O VALE DAS CERVAS
2 A COLHEITA
O sol mal havia aparecido quando os campos do Vale das Cervas já estavam cheios de trabalhadores. Homens. Mulheres. Crianças ajudando como podiam. A colheita daquele ano havia começado. E toda a vila dependia dela.
Elisa caminhava ao lado de Pedro carregando um cesto vazio. Ao redor deles dezenas de servos trabalhavam. Alguns cantavam. Outros reclamavam do calor. Pedro apontou para os campos.
— Essa parte vai para o castelo. — Depois apontou para outra área.
— Essa é nossa.— Elisa suspirou. A parte do castelo era sempre maior. Muito maior.
— Às vezes parece que a gente trabalha mais para eles do que para nós mesmos. — Pedro olhou em volta antes de responder.
— Tem coisas que é melhor não falar alto. — Elisa percebeu o medo na voz dele. E isso a incomodou.
…
Mais tarde. Clara ajudava Joaquim na ferraria. Faíscas voavam. O calor era sufocante.
— Pai...
— Hum?
— O senhor nunca quis sair daqui? — Joaquim continuou martelando.
— Não.
— Nem uma vez?
— Não. — Clara abaixou a cabeça. Ela queria. Todos os dias. Queria conhecer cidades. Mercados. Castelos. O mundo. Mas sentia que passaria a vida inteira naquele vale.
…
Artur observava os campos da varanda. Pela primeira vez em anos. Sem as histórias dos nobres. Sem os relatórios. Sem os discursos. Apenas observando. As pessoas pareciam menores lá embaixo. Mas o trabalho delas sustentava tudo. Tudo. Helena apareceu carregando um livro.
— Está olhando para seus futuros súditos?
— Estou tentando entender como vivem. — Helena sorriu.
— Isso já é mais do que muitos senhores fizeram. — Artur percebeu um tom amargo na voz dela.
…
Mais tarde. Helena foi chamada ao escritório de Lorde Afonso.
— Sente-se. — Ela sentou. Sabia que aquilo não era bom sinal.
— Recebi uma carta.
— E?
— O Conde Álvaro virá nos visitar. — Helena revirou os olhos.
— Não.
— Ele ainda nem chegou.
— E eu já sei onde isso vai terminar. — Afonso fechou a expressão.
— Você precisa pensar no futuro.
— Eu penso.
— Então aja como uma dama.
— Talvez eu queira agir como uma pessoa. — O silêncio que se seguiu foi perigoso. Muito perigoso.
…
Bento carregava toras de madeira pela estrada. Quando viu Elisa trabalhando. Sem perceber. Parou para observá-la. Dona Marta apareceu atrás dele.
— Se continuar olhando assim, ela vai perceber. — Bento quase derrubou a madeira.
— Eu não estava olhando.
— Claro que não.
— Eu não estava.
— Meu filho, a vila inteira já percebeu. — Bento ficou vermelho. Dona Marta saiu rindo.
…
Na igreja. Padre Gabriel observava o espaço vazio na estante. O documento roubado continuava desaparecido. Ele abriu outro livro antigo. Folheou. Mais uma página. Mais outra. Então encontrou algo. Uma anotação. Pequena. Quase invisível. "Procure o símbolo da coroa partida." O padre congelou. A mesma palavra aparecia de novo.
…
Perto do rio. Mateus limpava a peça metálica encontrada. A sujeira começou a sair. Então apareceu um desenho. Uma coroa. Mas não inteira. Partida ao meio. Mateus franziu a testa. Era exatamente o símbolo descrito pelo padre anos atrás nos sermões sobre antigas histórias do vale. Aquilo não podia ser coincidência.
…
Enquanto isso. Tomás fugia das aulas de esgrima. De novo. Entrou no Bosque Comum. Correu entre as árvores. Subiu em pedras. Riu sozinho. Até encontrar algo estranho. Uma marca antiga gravada num tronco. Um símbolo. Uma coroa partida. Tomás passou a mão na madeira.
