O Voo Do Passarinho
11 Capítulo 11 - Navios II

Os cabelos dourados do bardo cintilavam sob a fraca luz do sol e ao lado dele estava a sua donzela, a sua protegida, Sansa Stark. Sandor não pensou duas vezes quando viu ambos descendo juntos do navio que com muito custo conseguira para levar a jovem loba de volta para a sua ninhada. O sangue fervia em suas veias, quando retornou para a pousada em busca dela, o velho administrador do lugar o informou que ela havia deixado o local com um viajante muito bonito, "provavelmente deveria ser o noivo ao qual ela mencionara", Fiodor acrescentou. Ele havia pedido para que a garota não deixasse seu quarto e mesmo assim ela o desobedecera e estava enfurecido por essa razão ou pelo menos era o que o seu orgulho culpava; na realidade, Sandor estava possesso desde antes de sua fuga de Porto Real. Quando o seu irmão, Gregor, queimara o seu rosto nas brasas da lareira o objetivo de sua vida fora clamar sua vingança, mas com a presença de Sansa na Corte e do modo ao qual ela fora tratada pelo rei Jofrrey, o Cão de Caça começou a perder a identidade que construíra nos últimos anos de servidão aos Lannisters vendo a si mesmo e a sua falecida irmã na garota Stark e pondo dessa forma em risco de perder tudo o que conquistara. Durante os castigos que Joffrey aplicara em sua noiva, Sandor nunca o impedira, todavia também não infligira dor a jovem e, mesmo assim, no fim ele escolheu ao seu passarinho do que a sua vingança, dando-lhe conforto a sua maneira que muitas vezes não foi recebido de bom grado pela jovem. Quando o seu idílio retribuiu o olhar em sua direção e aceitou a sua ajuda, principalmente no dia do ataque da multidão na partida de Myrcella para Dorne, Clegane sentiu tamanha felicidade que pensou que o seu peito explodiria e teria de fato explodido se o terror não tivesse sido maior. Foi nesse dia que ele percebeu que via na jovem Stark algo além do que um reflexo de sua infância, havia sentimentos novos que foram despertados e não se julgava capaz de lidar com eles, tendo certeza que a resposta para suas emoções uma vez que reveladas seria o escárnio, afinal de contas sua aparência é tenebrosa e forma um grande contraste com a de sua bela donzela e infelizmente não fora o seu bom senso nem os comentários de outras pessoas que o levou a esta tomada de consciência, fora o modo que Sansa desviava os olhos toda vez que o via que o conscientizou da realidade. Ficar próximo a Sansa tanto na Corte quanto fora dela estava sendo um doloroso prazer, tê-la ao seu lado era motivo de felicidade, porém se ele ao menos pudesse tocá-la... ou ela tocá-lo voluntariamente. Seus dedos se fecharam com violência cravando as unhas nas palmas de suas mãos e antes que pudesse ter consciência de sua ação, ele havia jogado Yros com um soco de cima do navio para dentro do mar.
Sandor nunca foi um homem que travava diálogos durante brigas e sexo, sentia a extrema necessidade de estar com foco em apenas uma coisa para fazer o seu melhor e depois do grito de alerta do que estava para fazer antes de acertar Yros, ele pulou na água atrás do bardo lhe proferindo novos golpes. Com o salto o capuz que trazia cobrindo-lhe a face expôs sua aparência e no momento isto não foi a sua preocupação, não se importava em quantos olhos curiosos estavam posicionados sobre ele nem se Sansa o estava observando e o repudiando, ele queria apenas deformar o agradável rosto do bardo. Apesar de suspeitar sobre o tipo de relação que o homem buscava com o passarinho ele não tinha certeza sobre o que eles tinham de fato, mas ele via a forma que Sansa olhava para aquele bon vivant e não era nem um pouco parecido com os olhares que recebia.
