O Vento e a Chama

3 A INTENÇÃO DE MINHO - A IDEIA DE JANE


A tarde musical prometia ser um sucesso conforme os alunos iam ocupando as mesas do refeitório. Eu estava feliz. Havia chegado há uma semana em Chicago e já adorava a atmosfera daquele lugar!

A ideia que Robert, um de nossos diretores acadêmicos, tivera nas classes de treinar o idioma com música e ritmo tinha se transformado num evento que agradou todo mundo. Robert foi para o violão e todo mundo começou a acompanhar as canções que cada um dos alunos ia apresentando.

Eu não sei dizer em que momento ele chegou. Só sei que no meio de minha versão de ‘Rolling in the deep’ da Adele, olhei para as mesas e, ao fundo, lá estava Minho em pé. Uma linda visão... Ele olhava como se estivesse curtindo. Minha voz quase falhou, mas consegui terminar a canção.

Ao descer do palco fui até ele, me esforçando para ser eu mesma e não mais uma fã babando diante de seu ídolo.

- Que bom que você apareceu, Minho!

- Eu quis ver como era a escola... Realmente é grande. — disse ele.

- É, depois eu te levo pra um tour. Deixa eu te apresentar ao pessoal.

Ele me seguiu até a mesa ao lado do pequeno palco e eu apresentei-o para os amigos que estavam lá.

Ficamos ouvindo algumas das pessoas que cantavam. Minho ficava em silêncio a maior parte do tempo, mas não parecia nem um pouco desconfortável. Fiquei reparando nele e percebi que, na verdade, ele estava prestando extrema atenção às pessoas no palco.

- Quer cantar uma canção? – eu perguntei tentando puxar papo.

- Não... quem sabe numa próxima. – ele riu.

- É que reparei que você presta bastante atenção não é?

- Ah, é que eu gosto de ver as pessoas se apresentando. – ele inesperadamente virou-se para mim e continuou – Sabe, estava pensando no que você disse sobre conviver com diferentes nacionalidades falando inglês... isso parece muito melhor do que uma escola específica para orientais!

- Bom, isso depende. Por exemplo, alguns orientais tem dificuldade na escrita, em pronúncias especificamente por causa do idioma nativo... um ensino direcionado pode ajudar bastante.

- Mas não no meu caso. Sabe, na Coreia a gente é alfabetizado em inglês também.

- Isso é muito bom!

- É... então, a fase de aprender mesmo eu praticamente já pulei. Agora é só aprimorar... – e ele sorriu de um jeito que eu não consegui decifrar.

- Entendi. Você está pensando em se transferir pra cá?

- Talvez. Isto é, se tiver como. – e ele voltou a prestar atenção às pessoas se apresentando.

Resolvi levantar e, ao fazer isso, Minho me olhou com curiosidade. Eu disse:

- Vamos fazer um tour na escola e depois eu te apresento para o diretor acadêmico, um deles. Com certeza ele pode te auxiliar nesta questão.

Minho pareceu animado para andar um pouco.

- Ótima ideia. – disse ele.

Como estávamos no piso superior, decidi mostrar-lhe as salas de aula. Depois mostrei as salas de atividades complementares (estúdio, sala de vídeo, internet). Ao descermos perguntei:

- Então? Muito diferente de O’Hare?

- Não. São tão bem estruturados quanto ... – ele parou no meio da frase.

Não precisei nem olhar para saber que Minho havia visto a quadra. Ele caminhou rapidamente até a parede de acrílico e ficou olhando.

- Puxa! Aqui tem até uma quadra de esportes?! – ele sorriu com olhos animados.

- Sim. Quem usa mais é o pessoal de intercâmbio, sabe? Em fase escolar.

- Com certeza vou vir pra cá! – ele parecia realmente animado e eu não consegui segurar o riso.

Ao voltarmos para o refeitório, haviam dado uma pausa merecida para Robert. Minho me acompanhou até ele e eu os apresentei, expondo a ideia de Minho sobre transferir-se. Robert explicou:

- A transferência não é muito complicada de ser feita. Há quanto tempo você começou? – perguntou Robert.

