O Vizinho
2 Capítulo Dois
Primeiros Encontros
Mackenzie saiu do trabalho naquela tarde de sexta feira, preparada para passar no mercado, tinha feito uma lista das coisas que estava faltando em casa.
Na próxima semana seu departamento na empresa iria passar por uma reforma então teria que trabalhar de casa enquanto durasse a reforma. O que para ela era um coisa boa porque não queria lidar com as pessoas, era uma recém chegada e todos estavam curiosos sobre ela por ser era uma veterana na sua profissão.
Não teria problemas ficar trabalhando de casa. Nunca gostou de home office, mas atualmente era a melhor saída para não ficar dando explicações sobre sua mudança de emprego e de cidade.
Na entrada do mercado ela tirou a máscara da bolsa e colocou no rosto. Assim não teria que falar com ninguém e ninguém iria falar com ela. Era seguro e fácil. Pegou um carrinho de compras e entrou no mercado. Com a lista em sua mão, foi pegando os itens dos corredores que estava vazio. Aquele mercado ficava próximo do apartamento então não teria problemas em carregar por muito tempo as sacolas. Seu telefone tocou, era seu chefe.
Ela colocou o carrinho encostado na sessão e atendeu a ligação, foi uma ligação curta sobre alguns ajustes no programa que teria que ser feito na parte que ela estava programando. Sabendo da importância ela decidiu que terminaria logo suas compras e voltaria para casa. Pegou o carrinho para sair, mas acabou esbarrando em outra pessoa. Um homem magro e alto com uma cicatriz enorme nos rosto, ela se assustou.
- Me desculpe! — pediu ela.
Constrangido, ele levantou a mão instintivamente para cobrir a cicatriz que atravessava seu rosto. O gesto era quase automático, uma tentativa de esconder aquela marca que sempre chamava atenção indesejada. Sem conseguir encarar a mulher à sua frente, ele apenas assentiu, balançando a cabeça em silêncio, como se palavras fossem um peso desnecessário.
Ele detestava ir ao mercado à noite. Sabia que era o horário mais movimentado, e com mais gente, vinham mais olhares curiosos, disfarçados ou abertamente desconfortáveis. As pessoas sempre o olhavam por tempo demais, como se a cicatriz fosse um convite para julgá-lo. Por isso, evitava esse tipo de situação a qualquer custo. Preferia ir bem cedo, às seis da manhã, quando o mercado ainda estava praticamente vazio, e os únicos olhos que precisava suportar eram os da caixa, que o observava com desdém e desconfiança.
Ele deu um passo para o lado, criando espaço suficiente para que ela passasse com o carrinho, mas a pressa dele em se afastar carregava mais do que um simples gesto de cortesia, era um desejo de evitar qualquer interação prolongada. No entanto, mesmo enquanto se apressava na direção oposta, seus olhos foram inevitavelmente atraídos para ela. Notou o brilho discreto nos olhos escuros, a forma como o cabelo castanho estava preso em um coque, simples, mas elegante. Era um detalhe pequeno, mas de alguma forma chamou sua atenção.
Ele se perguntou, por um breve momento, o que ela escondia atrás daquela máscara. O que seus olhos não revelavam? Será que havia alguma história de dor, de cansaço, ou apenas uma necessidade de se proteger, como ele próprio costumava fazer? O pensamento passou por sua mente rapidamente, mas o suficiente para deixá-lo intrigado, mesmo que ele nunca admitisse essa curiosidade a si mesmo.
Ela se aproximou do caixa e, depois de pagar, começou a guardar suas compras com pressa, enquanto a atendente, em um gesto amigável, ajudava a encher as sacolas e as devolvia ao carrinho. Ela sentia um nervosismo crescente, pois sabia que o homem da cicatriz estava logo atrás dela na fila. Evitou olhar para ele, mas sua presença era marcante. Ele emanava uma energia densa, quase sufocante, como se o próprio ar ao redor dele dissesse: "não me incomode". Ela, que sempre preferia não chamar atenção, se apressou em terminar, desejando ser invisível naquele momento.
