O Viajante
7 Capítulo VI
Se algumas semanas atrás, alguém dissesse a Scorpius que ele seria ameaçado não uma, mas duas vezes por um ruivo com metade de sua altura e um temperamento aflorado, ele teria rido. Não apenas pelo absurdo da situação em si, mas também pela improbabilidade.
Ele deveria ter aprendido após a primeira vez.
Bem, ele definitivamente não aprendeu. Era humilhante por si só pensar nisso em qualquer circunstância que fosse, mas era ridiculamente mais humilhante ainda pensar nisso enquanto estava imobilizado em uma cadeira, seminu.
O garoto com os olhos de Rose o pegou desprevenido — era o que Scorpius dizia a si mesmo, a fim de tranquilizar o próprio ego ferido — assim que ele saiu do banho. Rose tinha acabado de botar os pés para fora da cabana quando ele o abordou. Foram míseros segundos em que Scorpius congelou no próprio lugar, sem saber o que fazer. Rose tinha lhe assegurado que a cabana era afastada do restante do reino, então ele nunca considerou a possibilidade de que alguém invadiria o lugar e o imobilizaria.
Rose.
Ela o mataria se visse a situação humilhante em que ele se encontrava.
— Vou perguntar novamente — o rapaz ruivo fitou Scorpius no fundo dos olhos, inclinando-se ameaçadoramente sobre ele — Há quanto tempo está desonrando minha irmã?
Irmã? Agora as coisas estavam começando a fazer sentido.
Ele deveria ter imaginado: os olhos verdes tempestuosos iguais aos dela, as sobrancelhas finas e franzidas em irritação latente, o cabelo tão brilhante como chamas ao vento… É, definitivamente compartilhavam do mesmo sangue.
— Não estou desonrando ninguém! — retrucou Scorpius, irritadiço.
Sinceramente, uma coisa era ser rendido por uma mulher bonita como Rose, outra era ser rendido por um garoto que tinha dez centímetros a menos e muita raiva acumulada. Era como ser imobilizado por um pinscher.
— Não sou estúpido.
— Pergunte à ela então — Scorpius franziu o cenho — Desonrando sua irmã… Se tem alguém que foi desonrado desde o ínicio este alguém foi eu-
— Pelos céus, você resmunga demais — murmurou o garoto.
Scorpius revirou os olhos, irritado. Quanto tempo mais teria de ficar amarrado àquela cadeira como um prisioneiro? Ter tomado uma punhalada de Rose já não foi o suficiente? Por um segundo bem breve, Scorpius considerou que seu surgimento nesse reino — repleto de malucos, diga-se de passagem — poderia ser uma punição divina, um teste para que ele repensasse todas as suas ações dali em diante.
Era inconcebível a ideia de que ele surgira naquele reino com outro propósito.
— Será que você pode me soltar? Assim podemos conversar decentemente.
O garoto ruivo o fuzilou com o olhar.
Não podia soltá-lo, não agora em que o manteve numa posição tão favorável. Precisava descobrir o que raios tinha acontecido com Rose, ou todo o trabalho que teve para sair do castelo sem ser notado só para descobrir em que a irmã estava se metendo teria sido em vão. Não que aquele homem apresentasse grande dificuldade caso solto, mas Hugo não podia soltá-lo.
Ainda não.
— Como você a conheceu? De que Reino você é?
Scorpius respirou fundo, deixando a cabeça cair para trás, derrotado. Não podia dar a ele nenhuma das respostas, se com Rose essa conversa já foi difícil o suficiente, mal podia imaginar o quão seria com esse rapaz de quem nunca nem ouviu falar.
— Não posso te dizer nada disso, é algo que diz respeito somente a mim e a Rose.
— Não, não — ele balançou — Você não tem escolha, você vai me contar.
— Ah, fala sério.
— Eu estou falando sério.
— Porque você não traz a sua irmã aqui? Assim ela te conta tudo.
— Responda!
— Eu não vou falar nada — resmungou Scorpius, irritado.
Por um milagre, o silêncio caiu sobre os dois. Parecia que, pela primeira vez desde que amarrou Scorpius àquela cadeira, se deram conta do quão patética era toda a situação. Derrotado, Hugo o desamarrou, grunhindo.
