O Vizinho
1 Capítulo Um
Silêncio Inquieto
Ele tinha um violão, duas doses de uísque no copo e um cigarro, calculou. Sentado na escada de incêndio apreciando os transeuntes do seu tão amado segundo andar, onde podia observar e nunca ser notado. Era tão simples. Poderia viver assim por muito tempo, até a culpa o engolir inteiro.
Ele não tinha uma aparência bonita, estava mais para angulosa e imperfeita. Era magro e alto, usava, geralmente, um jeans surrado e uma camisa xadrez. Em seu rosto havia a cicatriz que ia de sua sobrancelha até o queixo, as sequelas de um passado recente. Aquela linha fina e assustadora, que causava arrepios para quem olhasse de perto era o que o mantinha preso dentro daquele ambiente claustrofóbico. Por essa e outras razões houvesse desistido do tratamento.
Seus olhos eram de um tom castanho escuro cheios de ressentimentos. Sem dúvida ali habitava um homem amargurado e sozinho. Que havia perdido tudo e chegado ao fundo do poço.
Sua rotina era definida por migalhas designadas por ele mesmo, nunca havia repetições. Se tirava o dia para escrever, era só com isso que seu dia era preenchido, claro que tinha prazos, mas não ligava. Se fosse o dia de receber visitas, ele permitiria uma. Era uma punição?, ele não sabia se era, para com ele ou com os outros.
Com insatisfação, virou seu copo de uísque de uma vez, era melhor não estar sóbrio em um dia como aquele. Tocou algumas notas em seu violão e uma ideia veio em sua mente, mas ele a dispensou como fazia geralmente. Não era o dia da escrita. Suspirou. E quando fosse, aquela ideia já teria sumido há muito tempo.
Colocando o violão de lado, ascendeu o cigarro e aguardou algum alívio, não veio. Nunca viria. Para sua alma atormentada a paz nunca chegaria. Continuou tragando seu cigarro olhando para baixo, para aquelas pessoas aleatórias sem realmente olhá-las. Nada podia salvá-lo daquilo que ele havia se tornado.
Seu telefone tocou dentro do apartamento. Ele colocou o cigarro no chão e levantou-se para pisar e apagá-lo. Deixou ali mesmo onde havia vários outros, sendo jurados de serem recolhidos uma próxima vez. Entrou no apartamento pela janela. Pegou o violão e colocou encostado na parede, era provável que ficasse ali por uma semana.
O telefone continuava a tocar, e ele ficou encostado na bancada enquanto olhava para o aparelho esperando que, quem quer que tivesse ligado fosse desistir. Não desistiu.
Resolveu por fim atender, com mau humor. Ele não lembrava se já havia sido de outra forma.
- Oi. — falou rudemente.
- Tenho um horário vago para hoje, você vem? — reconhecendo a voz decidiu que não tinha humor para trabalho essa noite.
- Não.
- Lewis… — ela insistiu.
- Não.
- Geórgia estará lá. — era uma isca que ela estava jogando, Lewis sabia e ele a mordeu assim mesmo.
- Estarei lá, às 19h. — ele bateu o telefone com tanta força na bancada que trincou a tela.
Olhando para o aparelho quebrado ele praguejou. Descidiu deixá-lo ali mesmo. Não haveria incômodo novamente.
[...]
Às luzes do pub brilhavam da esquina. Ele veio caminhando de sua casa até o Lounge onde tocava seu violão, de graça para sua irmã. Lewis era tanto um gênio da música quando da escrita, mas levava uma vida separada uma da outra, a de escritor era seu eu vestido e encapuzados para o público, já o músico era seu eu nu e anônimo. Os dois fazia parte dele mesmo e ambos sofriam.
Ao entrar no pub, sentiu o cheiro de cigarro e álcool que lhe era familiar, as luzes eram baixas, aquele ambiente era obra de sua irmã, mesmo sendo formada em advocacia, ela preferia aquele bar do que o tribunal. Apenas uma vez preferiu o tribunal, para ser apenas decepcionada. Era como se mover em areia movediça. Quanto mais forte era a luta, mas imóvel você ficava.
- Você está aqui… — ao ouvir aquela voz um misto de dor e sofrimento o invadiu, instintivamente ele levou as mão para cobrir a cicatriz, antes de finalmente se virar.
- Geórgia. — o tom saiu tão estrangulado que a fez recuar dois passos, a cicatriz ainda a assustava.
