O Vento e a Chama

2 A QUARTA-FEIRA


Notas iniciais
PRIMEIRA PARTE DA HISTÓRIA: A CHAMA

Olhei pela janela e, pela primeira vez em muito tempo, não gostei que estivesse chovendo. Perguntei-me onde havia ido parar o sol do dia anterior, lembrando em seguida que o tempo começara a mudar quando estávamos no parque. Normalmente isso me era maravilhoso, mas eu tinha que ir comprar as coisas que Lucia havia pedido, o que implicava em sacolas de papel, o que implicava em guarda-chuvas.

Equipada, saí de casa. Fazia um esforço enorme para não bater o guarda-chuva nas pessoas, mas agilidade com certeza não era uma de minhas qualidades.

O supermercado parecia ser um dos maiores da cidade, embora eu soubesse muito bem que não fosse. Me parecia simplesmente impossível encontrar de uma forma lógica todas as coisas da lista de Lucia. Andava pelos corredores, mas nada parecia organizado. Percorri quase o supermercado inteiro duas vezes e não conseguia localizar alguns itens.

Dobrei pelo que achei ser a terceira vez o terceiro corredor e lá estava a fileira de sabonete líquido da marca que Lucia escrevera. Bem obviamente colocado na prateleira e ainda com um cartaz promocional. "Como não reparei antes? Só faltou neon!", pensei.

Fui com tanto ímpeto que só vi a escada de limpeza quando estava a centímetros dela. Na pressa de desviar-me, acabei por esbarrar em alguém. A violência foi tamanha que achei ter batido em uma parede, e meu MP4 foi ao chão. A pessoa começou a se desculpar, mas eu quase não ouvia, acompanhando o trajeto do MP4 diretamente para debaixo das prateleiras. Suspirei. Sei que deve ter parecido rude, mas eu não consegui evitar.

- Me desculpe, deixe-me ajudá-la... – ouvi a pessoa na qual havia esbarrado dizer. Era a voz de um homem.

Sem sequer olhar, só disse um ‘tudo bem’ e ajoelhei no chão, tentando visualizar onde meu MP4 havia ido parar. Com a queda, os fones de ouvido haviam se desconectado e o som da música ‘Hello’ do Shinee enchia o ar do corredor.

Percebi que o rapaz (agora tinha olhado para ele brevemente, e vi que se tratava de um rapaz oriental) tinha se ajoelhado a meu lado e, de uma forma tão desajeitada quanto eu, tentava olhar no minúsculo espaço entre a última prateleira e o chão.

- Está lá! – eu apontei, fingindo não me importar com as pessoas que haviam parado para nos olhar.

Ele agilmente estendeu o braço e o pegou. Não foi nem necessário ele me entregar para eu ver o estrago: todos os botões da lateral haviam sumido, o ajuste de volume havia afundado e a tela estava com uma poeira estranha no lado de dentro.

A minha cara deve ter sido de muita tristeza pois imediatamente o rapaz começou a se desculpar com ainda mais esforço. Tentei me consolar pensando "Ok, esse xing ling deu o que tinha que dar..." Então, finalmente, olhei para o rapaz.

Ele era mais alto que eu, o cabelo curto bem cortado, uma camiseta muito bonita, seus olhos e seu sorriso tão familiares... não demorei um segundo para reconhecer Choi Minho. Senti meu rosto queimar, pois o que restava do MP4 ainda estava tocando Shinee. Com algum esforço consegui desliga-lo. Então olhei para Choi Minho novamente. Até agora estou tentando imaginar qual deve ter sido minha cara. Independente disso, ele sorriu e disse:

- Há uma loja de eletrônicos nesta rua, vamos até lá e eu compro um MP4 novo para você.

Tudo naquele momento me surpreendia.

- A... e... não, não precisa.. é... – balbuciei.

- Precisa sim. Vamos lá. Não é muito longe... – insistiu ele.

Eu fiquei em silêncio, pois sentia como se não soubesse mais como formar frases.