- Duas semanas. – respondeu Minho.

- E de quanto tempo é o seu intensivo?

- Dois meses.

Robert pensou por um momento.

- Para transferir a gente vai ter que olhar a sua grade, avaliar a sua evolução até agora, as atividades que realizou... Quem é seu diretor acadêmico lá?

- Quem cuidava da minha sala era KIM HaJoon.

- Vamos fazer o seguinte, você o procura na segunda, fala para ele me ligar e a gente avalia direitinho.

- Ok. Muito obrigado. – Minho se curvou ligeiramente, ao estilo oriental, e sorriu.

A tarde transcorreu tranquila, Robert e Minho conversando bastante, enquanto Robert era eventualmente chamado para o palco. Minho se mostrou mais falante do que eu esperava. Conversamos sobre música (eu evitei falar do Shinee, pra tentar fugir do óbvio) e idiomas. Eu estava muito feliz. Não como uma fã que estava com seu ídolo, mas como alguém que fez um novo amigo.

Eu estava saindo da aula de segunda-feira acompanhada de Ben. Ele era um dos diretores acadêmicos, mas na próxima semana estaria se transferindo para Los Angeles.

Os diretores acadêmicos eram, em geral, muito atenciosos com todos os alunos, sempre procurando não apenas proporcionar o acesso ao idioma, como também ao estilo de vida e cultura associado. Cada aluno tinha um diretor acadêmico, que poderia ser visto como um tutor que acompanhava e auxiliava o progresso no estudo do novo idioma; old town contava com 7 diretores acadêmicos que cuidavam de vários alunos. Quando cheguei Ben foi designado meu tutor, mas com o anúncio de sua transferência, Robert assumiu a função. Apesar do ‘título’, todos os diretores acadêmicos eram jovens, de modo que quando cheguei achei que eles fossem alunos também (Robert tinha 26 anos e Ben, 28). Isso facilitava muito as coisas. Podíamos nos relacionar, frequentar lugares e, realmente, desenvolver amizade com eles.

Assim, naquele dia Ben havia me chamado para almoçar. Eu estava bastante animada pois adorava conversar com ele. Ben já tinha viajado boa parte do mundo, sempre buscando conhecer a cultura dos lugares por onde passava. Eu achava aquilo fascinante, gostava de tentar absorver todas as informações que ele me passava com suas histórias.

Estava saindo da escola quando dei de cara com Minho. Quase nos esbarramos novamente, uma vez que ambos tivemos a ideia de passar pela mesma porta.

- Hoje não! – eu brinquei, me referindo ao incidente no supermercado.

Minho riu e encostou-se à porta, segurando-a:

- Como você está?

- Estou bem. – respondi. O sorriso dele me cativava.

- Eu vim falar com o Robert... sobre a minha transferência.

- Ah! – eu não pude evitar de sorrir. – Deu certo então?

- Eu falei com HaJoon esta manhã. Eu vou ter que fazer algumas aulas lá ainda, coisas de crédito. Mas o restante vou poder transferir para cá.

- Puxa, que legal Minho!

- Ju, você vem? – era a voz de Ben, me chamando. Ele já estava na calçada e a chuva fininha devia estar começando a incomodá-lo.

- Eu tenho que ir. – disse para Minho.

- Ok. A gente se vê.

- Tchau.

E desci as escadas antes que a porta se fechasse.

O almoço com Ben foi ótimo. Ele me contou sobre sua viagem à Índia e se divertiu sem se incomodar com minhas perguntas.

Ao chegar em casa Jane estava se arrumando para ir a escola. Ela era alemã, tinha minha idade e estava em Chicago há 4 meses. Nunca vou esquecer como ela foi simpática e me recebeu de braços abertos quando cheguei. Me apresentou as outras garotas que moravam conosco (Mayreen-chinesa e Lucia-italiana), me levou há vários lugares e me deu dicas preciosas para minha estadia. Meu curso era de 4 semanas, mas eu havia ido uma semana antes de modo a me acostumar e também aproveitar. Essa uma semana extra, fez com que eu e Jane ficássemos muito próximas.

