sem nada para se segurar. A água voltou a entrar e sair de sua boca e uma mão do homem fechou-se em sua cintura, trazendo-a de volta para o seu peito.

– O que está tentando fazer!? — Gritou, zangado com o fato dela quase ter se afogado.

– Ficar longe de você! — Retrucou na mesma tonalidade, aceitando o auxílio para não ficar submersa na água — Você é muito desagradável — Acrescentou.

– Você que é muito sensível — Contraiu os lábios em sinal de impaciência.

– E você é muito grosso! — Por um momento pensou estar discutindo com Arya e não com um homem formado. Ambos se entreolharam como se estivessem em uma disputa de quem iria desviar o olhar primeiro, Sansa acreditou que seria ela, mas foi Sandor o primeiro a se render.

– Vamos nadar até aquele lugar — Apontou com a cabeça a terra que se erguia à frente deles — Arranjaremos um navio que nos levara até onde quer que o acampamento do Jovem Lobo esteja.

– Não podemos simplesmente irmos a pé? — Estava cansada do mar e dos perigos que ele lhe trouxera.

– Em Pedra do Dragão? A não ser que saiba andar sobre a água, posso considerar o pedido — Respondeu com escárnio.

– Como você sabe que ali é Pedra do Dragão? — Não tinha forças para rebater as palavras isentas de galanteio de seu protetor.

– O capitão daquela merda disse que seria o primeiro lugar que parariam e o tempo de percurso faz sentido — Disse com obviedade no tom de sua voz, mas não felicidade.

O Senhor de Pedra do Dragão era Stannis Baratheon, que se proclamava o rei por direito de Westeros e declarara guerra contra o sobrinho, o rei Joffrey Baratheon, sendo o tio o responsável pelo ataque que resultou na Batalha de Blackwater há quase um mês atrás. Atracar em Ponta Tempestade era tão perigoso quanto fazê-lo em Porto Real. Bastava um olhar no rosto de Sandor para saber que ele era o Cão de Caça de Joffrey.

Ambos não mais se falaram. O mar rapidamente deixou de ser frio. O seu corpo se adaptou a temperatura da água e arrepiava-se somente quando passavam por uma corrente marítima. Estranho parou de se debater assim que começou a se mover, com Clegane sempre mantendo a cabeça do animal levantada com as suas mãos. O homem era o que mais estava se esforçando, tendo de proteger a sua montaria e Sansa ao mesmo tempo, que voltara a abraçá-lo. A distância de onde saltaram até a costa da praia era longa e mesmo depois de duas horas nadando em direção a terra firme eles continuavam distantes de atingir o objetivo. A câimbra e o cansaço se tornaram os seus piores inimigos. Mais duas horas haviam se passado. Sandor estava obstinado à levá-los em segurança a margem da praia, porém o seu corpo não mais o obedecia. O sol que antes estava alto e ameno se despedia do céu, aos poucos se distanciando para dentro do mar. A garota sentiu medo. Em breve a maré subiria e a visão do ponto de chegada sumiria diante de seus olhos. Queria dizer para Sandor parar, queria poder descansar por alguns minutos, todavia isso não era possível. Seu corpo estava dolorido, as câimbras enrijeceram os seus músculos e a sua pele estava enrugada como a de uma velha. Clegane não estava melhor do que ela e até mesmo Estranho estava afetado pelo nado constante. Se parar, morreremos... concluiu.

– Só mais um pouco, Passarinho– Sandor lhe disse. Talvez mais três horas ou o dobro disso e estariam com certeza em segurança na praia, o único problema era aguentar até lá. Sansa resmungou em resposta uma concordância incompreensível.

Se eu fechar os meus olhos só um pouco... O sal do mar parecia estar cozinhando as suas órbitas oculares e o sol ardido que batera diretamente em sua cabeça desprotegida lhe causara sérias dores de cabeça agravadas pela desidratação; foi por essa razão que acreditou estar alucinando quando viu o topo de uma enorme fogueira flutuando muitos pés acima do mar quando a noite já estava instalada nos céus havia horas. Conforme a luz vermelha e crepitante foi se aproximando, vinda em sua direção do lado oposto de onde a ilha estava, a garota percebeu que se tratava de uma nau marítima. Sandor também notou a presença do navio. A princípio julgou ser o Sufrágio da Donzela ou aquela embarcação de nome desconhecido que os atacaram, contudo ao lançarem um olhar mais apurado perceberam que o casco desse trazia uma decoração de um veado coroado em pleno salto como ornamento da proa. Baratheon... reconheceu. Estamos a salvo... pensou, ... pelo menos por enquanto, isso se eles nos verem... Sabia que as coisas não seriam bem desse jeito, entretanto só o fato de poder ser retirada daquele mar cruel já era um alívio. Stannis não me machucará. Era uma prisioneira valiosa para qualquer homem que se levantasse como rei. Se tudo desse certo, poderia até pedir interseção pela vida de Sandor. Nós ficaremos bem, repetiu para si mesma. Permitindo que o seu corpo relaxasse com a probabilidade de um resgate, entrou em um sono profundo ainda nos braços de Clegane, tendo como última visão cordas sendo lançadas ao mar que dançavam como salamandras devido tanto ao vento quanto o fogo refletido nas amarraduras. Nós ficaremos bem.

Notas finais
N/A: Próximo capítulo poderá demorar um pouquinho (no máximo 20 dias), pois terei de reler o terceiro livro para dar continuidade na fic. Agradeço a todos que chegaram até aqui, aprecio comentários e críticas ;) OMG! Dá pra acreditar que neste capítulo mudei a história três vezes antes da publicação? Estava em dúvida entre seguir um caminho original, o caminho da série da tv ou do livro, o resultado foi esse aí, agora as coisas se misturarão no próximo, rs. P.S.:¹ Ignorem os erros de pontuação, esqueci de como utilizar os pontos e virgulas! D: P.S.:² Agradeço do fundo do meu coração as recomendações, os favoritos, os acompanhamentos e os comentários recebidos! Meus leitores são os melhores em providenciar feedback! Me sinto revigorada e disposta a acabar o mais breve possível essa fic! Só para sanar a curiosidade e proporcionar entretenimento para vocês, claro. Prometo continuar dando o meu melhor!