O rosto de Yros começava a inchar com os socos frequentes que recebia e mesmo com a multidão aumentando ao redor deles, ninguém se atrevia a separá-los. É o meu tamanho e a minha face, eles também temem a mim. Constatou Sandor algo que ele já aprendera com os anos. O bardo perdia as forças em cada golpe que recebia e o seu clamor por súplicas que a princípio fora frequente e estridente agora se limitava a um silencioso lamento. Sabia que faltava apenas mais um par de socos para apagar o rival para sempre e não teria hesitado em atribuí-los se não fosse por duas mãos pesadas apoiadas em seus ombros afastá-lo de seu alvo pelas costas. Sandor virou-se para atacar a pessoa que o impedia de se livrar do obstáculo que surgira em seu caminho e seus olhos encontraram com a face de uma pessoa que ele pensou já ter visto em algum lugar anteriormente. O homem era quase de sua altura e tinha um estranho cheiro de banha animal. O primeiro soco fora Clegane quem recebera, cortando o lábio tamanha a força do impacto e abriu um sorriso amarelo ao ver que o seu adversário não era tão fraco quanto o anterior. O segundo golpe foi seu e acertara a orelha do indivíduo, deixando a região vermelha, porém sem sangramento. O estranho de rosto familiar se atordoou e com isso recebeu no estômago o terceiro e o quarto golpe. No quinto golpe foi a vez de Sandor apanhar novamente e revidando o ataque derrubou o seu adversário de costas, deixando-o lutar sozinho contra a água do mar que quebrada com fúria nas pedras se atiravam contra eles. Ganhando tempo enquanto o atacante se recompunha, Clegane virou-se para o seu primeiro alvo para finalizar com ele quando seus olhos se depararam com Sansa ao lado de Yros, agora ambos estando a salvo na areia.
– Você vai ficar bem, Yros... — Chorava Sansa passando suas mãos por sobre o rosto do bardo — ... Eu prometo, você ficará bem...
– Afaste-se dele! — Sandor ordenou. O ódio mais uma vez subiu-lhe a cabeça. Yros não merecia toda aquela atenção, o carinho e a preocupação que lhes eram destinados pela ruiva, quem era o merecedor de tudo aquilo era ele e somente ele.
Sansa não respondeu a ordem de Sandor, ocupada na expectativa de receber algum sinal de que o seu bardo estava bem. Clegane não esperou por respostas e se aproximou dos dois, tendo o punho da espada em mãos. Ele estava realmente disposto a se livrar daquele homem que dizia ser nobre ainda que vivesse com os desafortunados.
– Afaste-se dele! — Tornou a ordenar e se inclinou para retirá-la de perto de seu alvo, mas Sansa manteve-se agarrada em Yros, usando todas as suas forças para protegê-lo com o seu corpo.
– Não! Me solta! — Berrou Sansa em meio a lágrimas — Por favor, não o mate! Por favor! — Implorou — Eu vos rogo, por favor! Não o mate!
Ao invés das palavras atingirem a ele como Sansa esperava, o efeito foi reverso. A fúria dentro do homem aumentava cada vez mais e se ela continuasse negando se afastar do corpo de seu inimigo, que os Deuses a protegesse, pois até mesmo ela seria penalizada por ele.
– Ora, seu! — O homem que havia interferido na luta ressurgira novamente e atacara a Sandor de surpresa, atirando-o de volta ao mar. Água salgada e areia entraram em seus olhos; as ondas batiam na altura de sua cabeça e respirar começava a ser uma luta. Para completar, Willem, o homem que Sandor não reconheceu lhe proferia golpes violentos na face, estando bem a cima dele. O choro de Sansa ecoava em sua cabeça, ele pensou estar ouvindo-a chorar com maior intensidade quando caiu no mar, mas talvez fosse apenas o barulho do oceano em seu ouvido. Depois de tudo o que acontecera ser derrotado por causa de algumas ondas estúpidas estava fora de sua cogitação. Estava prestes a se debater em busca de estabilidade quando o seu agressor parou de deferir os golpes e aparentemente se afastou. Sandor com custo conseguiu se por em pé novamente e quando procurou entender o que acontecia viu o homem com cheiro de banha animal retornar para dentro do navio com a figura magricela do bardo nos braços com Sansa o acompanhando logo atrás. Esperando por Willem no navio estava Aliria, a hospitaleira dona da pousada de Felwood na qual Sandor ficara, quando seus olhos encontraram a moça ele teve certeza que ela retribuía o olhar, mas não pode perceber a expressão que estava em seu rosto pois os seus olhos estavam embaçados devido a água que entrara neles. Escravo de suas emoções e ações, Sandor não percebera quando o Capitão Timothy retornara, muito menos quando ele passou as ordens para toda a tripulação se apressar a embarcar a bordo, tentando afastar os olhares curiosos da multidão e guiar Estranho para dentro do navio.