De volta ao seu condomínio, com o peso das sacolas nas mãos e o cansaço do dia nos ombros, ela esperava pelo elevador. Foi quando percebeu, com uma pontada de surpresa e desconforto, que o mesmo homem da cicatriz havia parado ao seu lado, carregando uma sacola de compras também. O elevador chegou com um ding suave, e ambos entraram. O espaço apertado forçou um pequeno esbarrão entre os dois, um toque breve que pareceu prolongar o silêncio constrangedor. Ela sentiu uma corrente elétrica pelo corpo, não de medo, mas de pura tensão, como se o simples fato de estar perto dele alterasse o ambiente.
- Desculpe! — os dois disseram.
- Qual o andar? — perguntou ele que estava próximo do painel.
- Segundo. — sem dizer mais nada ele apertou o botão e as portas se fecharam.
Quando as portas do elevador se abriram novamente, ele se afastou ligeiramente, fazendo um gesto discreto com a cabeça para que ela saísse primeiro. Observou enquanto ela passava, mantendo o olhar baixo. Ele saiu logo atrás, sem pressa, assim que ela se dirigiu à porta ao lado da sua e entrou no apartamento, uma onda de surpresa o atingiu.
Ela é a vizinha nova. A constatação o deixou atordoado por um momento. A mesma mulher que ele encontrara no mercado, com quem dividira o silêncio tenso no elevador, agora morava ao lado. O choque foi imediato, e ele ficou parado por alguns segundos, encarando a porta fechada do apartamento dela.
Agora, a simples possibilidade de cruzar com ela no corredor, no elevador, ou mesmo nos arredores do prédio, o deixava inquieto. Ele não queria socializar, eventualmente, teriam que trocar algumas palavras. E isso era exatamente o tipo de situação que ele queria evitar a todo custo.
Encostada na porta do lado de dentro, ela esperou em silêncio, o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir. Ouviu os passos dele no corredor, sentiu o momento exato em que ele passou pela porta dela, e então o clique suave da fechadura ao lado. Ele entrou. Ele morava ali, bem ao lado. A ideia de serem vizinhos fez um misto de surpresa e nervosismo subir por sua espinha.
Ainda tentando processar o encontro, ela caminhou até a mesa e deixou as sacolas ali, mas sua curiosidade não a deixava em paz. Pegou o celular, abriu o aplicativo do grupo do condomínio e começou a vasculhar as fotos dos moradores, uma a uma. Estava em busca de qualquer pista sobre quem ele era, uma foto que revelasse algo sobre o homem misterioso que agora vivia ao lado dela. Mas, por mais que deslizasse pelas fotos, ele não aparecia em nenhuma delas. Era como se ele fosse invisível, uma presença que, de alguma forma, escapava dos olhos de todos.
Frustrada, suspirou e largou o celular, decidindo que talvez fosse melhor deixar isso de lado. Tentou ignorar a crescente curiosidade, mas sabia que aquela ausência de informação apenas a deixava mais intrigada. Em vez de se concentrar nisso, começou a guardar as compras, mas a sensação de que o mistério do vizinho não seria tão fácil de esquecer pairava no ar.
Tarde da noite ela finalmente terminou de programar o que o chefe tinha pedido para editar. Esticando os braços e tirando os óculos do rosto pensou em beber taça de vinho ou um café. O rosto daquele homem veio automaticamente em sua mente.
- Quem momento inoportuno. — disse ela.
Uma semana se passou rápido, Mackenzie trabalhando de casa, seguia uma rotina metódica. Cada minuto do seu dia era cronometrado, para que não sobrasse tempo para pensar. Trabalhava o tanto quanto podia, estava adiantanda em três ou quatro requisitos do sistema, sem nenhum retorno. Isso poderia ser considerado uma grande ajuda ao produto final. O confinamento auto imposto estava deixando-a enlouquecida.
Mackenzie, lutava com seu próprio vazio, depois de mais um dia no trabalho, o silêncio de seu apartamento a engolia. O espaço parecia tão grande, e ao mesmo tempo, claustrofóbico. Cada objeto em seu campo de visão parecia sussurrar a lembrança de sua amiga, aquela que ela nunca mais veria. A culpa se manifestava em detalhes, as conversas que elas poderiam ter tido, as palavras não ditas, os gestos que poderiam ter mudado tudo. Mackenzie se perguntava constantemente: E se eu tivesse ficando com ela? E se eu tivesse dito algo diferente naquele dia?
