O Voo Do Passarinho

14 Capítulo 14 - Segredos


Uma semana havia se passado e o cheiro, o gosto e o calor da pele da garota não deixavam os seus pensamentos. Ele a amava, pelos Sete, como a amava e apenas a ela de uma forma que jamais pensou que seria capaz, contudo, por amá-la tanto assim não conseguia se perdoar. Amaldiçoado seja o dia em que o nosso caminho se cruzou! Blasfemou em seus pensamentos. A lua já havia completado o seu ciclo dando lugar para uma nova e ele ainda não conseguia se dirigir a Sansa, não porque estava arrependido ou envergonhado do que fizera, mas porque ele a desejava ainda mais agora que já a havia experimentado uma vez e tinha consciência que até ela lhe retribuir todo o prazer que lhe daria no ato sexual ele seria incapaz de ficar plenamente satisfeito e deixá-la ir, mesmo que isso significasse forçá-la uma vez mais. Eu não posso tornar a machucá-la. Era essa decisão que o impedia de se aproximar de sua protegida e de sequer lhe direcionar o olhar.

Sandor Clegane possuía um código de moral, por mais errado que ele pudesse parecer aos olhos de toda Westeros, ele tinha como regra pessoal não tomar para si nada que não lhe fosse dado de forma voluntária, o que incluía violentar, e ter quebrado essa regra o fez questionar os seus valores, porém ele queria acreditar que o que ele sentia pelo o seu passarinho era recíproco, ela fora tímida em seus braços e escolheu crer que era pela inexperiência com os homens do que pela repulsa dele estar sendo o seu primeiro. Foi com o passar dos dias que o homem cedeu ao seu orgulho e aceitou que a segunda alternativa era a correta; Sansa não o procurou novamente, nem para que ele a possuísse, nem ao menos para passar o seu tempo na companhia dele. Todas as vezes que eles se encontraram no navio foi porque ela estava a procura de algo ou alguém, nunca ele, na maioria das vezes sendo Alíria. Sandor não entendia muito bem o que estava acontecendo, todavia do pouco que escutou das conversas, as duas mulheres estavam responsabilizadas com os cuidados do bardo Yros. A preferência dela está clara. Concluiu, sentindo-se dominado por uma força maior do que si mesmo. O ciúme que tinha de Sansa era tão forte que poderia destruí-lo. Estando resignado a não mais procurá-la, passou todo o tempo livre que tinha de sobra bebendo ou planejando a viagem, qualquer coisa que pudesse afastar os seus pensamentos dela era bem vinda.

– Vai me dar um gole dessa bebida ou não? — Alíria havia se aproximado de Clegane no convés do navio sem que ele percebesse.

O Cão estava tão bêbado quanto um marujo e a lua estava a poucas horas de ceder lugar para o sol mais uma vez. Os olhos de Sandor estavam avermelhados, característica da insônia. Naquela noite quando fora procurar uma cama onde pudesse desmaiar ele ouvira a voz de Sansa vinda de seu quarto e não ousou adentrar o local e nem procurar algum outro lugar onde pudesse dormir, temendo encontrá-la uma vez mais.

– Sirva-se a vontade — Estendeu-lhe a garrafa de vinho praticamente vazia que estava carregando consigo. Não tinha muito conteúdo para embriagar Alíria, contudo era o suficiente para fazê-la calar a boca.

Sem pestanejar a mulher tomou a garrafa e em um único gole virou o líquido em seu estômago, sem despregar os olhos de Sandor. Era tão óbvio que ela o estava seduzindo que teria sido menos engraçado se Sandor não estivesse embriagado.

– Eu não irei te foder — Rosnou uma gargalhada, apoiando-se no parapeito da embarcação. Nos últimos dias os dois deram início em um laço de amizade, ainda que Sandor não admitisse isso, compartilhando algumas confidências ou simplesmente uma bebida, como agora. Contudo, mesmo com os avanços sexuais dela, ambos não retornaram a trocar carícias.

– Só por que eu não resisto como a Jonquil? — Alíria respondeu amargamente. O sentimento de Sandor por sua protegida já havia se tornado claro para ela. A estalajadeira que se prontificou a seguir esta viagem com eles demonstrava abertamente sua posição em relação ao Cão de Caça, seus sentimentos eram claros e verdadeiros, não se importando em dividi-lo com outra mulher desde que houvesse uma sobra de afeto destinada para ela. A mulher fora criada para ser a amante, nunca a esposa, pelo menos quando o assunto era referente a algum cavaleiro e Sandor era o homem perfeito para lhe providenciar proteção e prazer, talvez até um pouco de dinheiro se tivesse sorte.