– Eu ainda não terminei... — Sandor arfou, cuspindo água salgada que engolira. Sua respiração estava ofegante e os seus passos mais lentos devido as pancadas que levara na cabeça. Cada passo que dava equivalia a dois do cozinheiro. Antes que pudesse chegar a areia, Sandor ouvi a voz do capitão do navio.
– Ande logo, senhor! — Ordenou o Capitão Tim — Rápido, para dentro do navio! Os guardas foram chamados e a qualquer minuto chegarão! Eu não tenho planos de estar aqui quando eles chegarem, se é que me entende! — O homem transpirava como um porco e não foi preciso muita imaginação para se conscientizar que o capitão estava envolvido com algum comércio ilegal, sabendo que qualquer que fosse o que estava comercializando não seria nada de grave quando comparado com os convidados a bordo.
Cansado e dolorido, Clegane se arrastou para fora do mar. Sua roupa encharcada estava pesada e agradeceu por não ter vestido a sua armadura, caso o contrário seria impossível sair de lá antes de navio içar velas. Tinha planos de continuar com a briga e dar um fim de uma vez por todas em Yros, mas não agora. A preocupação por ser pego pelos guardas de Ponta Tempestade era maior. Se eles descobrirem que Sansa está aqui... Sandor temia pela segurança de sua protegida mais do que a sua própria. Direcionando-se para dentro do navio, sentia dor em cada passo que dava e tinha a consciência de que algo além de água escorria pela face.
– Essa fera não obedece a ninguém! — Um marujo exclamou, tentando domar Estranho com o seu arreio — Mal nos deixa chegar perto! — Exclamou um segundo homem do mar no instante em que o cavalo inclinou-se sobre as patas traseiras, buscando a liberdade.
– Eu cuido dele — Sandor se propôs. Tomando as rédeas do animal, Estranho mudou completamente de atitude ao reconhecer o seu mestre — Onde devo levá-lo? — Perguntou, obtendo como resposta o porão.
– Posso acompanhá-lo, senhor — Prontificou-se Aliria, que continuou presente mesmo depois das pessoas que ela acompanhava terem entrado.
– Eu não sou nenhum senhor – Respondeu de mau grado ao passar por ela. Aparentemente essas palavras a encorajaram, pois ela desatou a segui-lo. Sandor não imaginava que Yros trazia amigos consigo, o velho Fiodor esqueceu-se de mencionar este fato. Aliria não era tão desagradável quanto o bardo, porém se pudesse escolher, desejava que ela não estivesse ali.
– Sinto muito por Willem, ele geralmente não é assim — Desculpou-se a mulher pela atitude do cozinheiro de sua pousada.
– Willem? — Perguntou Sandor, não reconhecendo o nome.
– O cavalheiro que o atacou para proteger Yros... — A voz da mulher quase desapareceu quando associou o nome a pessoa. Sandor compreendeu que ela se sentia culpada e também que ela estava falando sobre isso apenas para iniciar uma conversa com ele.
– Cavalheiro... — Sandor fungou uma risada — O seu conceito de cavalheirismo está muito distorcido — Comentou e não houve um retrucar da mulher.
– Você está ferido... — Aliria comentou logo que chegaram no último andar da embarcação. O navio chamado de O Sufrágio da Donzela era composto por quatro andares, um destinado ao porão, um para a tripulação, um para a o transporte de mercadorias e o último onde se encontravam os aposentos principais, estando entre eles os aposentos do capitão e os quais Sandor e cia ocupavam.