À noite, a dor se tornava mais nítida. Ela via o rosto da amiga em cada canto, ouvia sua risada nos momentos de silêncio mais profundo. Era um peso esmagador, a sensação de ter falhado. Mackenzie, por mais que tentasse seguir em frente, ainda estava presa naquele momento final, quando tudo poderia ter sido diferente. Mas não foi.
Ia ao mercado a noite sempre com a sua máscara, já começa a conhecer as pessoas do prédio e as moças do caixa. Como era metódica sempre ia em um caixa específico e sempre pegava as mesmas coisas. Parecia uma roteiro mal feito do qual ela não conseguia sair.
Após alguns dias, ela ficou programando até tarde e quebrou a rotina e tendo que ir ao mercado às seis da manhã. Para a sua surpresa, o horário era o melhor de todos porque não havia ninguém. Passou a acordar cedo e fazer suas compras de manhã. Essa mudança foi uma alívio para ela.
Sem saber que seu vizinho também fazia compras esse horário eles pareciam sempre estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Não era proposital, suas rotinas solitárias começaram a se encontrar como se fossem atraídas por uma força invisível.
No elevador, trocavam olhares rápidos, cheios de algo indefinido, quase elétrico. No mercado, se evitavam mutuamente, sem nunca dizer uma palavra, mas sempre notando a presença um do outro. Era como se suas vidas estivessem destinadas a seguir paralelas, sem se cruzarem completamente ou propositalmente.
Até o dia em que Mackenzie voltando para o apartamento e a sacola de compras rasgou enquando caminhava. As frutas rolaram pela calçada, e o acidente quebrou o silêncio contido que os cercava.
Lewis caminhando mais atrás para não socializar com ela, hesitou por um momento ao ver a cena. Ele não era o tipo de pessoa que procurava interação, preferia manter-se fechado em sua própria rotina e distância. No entanto, ao ver Mackenzie se agachar desajeitadamente para recolher as frutas, ele se abaixou sem pensar.
Quando seus olhos se encontraram, houve uma pausa. Foi como se aquele breve momento contivesse algo maior, algo que não estava apenas no gesto de ajudar, mas na maneira como eles, pela primeira vez, se reconheceram de verdade.
- Obrigada — disse ela, a voz mais suave do que ele esperava, enquanto colocava a última fruta de volta na outra sacola.
Lewis apenas assentiu, a resposta presa na garganta. Ele a ajudou a se levantar, e por um breve segundo, suas mãos se tocaram. Ambos pareceram sentir o peso daquele simples contato, como se carregasse mais do que um momento de gentileza, se afastaram ignorando o que haviam sentido.
- Nos vemos por aí — Mackenzie disse, dando-lhe um sorriso tímido antes de seguir seu caminho.
Lewis ficou ali por um instante, observando-a se afastar. Talvez fosse apenas coincidência. Talvez suas vidas continuassem se cruzando de maneira passageira e insignificante. Mas algo naquela dia havia mudado, e ele sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que a solidão habitual de seus dias havia sido, ainda que sutilmente, tocada.
Em casa, Lewis passava horas em frente à tela em branco, as mãos sobre o teclado, mas as palavras se recusavam a sair. Escrever sempre fora sua única válvula de escape, o único lugar onde conseguia transformar o caos em algo que fazia sentido. Mas ultimamente, tudo o que ele conseguia ver quando fechava os olhos era o rosto de seu sobrinho. Aquele instante congelado no tempo, o acidente que nunca deveria ter acontecido. Ele sabia que não podia voltar atrás, mas isso não apagava o peso da culpa que carregava. A pergunta se repetia em sua mente, cruel e implacável: Por que eu não fui mais rápido. Porque soltei a mão dele.
Havia também o ressentimento silencioso que o corroía por dentro. Sua ex, que ele não conseguia perdoar. Ela havia se distanciado logo após o acidente, a família que nunca tinha aprovado a casamento começava a rondar, e ele incapaz de lidar com a dor de ter soltado a mão do sobrinho que ele tanto amava, e o abandono emocional que ele sentira a partir daquele momento foi transformado em raiva. Cada vez que pensava nela, o ódio subia como uma onda quente, o deixando à deriva em um mar de emoções amargas. Era como se estivesse preso em um labirinto sem saída, onde cada memória o puxava mais fundo.
Os dias seguiam, mas para Lewis e Mackenzie, o tempo parecia preso em um ciclo doloroso, repetindo os mesmos ecos de culpa e arrependimento...
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