O Vingador Infernal

3 A faca banhada nas águas do Rio Estige


Notas iniciais
Bom feriado e boa leitura!

Quando acordei, estava no mesmo quarto de novo. Por sorte, estava com as mesmas roupas e ninguém tinha me trocado. Como pensei, o asiático estava do lado de fora vigiando, e a porta era sempre mantida aberta.

— Eu gostaria de tomar banho. – Pedi.

— Não tão cedo. Primeiro fale mais de você. – Jinrei se virou e entrou, dizendo.

— Eu já disse, não sei o que me tornei, não sou como você, não sou metade cavalo, nem como o Bento, não sei respirar debaixo d’água. Só fico com uma dor de cabeça horrível. Eu sou órfão, cresci em orfanato. Ontem eu saí do Orfanato Silvestre porque já tenho dezoito anos e não seria mais mantido lá. Estava viajando para qualquer lugar onde eu pudesse recomeçar. Se eu pudesse não ter me transformado, eu jamais escolheria isso. Também não escolheria ter conhecido aquela gangue de fantasiados de palhaço. Eu só quero um lugar para ficar. Eu não tenho para onde ir, por favor. – Desabafei, dando o meu depoimento.

— Tudo bem, acho que podemos acreditar nisso. Vou te levar ao chuveiro. – Ele se dirigiu a saída de novo, e eu o segui. Acho que posso confiar nele, se sou igual a ele, ‘mágico’. Pelo menos acho que sou. Nenhuma voz na minha cabeça interferiu.

No banho, refleti sobre tudo enquanto lavava as minhas feridas, que ardiam com a água passando por elas. Como queria meu baralho de volta.

*

— Qual o seu nome? – Bento perguntou.

— Gary. Gary Tablo. – Respondi.

— Eu sou o Bento e ele, Jinrei, como deve saber. Agora me siga. – O mesmo convidou, com seu amigo o acompanhando. – Você pode ficar, mas saiba que vai ter que trabalhar. Como viu, aqui embaixo temos uma arena. Aqui, pessoas como nós vem para batalhar. O dono deste lugar recebe dinheiro de outras pessoas, gente importante, para deixa-las assistir. Mesmo assim é um segredo, a magia. Nós também ganhamos dinheiro, não muito, mas é preciso batalhar para poder ficar. Você ganha comida e cama. Se ficar doente, está fora. A Marta cuida de você quando se ferir de novo.

Enquanto explicava, descíamos o lance de escadas de novo, chegando ao subsolo, e do outro lado das grades, dois rapazes duelavam.

— Eles estão treinando. Logo você irá treinar também. Aí saberemos o que você é, quando mostrar o que sabe fazer. – O oriental afirmou.

— Não sabem o que eu sou, não é? De todos que estão aqui, ninguém como eu esteve aqui? – Questionei.

— Nunca achamos alguém como você é, mas não se sinta especial, existem muitas espécies. Chamamos de criaturas mágicas. Eu sou um sereio, eu posso viver na água. E Jinrei é um centauro. – Bento disse enquanto os dois garotos batalhavam, um assumia a forma de um réptil, escamas afiadas dançavam na sua cabeça, e um par de asas se agitava em suas costas. Parecia um dragão.

O outro tinha asas também, no entanto de inseto. Seu corpo flutuava como se não pesasse nada, enquanto seu adversário não usava as asas para voo, e sim como escudo. Era como uma fada lutando contra um lagarto.

*

— Aqui é o cemitério. Onde enterramos as vítimas da noite passada. – Jinrei agora me levara até o lado de fora, estávamos no quintal do prédio, um terreno onde tinham alguns vegetais plantados e várias cruzes de madeira demarcando corpos enterrados. – Esta volante marca onde aquele senhor está enterrado. Sei que ele significava algo para você.

— Ele iria ser o primeiro a ser agredido, e eu fui no lugar dele. Eu pensei que o estava salvando, mas estava enganado. – Revelei, olhando para o túmulo do velho que tinha me cedido o lugar no ônibus. Que descanse em paz.