Sandor direcionou Estranho para dentro de uma cela vaga e percebeu que havia mais cavalos e outros animais ali trancafiados. A viagem seria longa e em seu íntimo desejava que sua montaria não se adoentasse durante o percurso. Estranho era uma das únicas coisas que Sandor de fato se importava. Pegando os seus pertences que estavam alojados em cima do cavalo, sua armadura e outros bens, como o vestido que comprara para Sansa, deixou o porão do navio.
– Deixe-me cuidar de suas feridas — Aliria pediu, esticando um braço para tocar no rosto do homem.
Fugindo dos dedos viciosos da mulher, deu um passo para trás. Clegane sendo um homem, conhecia os flertes e sabia que a atitude de Aliria não era apenas cuidar de suas feridas, ela o desejava. Talvez ainda não soubesse quem ele era, talvez Yros não lhe tivesse contado, se fosse esse o caso, havia uma explicação para que ela não hesitasse em aproximar de si, todavia se la soubesse quem realmente era, então ela não possuía temor a vida.
– Não preciso de sua ajuda — Sandor deu-lhe as costas seguindo o mesmo caminho que percorrera. Aliria o acompanhou, insistindo em ajudá-lo com anseio em sua voz.
– Eu tenho experiência com tratamentos de soldados feridos, muitos caçadores que se embrenhavam na Matadorrei durante os períodos de caça eram tratados pela minha falecida mãe e ela me ensinou como fazê-lo.
Clegane a ignorou em vão. A jovem continuava a insistir em usar os seus dons de cura para com ele.
– Se é tão boa quanto diz, deveria estar auxiliando aquele maldito e não a mim — Sua voz era ríspida pois os seus pensamentos estavam concentrados em Sansa. Depois de ter atacado Yros ele vira a sua protegida ir ao encalço do bardo e então seguir Willem para dentro do navio. Tinha certeza que ela estava ao lado do galante intrometido, cuidando dele e garantindo que ele tivesse tudo o que precisasse. Não sabia o que esperar da reação dela quando encontrasse-a. Em Felwood quando Sandor a interceptou durante a sua apresentação na pousada de Aliria, ele se lembra claramente que a jovem Stark não reagiu bem a sua atitude quando tentou separá-la do bardo. Seus sentimentos pela ruiva o preocupava tanto que não temia apenas a reação dela quando ele se fizesse presente, mas sim a sua própria e isto o irritava profundamente.
– Yros tem quem cuide dele, você não — Aliria debateu expondo os fatos. Sandor não mais a questionou, estando sem argumentos para relutar as investidas e cansado demais com os seus pensamentos. O que ele necessitava era uma distração com alguém que lhe agradasse e não estivesse relacionado com o seu objeto de desejo — Por aqui — Aliria o conduziu até o quarto onde iria dividir com Sansa.
Como o esperado, o quarto estava vazio o que indicava que todo o alvoroço estava no quarto ao lado. Os pertences da donzela se encontravam sobre a sua cama, Sandor reconheceu os bens de Sansa e soube que foram aqueles viajantes que trouxeram para ela, visto que eles foram deixados em Felwood quando partiram de repente.
– Sente-se — Aliria indicou sua própria cama e deu-lhe as costas ocupada com os seus próprios pertences. Sandor deixou seus bens ao seu lado, desejando não espalhá-los pelo cômodo. Não demorou muito para que ela retornasse para o lado do pseudo cavaleiro trazendo consigo um pano limpo, uma vasilha com água e uma espécie de unguento — Willem o acertou bem feio — Comentou, umedecendo o pano e depositando na face de Sandor, limpando as partes onde sangravam. Marcas arroxeadas de hematomas começavam a serem reveladas e o lado não-deformado era o que mais demonstrava ter sido atingido, talvez porque as cicatrizes de fogo do lado esquerdo eram tão proeminentes que desviam a atenção para qualquer outra ferida ali.
– Não tanto quanto eu o acertei e ao seu amiguinho– Retrucou com orgulho para disfarçar o seu ego ferido.
A mulher abriu um sorriso no canto dos lábios com este comentário e passou com mais força o pano pela face de Clegane.
– Sabe, não tem problema perder algumas vezes.