Então, de uma maneira genial eu soltei:

- Você é o Minho?

Ele sorriu numa mistura de surpresa e timidez.

- Sim. – e como eu nada disse, ele rapidamente acrescentou: Vamos à loja de eletrônicos?

Na rua, havia parado de chover enquanto andávamos em silêncio. Eu realmente não sabia o que dizer. Talvez tão constrangido quanto eu, Minho disse:

- A loja é logo ali na frente.

- Ok. – eu sorri.

Silêncio. Ok. Era minha vez.

- Ah... como eu pronuncio o seu nome?

Ele pareceu estranhar a pergunta mas explicou-me. E em seguida perguntou meu nome.

- Juliana? – estranhou ele.

- Sim, eu sou do Brasil.

- Ah... Lembra Juliette.

- É. – eu sorri sem graça com a comparação, mas feliz por ele se mostrar simpático.

E continuei tentando parecer casual como numa conversa de elevador:

- O que você está fazendo aqui em Chicago? Algum show?

- Não. – ele não pareceu se importar com minha intromissão. – Eu vim para aperfeiçoar o meu inglês. Aproveitei que a gente teve umas férias e vim.

- Legal! Eu estou aqui por isso também. Onde você está estudando? – me esforcei para parecer desinteressada.

- Na NHR Center.

- Mesmo? Eu comecei hoje lá... quer dizer, na segunda que começa para valer.

- Você estuda na NHR Center? – ele também franziu o cenho, estranhando.

- Sim… isso é coincidência hein!

- Mas... lá não é só para orientais?

- Ah! Entendi. Você estuda na escola de O’Hare né? – vi ele concordar com a cabeça e continuei – Eu estudo em old town. Lá é bem diversificado, tem orientais na minha sala também.

- Que legal!

- É, é bom também, sabe? Para a gente poder ouvir várias nacionalidades. Lá é bem grande.

- Lá em O’Hare não é tão grande mas bastante gente estuda lá.

Entramos na loja.

Dentre a variedade de MP4, eu não conseguia achar nenhum que se parecesse com a porcariazinha que era o meu. Mesmo o mais barato deles parecia ser muito bom. E isso não estava correto.

- Escolheu? – aproximou-se ele, só nesse momento percebi como ele era realmente alto!

- Na verdade... eu não achei nenhum igual ao meu.. o meu eu comprei no Brasil... então, é melhor deixar pra lá..

- Não? Bom, vamos escolher um outro então. – ele pareceu preocupado em não conseguir se desculpar como queria.

Eu suspirei. Ele era tão lindo e atencioso! Como eu poderia negar sem ser rude?

Examinei novamente os aparelhos da vitrine. Havia um mais barato, mas ainda sim me parecia uma exploração. Então tive uma ideia.

- Minho, eu estou pensando. Você não teve culpa nenhuma do que aconteceu... foi só um acidente...

- Mas... – ele de repente pareceu sem jeito – eu estava muito desligado, não vi a escada, e no que fui desviar, esbarrei com muita força em você... Achei até que tinha te machucado...

- Imagina...

- ... então, o único estrago foi o seu MP4. Deixe-me repô-lo.

Franzi os lábios. "O que fazer? O menino quer pagar..."

- Minho, eu também tenho culpa... então, vamos fazer o seguinte. Eu pago metade.

- Não.

- É sim, ou então, deixa pra lá.

Fiz minha melhor cara de resoluta. Dessa vez ele franziu o cenho por um instante. Depois, com certeza viu que aquela era a melhor saída. Concordou com a cabeça.

Ao me entregar a sacola ele sorriu e disse:

- Para que você continue ouvindo Shinee!

E eu senti meu rosto queimar novamente.

Ao sair da loja nos olhamos sem jeito.

- Eu tenho que ir. – ele disse.

- Bom eu vou voltar ao supermercado... eu realmente tenho que fazer aquelas compras. – "Tenho mesmo ou a Lucia não viaja!", acrescentei mentalmente.

