O Velho Kaije

3 Capitulo 3 - "Limpando uma vida"


Passaram-se alguns dias. Prontera vivia sua primavera e a cidade estava agitada como sempre. Os Mercadores gritavam seus produtos e preços, guildas de aventureiros andavam pelas ruas recrutando e passeando entre as lojas. Outras pessoas apenas andavam conhecendo a capital.

Ao norte da cidade, próxima a Guilda dos Cavaleiros, havia uma casa um pouco velha mas em uma localização onde muitos espadachins gostaria de morar. Nos fundos da casa o vento empurrava o varal cheio de roupas brancas acabadas de serem lavadas. Isso era uma cena um pouco rara de se ver pois o morador não constumava lavar suas roupas. Na verdade, o morador não fazia nada. O interior da casa sempre foi uma bagunça. Louças sujas na cozinha, banheiro juntando moscas, garrafas e mais garrafas de bebidas vazias jogadas por alí, uma grossa camada de poeira sempre presente sobre as paredes e os móveis e o chão que parecia o chão de um chiqueiro.

Mas naquele dia nada disso era visto dentro da casa. A cozinha estava organizada e limpa. Os quartos arrumados. O banheiro estava tão limpo que podia-se comer dentro dele. Não se via nenhuma garrafa, nem cheia nem vazia. Os móveis, herança da família, estavam lustrosos e o chão refletia a imagem de quem passa-se por ele, de tão limpo. Quando alguns cavaleiros, acostumados a ver a casa na antiga situação, viram a mudança, alguns até chegaram a espiar pela janela, ficaram intrigados com aquilo, gerando murmurinhos na guilda.

Mas maior foi a surpresa do velho Kaije que, ao descer de seu quarto, viu sua casa renovada. Na verdade, desde que encontrou-se com a jovem templária foi uma surpresa atrás da outra, embora no dia do encontro ela o tivesse acompado até sua casa a contra gosto dele. Com um sorriso no rosto o velho demonstrou que a forma que ela encontrou de agradescer a sua hospitalidade o agradou. No dia em que se encontraram pela primeira vez Kaije havia gritado com ela e mandado ela ir embora. Até havia dado um susto nela ameaçando machucá-la para que fosse embora. Mas nada fez a menina partir. Tanta determinação fez com que o velho templário oferecesse sua casa como um lugar de repouso para ela. — Ela podia estar sozinha! — pensou.

Aí que vem a parte engraçada dessa história toda. O velho Kaije era um beberrão, isso vocês já sabem, e desde que ela chegou em sua casa ele não conseguia beber. Na primeira noite em que ela esteve lá, a templária sofreu de uma forte febre e Kaije ficou cuidando dela. Na segunda noite, ambos foram procurar o peco dela pois havia fugido. Na terceira noite porém o velho Kaije teve êxito. Saiu da casa sem fazer barulho e foi até a taverna. Estava lá bebendo e rindo até que a porta do estabelecimento foi aberta com um enorme chute.

Todos que estavam sentados olharam para o alto da porta para verem a face do invasor. Mas tiveram de abaixar os olhos para o meio da porta, pois, alí estava uma pequena jovem templária furiosa. Ela entrou batendo os pés no chão e com as mãos na cintura. Kaije teve apenas a chance de falar um "oi" e a garota já foi pegando-o pelas orelhas e puchando para fora do bar.

Todos na taverna deram gargalhadas ao verem uma jovem templária puxando as orelhas do velho Kaije e o arrastar para casa. Ele, por sua vez, meio bêbado, achou igualmente engraçado e deixou ser levado pela garota.

A relação, entre eles foi ficando cada vez melhor e agora ficavam o dia todo conversando. Ou melhor, ele ficava contando suas histórias que ela ouvia sempre com muita atenção.

- Você sabe o que o sumo falou para o gatuno? - Perguntou ele com um sorriso. Ela balançou a cabeça indicando que não. — Devolve minha carteira! — ele mesmo respondeu e caiu na gargalhada. Para sua surpresa a menina tambem riu. Ela era a primeira pessoa a rir dessa sua piada velha.

Kaije com o passar do dia havia melhorado. Estava sóbrio, arrumado e até já havia treinado um pouco com a espada na compania da templária.

Quando Kaije pegou seu escudo quase não o reconheceu. A garota havia tirado os amassados e o polido. Agora o escudo reluzia e refletia tudo a sua volta. Kaije o pegou e o olhou maravilhado. Porém pensamentos do passado lhe vieram a mente.

"No Corredor largo havia uma pessoa de costas para ele, carregava consigo um escudo e este refletia um vermelho, vermelho vivo, que estava por todo o chão da Catedral."


Ele soltou o escudo recém lustrado no chão e naquele dia foi dormir mais cedo.

O dia seguinte amanheceu nublado. Tão nublado que não parecia ter amanhecido. O velho Kaije se levantou e andou pela casa procurando a templária mas não a encotrou. O peco dela tambem não estava amarrado à corda em que ele havia deixado. Surpreso, saiu da sua casa e foi até alguns cavaleiros que estavam em frente a guilda.

- Vocês viram uma pequena Templária? — Perguntou Kaije

- Não não vi! — um lorde apressou-se em responder.

- Eu ví! - gritou um outro mais jovem — Ela parecia estar correndo atrás de um peco fujão. Ambos iam em direção ao Norte, rumo ao labirinto, eu acho! — Concluiu o jovem.

Kaije não pensou duas vezes. Foi até sua casa. Pegou seu escudo, sua espada e saiu correndo. Sabia que o labirinto não era um lugar bom e ela podia estar correndo sério perigo.

Notas finais
[Continua]