— Se você ainda está vivo não deve apresentar perigo ao reino, pelo menos nisso o julgamento de Rose não falha — murmurou o ruivo.
Scorpius teve de se segurar para não rir com deboche. A petulância vinha de família, ao que parecia. Não é possível que ele continuaria a ser reduzido a nada por um bando de ruivos que insistiam em usar violência.
— É, definitivamente não sou um perigo ao reino — respondeu ele.
— De onde você é?
— Já disse que não posso te responder isso — Scorpius massageou os próprios punhos, a pele estava levemente irritada devido a força com a qual foi amarrado.
— Você não faz ideia do perigo que corre se deitando com a minha irmã, faz? Se o Rei souber disso…
— Não estou me deitando com a sua irmã — grunhiu Scorpius — E mesmo que estivesse, que tipo de maluco eu seria para falar sobre isso com o irmão dela?!
Ele franziu o cenho, olhando ameaçadoramente para ele. Scorpius já estava cansado disso tudo, na verdade. Não fazia mais questão de tentar amansar aquele rapaz. Estavam ali, os dois, tentando tirar proveito de um encontro tão mal sucedido que Scorpius pretendia rir disso quando voltasse para casa e contasse tudo a Albus.
— Mas ela estava aqui. — disse o ruivo.
— Estava — Scorpius assentiu, procurando restaurar o mínimo de sua decência ele pegou uma das camisas de linho que Rose havia lhe dado e a vestiu. O garoto entendeu o recado e se virou de costas enquanto Scorpius vestia as calças — Olhe… Você é Hugo, não é? Rose me falou sobre você.
Ele o olhou por cima do ombro, franzindo o cenho novamente.
— O que ela disse a você?
Scorpius suspirou, dobrando as mangas da camisa até os cotovelos. Como detestava todas essas roupas compridas e largas nesse calor infernal.
— Nada de mais, ela não gosta de me contar muito sobre a própria família com medo de que alguém me encontre aqui. — Scorpius ergueu as sobrancelhas ao olhar para Hugo de novo — O que, sinceramente, é um medo que agora entendo ter fundamento já que você me encontrou.
Hugo coçou o espaço entre as sobrancelhas, confuso. Esse homem, seja lá de onde Rose o encontrou, definitivamente não era dali. Falava como um forasteiro, se comportava como um e não poderia ficar alguns poucos segundos sozinho ou se meteria em algum problema dos grandes. Já não surpreendia Hugo o porquê de Rose o deixar trancado numa cabana no meio do nada.
— Tem certeza de que não está se deitando com a minha irmã?
— Ah, pelo amor de Deus.
— Você não pode me culpar por querer a verdade. O que pensaria se seguisse sua irmã e visse um homem seminu do lugar em que ela acabou de sair?
Justo. Scorpius suspirou, derrotado. De fato não podia culpar Hugo por querer a verdade, mas ainda assim, fazer algo sem o consentimento ou o conhecimento de Rose parecia muito errado. Rose nunca lhe deu a liberdade para falar com sua família, não queria trair a confiança dela depois de lutar tanto pelo mísero que conseguiu.
— Não estou me deitando com a sua irmã. — assegurou Scorpius — Ela está me ajudando a voltar para casa, é só isso.
Hugo não pareceu acreditar nele, mas havia entendido que era o máximo que conseguiria de Scorpius naquela altura. Já podia se considerar vitorioso o suficiente por ter algo que poderia usar contra Rose, mesmo que fosse tão pouco.
— Voltar para casa? — Repetiu Hugo — E onde é sua casa? Como você sequer chegou aqui? Onde-
— Não! — Scorpius negou com a cabeça — Desculpe, não posso responder nenhuma dessas perguntas, é melhor você falar com a sua irmã, na verdade ela me proibiu de falar desse assunto com qualquer pessoa que não fosse ela.
Hugo teve vontade de rir. Um homem que obedecia tão cegamente uma mulher definitivamente não pertencia aquele lugar. Derrotado, ele assentiu. O pôr do sol lá fora estava começando a dar as caras, deveria voltar para o castelo antes que fosse tarde (e perigoso) demais para se estar à solta sem suas espadas e punhais, mas não queria voltar para o castelo sem mais nada substancial o suficiente para usar contra Rose.