- Eu vou deixar para outro dia. Então, a gente se vê. – ele deu o que me pareceu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto.

- Ok. Muito obrigada! E desculpa... – eu estava muito sem jeito.

- Não, imagina. – ele sorriu ainda mais.

- Aparece lá na escola para você ver... Sexta vai ter uma tarde musical, vai ser bem legal!

Assim que terminei de falar tive vontade de me estrangular. "O que era aquilo?! Só faltou ajoelhar!!"

Como se não percebesse, Minho sorriu e disse:

- Talvez eu apareça. Tchau.

E eu sorri o resto do caminho, mesmo depois do supermercado carregando as desajeitadas sacolas de papel.

Ao chegar em casa deixei as compras na cozinha e subi as escadas de três em três. Me joguei na cama, transformando meu teto numa tela de cinema onde pude rever a cena daquela tarde. "Minho? Minho! Minho..." eu simplesmente não conseguia acreditar.

Peguei a sacola do MP4 em minha bolsa e liguei o laptop. Enquanto transferia minhas músicas fiquei vendo vídeos na internet. Levei um susto quando Jane entrou no quarto.

- Te assustei? – ela riu.

Eu concordei com a cabeça, ainda me recuperando, enquanto ela se sentou ao meu lado. Jane sempre se interessava pelo que as pessoas estavam vendo no computador. Segundo ela, as melhores descobertas que ela fez foi dessa maneira. Isso não me incomodava nem um pouco.

- Quem são esses? – perguntou ela.

- É uma banda coreana...

Eu estava me preparando para contar quando de repente ela disse:

- Nossa! Como eles são lindos! Olha esses!

Neste momento estavam na tela Minho e Jonghyun. Eu suspirei, concordando totalmente.

- Qual é o seu favorito?

Eu detestava aquela pergunta, mesmo na época dos Backstreet Boys. Uma banda é um conjunto de talentos, tentar separá-los e classificar é uma coisa injusta. Mas, como garotas, sempre há algum que nos desperta mais sentimento.

- Este aqui. – disse eu pausando o vídeo, fixando a imagem de Minho. – E hoje eu esbar.., encontrei ele hoje no supermercado... – consegui corrigir a tempo.

- Ele? – Jane se aproximou da tela para ver melhor – Mas ele é um deus!

- Você nem imagina como ele é mais lindo ainda pessoalmente... – eu suspirei ao lembrar.

- Me conta tudo!

E eu contei a breve história enquanto o clipe continuava a rolar. Ao final Jane também suspirava.

- Você acha que ele vai à escola? – ela disparou a pergunta como se minha vontade pudesse fazer acontecer.

- Eu adoraria se ele fosse.

Continuamos a ver outro clipe quando a campainha tocou. Era Lucia. Ao ver as sacolas no balcão da cozinha ela juntou as mãos em agradecimento:

- Nossa Ju! Agora eu posso ir viajar em paz! Tive tanta coisa para resolver hoje... Eu nem sei como te agradecer...

- Eu que agradeço! – tentei falar de uma maneira normal, mas a animação saiu evidente e acusadora.

- O que aconteceu? – ela perguntou, estranhando meu tom.

- Ela encontrou o príncipe encantado! – brincou Jane entrando na cozinha.

Eu tentei a repreender com o olhar, mas a verdade em suas palavras era tão evidente que eu ri.

- Só você para achar o príncipe encantado num dia de chuva no supermercado! – Lucia disse.

- A Jane enlouqueceu! – disse, mas meu riso me denunciava.

- Aham! – disseram as duas.

- Afinal, se eu tivesse achado um príncipe eu iria mesmo assim fazer compras num supermercado num dia de chuva para carregar sacolas de papel pesadas e ainda ser zuada?!!! – eu tentei parecer brava e joguei o pano de prato em Jane.

Todas rimos e a discussão passou para outros tópicos.

Notas finais
Olá! Espero que gostem da história tanto quanto estou gostando de escrevê-la. ^^