O Viajante

6 Capítulo V


Scorpius encarou o céu, deitado sobre a grama, com as mãos atrás da cabeça e sorriu. Apesar de sua chegada caótica, a morada de Rose era… aconchegante. Londres nunca poderia prover uma calmaria tão grande quanto o reino em que se encontrava. Nos primeiros dias, Scorpius acreditou cegamente que sentiria falta da cacofonia do trânsito ou do cheiro de poluição da cidade em que passou grande parte da vida, mas, surpreendendo a si mesmo, notou que aquele lugar era quase perfeito.

Se pudesse incluir a invenção dos celulares e dos banheiros neste reino, ele não teria vontade nenhuma de voltar para casa.

— Sabe, fazia um tempo que eu não via um céu tão limpo assim. — comentou ele.

Rose franziu o cenho. Observou Scorpius deitado encarando o céu como se fosse algo excepcional.

— Como assim? — questionou, voltando sua atenção ao pelo de seu cavalo que estava escovando.

Havia se passado uma semana desde que Rose e Scorpius fizeram o acordo de não pularem nas gargantas um do outro, estavam trabalhando juntos em busca de respostas. Sem nenhum sucesso até então, mas Scorpius era — ridiculamente — otimista quanto a seus esforços, mesmo que Rose já estivesse pensando em possibilidades de mandar ele para outro lugar, já que não conseguia mandá-lo de volta para casa.

— A poluição em Londres é bem espessa, então não temos um céu tão limpo, sabe? — devolveu ele, ainda olhando as nuvens no céu — Especialmente à noite, mal consigo ver as estrelas… Só conseguia ver em Wiltshire, que é uma província um pouco menor e tem um fluxo pequeno de carros.

Rose parou de escovar o pelo do cavalo, voltando a olhar para o rapaz. Sinceramente… Rose se considerava uma pessoa inteligente, mas bastava conversar sobre o mundo de Scorpius por cinco minutos e sua cabeça começava a doer.

Poluição? Wiltshire? Carros? Mas que…?

Scorpius percebeu o silêncio dela e virou o rosto em sua direção.

— O que você não entendeu?

A pergunta do milênio.

Todas as vezes em que Rose e Scorpius paravam para conversar, ele lhe perguntava a mesma coisa. ‘O que você não entendeu?’. E então Rose conhecia mais alguma coisa absurda do mundo terrível de onde Scorpius veio.

— Poluição, Wiltshire e carros — repetiu ela, voltando sua atenção para o cavalo. Era ridículo ter vergonha de não saber algo com o qual nunca teve contato, ela sabia disso, mas era humilhante estar sempre deste lado da conversa… O lado em que nunca sabia do que as coisas se tratavam.

— Certo… Vamos por partes — Scorpius se sentou e olhou para ela, um sorriso travesso nos lábios — Wiltshire é o lugar onde nasci, uma cidade…

Rose não olhou para ele, continuou sua atenção no pelo do cavalo, não gostava que Scorpius visse suas bochechas arderem de vergonha quando não sabia de algo que ele lhe contava.

— Carros são… Bem… São carruagens que não precisam de cavalos.

Isso já era absurdo demais.

— Andam sozinhas? Você me disse que não havia magia em seu mundo! — Retrucou Rose, indignada.

Scorpius riu.

— Não, não andam com magia, é uma coisa chamada energia… Pense da seguinte maneira, se eu e você ficássemos três dias sem comer nada… Como ficaríamos?

— Fracos.

— Exatamente. É assim que funciona com os carros, nós os alimentamos com um combustível e ele se move sozinho, sem precisar de nenhum cavalo.

Rose franziu o cenho, olhando em direção a Scorpius. Já podia sentir a cabeça doer diante de tanta informação que considerava maluca. Carruagens que andavam sozinhas? Que tipo de outros absurdos Scorpius via no dia a dia?

— Não faz o menor sentido — murmurou ela de volta.

— É, acho que não faz muito sentido mesmo — Scorpius deu de ombros, sorrindo.

Rose olhou para a grama em seus pés e então para ele novamente. Não conseguia evitar, toda e qualquer pequena informação que conseguia sobre o mundo em que Scorpius nasceu a deixava fascinada.

— E a poluição? — Questionou ela baixinho.

O sorriso de Scorpius se alargou.

Era uma via de mão dupla.

Rose gostava de perguntar e ele gostava de responder.