*

Roí até o último pedaço do osso que havia na carne do meu jantar, depois de come-la; preferi comer no quarto do que no refeitório. Eu sentia um sabor muito bom lambendo a parte dura, não sabia por que.

Quando olhei pela janela, estava escuro. Apenas as luzes dos postes iluminavam as ruas da cidade à noite.

Um dos carros que passavam pela rua que chegava na academia parou uma rua antes. Cuidadosamente, pôs um cãozinho para fora do veículo com a mão e o deixou lá.

Era só um filhote.

O pequeno começou a chorar, do seu jeito canino, e sua voz ecoou na minha cabeça. Parei de comer imediatamente. Era óbvio que ele estava sendo abandonado, em uma esquina qualquer.

A dor de cabeça voltou, tudo que me perguntava era “por que tão alto? ” As latidas do animal vibravam com a minha enxaqueca.

Sem deixar de observar o filhote sozinho, percebi que alguém chegara e tomara conta dele. O pegou no colo. Um homem.

Estranhamente, ele não estava vestido normalmente. Estava fantasiado como um bobo da corte. O que eu pensei foi, ele era outro terrorista como os palhaços? Era demais para mim. Tudo bem que o Halloween estava próximo, mas não era comum pessoas saírem fantasiadas assim como no carnaval.

O mais bizarro era que minha visão se alterou quando eu vi o homem, o cenário estava em preto e branco, o cachorro em tons de cinza, porém o sujeito estava vibrando em várias cores diferentes. Algumas eu via antes da noite passada, mesmo sendo daltônico, antes da minha visão mudar, mas outras eu nunca tinha visto e não lembrava mais os nomes.

A dor de cabeça só aumentava, e eu não entendia o que aquele cidadão tinha de especial para estar colorido. Quando ele olhou para mim, seus olhos brilhavam, coloridos e um sorriso perturbador se formava em seu rosto. O choro do cão continuou mais agitado, e sua voz canina ecoava mais alta em meu crânio, invasivo, parecia que ele estava assustado, como se o homem que o segurava fosse mal, ou talvez fosse só saudade do antigo dono.

— Gary! – Sua voz grave chamou o meu nome. Como ele sabia?

Das coisas estranhas que aconteceram esse dia essa era a pior. Se eu acordasse amanhã e tudo fosse um sonho, ou melhor um pesadelo, e eu ainda estivesse no orfanato eu ficaria aliviado.

— Gary, pule a janela e venha até mim! – O bobo da corte gritou.

— Por que eu faria isso? Não te conheço! – Respondi.

— Ora, é claro que conhece, sou o coringa do seu baralho de cartas.

— Como sabe o meu nome?

— Porque eu sempre estive presente em cada truque de mágica seu. Sempre vi você usar cada carta, e até estrelei alguns truques. Sempre vi o seu talento crescendo mais e mais! – O fantasiado continuou a tagarelar, enquanto a minha dor de cabeça penetrava em meu cérebro e o choro do filhote não parava. Ele realmente sabia muito sobre mim.

Olhei para baixo. A queda era alta. Não cogitava pular ainda, mas ele estava me deixando curioso.

— Anda logo, pula!

— É muito alto! – Exclamei.

— É seguro, confie em mim! – O mesmo avisou. Se eu não pulasse, nunca saberia.

Quando o fiz, estava descendo livre do segundo andar ao térreo, com a brisa fria noturna batendo em minha pele, eu pensei que iria me machucar de um jeito rápido e dolorido, no entanto de algum jeito cheguei ileso ao chão.

— Como...? – Falei comigo mesmo confuso, enquanto virava o rosto para trás, checando se alguém tinha visto. Por sorte, ninguém viu. Estavam todos ocupados fechando o estabelecimento e a maioria estava no refeitório jantando.

— Agora corra até mim! – O Coringa berrava, e ninguém na rua parecia ouvir.

Não sei por que, mas o obedeci. Parecia maluco, um maníaco, porém eu corri até ele. Estranhamente, quando fiz isso, meus passos foram mais rápidos do que deveria.