- Pensei que pudesse vê-lo aqui hoje... Afinal de contas hoje é o aniversário dele. — ela segurou a bolsa com mais força com a lembrança. — Lym disse que você viria…
- Preciso trabalhar. — ele levantou o queixo, deixando-o ainda mais assustador.
- Tome um drinque comigo, mais tarde... — ela pediu de forma defensiva. — Por favor?!
- Tudo bem. Após a apresentação eu lhe procuro. — ele lhe deu as costas e saiu.
Que agonia era aquela? Lewis se perguntou, Geórgia era sua ex-mulher, porque sentia tanto ódio dela, ódio misturado afeto distorcido. Um ódio que brotava e florescia todas as vezes que a via. Sua vontade era de pular em seu pescoço e sufocá-la até a morte, como ela havia deixado Sean ir daquela forma. Geórgia não só havia destruído sua vida, como também a de sua irmã. Com ódio de si mesmo, se posicionou no palco.
Os acordes? Eram fácil, como andar de bicicleta. E ele apenas tocou. Um barulho irritante de áudio chamou a atenção de todos para o pequeno palco.
- Essa música vai pra todos que já perderam seu chão… quando perdeu alguém. — ele anunciou com a voz rouca e hipnótica que todos o olhou. — Ao Sean.
Tocando algumas notas aleatórias, até pegar o ritmo ele suspirou. A música que tocou emocionou até o coração mais duro. Afinal aquele era o terceiro ano de morte de seu sobrinho.
Não houve palmas, ali não era este tipo de local, todos que iam ali tinham seus próprios demônios pra domar. Assim que se sentiu estável, correu seu olhar por todo o bar, para encontrar Geórgia ao telefone. Colocou o violão no tripé e foi até ela.
Como dizia os sábios: aquele que se submete a dor, será ferido!
Lewis sentou-se na mesa, esperando ela encerrar a ligação para conversar com ele, o que levou alguns minutos. Geórgia o encarou.
- Vou lhe pagar uma bebida. — disse ela, fazendo um sinal para o garçom.
- Não será necessário… — negou ele.
- Eu esqueci aquela criança! — afirmou ela. — Eu não vou viver na culpa, por conta daquilo.
- É assim que você vive? — o tom ameaçador de Lewis fez Geórgia recuar. — Esquecendo da dor que você causou. Minha irmã perdeu a pessoa que mais importava pra ela.
- Lewis, foi uma acidente. — defendeu-se ela.
- Dirigir embriagada e atropelar sua própria família, não me parece um acidente. Você sabia muito bem o que estava fazendo ao pegar no volante alcoolizada. — acusou ele novamente.
- Eu já paguei a multa e já respondi pelo processo. Eu vim aqui hoje para te avisar que não vou mais intrometer na sua vida nem na de Lym.
- Isso não trás Sean de volta!
- Nada que eu fizer vai trazer ele de volta! — conformou-se ela. — Minha família quer que eu me mude de volta.
Lewis sentia-se traído. Ela matou seu sobrinho e agora corria para a família rica que não mediu esforços para a filha não ser presa. O divórcio veio como consequência, porque tinha se casado com um pessoa que nem mesmo pediu desculpas a sua irmã pelo acidente. Alguém que não se arrependia.
Percebendo o silêncio dele como uma concordância, ela pegou a sua bolsa e foi embora. Logo em seguida Lym tomou o lugar de Geórgia e colocou a mão em cima da dele, para confortá-lo.
- Não se culpe demais por isso. Sean sempre corria para ela quando a via. Era natural que ele fizesse isso quando visse o carro dela. Não é culpa sua que ele saiu correndo. — Lym tentou confortar o irmão.
- Se ela não tivesse bebido teria visto o menino! Ela nem pediu desculpas, apenas ligou para a família dela e pediu um advogado. — era isso que mais magoava Lewis. Ela não estava ligando para uma ambulância, estava ligando para um advogado. — Se eu não tivesse soltado a mão dele.
- Lewis...
- É melhor eu ir, mande um abraço ao Harry. — com isso ele deixou sua irmã para trás.
Quando chegou na porta em seu apartamento ouviu um choro contido vindo da porta ao lado. Sabia que alguém tinha se mudado recentemente, e quase todas as noites era a mesma coisa, mas não queria se envolver nisso. Até mesmo ele sabia que chorava às vezes, quem era ele para se intrometer na vida dos outros quando a sua própria estava um caos. Ignorou completamente o som e entrou em sua casa.
[...]