— Onde está a chave da cabana?
Scorpius congelou no lugar. Era um péssimo mentiroso, Hugo notou isso logo de cara, assim que começou a gaguejar e negar.
— Não tenho… Rose não me deixa com nenhuma cha-
— Só me diga onde ela deixou a chave reserva!
Se Scorpius Malfoy pudesse medir os seus sucessos naquele dia, definitivamente estaria em débito.
— Na janela — apontou ele, suspirando pesadamente.
Hugo pegou a chave e o olhou de soslaio. Ainda não confiava neste homem, mas seja lá o motivo que fez com que Rose o trancasse a essa cabana, logo ele iria descobrir.
×
Pior do que ter de ser espetada horas a fio por alfinetes enquanto provava vestidos, era ter de discutir entre tipos de flores na presença de Hermione. Por um segundo, Rose se deixou olhar pela janela para o jardim do castelo e imaginar o que Scorpius estaria fazendo trancado na cabana naquele momento.
Já havia comido? Estava lendo algum outro livro que ela levou para ele? Estava sentindo falta dos carros e da poluição de Londres?
Rose nunca teve tantas perguntas na cabeça em toda a sua vida antes de Scorpius surgir. Parecia ter voltado aos seus tenros oito anos de idade em que absolutamente tudo era uma novidade para ela.
Gostava de ouvir Scorpius falar, gostava de sempre ter uma pergunta da qual ele prontamente procurava lhe entregar uma resposta, gostava de sonhar com esse mundo estranho da qual Scorpius havia vindo.
Eram os únicos momentos do dia em que podia se dar ao luxo de fantasiar com uma vida diferente.
— Senhorita Weasley?
Rose virou o rosto em direção ao florista e sua mãe.
— Ah, mil perdões, ela anda terrivelmente distraída. — Hermione sorriu para o florista — Nervos do casamento, com certeza… Que tal fazermos uma pausa?
O florista sorriu docilmente e se afastou das duas, ocupando-se com o chá e biscoitos que os servos haviam deixado à disposição. Hermione olhou para Rose novamente, desta vez, erguendo às sobrancelhas daquele modo que Hugo fazia exatamente igual quando estava preocupado com algo.
— O que fiz de errado dessa vez? — perguntou Rose, suspirando.
— Não é tão ruim quanto parece. — Hermione murmurou baixinho, apenas para Rose ouvir — Você pode transformar esse casamento em algo bom.
Rose fechou os olhos brevemente, se controlando para não soltar os cachorros na mãe. Ela não tinha culpa de ter tal mentalidade. Aquele reino, aquele casamento, aquelas normas… Era tudo o que conhecia, como poderia sonhar com algo mais?
— Não quero falar sobre isso. — disse Rose, também baixinho, sem tirar os olhos da grama que balançava do lado de fora.
Hermione foi quem suspirou pesadamente desta vez. Entendia perfeitamente o que Rose estava passando, ou pelo menos, uma parte do que ela estava passando. Anos atrás era ela quem estava neste lugar: prestes a se casar com um homem que mal conhecia.
— Quero que possa contar comigo — disse ela — Eu sei o quão assustador é estar neste lugar, mas…
— Não. — Rose balançou a cabeça voltando o olhar para a mãe — Você não sabe.
Por um breve segundo, elas encararam uma a outra sem dizer mais nada. Não conseguiriam manter uma conversa civilizada nem mesmo se suas vidas dependessem disso. Era intrínseco que, independente da situação, Rose e Hermione terminaram feridas com as palavras uma da outra. Então porque insistir em algo que apenas as machucaria?
— Estamos fazendo isso pelo seu bem. — tentou Hermione.
— Acho que preciso tomar um ar.
Rose se levantou e saiu do salão antes que Hermione pudesse protestar. Já podia se imaginar galopando em direção a cabana onde conversaria com Scorpius sobre qualquer coisa mundana de seu mundo que era um mistério maravilhoso para ela.
Mal chegou a metade do caminho quando Hugo a encontrou em um dos corredores com um sorriso travesso no rosto. Não tinha o visto no jantar da noite anterior, ninguém sabia por onde Hugo teria se metido, mas obviamente não julgavam Hugo como merecedor de uma coleira tão apertada quanto a de Rose.