— Estranho… — Sem saber. Acabara de encontrar outra pista.
…
No castelo. Uma criada entrou discretamente.
— Minha senhora.
— Sim?
— O homem voltou. — Constança levantou os olhos. Pela primeira vez naquele dia. Pareceu preocupada. Muito preocupada.
— Onde ele está?
— Esperando nos estábulos. — Constança fechou o livro que lia.
— Ninguém pode saber.
…
Do outro lado das montanhas. No feudo vizinho. O Barão Rodrigo observava o Vale das Cervas. Pequeno. Distante. Rico. Seu conselheiro aproximou-se.
— Ainda quer aquelas terras? — Rodrigo sorriu.
— Quero tudo.
…
O sino da igreja tocou. O dia terminava. Elisa voltava para casa carregando parte da colheita. Cansada. Suada. Mas feliz. Então percebeu um cavaleiro parado na estrada. Era Artur. O herdeiro. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. O vento balançava os campos dourados ao redor. Artur foi o primeiro a falar.
Artur foi o primeiro a falar.
— Você trabalha muito. — Elisa ergueu uma sobrancelha.
— E você observa muito. — Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— Talvez.
— Talvez?
— Estou tentando entender este lugar. — Ela ajustou o peso do cesto.
— Depois de três anos morando aqui?
— Depois de três anos longe daqui.
Elisa não respondeu imediatamente. Continuou caminhando. Artur fez o cavalo seguir ao lado dela. Devagar. Sem invadir seu espaço.
— Nunca tinha visto você antes.
— Porque eu nunca fui ao castelo.
— E eu quase nunca vinha aos campos.
— Então os dois estavam ocupados demais. — Artur soltou uma breve risada. Aquilo surpreendeu Elisa. Ela imaginava que herdeiros não riam daquele jeito. Nem pareciam tão normais.
— Você esperava encontrar o quê? — perguntou ela.
— Nos campos?
— Em mim. — Artur ficou alguns segundos pensando.
— Não sei.
— Resposta ruim.
— Eu sei.
— Então tente outra. — Ele observou as plantações. As pessoas voltando para casa. A fumaça subindo das chaminés da vila.
— Acho que esperava encontrar pessoas reclamando.
— E encontrou?
— Algumas. — Elisa sorriu.
— Então encontrou o que procurava. — Os dois riram. O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Menos desconfortável. Mais leve. Mais distante, perto da entrada da vila, Bento carregava um feixe de madeira. E viu os dois. Parou imediatamente. Seu sorriso desapareceu. Não conseguia ouvir a conversa. Mas não precisava. Ver já era suficiente. Dona Marta apareceu ao lado dele como se tivesse surgido do nada.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que isso ia acontecer. — Bento apertou a madeira nas mãos.
— Não está acontecendo nada.
— Claro que não.
— Não está.
— E eu sou a rainha do reino. — Bento suspirou. Dona Marta saiu andando. Já pensando em quem contaria aquilo primeiro. Enquanto isso, na estrada, Artur apontou para uma das casas da vila.
— Qual é a sua?
— Aquela perto da figueira.
— Pequena.
— É uma casa.
— Parece aconchegante. — Elisa olhou para ele pela primeira vez desde que a conversa começou. E percebeu que ele não estava zombando. Nem julgando. Nem fingindo. Parecia realmente curioso. Como alguém tentando conhecer um mundo que nunca havia visto de perto. Artur diminuiu a velocidade do cavalo. A casa dela já estava próxima.
…
O Festival da Primavera acontecia apenas uma vez por ano. Era o único dia em que praticamente todo o Vale das Cervas parecia esquecer as diferenças. Por algumas horas. Nobres. Servos. Ferreiros. Pescadores. Lenhadores. Agricultores. Todos se reuniam na grande praça próxima à igreja. Ao menos era isso que diziam. Porque algumas diferenças nunca desapareciam de verdade.
…
Antes mesmo do amanhecer, a vila estava acordada. Bandeiras coloridas balançavam. Mesas eram montadas. Panelas fumegavam. Crianças corriam por todos os lados. Dona Marta já estava distribuindo fofocas mais rápido que pão.
