O Vizinho
6 Capítulo Seis
Às Sombras de Lewis
Lewis estava encostado na bancada da sua cozinha, o celular em mãos, os olhos brilhando pelo sorriso contido enquanto lia a última mensagem de Mackenzie.
Mackenzie: Luna acabou de tentar escalar a cortina. Tá no sangue, eu acho. Você também é escalador? 😂
Lewis: Só se for pra escalar sua paciência.
Ele soltou uma risada abafada, balançando a cabeça.
- Você tá tão feliz aí que chega a ser irritante — disse Lym do sofá, onde estava sentada com as pernas cruzadas, observando o irmão com um olhar curioso. — Quem é responsável por isso?
Lewis olhou para ela, fingindo surpresa.
- Do que você tá falando?
- Ah, por favor! — Lym bufou, cruzando os braços. — Você raramente aceita visitas e, quando aceita, está distraído e rindo sozinho pro celular? Isso é praticamente uma confissão de culpa.
Lewis voltou a olhar para o telefone, tentando esconder o sorriso.
- Não é nada. Só... um amigo.
- Um amigo, claro — respondeu Lym, com um tom sarcástico. — E você ri assim de mensagens de todos os seus "amigos"?
Ele deu de ombros, tentando parecer casual, mas o sorriso em seu rosto o entregava.
- É só... A minha nova vizinha.
- Ah, então é uma mulher! — Lym deu um sorriso malicioso, levantando-se do sofá. — E o que você e a sua vizinha têm conversado que te faz ficar assim?
Lewis revirou os olhos e colocou o celular no bolso.
- Nada de mais. Ela é legal, a gata dela quebrou a pata, eu ajudei... Somos só vizinhos.
Lym o encarou por um momento, claramente não acreditando, e depois deu um pequeno riso.
- Sabe, você é péssimo em esconder as coisas, irmãozinho. Tá estampado na sua cara que ela é mais do que só uma vizinha.
Ele abriu a boca para protestar, mas a verdade era que ele mesmo começava a suspeitar disso. O quanto gostava das conversas com Mackenzie, o jeito como ela o fazia rir, como ele estava sempre pensando em uma desculpa para passar mais tempo com ela... Mas, não admitiria isso para a sua irmã.
- Ela é diferente — admitiu, quase sem perceber.
Lym ergueu uma sobrancelha, surpresa.
- Diferente? Isso é sério. Você nunca fala assim de ninguém. Geralmente quem chega perto leva um ponta pé com essa sua cara feia.
Lewis deu um meio sorriso, mas desviou o olhar.
- É só... ela passou por coisas difíceis. A gente se entende, eu acho.
Lym caminhou até ele e deu um leve tapa no ombro dele e foi até a geladeira.
- Bem, só não a compare com àquela pessoa, você faz isso, às vezes. — ela fechou a porta da geladeira com força.
- Quebra! — retrucou ele com sarcasmo. — Não quero me lembrar de Geórgia.
Ela riu e voltou para o sofá, enquanto Lewis colocou a mão no bolso e pegava o celular novamente. No fundo, Lym tinha razão, mas ele não sabia ao certo o que fazer com o que sentia. Por enquanto, apenas conversas, risadas e a gata Luna eram suficientes para manter Mackenzie por perto. Ou pelo menos era o que ele dizia a si mesmo.
Lym percebeu que Lewis já estava se retraindo, algo típico dele quando o assunto começava a se aprofundar além do que ele considerava confortável. Decidiu mudar de estratégia e, com um sorriso casual.
- Tá bom, vou te poupar das perguntas sobre a misteriosa vizinha — disse ela, abrindo uma lata de refrigerante que tinha pegado da geladeira dele sem pedir. — Mas só com uma condição.
Lewis arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
- E qual seria? Nada é de graça com você!
- Você vem tocar no meu pub na sexta.
Ele parou, a mão ainda segurando o celular, e franziu o cenho. De novo não.
- Lym, você sabe que eu não quero mais fazer isso.
- Ah, por favor, Lewis! — Ela se inclinou para frente, os olhos brilhando com animação. — Não é nada grande, só uma apresentação rápida, um set acústico. Vai ser tranquilo, como nos velhos tempos.
Ele balançou a cabeça, soltando uma risada curta.