Demorou um pouco para Clegane associar Jonquil como sendo Sansa e quando o fez suas mãos voaram até o pescoço de Alíria, seu semblante estava fechado e sua força não estava sendo medida. Não havendo outras pessoas no convés, ninguém o impediu de realizar a ação.

– Não se atreva a se comparar com ela, puta — Avisou e mesmo após a mulher ter concordado com um menear de cabeça, ele demorou para soltar a sua mão da jugular dela, após libertá-la, arrastou-se para longe. Cada passo que dava era um risco. Fosse a instabilidade do navio, fosse a sua relação com o álcool, suas pernas não estavam retas e os seus pés ameaçavam virar. Sem nada para se apoiar para lhe dar sustentação, por um triz não foi com tudo ao chão, tendo apenas se ajoelhado sobre a perna esquerda.

– Eu posso ajudá-lo, se desejar — Prontificou-se a amante. Era desolador ver o modo que ela lutava para ganhar a atenção dele.

Quando o assunto era amor, Sandor possuía horror as pessoas que mendigavam e se submetiam a diversos momentos constrangedores que iriam permanecer em suas memórias pelo resto de suas vidas como uma assombração os atormentando, tudo isso apenas para que fossem notadas uma única vez pelo seu objeto de afeto. Na atual circunstância, Clegane odiava os apaixonados ainda mais e não podia evitar de se simpatizar com eles por temer ficar a mercê dessa condição do espírito humano.

– Faça-se útil — Ordenou, estendendo a mão para que Alíria a pegasse.

A mulher solícita o auxiliou a posicionar-se em pé e abraçando o ombro dela, Clegane pode caminhar com segurança, sem medo de ir ao chão novamente. Parando para pensar um pouco, era inútil estar indo para algum lugar; a real intenção de ter se movimentado para deixar o convés era a presença da Alíria e com ela ao seu lado, não havia bem um lugar para onde ele pudesse ou quisesse ir. Talvez ir para o meu quarto não seja uma péssima ideia. Pensou, mas ao recordar que poderia vir a se deparar com Sansa percebeu que aquela não era uma boa ideia. Havia muitos anos que Sandor não bebia tanto quanto esta noite a ponto de perder o controle sobre o seu corpo.

– A noite está tão bonita — Alíria comentou, desejando romper o silêncio que viria a se formar entre eles.

Sandor fungou em resposta. Conversas banais sobre tempo não era um assunto que lhe interessasse, ele não era socialmente recomendado para travar esses diálogos. Permitindo que Alíria o conduzisse, foi em direção ao seu próprio quarto. Os pés dele desejaram parar a caminhada antes de adentrar aquela porta. Ver Sansa não era de todo o ruim, o pior seria se ela estivesse ao lado de Yros, rindo e se divertindo como uma garota de sua idade que ela jamais se permitira ser com Sandor. Em seu íntimo, temia virar alvo de chacota pelo estado de embriaguez que se encontrava.

– Não se preocupe — Alíria sussurrou — Ela não está mais aí.

– Que se foda onda ela está! — Mentiu. Clegane sentiu-se aliviado e quando a porta do quarto se abriu, apenas Yros e Willem estavam lá, ambos dormindo em suas respectivas camas e nenhuma luz iluminava o quarto, por sorte havia uma vela posicionada sobre a cômoda ao lado da porta que foi acesa por Alíria, possibilitando que o leito vazio fosse encontrado. Sandor arrastou-se até a sua cama, o desequilibro inicial do álcool havia passado e mesmo ameaçando tropeçar em seus próprios pés, conseguiu chegar em segurança até a sua cama, sem acordar ninguém.

– Você não deveria beber dessa maneira — Alíria comentou, seguindo-o de perto para garantir que ficaria bem.

Depois de Sandor ter se sentado em seu leito, a mulher pôs-se a auxiliá-lo a se despir das roupas pesadas, começando pela camisa e terminando com as botas, aproveitando cada segundo que possuía em contato com o corpo dele, deixando-o apenas com suas calças. Clegane não se incomodou com o auxílio, Alíria era uma mulher e ele era um homem, desde que os seus limites fossem respeitados, não via problema algum em ser tocado.