O punho de Sandor se fechou. As palavras da morena tiveram mais efeito do que as ações da mesma.
– Você não sabe de nada.
– Na verdade, eu sei muita coisa — Respondeu de volta, seus olhos encontrando com os dele como se estivessem tentando dizer algo. Sandor a incentivou com o olhar, fazendo-a revelar os seus conhecimentos — Eu sei quem você é e quem aquela garota é, muito antes de Yros ter me dito qualquer coisa — Confessou.
– Se você soubesse, não deveria estar perto de mim — Aconselhou.
– Não tenho medo — Aliria sorriu — Já lidei com homens piores do que você; conheci o seu irmão um tempo atrás, Gregor, se não me engano. Os homens o chamam de A Montanha que Cavalga, um nome que o representa muito bem. Muito diferente de você, não tanto fisicamente — Os olhos dela tornaram a encontrar com os dele — Exceto pelas cicatrizes — Observou.
– Ele... — Começou.
– ... Não me fez nenhum mal — Aliria pontuou — Nem a ninguém de Felwood, bem, não sem os consentimentos delas, mas essas mulheres já estão acostumadas com homens desse tipo, todo homem com uma espada na mão se julga dono de uma mulher e a usa como se fosse um pedaço de metal que deve ser amolecido e moldado ao seu dispor.
Não havia como discordar das palavras dessa mulher. A princípio ele a julgou como uma mulher simplória sem vontade própria, que desejava apenas servir e ser beneficiada monetariamente por isso. Aos poucos ela começava a revelar uma sabedoria que o fez questionar sobre o verdadeiro caráter das pessoas que viviam a margem da vida na Corte.
– Gregor e eu não somos nada parecidos.
– Como lhe disse, fisicamente são. Eu não entendo por que dois irmãos como vocês não podem fazerem as pazes...
Sandor não ficou contente com a comparação. Ele e o irmão tinham uma rixa que vinha da infância de ambos, mesmo antes de o irmão mais novo ter a face esfregada em brasas chamejantes. Isto tinha relação com Reyla.
– Você não entende e nunca entenderá.
– Me menospreza por eu ser quem eu sou? Acha que apenas os mais afortunados tem a capacidade de compreensão? — Aliria se enfureceu e afastou-se de Sandor. Nesse ponto da conversa, ela já havia terminado de higienizar suas feridas e de aplicar o unguento a base de ervas.
– Quando eramos crianças... — Sandor começou, contando para esta estranha com quem dividira o leito uma única noite uma história que nunca fora pronunciada anteriormente pois o pai de Sandor julgou melhor apagar da memória de todos os possíveis que uma vez ele tivera uma filha que morrera de forma estranha.
– Ele fez isso no seu rosto? — Aliria perguntou indicando a sua face esquerda, onde se localizavam as cicatrizes do homem.
– Vai me deixar contar? — Rosnou em desgosto. Já estava sendo contrariado ao contar esta história e não suportaria ser interrompido em cada minuto. Aliria concordou com um menear de cabeça exalando curiosidade — Bom... Pois bem, quando éramos crianças nós possuíamos uma irmã, ela era mais velha do que eu e mais nova do que Gregor. O nome dela era Reyla, diferente de nós, ela era mais delicada, a saúde dela era frágil e atribuímos mais essa delicadeza pelo fato dela ser mulher.
– Não sabia que existia uma mulher na família Clegane... — Aliria comentou e foi fuzilada com um olhar carrancudo de Sandor avisando-a que novamente estava interrompendo-o.