- Nos velhos tempos eu tinha menos preocupações e mais coragem. Agora, não sei...
- Não é questão de coragem, e sim de diversão. Além disso... — ela deu um sorriso esperto fazendo uma pausa dramática — Talvez a vizinha goste de saber que você toca violão.
Lewis bufou, mas o canto de sua boca se curvou em um sorriso discreto. Lym fingiu que não viu, mas ela sabia sempre como derrubar as defesas de seu irmão.
- Você não vai desistir, vai? — resmungou ele.
- Nunca! — respondeu Lym, triunfante.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, pensando. Tocar no pub de Lym poderia ser uma boa distração, algo que ele realmente não fazia. Talvez até fosse divertido levar Mackenzie para se distrair um pouco.
- Tá bom, mas só dessa vez. Não me peça isso de novo tão cedo.
- Sabia que você ia aceitar! — Lym deu um salto do sofá e o puxou para um abraço rápido. — Sexta, às oito. Não se atrase!
- O que aconteceu com seus cantores ídolos adolescentes?
- São adolescentes certo? Sem senso de responsabilidade quando estão envolvidos com garotas, essa fase terrível. — dessa vez foi Lym quem resmungou.
Lewis riu e balançou a cabeça em negação enquanto ela voltava ao sofá. Lym estava usando-o como estepe... de novo. Ele pegou o celular para mandar mensagem, olhou para o próprio telefone novamente, pensando se deveria contar para Mackenzie sobre isso. Dando os ombros digitou a senha.
Ele hesitou por um segundo antes de enviar a mensagem. Quando apertou "enviar", sentiu um frio na barriga, mas também uma expectativa estranha. Queria mostrar algo seu para ela.
[...]
Mackenzie estava sentada na poltrona de seu apartamento, Luna dormindo enrolada em um canto do sofá, quando seu celular vibrou com a mensagem de Lewis. Ela estava prestes a ignorar, pensando ser mais um comentário brincalhão sobre as travessuras de Luna, mas a mensagem capturou sua atenção imediatamente.
Lewis: Minha irmã conseguiu me convencer a tocar no pub dela na sexta. Eu oficialmente perdi a sanidade. Você quer me ver passar vergonha?
Mackenzie: E você toca?
Lewis: É só um hobby!
Mackenzie: Aceito ir, mas se for ruim, vou ser a primeira a vaiar. 🙂↕️
Lewis: Prometo não te decepcionar.
Mackenzie: Combinado!
Ao enviar a mensagem, Mackenzie percebeu que estava sorrindo mais do que deveria. A ideia de vê-lo em um palco, mostrando um lado completamente novo, parecia... interessante. Talvez mais do que interessante. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu-se animada para sair de casa por algo que não era obrigação.
Ela olhou para Luna, que abriu os olhos preguiçosamente, e comentou:
- Acho que sexta vai ser... diferente.
Luna apenas respondeu com um bocejo, como se já soubesse que sua dona estava entrando em algo maior do que parecia.
Na sexta-feira à noite, Mackenzie ficou em frente ao espelho do quarto, ajustando os brincos e observando seu reflexo com atenção incomum. Ela raramente se produzia tanto, mas algo nessa noite parecia exigir um esforço extra. Escolhera uma blusa seda vinho elegante, combinada com jeans escuros e botas que sempre a faziam sentir mais confiante. Passou um pouco de maquiagem, o suficiente para destacar os olhos, mas não o bastante para parecer fora de si mesma.
Enquanto finalizava os toques no cabelo, um pensamento familiar atravessou sua mente como uma sombra. Ela olhou para a penteadeira e viu a pequena moldura com a foto de sua amiga, Michele, sorrindo em um momento descontraído de uma festa.
- Você estaria rindo da minha cara agora? — murmurou, sorrindo de leve enquanto pegava a foto.
Michele sempre fora a alma confiante e ousada das duas. Era ela quem empurrava Mackenzie para fora de sua zona de conforto, fosse uma saída inesperada ou um novo corte de cabelo que Mackenzie nunca teria coragem de fazer sozinha.
- Arrasa, Mac. Eles não vão saber o que os atingiu. — Mackenzie sussurrou, imitando o tom enérgico de Michele, e soltou uma risada curta, embora seus olhos estivessem marejados. Abanou os olhos para dispersar as lágrimas.