– Ah, tá bom, cale a boca! — Blasfemou, cansado de mais para se manter ereto. Estando livre de suas roupas, deitou-se de costas e o teto começou a girar. O movimento brusco não fora favorável.

– Silêncio ou irá acordá-los! — Avisou a mulher, aflita. Willem conseguia ser tão agradável quanto Sandor, principalmente quando era acordado, aparentemente o cozinheiro de sua pousada acreditava em má sorte para quem era despertado de seu sono.

– A merda eles e a merda você, também! — Deu as costas para Alíria e virou-se para o canto, procurando uma posição confortável para dormir.

A estalajadeira do outro lado da cama não pode evitar e soltou uma risada nasal por tentar segurá-la. Clegane não compreendeu a atitude da mulher e preferiu ignorar. Para Alíria, era incrível a semelhança entre Sandor e Sansa quando ambos estavam querendo sossego em suas camas, fazendo uso da grosseria, embora a moça evitasse palavras de baixo calão, ao contrário do homem fazia uso de seu amplo vocabulário chulo para espantá-la. Vendo que não ia conseguir mais nada de Sandor, Alíria deixou o quarto dos homens, tomando o cuidado de apagar a vela que acendera antes de se retirar.

Estando sozinho novamente, isto é, ignorando a presença dos outros dois companheiros de cela, Sandor fechou os seus olhos procurando o consolo do sono, mas este não lhe veio e logo o ambiente no qual estava começou a aguçar os seus sentidos. Do lado de fora das paredes de madeira do navio podia-se ouvir a água do mar chicoteando contra o casco da embarcação, dentro do aposento, o ronco de Willem estava alto e algumas horas a mais desse barulho poderia ser o suficiente para fazer o seu cérebro doer e o seu ouvido sangrar. Se Gregor estivesse nessa posição o mataria sem pensar duas vezes. Sorriu com o pensamento. Não era ruim imaginar Willem morto e se Yros pudesse ter o mesmo destino que aquela criatura seria um brinde. Se Clegane fosse sincero consigo mesmo, ele admitiria que a única razão dele ter essa grande ojeriza para com o bardo era o relacionamento que Yros tinha com Sansa. Sansa... Sandor fechou os olhos e tragou o ar para dentro de seu pulmão. A garota Stark estava passando tempo de mais dentro daquele quarto que o cheiro dela misturado com ervas impregnava o lugar. O acontecido na tarde de sete dias atrás voltou a memória. Há exatamente uma semana ele a estava amando, o sol do fim da tarde aquecia a sua pele e a de seu passarinho, contudo a razão da febre no corpo de ambos era provinda do desejo de serem possuídos. Sansa a princípio relutou contra a ideia de entregar-se para ele e quando enfim aceitou o seu destino, ambos se tornaram verdadeiros animais entregados a necessidade carnal. Os lábios dela nos seus, a perna dela ao redor de sua cintura e os delicados gemidos que soltava eram memórias vivas dentro da cabeça do homem. Seu pênis começou a responder as suas lembranças, enrijecendo contra a calça de couro. Agora não... Lamentou. Se estivesse sozinho não teria motivos para reprimir o seu desejo, porém ser pego se masturbando por um de seus companheiros não era uma boa ideia, ainda mais quando o seu estimulo sexual era uma memória e não uma imaginação. Deveria ter aceito o convite daquela mulher. Alíria de fato não era Sansa, mas ainda assim tinha atributos que não podiam ser facilmente desconsiderados e Sandor sabia muito bem como aproveitá-los. Talvez não seja tarde de mais. Se sentou na cama e os seus olhos tentaram encontrar a porta no escuro, sem sucesso na ação, o jeito seria procurar através do toque e o teria feito se mais um golpe de realidade não o tivesse feito mudar de planos. Se Clegane resolvesse dormir com Alíria está noite o seu corpo iria registrar o último contato sexual, o que significaria que as suas lembranças do sexo que fez com Sansa seriam substituídas e se ele tivesse que escolher, mesmo a sua protegida não sendo voluntariosa, ele sempre a escolheria, sempre. Desgraçado. Xingou-se, batendo a mão em forma de punho em sua própria cabeça duas vezes seguidas. Como pôde fazer aquilo com ela? O rosto de dor de Sansa o assombrou. A garota era tão pequena e delicada, ela tentara lutar pela sua liberdade e quando viu que a sua força física não a salvaria do destino que ele programara para ela, ela suplicou. Sansa pediu para que Sandor parasse, pediu para que ele não a ferisse e mesmo assim, mesmo vendo os olhos vazios dela fixos nos seus, ele não cedeu. Por quê!? Por que fiz aquilo!? Voltou a bater em sua cabeça. No fim, quando ambos os corpos estavam chegando ao orgasmo, ela confessou odiá-lo, se ela ao menos soubesse o quanto ele se odiava pelo o que fizera a ela, Sansa saberia que seus sentimentos para ele não significariam nada perante aos dele.