Ela caminhou sem rumo por horas a fio, as pessoas das ruas não passavam de um borrão em sua visão e um barulho distante em seu ouvido. Tudo que passava em sua mente era estar de frente para um juiz e ele simplesmente acabar com ela, foi o fim, tanto para sua amiga quanto para seu estado mental, como resultado de sua indecisão Michele havia subido até o último andar do fórum e simplesmente se jogará de lá, caindo no chão em sua frente. Ela nunca esqueceria o som dos ossos dela contra o chão e o cheio do sangue em suas mãos.
Tudo isso porque Mackenzie foi incapaz de ir contra o sistema, seus ouvidos não ouviam o que o juiz dizia e eles aproveitaram isso para acabar com sua amiga e seu testemunho foi um tiro pela culatra, quando seu medo a deixou sem voz. Prejudicará sua amiga e também a si mesma, porque alguém a impediu.
Era grata demais para ir contra Zelda, porque não conseguiu simplesmente dizer àquelas palavras em frente a todos? Podia ter acabado com toda aquela agonia e não conseguiu, porque? A quem desejava punir? A si mesma? Falhará com todos. Havia jurado para Michele que sempre estaria ao seu lado. Mas no fim, foi ela quem atirou a última pedra. Foi Mackenzie quem a matou.
A culpa era algo que ela nunca conseguiria se livrar, mesmo tendo mudado de emprego e de cidade. Poderia até mesmo mudar seu nome, mas não mudaria o passado e tudo o que ele representava. Sua fraqueza tinha roubado uma vida.
Sentindo-se exausta e tonta ela encostou na parede. Tinha que voltar a seus sentidos, mas era algo impossível. Era um lixo humano, que não merecia nem a morte. Encostada na parede do prédio que ela mudará recentemente, ouviu a música. A melodia vinha do segundo andar, as notas do violão pareciam flutuar da sacada do segundo andar. Ela deu um passo para trás e olhou para cima.
Um sentimento estranho passou por ela, enquanto estava parada e a rua agitada, as vozes dos transeuntes e o barulho dos carros se misturavam e ameaçava engoli-la. No entanto, foi acolhida por uma melodia suave que parecia emergir do caos, como um farol em meio à neblina.
O som vinha de um estranho. Cada acorde ressoava no ar, criando uma atmosfera de calma que a envolveu. As notas dançavam com a brisa, entrando em seus ouvidos e fazendo seu coração desacelerar, como se a música estivesse falando diretamente com sua dor.
Por um momento, as preocupações e o peso que ela carregava se dissiparam, e a melodia se tornou um sussurro de consolo em meio à tempestade emocional que a cercava. Era como se, por alguns instantes, o caos ao seu redor se tornasse irrelevante.
A música do estranho era uma lembrança de que, mesmo em tempos de dificuldade, ainda havia consolo. A harmonia da canção que trazia um pouco de paz ao seu tumultuado coração.
- O que diabos quer que eu faça? — alguém esbarrou nela ao telefone e ela desequilibrou.
A pessoa que esbarrou, pediu desculpas rapidamente, a voz apressada e os olhos distantes, como se estivesse imersa em suas próprias preocupações. Em um instante, o contato foi feito, e logo depois ele deu as costas, seguindo seu caminho sem olhar para trás. A pressa da cidade parecia engoli-lo, mas Mackenzie ficou ali, um pouco atordoada, observando-o desaparecer na multidão.
A vida era tão estranha, pensou ela. Um simples esbarrão, uma troca rápida de olhares, e, ainda assim, a situação a deixou com uma sensação inexplicável de desconexão. O som da música triste que ecoava parecia intensificar tudo ao seu redor, como se cada nota estivesse tocando na sua alma. A melodia evocava um misto de nostalgia e tristeza, e algo dentro dela balançou de maneira que não conseguia explicar.
Sentindo-se uma idiota, Mackenzie se virou e começou a andar, a passos apressados em direção ao seu apartamento. O peso do mundo parecia mais presente a cada passo, e a música, embora linda, apenas amplificava a solidão que ela tentava evitar. Por que algo tão simples a afetava tanto? As emoções que ela não conseguia processar pareciam vir à tona, inundando-a de confusão.
Ao chegar em casa, fechou a porta atrás de si e deixou que a calma do espaço a envolvesse, havia caixas e mais caixas. Mas mesmo no silêncio de seu apartamento, a música continuava a tocar em sua mente. Era um lembrete doloroso de que, no meio do caos, havia um espaço para a vulnerabilidade e a conexão, e isso a fez sentir-se mais perdida do que nunca.
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