Por um momento, ela ficou parada ali, segurando a moldura. A perda de Michele ainda era uma ferida que não cicatrizara completamente, mas pensar nela naquela noite a trouxe uma pontada de coragem.
- Michele, eu sinto tanto a sua falta. — ela colocou a moldura de volta e respirou fundo, pegando a bolsa e se preparando para sair.
Na saída, Luna a seguiu até a porta, como se soubesse que sua dona estava nervosa.
- Não vou demorar, prometo. Cuida da casa e de você mesma, ok? — disse Mackenzie, acariciando a cabeça da gata antes de fechar a porta.
Ao sair do apartamento, Mackenzie parou ao ver Lewis no corredor, ajustando as alças do violão que carregava nas costas. Ele estava vestindo uma camisa escura com as mangas dobradas, revelando os antebraços que ela nunca havia notado antes. Seu cabelo, normalmente bagunçado, estava penteado de forma sutil, mas suficiente para fazer com que ele parecesse... diferente. A cicatriz estava ali, mas ela não tinha medo, parecia ter se acostumado a ela.
Lewis levantou o olhar ao ouvir o som da porta dela se fechando e ficou surpreso. Mackenzie não era do tipo que se arrumava além do básico, mas naquela noite algo nela parecia mais radiante. A blusa bem escolhida, os brincos que brilhavam sob a luz do corredor, e aquele toque de maquiagem que destacava seus olhos. Ele piscou algumas vezes, como se precisasse confirmar que era realmente ela.
- Uau, Mackenzie... Você está... incrível. — ele sorriu, o tom genuíno o suficiente para fazê-la corar levemente.
Ela deu de ombros, tentando parecer despreocupada, mas sua voz entregou uma timidez que ela não conseguia esconder.
- E você... parece um músico de verdade. Essa é a sua profissão? — Seu olhar caiu sobre o violão nas costas dele, e um sorriso travesso apareceu em seus lábios. — Nunca imaginei que você seria do tipo que se apresenta.
Ele riu, passando a mão pela nuca.
- Na verdade, é só um hobbie. Lym tem o dom de me convencer a fazer coisas que jurei nunca fazer. — ele a observou por um instante, seus olhos brilhando de algo que ele não sabia exatamente como nomear. — Obrigado por vir.
Ela deu um passo para o lado, indicando que estavam atrasados.
- Não se acostume. Ainda vou decidir se você merece aplausos ou vaias.
Enquanto desciam juntos, o ambiente entre eles parecia mais carregado de algo indescritível. Mackenzie tentava ignorar como ele parecia diferente fora do contexto cotidiano, enquanto Lewis mal conseguia acreditar na transformação dela, que parecia revelar uma faceta nova e intrigante.
No carro que ele chamou, ele estavam sentados lado a lado e suas mentes ocupadas com pensamentos que não ousavam compartilhar. O motorista olhou para o silêncio dos dois e estranhou. Mas os dois pareciam confortáveis.
O pub estava animado, com a música ambiente abafando o som de conversas e risadas que ecoavam pelo espaço. As luzes amareladas criavam uma atmosfera aconchegante, enquanto o aroma de madeira antiga e cerveja fresca dominava o ambiente. Lewis e Mackenzie entraram discretamente, sem chamar a atenção. Ele carregava o violão com uma tranquilidade ensaiada, enquanto Mackenzie o seguia, observando o lugar com curiosidade.
Lym, atrás do balcão, os avistou imediatamente. Ela servia uma rodada de cervejas, mas seus olhos seguiram os dois, avaliando a cena com um sorriso quase imperceptível.
- Então é ela a vizinha... — murmurou para si mesma, enquanto observava a mulher ao lado do irmão.
- Lym! — advertiu Harry, o seu marido. — Não seja intrometida!
- Você me conhece tão bem! Te amo! — Lym piscou para ele e voltou a olhar para o casal.
Havia algo intrigante naquela mulher de aparência contida, mas com uma postura que parecia esconder uma força silenciosa. Lym sabia reconhecer pessoas que se pareciam com Lewis, não fisicamente, mas emocionalmente. Mackenzie parecia ser uma daquelas almas introspectivas, que carregavam o mundo nos ombros sem alarde, exatamente como ele.