Sandor voltou a jogar o seu corpo contra a cama, seus olhos fixos no teto visualizava uma cena de seu passado. Ela é só um passarinho. Tentou convencer-se. Aves não possuem vontades, elas são criadas pela própria natureza para cantar, cantam quando triste e quando feliz. E bicam quando zangadas. Em outra ocasião teria aberto um pequeno sorriso. Mas os cães não são criados com a mesma finalidade? Um cão deposita toda a sua fé em seu dono e se for para ganhar um pedaço de carne ou um veneno, eles sempre obedecem ao amo balançando a sua cauda, exceto quando na presença de estranhos, aí então o cão se torna agressivo. A função de um cão é proteger... Seus olhos umedeceram. Era incrível como um homem tão grande e bruto como Sandor permitia deixar-se afetar tanto por seus sonhos com a beleza, se as pessoas soubessem que esse era o seu ponto fraco, até mesmo uma criança seria capaz de derrotá-lo. Aparentemente não sou mais um cão... Talvez nunca tenha sido, de fato, caso o contrário não morderia a mão que me alimenta. Ele já era velho o suficiente para saber o que lhe era permitido e o que nunca seria. Sansa era uma lady, o irmão dela foi considerado Rei do Norte pelos seus conterrâneos, o que fazia dela uma princesa e o mais próximo que Clegane poderia ficar dela era como o seu cavaleiro, não pelo nome do cargo, mas pela função em sim. De tudo isso, o que mais lhe doía era saber que o seu passarinho não era seu. Ela não tem canções para me oferecer. E nunca o teria, Sandor acreditava. Ele não possuía terras nem beleza, em uma multidão, Sansa nunca olharia para ele duas vezes, nem uma vez pra ser sincero. Todas as vezes que ela o olhou fixamente no rosto foi por ordem dele. Era impossível evitar que uma lágrima escorre pela lateral de seu olho e fosse absorvida pelo travesseiro em baixo de sua cabeça. Eu deveria saber, eu deveria ter visto os sinais. Ela nem ao menos consegue me olhar nos olhos, como eu pude pensar que ela viria a gostar de mim se eu a levasse para a cama? Riu com amargura de sua ingenuidade e Yros se moveu na cama ao lado, ainda em sono. Sandor não estava se reconhecendo, um ato feito pela emoção do momento conseguiu colocar o seu mundo de cabeça para baixo. Seus sentimentos por Sansa eram claros desde antes de deixarem Porto Real, contudo foi logo agora que ele destruíra todas as esperanças de cair nas graças dela que ele tomara consciência do quanto ela significava para ele. Foi com esses pensamentos que ele acabou adormecendo e em seu sonho ele se viu na noite da batalha de Blackwater fugindo novamente com Sansa, mas dessa vez ao invés de irem mais ao Sul, eles foram para o Norte, para onde eles realmente deveriam estar indo em primeiro lugar.

Quando Sandor acordou no dia seguinte mais de meio dia já havia se passado e o seu aposento estava vazio. As cobertas dos cavaleiros com quem dividia o quarto estavam atiradas ao chão juntos com pertences pessoais e não tardou a imitá-los acrescentando mais bagunça ao quarto ao levantar-se de seu leito. A cabeça estava dolorida e pesada, assim como os seus músculos e o gosto em sua boca o fez questionar se na noite anterior ele havia comido algum animal morto há semanas. Tomando um gole de água para dissipar os efeitos que a bebida em excesso havia lhe causado, pôde perceber que o mero gesto de levantar um copo lhe doía o corpo. Como havia previsto, a água não curou imediatamente o efeito da ressaca e um leve enjoo surgiu junto com um arroto acompanhado de um líquido azedo que amargou-lhe a boca, obrigando-o a esvaziar o copo. Era inevitável ignorar as suas necessidades básicas e esvaziando a bexiga no penico, voltou a deitar-se na cama e estava prestes a dormir novamente quando um barulho alto semelhante a uma explosão vindo do convés ressoou no quarto fazendo o seu coração disparar no susto.