Os privilégios de se nascer um homem na realeza.
— O que estava aprontando? Porque está me olhando com essa cara? — Rose franziu o cenho.
Hugo deu de ombros, ainda com um sorrisinho travesso nos lábios que Rose gostaria de tirar com uns bons tapas.
— Engraçado você me perguntar isso. — disse ele — Quando é você quem tem aprontado.
Rose revirou os olhos. Ele estava tentando pescar algo, ninguém sabia da existência de Scorpius ou havia notado suas ausências por tempo suficiente para notar algo de errado. Ela não era idiota para se desesperar por nada.
— O que é que você quer, em?
Hugo levou uma das mãos dramaticamente ao peito, fingindo estar ofendido com sua acusação.
— Eu? Não quero nada, absolutamente nada, mas… — ele enfiou a mão livre em um dos bolsos de seu casaco, puxando de lá uma chave de ferro que Rose conhecia bem. Claro, poderia ser um blefe da parte de Hugo, mas aquela chave com a ponta levemente amassada não poderia ser confundida com nenhuma outra que Rose já havia visto. — Talvez você queira me contar algumas coisinhas.
Rose checou o corredor ao redor deles e então puxou Hugo pelo pulso em direção a uma porta que dava para uma das milhares de salas vazias do castelo. Assim que os trancou dentro da sala, Hugo começou a rir.
— Isso não tem graça nenhuma — esbravejou ela, arrancando a chave das mãos dele. É definitivamente a chave que havia deixado com Scorpius para eventuais emergências.
Scorpius.
Sentiu o sangue correr gélido entre as veias. E se Hugo tivesse feito algo a ele? Se Hugo achasse que Scorpius era um perigo e o tivesse machucado? Teria ele alertado aos guardas do pai sobre Scorpius?
— Ei, não me olhe desse jeito. — Hugo resmungou, revirando os olhos — Não fiz nada com o seu namoradinho.
— Ele não é… — Ela balançou a cabeça, decidindo (por agora) não discutir sobre o que quer que ela e Scorpius fossem, haviam coisas mais importantes a serem discutidas — Não importa. Como descobriu sobre ele? Você não contou nada para ninguém, contou?
— Não sou idiota, Rose. É óbvio que não contei a ninguém. — Hugo a olhou, um sorrisinho malandro nos lábios — Você deveria me agradecer, tem andado tão distraída por aí que é um milagre que ninguém tenha percebido que você está escondendo algo antes de mim.
— Como descobriu? — perguntou ela novamente, franzindo o cenho.
— Eu te segui, simples assim, você saiu daqui tão irritada e tão ansiosa para encontrá-lo que não percebeu que eu estava logo atrás — devolveu ele, também franzindo as sobrancelhas — Quem ele é? Se alguém souber que você está se deitando com um plebeu-
— Não estou me deitando com ninguém!
— Rose, pelos céus, não sou idiota.
— É mais complicado do que parece — Rose suspirou pesadamente. Vinha guardando a existência de Scorpius em segredo por tanto tempo que mal sabia por onde começar a contar a verdade. Até porque, como poderia esconder isso de Hugo, agora que ele sabia para onde ela ia em todas as suas fugas? Não poderia simplesmente desconversar e pedir que Hugo se esquecesse disso, não enquanto corria o risco de Hugo contar sobre Scorpius para mais alguém. — Eu… Olha, não estou me deitando com ele, isso posso te garantir, ele é só… Um amigo.
Hugo riu. Tão algo que Rose estapeou seu braço pela audácia.
— Amigo? Você só pode estar brincando.
— É uma longa história.
— Bem… Ainda bem que temos bastante tempo até a mamãe te procurar para discutir sobre flores, não é?
×
Era tarde da noite quando Hugo e Rose entraram na cabana pela porta da frente. Scorpius estava acordado ainda — é claro que estava, como poderia dormir depois de Hugo ter saído portando a chave reserva? — e não conseguia se concentrar o suficiente em qualquer coisa que fosse.
Rose olhou para ele, mordendo o lábio inferior apreensiva. Hugo entrou logo atrás dela, sorrindo vitorioso.
— Então… Que história é essa de carroça que se move sozinha?
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