Quando teve uma chance, Lym se aproximou, sorrindo calorosamente.
- Então você é a vizinha? — a voz dela era gentil, mas cheia de curiosidade.
Mackenzie piscou, um pouco surpresa por ser reconhecida tão rápido.
- Sou Mackenzie. E você é...?
- Lym, a irmã mais velha e, aparentemente, responsável por tirar meu irmão da zona de conforto hoje. — ela lançou um olhar provocador para Lewis, que revirou os olhos.
- Não começa, Lym.
Lym riu, mas sua atenção voltou para Mackenzie.
- Bom, ele geralmente não convida ninguém, então já gosto de você.
Mackenzie sentiu o rosto esquentar, mas tentou disfarçar com um sorriso contido.
- Acho que só vim para garantir que ele não fuja.
- Boa resposta. — Lym deu uma piscadela antes de se afastar para atender outro cliente, mas não sem antes lançar um último olhar para o irmão. Algo em sua expressão dizia que ela já sabia que Mackenzie era mais do que apenas uma "vizinha".
Enquanto isso, Lewis e Mackenzie se acomodaram em uma mesa próxima ao palco. Ele ajeitou o violão ao lado da cadeira, e Mackenzie, tentando ignorar o desconforto de estar em um lugar tão social, olhou ao redor.
- Sua irmã é... intensa.
- Essa é a palavra mais educada que já usaram para descrevê-la.
Ela riu baixo, e Lewis, por um momento, ficou simplesmente observando o som suave de sua risada misturar-se ao barulho ao redor. Era totalmente diferente de quando estavam dividindo uma refeição em casa apenas com o barulho ocasional da gata.
- Obrigado por vir. De verdade. — ele disse, em um tom que parecia mais sério do que o momento exigia.
Mackenzie olhou para ele, surpresa pela mudança de tom, mas apenas assentiu.
- Estou curiosa para ver do que você é capaz.
Ele sorriu, mas não respondeu, apenas pegou o violão e seguiu em direção ao pequeno palco, deixando Mackenzie com o coração ligeiramente mais acelerado do que deveria.
Quando Lewis subiu ao pequeno palco, Mackenzie o observou atentamente. Ele parecia calmo, mas ela notou o leve movimento de seus dedos enquanto ajustava as cordas do violão, como se usasse o toque para encontrar estabilidade. Quando ele começou a tocar, um silêncio quase reverente se espalhou pelo pub, e Mackenzie sentiu a melodia envolver o ambiente, suave e íntima. A sequência das músicas músicas seguiu um ritmo comun com covers populares. A voz dele embora sempre mais expressiva que o normal.
As primeiras notas da nova música fizeram algo dentro dela estremecer. A música que Lewis escolheu parecia tão familiar, como uma brisa morna em um dia frio. Foi então que ela percebeu: era a mesma música que tocava no dia em que chegou em casa pela primeira vez após a mudança. Naquele dia solitário, a rua movimentada, com caixas empilhadas e espalhadas pelo apartamento, uma sensação avassaladora de desconexão, aquela melodia tinha sido um raro conforto. Parecia outra vida, um tempo que estava distante, mas ao mesmo tempo perto demais.
Agora, ali, a mesma música ganhava um significado completamente novo.
Enquanto ele tocava, Mackenzie sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Não era apenas a música, mas o momento. Lewis, tão simples e despretensioso, parecia compartilhar algo profundo sem sequer perceber. Cada acorde era como uma confissão, e ela se viu incapaz de desviar o olhar.
Ela levou a mão discretamente ao rosto, limpando uma lágrima que escapou. Sorriu para si mesma, surpresa por estar tão vulnerável em um lugar público, mas sem conseguir evitar.
Quando ele terminou, o pub explodiu em aplausos, mas Mackenzie ficou quieta, as palmas dela mais lentas, como se quisesse prolongar a conexão daquele instante. Lewis agradeceu com um aceno e desceu do palco, seu olhar encontrando o dela quase que imediatamente.
Ao se aproximar da mesa, ele pareceu hesitar.
- E então? Foi digno das vaias que você prometeu? — perguntou, em um tom brincalhão, mas com um traço de nervosismo.
Mackenzie olhou para ele, ainda tocada demais para brincar.