– Filhos da puta! — Gritou tornando a ficar em pé. Sua cabeça estava latejando com o barulho e os seus batimentos cardíacos recusavam a voltar ao normal. Não sabia o que estava acontecendo, haviam muitos barulhos ocos semelhantes a passos de um lado para o outro seguido de gritos. As pressas vestiu-se o mais rápido que pode e prendeu sua espada as costas, deixando o quarto para trás acreditando na possibilidade de estarem sofrendo ataque.

O tempo parecia passar mais rápido e os seus pés não o estavam acompanhando, era como se houvesse uma criança de cinco anos segurando em cada uma de suas pernas enquanto corria. Quando chegou no andar de onde o barulho vinha os seus olhos fecharam-se em reflexo a luz solar e ergueu um braço para proteger-se dos raios. A sua sensibilidade o estava prejudicando, o barulho estava mais alto, ele precisava se por em pose de luta. Sua mão estava a meio caminho de pegar a espada quando percebeu que os gritos que ouvira eram na verdade risos.

Mas que porra? Forçou-se a abrir os olhos, mesmo que essa atitude aumentasse a dor em sua cabeça. Seus olhos lhe presentearam com uma cena totalmente diferente da que imaginara e o ódio em seu interior cresceu como o fogo em uma floresta. O barulho de passos era proveniente de vários tripulantes que estavam dançando uma quadrilha animada enquanto o próprio Capitão Timothy tocava em seu alaúde junto ao bardo Yros, sendo este último também o vocal. Durante uma semana o maldito havia estado aprisionado em seu quarto e agora que saíra já havia conquistado a simpatia da tripulação, sendo o anfitrião de um baile. Sandor fungou uma risada. Havia tanto que ele gostaria de dizer e fazer no momento e no entanto o contentamento por não ser um ataque ao navio já o deixava feliz.

– Aí está você! — Alíria se aproximou de Sandor trazendo consigo duas canecas cheias nas mãos — Pensei que só o veria no fim da comemoração — A mulher estava claramente feliz.

Comemoração? — Clegane arqueou sua sobrancelha do lado onde o fogo não encontrara a sua carne. Seu humor estava mais afetado do que o normal e até o presente momento não havia percebido como a voz de Alíria era irritante.

– Sim — Respondeu, bebendo um gole de uma das canecas. Sandor percebeu que o conteúdo dela era vinho e imaginou que na outra continha a mesma substância.

– E estão comemorando o quê? — Perguntou, já se arrependendo de tê-lo feito. Suas sobrancelhas voltaram a se franzir e antes de Alíria responder, suas orelhas reagiram ao som estridente no qual a resposta víria.

– Nada e tudo ao mesmo tempo. Parece que o Capitão está feliz por faltar menos de uma semana para chegarmos ao nosso destino e de acordo com o que ele disse, quase nenhuma mercadoria sofreu dano — Voltou a tomar mais um gole de vinho — Mas eu não faço a mínima ideia do que eles estão transportando — Havia curiosidade na voz da mulher.

Nem eles sabem. Pensou Sandor no que diz respeito à sua identidade e a de Sansa. Sansa, ele não tinha visto ela. Seus olhos imediatamente foram em direção ao bardo e lá estava ela, como ele acreditou que estaria, sentada aos pés do músico, de costas para Sandor, acompanhando a música em um tom baixo. Sandor reconheceu o vestido laranja que ele comprara e que ela estava utilizando, era incrível como a cor lhe favorecera ainda mais que o verde e mesmo o cabelo castanho dela não diminuíra a sua vivacidade. Ela demonstrava estar tão animada com a situação que Clegane se questionou se ele realmente a havia violentado.

– Vai se juntar a nós? — A mulher questionou, fazendo menção de andar até o seu amigo tocador de alaúde.

O bom senso dizia para Sandor dar as costas as festividades e retornar para os seus aposentos onde poderia tranquilamente dormir até que todos os efeitos do álcool em seu organismo passassem, pois ficando ali no convés ele tinha certeza que arruinaria a festa. Depois que viram o que ele fez com Yros no dia da embarcação, todos os marujos e até mesmo o Capitão evitaram qualquer contato com ele e no atual momento, Alíria era a única que dirigia a palavra à Sandor e o tratava o mais próximo possível de bem, tudo com segundas intenções, claro.