— O combustível dos carros produz um gás depois de usado para fazê-lo mover… E esse gás é… Bom, é um pouco tóxico, e ele acaba se acumulando no céu, o que nos impede de ver as estrelas com clareza.

Essa foi a coisa mais horrível da qual Rose ouviu falar em vida. Não conseguir ver as estrelas por culpa de carruagens que se movem sozinhas? Isso sequer fazia sentido.

— Porque não usar cavalos então? — Questionou.

— Hm… É bem complexo na verdade… Cavalos são caros de se manter e espaçosos… Além disso, carros são infinitamente mais rápidos que cavalos.

Rose fitou seu cavalo novamente. Não conseguia sequer imaginar andar em um desses… carros, dos quais Scorpius falava. Seu cavalo era confortável, a levava onde quer que ela desejasse e nada disso lhe custava as estrelas no fim do dia.

Ainda assim, o peito de Rose se apertava em imaginar essas invenções igualmente horríveis e incríveis do mundo de Scorpius e entender que, invariavelmente, nunca as veria de perto. E se um dia algo próximo disso surgisse em seu reino, também não as veria, a depender de seu pai.

— Como elas sabem onde devem parar? — questionou Rose, olhando para Scorpius mais uma vez.

Scorpius riu. Para ele, era incrivelmente fascinante contar a Rose tudo sobre o lugar de onde ele tinha vindo, era impagável o brilho no olhar de Rose ao tentar imaginar as coisas que, para ele, eram as mais banais.

E as perguntas de Rose… tão únicas, respondê-las era um prazer à parte.

— Nós fazemos aulas para aprender a controlar os carros, todo mundo que deseja dirigir precisa aprender antes.

Rose assentiu.

— Você sabe montar carros?

Scorpius segurou a risada, assentindo para ela.

— Sei sim.

— E como eles são?

— Depende… Existem vários modelos… Grandes, pequenos, de diversas cores… — Scorpius se levantou da grama e andou em direção a Rose, tomando o devido cuidado de não se aproximar muito do cavalo. Ele ainda não havia superado o pequeno receio que sentia do animal. — Mas são resistentes, um carro comum consegue suportar cinco pessoas.

Rose franziu o cenho e se virou em direção a Scorpius.

— Estranho — Disse ela, simplesmente.

Scorpius assentiu, sorrindo.

— Sim, é muito estranho.

×

Hugo não era idiota, mesmo que Rose gostasse de pensar o contrário. Só sendo extremamente obtuso para não perceber as diferenças na própria irmã.

Há exatas três semanas, Rose já não era a mesma. Não, ele não fazia ideia do que poderia ser, mas algo havia acontecido com Rose.

A cada dia, ela parecia menos preocupada com o fato de que se casaria com um estranho, menos presente nos jantares de família, mais preocupada em correr para a biblioteca do que fazer qualquer outra coisa que fosse.

Claro, Rose sempre foi estranha, mas Hugo conseguia perceber as nuances que faziam com que ela estivesse mais estranha ainda do que o comum: ela mal tocava na comida durante o jantar, brincando com os legumes sobre o prato e apenas assentindo com a cabeça quando Hermione e Ron falavam sobre seu futuro casamento e os prospectos de sua futura coroação.

Observando com cautela, Hugo só pode supor duas coisas: Rose estava escondendo algo ou estava doente. Hugo logo descartou a doença, ela estava ótima, apenas avoada, e portanto, só restava uma opção: Rose estava escondendo algo.

— Eu acho que Rose deveria se casar com alguém que tem o mínimo de cérebro — Hugo comentou em alto e bom som, esperando pela resposta de Rose — Você não concorda, irmã?

Se um alfinete caísse no chão, alguém do outro lado do reino poderia ouvir. Rose, entretanto, sequer levantou os olhos para responder a Hugo.

— Rose? — Hermione a chamou novamente.

Ela ergueu os olhos, finalmente saindo do labirinto de seus pensamentos.

— Eu… O que?

Hugo teve de segurar a vontade de rir, então apenas sorriu inocentemente ao perguntar:

— Você não concorda que seu marido deveria ter o mínimo de cérebro?

Rose franziu as sobrancelhas.

Finalmente uma reação, pensou ele.

— Acho que já estou satisfeita. — Rose se levantou da mesa, irritadiça.

— Você mal comeu, Rose… — começou Hermione, mas Rose já estava do outro lado da porta antes que pudessem sequer dizer algo mais para fazê-la ficar.