– O meu desgosto para com Gregor começou quando eu tinha sete anos e ele doze. Reyla nessa época possuía oito anos e enquanto Gregor já tinha pequenos afazeres que levariam a desenvolver o seu feitio pela vida de cavaleria, eu e minha irmã passávamos longas horas por dia juntos, fosse lendo livros ou conversando sobre coisas banais como o futuro. Porém, sempre que Gregor retornava de onde quer que ele fosse ele trazia consigo algum presente para nossa irmã esperando criar com ela um elo tão afetivo quando o que eu havia conquistado. Foi justamente nessa época que nós três fomos presenteados com brinquedos de madeira e meu irmão ganhou um cavaleiro muito bem esculpido. Eu não me lembro mais como era o que eu ganhei, eu me lembro apenas do dele pelo o que se sucedeu. Em um noite de início de inverno, enquanto meu irmão havia saído para caçar com meu pai e mais alguns visitantes, eu aproveitei para brincar com o cavaleiro de madeira, Reyla me aconselhou para não fazê-lo, mas mesmo assim eu não consegui resistir e me sentei próximo a lareira para brincar. Quando Gregor retornou e me viu segurando o seu brinquedo ele veio em minha direção sem dizer palavra alguma, tomou o brinquedo de minhas mãos e em seguida, levantando-me em seus braços, arrastou minha face na brasa da lareira e apenas quando a minha carne começou a derreter ele gritou: Você não pode ter ambos!, fazendo referência ao seu brinquedo e ao afeto de minha irmã. Reyla que assistiu toda a essa cena tentou impedi-lo de continuar me ferindo, mas foi em vão. Eu agonizava de dor e Gregor teria me deixado queimar até a morte se nosso pai não tivesse intercedido na situação. Eu fui levado para o meu quarto e poucos empregados souberam da verdadeira história, apenas duas pessoas auxiliaram a cura de minhas feridas, Reyla foi uma delas, ela naquela mesma noite saiu para recolher neve para amenizar a dor da queimadura, todavia como eu já lhe disse, a saúde de minha irmã era fragilizada e acabou por contrair uma doença pulmonar e enquanto eu era curado, ela adoecia. No fim de uma mudança de lua ela estava morta e eu deformado, enquanto o meu irmão foi servir como escudeiro para os Lannisters e quatro anos mais tarde foi coroado cavaleiro.
Pela expressão na face de Aliria não foi necessário pensar muito para saber que ela estava pasma com o que ouvira. Havia rumores de que a face de Sandor havia sido obra de seu irmão, ainda que a história tida como oficial foi que o seu quarto pegou fogo e ele ficou preso nas chamas, sendo resgatado por Gregor. Ocorre que para o irmão mais novo, o que lhe causava asco para com o irmão não era o fato de ter tido a face desfigurada, mas sim que a sua irmã tivesse falecido como consequência do ato de Gregor.
– Reyla era o melhor que havia em mim, eu seria um homem totalmente diferente se ela ainda estivesse viva — Confessou, com o olhar vago preso em um ponto qualquer do chão do navio.
– Sansa... — Começou Aliria.
– Não sabe dessa história, não sobre o que diz respeito a Reyla — Sandor vasculhou em seus pertences até encontrar uma garrafa de vinho e a virou pela metade em um único gole. Tocar em suas feridas do passado era impossível sem ingerir uma bebida forte, fosse antes ou após.
– Por que você a está ajudando? — Aliria perguntou o que há muito tinha curiosidade de saber.
– Não é da sua conta — Sandor respondeu, engolindo o restante do vinho.
– Você... — Aliria o fitou, estudando as suas reações sobre o que iria perguntar — ...A vê como o melhor de você? — Disse a frase que ele utilizara para descrever a importância de Reyla em sua vida. Sandor ficou em silêncio por algum tempo, os pensamentos flutuavam como o álcool em suas veias. Aquela mulher era uma estranha e parecia entendê-lo melhor do que qualquer outra pessoa. Tinha receio de que ela fosse usar as coisas que lhe contava contra si quando tivesse a oportunidade para fazê-lo.
– Por que quer saber? — Retrucou tanto na frase quanto no olhar, estudando-a.
– Posso chamá-la, se desejar. Eu sei que o que levou você a bater no Yros não foi o fato de estar correndo o risco de que tenham suas identidades expostas, tem algo a mais, não é mesmo? — Sandor silenciou-se novamente com o semblante pesado e por fim de um minuto completo fungou uma risada.
– Faça o que quiser — Foi a resposta que deu, dando de ombros para a situação.
– Está certo, vou chamá-la, é o que eu quero — Sem dizer mais nada, Aliria retirou-se do aposento ao encalço de Sansa.
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