— Ouvi dizer que o herdeiro vai escolher uma noiva hoje.
— Quem disse isso?
— Eu.
— E quem contou pra senhora?
— Ainda vou descobrir.
…
Os sinos tocaram. Uma vez. Duas. Três. O som ecoou por todo o vale. Padre Gabriel apareceu na porta da igreja. Vestia suas melhores roupas religiosas. Atrás dele vinham os ajudantes carregando velas. A praça começou a silenciar. Até as crianças diminuíram a correria.
— Povo do Vale das Cervas… — A voz dele ecoou.
— Hoje agradecemos pela colheita, pela chuva, pelos campos e pela vida. — As pessoas fizeram o sinal da cruz.
— Que os ricos lembrem dos pobres.
— Amém.
— Que os fortes protejam os fracos.
— Amém.
— E que a verdade sempre encontre o caminho da luz. — Por um instante. Os olhos de Gabriel passaram por Lorde Afonso. Depois por Lady Constança. E finalmente pela velha igreja. Como se suas palavras escondessem algo mais.
…
A chegada da família do castelo chamou atenção. Primeiro os guardas. Depois os criados. Então surgiram:Lorde Afonso. Lady Constança. Artur. Helena. Tomás. O povo abriu passagem. Alguns se curvaram. Outros apenas observaram. Helena percebeu algo. Artur parecia procurar alguém.
— Está procurando quem?
— Ninguém.
— Claro.
— Helena...
— É a moça dos baldes? — Artur lançou um olhar. Helena começou a rir.
…
Elisa ajudava Rosa numa barraca de tortas. Clara organizava flores.
— A vila inteira está olhando para o castelo.
— E?
— E o castelo inteiro está olhando para uma certa pessoa. — Elisa congelou.
— Clara.
— O quê?
— Cala a boca.
…
Bento estava ajudando a montar os bancos da praça. Então viu. Artur. E logo depois. Elisa. O lenhador apertou a madeira com força. Não gostou daquilo. Nem um pouco.
…
Perto da fonte. Artur finalmente encontrou Elisa. Sem multidão. Sem criados. Sem guardas. Por alguns minutos. Só os dois.
— Então você é o herdeiro.
— E você é a moça dos baldes.
— Eu tenho nome.
— Eu também. — Elisa tentou não sorrir. Tentou.
— Elisa.
— Artur. — Pela primeira vez. A conversa parecia natural.
…
Enquanto isso. Tomás participava das competições da vila. Corrida. Arremesso. Escalada. Até que resolveu apostar que conseguiria subir no telhado da igreja. O resultado? Padre Gabriel precisou ajudar a tirá-lo de lá.
— Seu pai vai me matar.
— Só se ele descobrir.
— Ele sempre descobre.
…
Helena estava lendo perto de uma árvore quando um homem se aproximou. Bem vestido. Elegante. Confiante.
— Lady Helena. — Ela ergueu os olhos. Imediatamente reconheceu. Conde Álvaro. O pretendente.
— Ah. — Você.
— Parece feliz em me ver.
— Eu estaria mais feliz vendo uma pedra. — Álvaro sorriu. Pela primeira vez alguém o tratava daquele jeito. E estranhamente… Aquilo o divertiu.
…
Durante a celebração. Mateus procurou Padre Gabriel. Escondido. Mostrou a peça encontrada no rio. O padre empalideceu.
— Onde conseguiu isso?
— No Rio das Névoas. — Gabriel segurou o objeto. Era exatamente o símbolo citado nos documentos. A coroa partida. O mesmo símbolo. Outra vez.
…
Do outro lado da praça. Constança observava. Tudo. Artur. Elisa. Gabriel. Mateus. Parecia acompanhar várias coisas ao mesmo tempo. Então um homem encapuzado passou por ela. Sem parar. Sem olhar. Apenas deixou um pequeno pedaço de papel cair. Constança o recolheu discretamente. Leu. E perdeu a cor do rosto.