– Se quiser, eu posso buscar vinho para você ou então podemos dividir o que está nesta caneca — A mulher sorriu e Sandor não conseguiu evitar recordar a forma a qual ela tomara a sua bebida na noite anterior.

– Traga-me água — Ordenou.

– Água? — Alíria estranhou a princípio, mas então abriu a boca em exclamação, compreendendo que ele estava mal do estômago por causa do exagero com a bebida — Sem problemas, eu pego para você — Dito isto, estendeu a caneca intacta com o derivado da uva para Sandor — Você pode entregar para a Jonquil, por favor? — E antes que pudesse ter uma resposta, deixou-o.

Sandor olhou para o líquido rosado escuro dentro daquele recipiente de madeira e em seguida olhou para Sansa, por fim voltou a olhar para a caneca. Não era apropriado que ela ingerisse qualquer tipo de bebida alcoólica, ela era uma lady e uma verdadeira dama não se entregava aos vícios, como a Rainha Cersei se entrega. Sua vontade era despejar a bebida para fora do navio, porém qual o direito que ele tinha sobre a garota para decidir o que ela podia ou não fazer? Se pelo menos ele ainda tivesse alguma moral como a de quando começaram essa viagem... Com relutância, Sandor caminhou até a moça e estendeu a caneca ao lado dela.

– Oh, obrigada! — Sansa tomou o que lhe era oferecido, roçando a ponta de seus dedos na mão que lhe havia sido estendida. O toque a fez perceber que aquela mão não pertencia a Alíria, como acreditou que era, virando-se subitamente para ver quem era, ela reconheceu o ex-membro da Guarda Real e a surpresa foi tão grande que os seus dedos se afrouxaram e o conteúdo da caneca dissipou-se no chão.

– Você está bem? — Yros perguntou, parando de tocar e cantar, deixando que o Capitão Timothy conduzisse a música.

– N-não... Quero dizer, s-sim, eu estou... — Sansa gaguejou. A jovem que tinha a pele corada devido a exposição ao sol desde que saíram das terras da tempestade havia adquirido uma palidez alarmante e para piorar a situação, ela tremia.

Sandor não pode evitar de se sentir ainda mais culpado pela posição que a havia colocado. Se ele ao menos conseguisse conter os seus impulsos, ela não estaria reagindo a ele dessa forma.

– Sabe, eu estive pensando — Comentou o Capitão Timothy olhando os dois com suspeita — Eu não o conheço de algum lugar?

Os olhos de Sansa mantinham-se baixos, ela recusava a olhar para qualquer lugar que não fosse o chão à sua frente. Sandor por outro lado não conseguia desviar os seus olhos de Sansa, mesmo quando o Capitão Timothy lhe dirigiu a palavra. Clegane ainda esperava que Sansa lhe dissesse algo, qualquer coisa que o encorajasse, mas ela não o fez e o capitão mais uma vez insistiu que o conhecia de algum lugar.

– Eu duvido — Sandor respondeu com rispidez.

– Não, já tem um tempo que penso sobre isso, você não me é estranho... — O velho homem do mar estava bêbado, Sandor pôde facilmente dizer. Durante todos esses dias o homem nunca lhe dirigira a palavra e foi no fundo de uma garrafa que ele conseguira a coragem necessária para fazê-lo.

A vontade de Clegane era esmurrar o capitão até que ele perdesse a habilidade de falar, sabia que havia outras pessoas de olho nele e não sabia o quanto eles conseguiam ouvir da conversa que estavam tendo. O seu punho se fechou. A ressaca não o estava permitindo sair dessa situação apenas pelo diálogo e estava a ponto de chegar ao fim dele com a violência, a sua solução para quase tudo na vida.

– Ei, Tim, por que não tocamos Florian e Jonquil? É a música preferida dela — Yros foi quem mudou o rumo da prosa de uma maneira sutil e usando Sansa como desculpa. Ainda que o bardo tivesse evitado uma desgraça, Sandor não conseguia lhe ser grato.

– Tudo o que a donzela quiser! — Timothy sorriu, mudando o acorde para a nova música — Vocês dois deveriam dançar — Sugestionou para Sansa e Sandor.

Ambos entraram no mais estranho dos silêncios. A arte da dança não era algo que Clegane dominava, ele tinha conhecimento o suficiente para não pisar no pé de sua parceira, mas nenhuma habilidade especial que se destacasse como quando lutava com sua espada. Sansa provavelmente adoraria dançar, era algo típico entre ladys, porém ele sabia que ela não desejava ter nada a ver com ele e por isso foi o primeiro a se pronunciar.

