O VALE DAS CERVAS
1 O HERDEIRO
O sol ainda não tinha ultrapassado as montanhas quando o Vale das Cervas começou a despertar. A névoa pairava sobre o Rio das Névoas como um véu branco. As águas cortavam todo o feudo. De um lado estavam os campos dourados. Do outro, as florestas profundas onde os caçadores buscavam lenha e caça.
Acima de tudo, observando o vale inteiro, estava o Castelo de Pedra Alta. As torres de pedra pareciam tocar o céu. De lá, a família senhorial governava todas as terras. Todas. Ou quase todas.
…
Na Vila dos Servos, Elisa já estava acordada. A jovem carregava dois baldes de água enquanto caminhava pela estrada de terra. Ao redor dela, a vila despertava. Fumaça saía das chaminés. Galinhas corriam pelos quintais. Crianças perseguiam cachorros. E os trabalhadores se preparavam para mais um dia nos campos.
— Elisa! — chamou uma voz. Era Clara. Filha do ferreiro.
— Tu acordou antes do galo de novo.
— Se eu dormir mais, minha mãe me coloca pra trabalhar até a próxima primavera. — As duas riram. Clara observou o castelo no alto da colina.
— Já imaginou morar lá? — Elisa acompanhou seu olhar.As torres brilhavam sob a luz da manhã.
— Não.
— Mentira.
— Tá bom... talvez uma vez ou outra.
— Eu sabia. — As duas continuaram andando. Nenhuma delas percebeu um cavaleiro descendo a estrada do castelo.
…
No Castelo de Pedra Alta, os criados corriam pelos corredores. Lady Constança observava tudo da varanda. Nada escapava ao seu olhar.
— O herdeiro já chegou? — Uma criada abaixou a cabeça.
— Deve chegar antes do meio-dia, minha senhora. — Constança assentiu. Atrás dela surgiu Lorde Afonso. Senhor absoluto do Vale das Cervas.
— O povo está animado com o retorno dele.
— O povo sempre se anima com qualquer coisa — respondeu Constança.
Afonso soltou uma breve risada. Mas seus olhos permaneceram sérios. Havia preocupações demais escondidas atrás daquele castelo.
…
Perto do rio, Mateus puxava sua rede de pesca. O pescador franzia a testa. A água estava estranha. Silenciosa demais. Ele observou a correnteza. Por um instante. Jurou ter visto algo brilhando entre as pedras. Mas quando piscou… Não havia nada.
— Tô ficando velho. — Continuou seu trabalho. Sem imaginar que aquela pequena visão mudaria muita coisa nos meses seguintes.
…
Os sinos da igreja tocaram. O som ecoou pelo vale inteiro. Padre Gabriel saiu pela porta principal. Algumas crianças correram até ele. Outros moradores acenaram. O padre sorriu. Mas por dentro carregava uma preocupação. Na noite anterior ele encontrara algo estranho nos arquivos antigos do mosteiro. Um nome. Uma data. E uma anotação que não deveria existir. Ainda não sabia o significado. Mas sabia que era perigoso.
…
Quando o sol chegou ao ponto mais alto do céu, a vila inteira se reuniu perto da estrada principal. O herdeiro estava chegando. Artur de Pedra Alta. Filho de Lorde Afonso. Futuro senhor do vale. Os cavalos apareceram primeiro. Depois os guardas. Então surgiu o jovem herdeiro. Montado num cavalo negro. O povo observava. Alguns admiravam. Outros temiam. Elisa também olhou. Apenas por curiosidade. Nada mais.
Ou pelo menos foi isso que ela tentou dizer a si mesma. Por um breve instante. Os olhos dos dois se encontraram. E então o cavalo continuou descendo a estrada. Como se nada tivesse acontecido. Mas, no alto da colina, as torres do castelo observavam em silêncio. E o Vale das Cervas guardava segredos antigos demais para permanecerem enterrados para sempre.
…
O Vale das Cervas ainda comentava a chegada de Artur. Na vila, as mulheres falavam dele. Os homens comparavam o jovem ao pai. As crianças corriam fingindo ser cavaleiros. E Dona Marta… Bem. Dona Marta já estava espalhando histórias.
— Dizem que ele voltou porque vai casar.
— Quem disse isso?
— Eu ouvi.
— De quem?
— Não interessa. — Era assim que as fofocas nasciam.
…
Os portões de Pedra Alta começaram a se abrir lentamente. O som da madeira pesada ecoou pelo pátio. Os guardas se posicionaram. Os criados pararam o que estavam fazendo. Até os cavalos dos estábulos pareciam inquietos. Artur atravessou o portão montado em seu cavalo negro. Fazia quase três anos desde que deixara o vale. Três anos vendo outras cidades. Outras terras. Outras formas de viver. Mas agora estava de volta. O castelo parecia menor. E mais pesado. Um criado correu para segurar as rédeas.
— Bem-vindo de volta, senhor Artur. — Artur desceu do cavalo. Reconheceu vários rostos. Alguns mais velhos. Alguns mais cansados. Outros felizes por vê-lo.
— Ainda não derrubaram esse castelo? — O velho estábulo Antônio deu uma gargalhada.
— Tentaram. Mas ele é mais teimoso que seu pai. — Artur sorriu.