…
Quando o sol começou a se pôr. A música tomou conta da praça. As pessoas dançavam. Riam. Cantavam. Parecia um dia perfeito. Então. No meio da multidão. Padre Gabriel viu alguém. Um rosto. Uma pessoa que aparecia desenhada nos documentos antigos. Ou alguém absurdamente parecido. O padre congelou. O coração acelerou. Quando tentou alcançá-la… A pessoa já havia desaparecido. Entre centenas de moradores. Como se nunca tivesse estado ali.
…
O sol começava a desaparecer atrás das montanhas. A praça estava iluminada por tochas. A música havia diminuído. As crianças estavam cansadas. Os vendedores guardavam parte das mercadorias. Mas ninguém foi embora quando Padre Gabriel subiu nos degraus da igreja. Porque todos sabiam. Quando Gabriel falava… Era diferente. O velho Mateus costumava dizer que o padre não contava histórias. Ele abria portas. E as pessoas atravessavam. O silêncio tomou conta da praça. Até os cavalos pareciam mais quietos. Gabriel observou cada rosto. Servos. Nobres. Crianças. Viúvas. Lenhadores. Ferreiros. Pescadores. Todos.
Então começou. todos escutaram.
— Uma noite fria. Muito fria. Nenhum castelo. Nenhuma muralha. Nenhuma proteção. Apenas um povo caminhando pelo deserto. Cansado. Assustado. Sem saber o que encontraria no dia seguinte. — A praça ficou imóvel. Até Dona Marta estava em silêncio. Homens carregando crianças nos ombros. Mulheres tentando esconder o medo. Velhos olhando para o horizonte. — Todos esperando alguém. Alguém que mostrasse o caminho. — A voz do padre parecia mais profunda agora. Mais próxima. Como se estivesse falando para cada pessoa individualmente. — Então um homem se levanta. Não porque é o mais rico. Não porque é o mais forte. Não porque é o mais importante. Mas porque acredita. — O vento balançou as bandeiras do festival.
— Ele atravessa rios. Enfrenta exércitos. Escuta o medo dos outros. E continua andando. Porque sabe que alguém precisa dar o primeiro passo. — Artur observava atentamente. Helena havia fechado o livro. Até Lorde Afonso escutava.
— Quando todos olham para uma muralha e enxergam um fim… Ele enxerga uma porta. Quando todos dizem "não podemos"... Ele responde "vamos tentar". Quando todos fogem… Ele avança. — Padre Gabriel caminhou lentamente pelos degraus. Sem levantar a voz. Mas cada palavra parecia mais forte.
— Algumas pessoas acreditam que coragem significa não sentir medo. Não. Coragem é sentir medo. E continuar caminhando mesmo assim. — Um menino da vila estava tão concentrado que nem percebeu a mãe segurando sua mão. — Porque os verdadeiros líderes não são aqueles que caminham na frente por orgulho. São aqueles que caminham na frente para que os outros tenham coragem de seguir. — O silêncio era absoluto. — E esse homem existiu. Andou sobre esta terra. Sentiu fome. Sentiu medo. Sentiu dúvidas. Mas continuou. Gabriel sorriu. Pequeno. Quase imperceptível. Seu nome era Josué. — Algumas sorriram. Outras ficaram pensativas. — E talvez… O mundo precise de mais pessoas como ele. Pessoas que dão o primeiro passo. Mesmo quando ninguém mais acredita. — A praça permaneceu em silêncio por alguns segundos. Um silêncio bom. Daquele tipo que faz as pessoas pensarem. Depois os aplausos começaram. Primeiro uma pessoa. Depois outra. Depois dezenas. E por um breve instante...Pareceu que todos no Vale das Cervas estavam mais leves. Mais fortes. Mais esperançosos. Era por isso que tanta gente procurava Padre Gabriel. Não importava a hora. Não importava o problema. Porque quando ele falava… As pessoas saíam acreditando que conseguiam enfrentar mais um dia.
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