– Eu não danço — E dito isto, deu-lhes as costas para evitar uma discussão mais aprofundada e se acomodou em um espaço vago próximo ao parapeito do navio. O mar estava calmo e o céu tão azul e sem nuvens que a sua dor de cabeça fora drasticamente atacada mais uma vez.

– O que acabou de acontecer? — Alíria aparecera sabe-se lá de onde no exato momento em que Sandor finalmente conseguira ficar sozinho. A mulher trazia consigo duas canecas: a sua cheia de vinho e a de Sandor cheia de água. Em situações normais, a escolha teria sido o oposto.

– Nada que seja da sua conta — Sandor respondeu. A voz de Alíria e a música ao fundo somado com o contato que acabara de ter com Sansa o deixara irritadiço. Tomando a caneca com o conteúdo a sua escolha, virou-a completamente em sua boca e quando a afastou, estava vazia.

– Quanta sede — Alíria sorriu — Isso me faz lembrar de algo: você está me devendo, sabia?

Sandor arqueou a sobrancelha, não fazendo a mínima ideia do que ela estava se referindo.

– Sabe, eu não contei nenhum de seus segredos — Os olhos da mulher eram como os de caçadores há minutos de abater a sua caça.

– Não possuo segredos — Sandor mentiu, secando a sua boca com as costas das mãos.

– Então não se incomodará se eu contar para o Capitão que você era o Cão de Caça do Rei Joffrey — A voz de Alíria não saiu mais alto do que um sussurro para que apenas Sandor a pudesse ouvir — E também não se importará se Yros souber que você violentou a Jonquil, não sei se você reparou o quanto o relacionamento deles cresceu nesses dias — A mulher apontou para os dois com a cabeça e ele não pode evitar se não observar o que lhe era mostrado. Sansa ainda estava abalada pelo contato recente com ele, contudo ela voltara a cantar com Yros e havia um delicado sorriso formado em seu rosto.

Sandor não se importava de que o Capitão soubesse de sua identidade e nem que Yros soubesse o que fora feito com Sansa, o que ele não admitiria é que mais ninguém retirasse a felicidade de Sansa e infelizmente, os segredos dele estavam diretamente ligados à ela.

– O que você quer? — Perguntou com rispidez. Inconscientemente ele sabia que a grande abertura que dera para Alíria mais cedo ou mais tarde se mostraria prejudicial, sendo ela uma camponesa ambiciosa. As suas teorias agora se mostravam reais e começava a acreditar que a única razão de a mulher ter ido chamar Sansa na tarde em que fizeram sexo foi para adquirir mais poder através do conhecimento.

– A princípio, que dance comigo — O sorriso no rosto de Alíria aumentou. Ela estava se sentindo satisfeita com o poder que tinha em mãos e sabia que o cavaleiro se recusaria a negar-lhe o que pedisse.

– Eu não danço — Dera-lhe a mesma resposta que dera para Timothy, na esperança de que ela também aceitasse sua condição.

– E eu não guardo segredos — Ameaçou.

Contra a sua vontade, Sandor deu um passo a frente. Sentia-se horrível por dentro, era como se Alíria fosse o novo Joffrey em sua vida, obrigando-o a fazer coisas desagradáveis pelo mero prazer da satisfação pessoal, sem se importar com os sentimentos dele. Pelo passarinho, pensou, estendendo a mão para a mulher que prontamente a aceitou, depositando a outra mão no ombro de Sandor enquanto ele colocava a sua na cintura de Alíria. Diferente da maioria dos tripulantes dançavam quadrilha entre si, os dois eram os únicos a iniciarem uma valsa.

– Não está sendo tão ruim, não é mesmo? — A camponesa perguntou depois de alguns minutos que estavam dançando. A música já estava quase chegando ao fim.

– Não para você. Minha cabeça dói — Sandor comentou. Os sintomas da ressaca aos poucos iam perdendo a vez e apenas o mau-humor continuava com força total.

– Sabe o que é bom para a ressaca? — Questionou.

– Descanso — Respondeu.

Alíria gargalhou.

– Não quando se quer um resultado imediato — Dito isso, cessou a dança e deixou os braços de Sandor para caminhar até o lugar onde havia deixado a sua caneca com o vinho ainda intacto — Quando se quer curar instantaneamente os sintomas, deve-se ingerir mais álcool.