- Foi... Tocante. — sua voz saiu mais suave do que ela pretendia. — Surpreendentemente...
Lewis inclinou a cabeça, confuso, mas antes que pudesse perguntar mais, Lym apareceu do nada, batendo em suas costas com entusiasmo. Entregando a Mackenzie uma caneca de cerveja.
- Mandou muito bem, garoto! Quem diria que você tinha isso aí guardado? Está tentando impressionar alguém?! — Lym dirigiu o olhar para Mackenzie, discreta como um elefante.
Mackenzie desviou o olhar, dando a eles um momento, mas a música ainda ecoava em sua mente, e a presença de Lewis parecia mais forte do que nunca. Ela sabia que, de alguma forma, a vida estava tentando lhe mostrar algo, e isso começava a mexer com ela de maneiras que não sabia descrever. Não estava pronta, definitivamente.
Quando Lewis voltou ao palco para outra apresentação, Mackenzie ainda tentava se recompor da intensidade da música anterior. Ela não sabia exatamente como processar o que sentira, e o sorriso tímido que Lewis lançara ao voltar para o palco não ajudava em nada.
Antes que pudesse se perder nos próprios pensamentos, Lym se aproximou, sentando-se na cadeira ao lado dela com uma expressão cautelosa, mas curiosa.
- Você gostou da apresentação dele, hein? — começou Lym, como quem não queria nada, enquanto apoiava o cotovelo na mesa e segurava o queixo com a mão.
Mackenzie riu de leve, desconcertada.
- Ele é bom... não sabia que tocava tão bem.
- Ele nunca mostra isso pra ninguém. — Lym fez uma pausa, inclinando-se ligeiramente para frente. — O que me deixa curiosa é por que ele mostrou pra você.
Mackenzie sentiu o rosto esquentar, desviando o olhar para o palco, onde Lewis afinava o violão novamente. Se Lym queria arrancar algo dela, isso era impossível.
- Não sei do que você está falando. Somos só vizinhos.
Lym arqueou uma sobrancelha, claramente não convencida.
- Vizinhos que jantam juntos, cuidam de um gato juntos e que ele convida para um lugar onde nunca trouxe ninguém? Isso soa mais que "só vizinhos" pra mim.
Mackenzie tentou responder, mas não encontrou palavras. Lym continuou, mas agora com um tom mais gentil.
- Olha, Mackenzie, eu conheço meu irmãozinho. Ele é fechado, não deixa ninguém entrar facilmente. Se ele te deixou entrar, mesmo que só um pouquinho, significa algo.
Mackenzie olhou para Lym, tentando entender se havia alguma intenção escondida por trás de suas palavras, mas tudo o que viu foi sinceridade.
- Nós... passamos por algumas coisas juntos. — ela finalmente admitiu, a voz baixa. — Talvez seja por isso. Somos amigos.
Lym assentiu devagar, sem pressionar. Com um sorrisinho discreto.
- Seja o que for que vocês dois estão fazendo, só não o machuque. Ele já teve o suficiente disso. — a voz dela embargou.
Mackenzie imaginou que havia algo ali escondido entre irmãos, mas ficou quieta. Ela mesmo escondia suas dores e não tinha o direito de questionar nada.
- Você está pressionando Lym! — um homem alto e forte tocou no ombro da irmã de Lewis. — Sou Harry, o marido dela.
Ele estendeu a mão e ela comprimentou. Antes que Mackenzie pudesse responder, os primeiros acordes da nova música de Lewis ecoaram pelo pub, desviando a atenção dos três. Mackenzie olhou para o palco, vendo Lewis mergulhar em outra melodia, a cabeça levemente inclinada enquanto tocava com uma intensidade que parecia vir de algum lugar profundo. Uma balada romântica popular.
Lym observou a reação de Mackenzie, um pequeno sorriso se formando em seus lábios.
- Seja sincera com você mesma, Mackenzie. Talvez vocês dois precisem disso mais do que imaginam. — Harry a olhou torto. — Já sei, já sei.
Com isso, Lym se levantou e voltou para o balcão sendo acompanhada por Harry, deixando Mackenzie sozinha com seus pensamentos e com a música de Lewis preenchendo o espaço. A cada nota, ela sentia o peso das palavras de Lym, e algo dentro dela se agitava sem controle. Tomou toda a bebida que tinha em seu copo tentando se acalmar.