Sendo aluna de uma classe especial, um estudo direcionado para sua área de formação, Jane tinha uma grade flexível, cheia de atividades complementares. Assim, não estranhei ao vê-la se arrumando para sair na mesma hora em que eu estava voltando.

Ela estava secando os cabelos com a toalha.

- Olá! – cumprimentei-a.

- Oi Ju! Você demorou, eu almocei. Mas deixei para você no forno.

- Sem problemas, Jane. Eu almocei com o Ben hoje.

- Hm... é mesmo? – o tom dela me confundia.

- Sim. Essa é a última semana dele.

- É. No sábado vai rolar uma despedida na casa do Robert.

- Vou sentir falta das conversas! Ele conta cada história...! – disse abrindo a geladeira para pegar água.

- Só das conversas? – Jane riu, penteando os cabelos.

Então percebi as indiretas em sua voz. Dei de ombros e resolvi mudar de assunto:

- Quando estava saindo encontrei o Minho.

- O Japonês?

- Coreano. – corrigi-a. – Ele estava indo falar com Robert. Parece que a transferência pode ser feita.

- Isso é bom! – havia uma animação insinuante na voz dela e dessa vez me incomodou mais.

- Jane, definitivamente você deveria parar de ler romances!

Ela não se incomodou nem um pouco com meu comentário. Para Jane a vida era um filme, onde tudo pode e deve acontecer. Normalmente eu achava aquilo animador, mas agora não era o caso.

- Me desculpe, querida. Mas, sabe, todo mundo deve se divertir um pouco nesse mundo. Minha diversão é prever algumas coisas...

- Loucura é sua diversão. – eu ri.

- Loucura? Que mal há em se apaixonar? – ela disse ao pegar sua bolsa.

- Apaixonar? Quem?

- Nada, nada... Mas seria bem legal você apaixonada pelo deus coreano! – e ela saiu rindo.

Vi a porta se fechar, as palavras de Jane em minha cabeça. Continuei pensando naquilo muito depois que ela saiu. Então, peguei meu caderno e comecei a fazer uma lista de motivos para não me deixar apaixonar por Minho.


Lista de ‘Porque não se apaixonar por Minho’ (Não esquecer!)

1. Ele é mais novo do que eu.

2. Ele mora na Coréia e eu, no Brasil.

3. Eu sou mais velha que ele.

4. Ele é muito lindo e isso dá muito trabalho..

5. Ele é famoso, tem um monte de fãs que o amam e o desejam

6.

Parei no sexto item avaliando que aquilo mais parecia uma lista de ‘Porque Minho nunca se apaixonaria por mim’. Olhei-me no espelho. Eu não era feia. Fiquei avaliando minhas feições, meus olhos grandes e expressivos. As maçãs do rosto bem definidas e sempre rosadas. Meus cabelos escuros compridos caíam lisos sobre meus ombros, encaracolando-se nas pontas. Levantei o queixo e avaliei meu corpo. Arredondado nos lugares certos, braços e pernas compridas, formavam um conjunto até que bem equilibrado, avaliei. Voltei a meus olhos e sorri. Meu sorriso era bonito e franco, aberto sem ser forçado. "Eu até sou bonita.", pensei. Então corei, de repente com muita vergonha da avaliação que fazia de mim mesma em frente ao espelho.

Amassei o papel e arremessei ao lixo. Droga de Jane! Aquilo nem tinha me passado pela cabeça, pelo menos não de uma maneira consciente. Não havia motivos para eu me apaixonar por Minho, fosse o que fosse. Só de pensar naquilo já me sentia envergonhada. Ele era muito atencioso, educado, mas aquilo é a personalidade dele. Nada de especial. "Droga de Jane!", repeti mais algumas vezes até a ideia passar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.