A ideia não soara tão ruim. Apenas muito álcool seria capaz de transformar os pedidos de Alíria em agradáveis.

– Pois bem — Esticou a mão para pegar a bebida, todavia Alíria não lhe entregou.

– Beba de meus lábios — Tomando um grande gole de vinho, a mulher prendeu o conteúdo em sua boca e esperou que Clegane viesse requisitá-lo.

– Mas que porra você está fazendo? — Os olhos de Sandor estavam arregalados. Ela já estava indo longe de mais com essas brincadeiras. Pedir para ser beijada em público era inadmissível, ainda mais tendo Sansa por perto.

Alíria engoliu a bebida que prendia na boca.

– Se não quiser que eu abra a minha boca, é melhor você me calar — Disse e tornou a encher a sua boca com o conteúdo de sua caneca.

Sandor estava indignado com o que a mulher lhe propunha. Por ter trabalhado praticamente toda a sua vida com nobres e nunca ter possuído nenhum segredo tão perigoso quanto agora, exceto a origem de sua queimadura facial, estava sendo uma novidade em quão ousada uma mulher de berço inferior podia ser quando encontrava algo que valesse a pena possuir. Ignorando o pedido da mulher, retirou a caneca das mãos dela e virou o restante do conteúdo em sua própria boca.

– Eu não irei fazer essa nojeira que me pede! Muito menos em público! — Informou-a com rispidez e Alíria não teve escolha se não engolir mais uma vez o que tinha na boca.

Sandor a desafiara com essa atitude e ela não aceitaria que o seu poder sobre ele fosse minado.

– Não me beije, me foda então — A frase soou simples.

Na noite anterior Sandor quase fora a procura dela e a razão dele não ter ido era a mesma que o fazia hesitar neste momento. Ele não queria perder os resquícios de Sansa de seu corpo, ele ainda queria ter a sensibilidade do toque dela contra a sua pele e não o de Alíria. A mulher não era ingênua como o seu passarinho, sabe-se lá quantos homens ela já não teve em sua cama para saber exatamente como agradá-los.

– Vá pra puta que pariu, não vou fazer porra nenhuma do que me pede! — Estava determinado a lutar por sua liberdade de expressão. Ele não era mais um Cão para ficar exposto aos caprichos dos outros.

– Eu estou falando sério — O rosto de Alíria trazia uma expressão de dor. Uma mulher ferida era tão perigosa quanto uma mulher traída — Se não fizer o que peço irei contar os seus segredos para todos!

Sandor tornou a hesitar, ele não queria correr o risco de que os seus segredos que envolvia Sansa fossem revelados, mas sabia que não havia nada o que pudesse fazer caso a mulher cismasse de contar. Talvez eu deva matá-la. Era uma boa alternativa, se ele assassinasse a camponesa, ele estaria livre de suas ameaças e poderia voltar a respirar em paz, porém ela não era uma desconhecida. Todas as mortes que ocasionou eram de estranhos, pessoas que nunca vira na vida ou de quem o rosto não se lembrava.

– E inclusive contarei a Jonquil sobre os irmãozinhos dela e que você sabia disso o tempo todo — A ameaça atingiu Sandor como um golpe fatal em suas costas. De todos os segredos esse era o que mais afetaria Sansa e nesse momento a garota necessitava de uma esperança, uma imagem de sua casa para onde pudesse retornar, porém Sandor nem fazia ideia de que a sua protegida já soubera das condições de Winterfell pela mesma fonte que ameaçava revelar.

– Seja rápida — Sandor a chamou e sem pensar muito sobre isso se direcionou ao mesmo caminho que o trouxera até o convés. Seus olhos involuntariamente procuraram por Sansa quando passou pelo lugar onde o Capitão Timothy estava sentado tocando The Bear and the Maiden Fair, mas não viu nenhum sinal dela nem de Yros. Passeando um pouco mais com os olhos ele os reconheceu, ambos dançavam quadrilha junto aos marinheiros e ele acreditou que Sansa estivesse feliz, ainda que não pudesse dizer ao certo como estava a expressão dela.

Notas finais
Capítulo dedicado ao aniversário de um ano de publicação de O Voo do Passarinho no site do Nyah! Fanfiction. Espero que tenham gostado do capítulo, críticas e sugestões são bem aceitas.