Após terminar sua quinta música, Lewis desceu do palco sob aplausos discretos. Enquanto se aproximava da mesa, notou Mackenzie olhando para o copo vazio à sua frente, claramente perdida em pensamentos. Ele também viu Lym no balcão, com aquele sorriso travesso que ele conhecia bem demais.
Sentando-se novamente ao lado de Mackenzie, Lewis inclinou-se um pouco na direção dela, a voz baixa e conspiradora.
- O que minha irmã te disse?
Mackenzie ergueu o olhar para ele, ainda um pouco distraída, mas sorriu suavemente.
- Nada demais. Ela só estava... curiosa.
Lewis soltou um suspiro e revirou os olhos. Mackenzie mal conhecia Lym e já estava acobertando.
- Não acredite em nada que ela diz. Lym tem esse talento especial para fazer parecer que sabe tudo sobre todo mundo. — brincou ele fazendo uma careta.
Mackenzie riu, relaxando um pouco com o tom leve dele. Irmãos sempre seriam irmãos.
- Ela só disse que você não costuma trazer qualquer um aqui.
Ele parou por um segundo, percebendo que fora pego. Coçou a nuca, desviando o olhar.
- Quem aguenta lidar com uma enxerida? — resmungou ele. — Mas é verdade mesmo.
Ela arqueou uma sobrancelha, intrigada com sua hesitação.
- Por quê?
Ele deu de ombros, como se não fosse grande coisa, mas suas palavras vinham com um peso que ele tentava disfarçar.
- Não sei... Este lugar é especial pra mim. E eu acho que só trago quem realmente eu me importo.
Mackenzie sentiu o coração acelerar um pouco, mas manteve a expressão neutra.
- Você se importa comigo?
Lewis olhou para ela, surpreso pela pergunta direta. Ele abriu a boca para responder, mas Lym apareceu de repente ao lado da mesa, interrompendo o momento. Com outra caneca de cerveja.
- Eu espero que vocês estejam se divertindo. Porque eu estou me divertindo muito com dois introvertidos. — ela piscou para o irmão antes de se afastar novamente.
Lewis suspirou, colocando a cabeça entre as mãos.
- E é por isso que eu nunca a deixo conhecer ninguém. Essa animação sem precedentes.
Mackenzie riu, observando-o enquanto ele balançava a cabeça, claramente frustrado com a irmã. Mas havia tanto amor ali. Ela sentiu um pouco de inveja, e para esconder seus sentimentos bebeu a caneca que Lym deixou em um gole só.
- Talvez ela tenha razão. — ela colocou a caneca na mesa.
Ele a olhou, intrigado. Ela parecia um pouco alterada.
- Razão sobre o quê?
Ela deu de ombros, levantando-se.
- Sobre você precisar relaxar um pouco mais. — ela pegou a jaqueta que estava pendurada na cadeira. — Vou buscar algo no balcão. Quer alguma coisa?
Ele a observou sair, sem saber se ela estava brincando ou falando sério. Lym, que ainda observava de longe, deu um leve aceno para Mackenzie, como se já tivesse planejado tudo. E Lewis, pela primeira vez, começou a pensar que talvez sua irmã soubesse exatamente o que estava fazendo.
Quando eles deixaram o pub, a noite estava fresca, com o céu limpo e as ruas tranquilas. Mackenzie, apoiada no braço de Lewis, ria suavemente pelo efeito da bebida. Seus passos eram ligeiramente vacilantes, e ele teve que segurá-la com mais firmeza para evitar que tropeçasse.
- Mackenzie, você é péssima com bebida. — ele disse, tentando conter o riso enquanto ela o encarava com um olhar dramático.
- Eu sou ótima! Só... só... Eu esqueci o que eu ia falar. Ah... Sim... Eu disse que sou ótima com bebidas. — respondeu, com um leve soluço que a fez rir ainda mais.
Ele balançou a cabeça, tentando conter um sorriso.
- É melhor eu te levar até em casa antes que você comece a abraçar os postes.
Mackenzie bateu levemente no ombro dele, fingindo estar ofendida.
- Escuta aqui! Posso cuidar de mim mesma.
- Claro que pode. — ele respondeu com sarcasmo, desviando-a de um pedestre enquanto a guiava pela calçada.