Sentia falta daquilo. Das pessoas. Dos cheiros. Do lugar. Mas algo parecia diferente. Como se o castelo estivesse escondendo alguma coisa.
…
As portas do salão principal se abriram. Lorde Afonso estava esperando. Em pé. Imóvel. Como uma estátua. Ao lado dele estava Lady Constança. Elegante como sempre. Artur caminhou até eles. Por um segundo, ninguém falou nada. Então Afonso abriu um sorriso raro.
— Você demorou. — Artur respondeu com outro sorriso.
— Eu aprendi com o senhor. — Os dois se abraçaram. Rapidamente. Como homens acostumados a esconder sentimentos. Mas o orgulho era visível. O herdeiro estava em casa. Constança aproximou-se. Segurou o rosto do filho. Observou cada detalhe. Como se quisesse ter certeza de que ele era real.
— Você está mais magro.
— Mãe...
— E mais queimado do sol.
— Mãe.
— E precisa cortar esse cabelo. — Artur riu. Pela primeira vez na viagem. Uma risada verdadeira. Então uma voz surgiu atrás.
— Finalmente. — Era Helena. A irmã. Livro debaixo do braço. Olhar inteligente. Sorriso debochado.
— Eu já estava cansada de ouvir mamãe reclamar da sua ausência.
— Mentira.
— É verdade. — Os dois se abraçaram. Mais forte. Mais sincero.
Tomás apareceu correndo pelo corredor. Quase derrubando um criado.
— ARTUR! — O caçula praticamente se jogou no irmão.
— Você trouxe alguma coisa?
— Nem um "olá"?
— Trouxe ou não?
— Trouxe. — Tomás comemorou como uma criança. Mesmo já sendo quase um homem. Helena revirou os olhos.
— Impressionante.
— O quê?
— Você consegue ser exatamente o mesmo depois de três anos.
…
Mais tarde. Enquanto todos jantavam. O salão estava iluminado por dezenas de velas. Os criados serviam pão. Carne. Vinho. Mas Artur percebeu algo. Seu pai estava distraído. Sua mãe observava tudo. Helena parecia esconder pensamentos. E até Tomás estava mais quieto do que o normal. Como se todos estivessem esperando alguma coisa. Ou escondendo alguma coisa. Então Afonso ergueu a taça.
— Ao retorno do meu filho. — Todos repetiram o gesto. Mas enquanto os copos se encontravam… Lady Constança lançou um olhar rápido para o marido. Um olhar preocupado. Um olhar que Artur percebeu. E não conseguiu esquecer. Talvez voltar para casa não fosse tão simples quanto imaginava.
…
Artur finalmente estava sozinho. Seu antigo quarto permanecia igual. A mesma janela. A mesma vista. As mesmas montanhas. Mas ele não era mais o mesmo. A viagem havia mudado muita coisa.
Ele caminhou até a janela. Lá embaixo conseguia ver a vila. Pequena. Distante. Viva. E por algum motivo… Seu olhar procurou uma pessoa específica. A moça dos baldes. Ele nem sabia o nome dela.
…
Enquanto isso, Elisa ajudava Rosa na pequena casa da família. A mesa estava cheia de ervas. Algumas para chá. Outras para remédios.
— A parteira também cura metade da vila — brincou Elisa.
— E a outra metade me dá dor de cabeça. — As duas riram.
Então alguém bateu na porta. Era Bento. Lenhador. Grande. Forte. E completamente incapaz de esconder quando estava nervoso.
— Eu trouxe lenha.
— Obrigada, Bento.— Ele olhou para Elisa.
Elisa sorriu. Bento esqueceu o que ia dizer. De novo.
…
Perto do rio, Mateus observava a água. Não conseguia esquecer o brilho estranho da manhã. Voltou ao mesmo lugar. A correnteza seguia calma. Silenciosa. Então viu algo preso entre as pedras. Mateus entrou na água. Puxou o objeto. Era uma pequena peça de metal. Antiga. Muito antiga. Com um símbolo gravado. Uma coroa. O pescador franziu a testa. Nunca tinha visto aquilo antes.
…
Na igreja, Padre Gabriel estudava documentos. Páginas amareladas. Nomes. Datas. Assinaturas. Então encontrou novamente aquele registro. Ano 118. "Um herdeiro desaparecido." O padre passou a mão na barba. Algo naquela história não fazia sentido. Se aquilo fosse verdade… Toda a história do Vale das Cervas estava errada.
…
A longa mesa do castelo estava iluminada por velas. Lady Constança observava todos. Helena lia escondida. Tomás mexia na comida. Artur permanecia calado. Até que Afonso falou.
— Amanhã você começará a visitar as terras. — Artur ergueu os olhos.
— Todas elas?
— Todas.
— Inclusive a vila? — O senhor feudal ficou em silêncio por um instante.
— Principalmente a vila. — Constança observou o filho. Parecia preocupada. Muito mais preocupada do que deveria.
…
Naquela mesma noite… Alguém entrou escondido na igreja. Passos silenciosos. Capuz escuro. Nenhuma palavra. A figura caminhou diretamente até a sala dos arquivos. Como se soubesse exatamente o que procurava. Poucos minutos depois… Um dos documentos antigos desapareceu. E ninguém viu quem levou.
Fale com o autor