Um silêncio recaiu sobre a mesa e Hugo sabia o que Hermione iria lhe pedir mesmo antes de ela começar a falar novamente.

— Vou ver como ela está — assegurou Hugo, se levantando da mesa também.

×

Rose não estava em seu quarto, obviamente. Hugo havia observado-a por tempo suficiente para saber que ela estava saindo do castelo pela biblioteca. Para fugir novamente, é claro.

Se ele havia aprendido algo com Rose, era como ser furtivo. Hugo conseguiu se esgueirar por entre as inúmeras estantes de livros sem que a irmã o visse e a seguiu na ponta dos pés. Mas Rose estava tão abalada que sequer perceberia sua presença se ele tivesse sido mais descuidado ao seguí-la.

Hugo só não imaginava, é claro, que Rose iria até o fim do mundo montada em seu cavalo. Se manter atrás dela foi mais difícil quando ela começou a galopar, o cavalo de Rose era um dos mais velozes do reino e Hugo não era o mais habilidoso cavaleiro, mas ele conseguiu mantê-la em seu ponto de vista a medida do possível.

Ele a seguiu por tanto tempo que imaginou que haviam atingido os limites do reino. Rose só parou quando chegaram em uma cabana

×

Hugo esperou que Rose fosse embora, apesar da posição em que se encontrava ser terrível — encolhido entre dois arbustos pontudos que faziam questão de pinicar cada parte de seu corpo e muita, muita sede — a curiosidade em saber o que mantinha a atenção da irmã por tanto tempo era muito maior. Rose não era uma pessoa fácil de se impressionar, aquilo não se tratava de um evento cotidiano.

Quando o cavalo da irmã finalmente sumiu de vista, ele se permitiu levantar e caminhou em direção a cabana que ela mantinha escondida de toda a família. Hugo já sabia da existência da cabana, Rose confidenciou a ele que havia criado um refúgio para si longe dos limites do castelo, Hugo, naturalmente, não fazia ideia de sua localização e respeitou a distância que Rose havia colocado entre ele e seu esconderijo.

Era um lugar bastante… pitoresco. O completo oposto da suntuosa decoração do castelo em que viviam com a família. Aquele lugar se parecia com um lar de verdade. Escondida entre árvores e um matagal espesso, ele conseguia entender porque Rose gostava de fugir para esse lugar. Um pequeno paraíso que a família não podia ter acesso.

Hugo caminhou em direção a porta, testando a maçaneta. Estava trancada do lado de dentro, o que ele já imaginava que poderia acontecer visto que, o que quer que Rose estivesse mantendo escondido ali dentro, precisava que ninguém conseguisse chegar perto. Ele circulou a casa, procurando pontos em que pudesse entrar. A porta dos fundos, por onde Rose tinha saído, também estava trancada.

Naquele momento, Hugo tinha duas opções apenas: tentar entrar por alguma janela ou voltar para casa, a segunda opção obviamente estava fora de questão então ele ergueu os olhos em direção a janela logo acima de sua cabeça. Estava entreaberta, mas precisava escalar para alcançá-la.

As coisas em que me submeto só para ter algo a usar contra Rose, pensou ele.

Hugo tomou um impulso e se projetou em direção aos tijolos em que mais conseguia apoiar as mãos para escalar. Neste momento, agradeceu muito o fato de o pai o obrigar a treinar com os cavaleiros do castelo, não que ele fosse usar qualquer um desses ensinamentos em uma batalha, mas era gratificante saber que não foram de todo perdidas.

Com muito esforço — mais do que ele acreditaria que seria necessário —, Hugo finalmente conseguiu esticar as mãos alto o suficiente para abrir a janela e empoleirar-se no parapeito.

Sua entrada à cabana de Rose não fora das mais graciosas, mas ao menos havia entrado, e no fim das contas, era isso que importava.

Do lado de dentro, a cabana estava silenciosa e escura, por precaução, Hugo agarrou um sapato que encontrou no meio do caminho enquanto caminhava pelo pequeno corredor que dava para o quarto. E se Rose estivesse escondendo um animal? Algo selvagem e potencialmente perigoso que daria um ataque cardíaco em Hermione? Essa era a possibilidade a qual Hugo mais se agarrava, porque Rose não seria maluca o suficiente para esconder uma pessoa na cabana… certo?

Bem, ele estava terrivelmente enganado.

A última coisa que esperava encontrar era um homem com uma toalha amarrada ao redor da cintura vagando pela cabana.