Eles caminharam por um tempo em silêncio, apenas o som dos passos ecoando. Mackenzie parecia mais tranquila agora, observando as luzes fracas dos postes.
- Por que não pegamos um uber? — perguntou ela de repente.
- É perto. E o ar fresco faz bem depois de algumas bebidas. — ele respondeu, dando de ombros.
- Hm... Você é estranho, sabia? — ela comentou, mas seu tom era mais curioso do que acusador.
Ela parou novamente e Lewis tropeçou e quase que os dois caíram. Ele a segurou e se equilibrou. Enquanto ela passou os dedos na cicatriz do rosto dele.
- Onde você conseguiu isso?
Lewis apenas riu, mas não respondeu. Ele a colocou de pé novamente e voltaram a caminhar.
Enquanto se aproximavam do prédio, duas coisas ficaram claras para ele naquela noite. A primeira era que Mackenzie não tinha nenhuma tolerância para álcool e, com certeza, precisava de supervisão quando bebia. A segunda era o olhar peculiar que Lym havia lançado para os dois antes de saírem.
Havia algo naquele olhar, um misto de curiosidade e satisfação, que o incomodava e o fazia pensar. Ele sabia que Lym tinha um instinto aguçado para perceber o que as pessoas sentiam, mas não queria admitir que ela poderia estar certa sobre ele e Mackenzie.
Chegando à entrada do prédio, Mackenzie tropeçou levemente no degrau, e ele a segurou antes que caísse.
- Tá vendo? — ele provocou. — Péssima.
Ela olhou para ele com um sorriso preguiçoso, os olhos brilhando de diversão. Parecia que aquela Mackenzie estava anos luz daquela que chorou em seus braços.
- Acho que você tá exagerando.
Ele abriu a porta para ela, deixando escapar um suspiro enquanto a acompanhava até o elevador.
- Talvez esteja mesmo. Mas alguém precisa ficar de olho em você. Você é um perigo ambulante.
Quando finalmente chegaram ao andar deles, Mackenzie virou-se para ele na porta, apoiando-se na parede.
- Obrigada por hoje. Por tudo. — ela deu um beijo na bochecha dele.
Lewis sorriu, enfiando as mãos nos bolsos envergonhado. Pareciam dois adolescentes.
- Sempre que precisar.
Ela abriu a porta com alguma dificuldade, e ele esperou até que ela entrasse. Mackenzie praticamente se jogou no sofá, murmurando algo sobre como o mundo parecia girar mais rápido do que deveria. Lewis, que já tinha se acostumado ao ritmo imprevisível da noite, suspirou e tirou os sapatos dela.
- Ok, Mackenzie, hora de você ir para a cama. — murmurou ele, puxando-a suavemente pelo braço.
- Eu aqui... o sofá é confortável. — respondeu, a voz arrastada e sonolenta.
- E vai acordar com dor nas costas. Vamos lá. — ele a levantou com cuidado, guiando-a até o quarto enquanto ela murmurava algo inaudível.
Quando finalmente a acomodou na cama, Mackenzie olhou para ele com os olhos meio fechados e murmurou:
- Você cuida bem de gatinhos e de pessoas, sabia? Tem que dar comida para Luna.
Lewis riu, ajeitando o cobertor sobre ela.
- E você deveria cuidar melhor de si mesma.
Ela soltou um suspiro preguiçoso, já se rendendo ao sono.
Saindo do quarto, Lewis foi até a cozinha, onde a gata estava sentada ao lado da tigela vazia, olhando para ele com olhos acusadores.
- Eu sei, eu sei. Sua mãe até que se lembrou de você antes de apagar. — ele falou, pegando a ração no armário e enchendo a tigela.
Enquanto a gata comia, ele se recostou na bancada, observando o apartamento silencioso. Havia algo estranhamente reconfortante no caos naquela noite. Ele riu sozinho, lembrando-se de como tudo isso havia começado com um gato machucado na chuva.
Antes de sair, foi até a sala, apagou as luzes e checou Mackenzie uma última vez. Ela dormia profundamente, o rosto relaxado, como se estivesse finalmente em paz.
- Boa noite, Mackenzie. — murmurou ele, antes de fechar a porta do quarto e sair em silêncio.
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