A paisagem, sem cores, passava veloz por mim, em segundos, e isso se repetiu, em linha reta, depois dobrando ruas e esquinas, fazendo um longo trajeto até parar em uma casa.

— Como eu cheguei aqui?! – Gritei.

— Incrível, não é? – A voz do bobo da corte soou, e me virei para vê-lo. Ele ainda segurava o cãozinho.

— Por que me trouxe até aqui? O que você quer?

— Está vendo essa casa? Esta é a família que abandonou esse pobre cão. – O sujeito respondeu, e então eu olhei a casa bem apresentada e com carro na garagem, o carro que tinha parado quando o cachorro foi abandonado. – Como pode ver, eles são bem de vida, classe média-alta. Poderiam manter esse filhote e sustenta-lo muito bem, mas preferiram descarta-lo como um objeto.

“As pessoas adotam um bichinho achando que é um brinquedo, que quando cansarem dele poderão substitui-lo. Mas ele é um ser vivo. E é por isso que você precisa vinga-lo, Gary! Sabe, essas famílias quando chega o final do ano e querem sair de férias, deixam os pets para trás. Mate todos eles e assim será uma família de escrotos a menos no mundo! ”

— O que? Eu não vou fazer isso!

— E por que não? Eles não são pessoas boas. Que tipo de pessoa faria isso com um filhote inocente? É bom fazer, ou esse animal será sacrificado. – O Coringa explicou, envolvendo o punho em volta do pescoço do cão, que choramingava mais alto e minha dor de cabeça latejava.

— Não faça isso! Essas pessoas não são ruins, só cometeram erros. É o que seres humanos fazem. – Afirmei.

— Quando você levou aquela surra, foi um erro. Quando todos os passageiros daquele ônibus morreram, foi outro erro. Esta é a sua chance de corrigir pelo menos um, Gary. – Sua voz de doido soava e eu me perguntava “quem era ele? Por que exigir isso de mim? ”

— Eu não quero ser igual a eles. – Decidi.

— Bom, esta é a sua decisão. É uma pena que seja a errada. – Assim que falou, o bobo da corte forçou mais o punho no pescoço frágil do animal, e seus latidos se tornaram mais altos, desesperados, minha cabeça parecia que iria explodir.

— Espera! Não machuque ele, machuque a mim!

— Ora, ora, então mais uma vez você se oferece no lugar da vítima. Parece que tem uma vocação para ser o salvador. – O homem caçoou, libertando o cão, que caiu no chão, sendo solto brutamente. Ele então veio até mim, com uma adaga em mãos. Sua fantasia vibrava em cores, cores que eu não via no resto do cenário.

Ele me puxou pela gola traseira da camisa, com força. O punhal deslizou pela minha pele negra, subindo do peito até o pescoço. Enquanto cortava, a dor latejava e fazia meus batimentos aumentarem e o sangue pulsar.

— Esta faca é uma arma feita dos metais das moedas de dânacas, e foi banhada nas águas do Rio Estige, o rio das almas perdidas! Isso vai feri-lo muito! – O sujeito gritou, me cortando e arrancando gemidos altos de mim, era insuportável. A vizinhança logo se incomodaria com a bagunça.

— O que quer dizer com isso? — Perguntei.

— Quero dizer que você pertence ao inferno, Gary! – Respondeu o Coringa; essa era a primeira informação útil que ele me dava. Será que o que eu sou de verdade se origina do inferno? Isso quer dizer que sou mau?

— Vão embora! – Um senhor bradou da janela de uma casa, enquanto múrmuros surgiam da vizinhança – Eu vou chamar a polícia!

— O que você está fazendo aqui? – Era a voz do Jinrei. Ele estava em sua forma de centauro e cavalgava pelas ruas, alcançando em pouco tempo o ponto onde eu estava. – Por que fugiu da Academia?

Quando olhei para o lado, o Coringa havia sumido.

Notas finais
Menos texto desta vez...favor comentar se puderem, estou vendo que estão lendo, não quero fantasminhas. Beijos