O festival já estava terminando. As barracas começavam a desmontar. As crianças corriam atrás dos últimos doces. Os músicos guardavam os instrumentos. Mas algumas pessoas ainda permaneciam na praça. Uma delas era Elisa.


*******


Artur continuava parado próximo à fonte. Elisa segurava um cesto vazio. Os dois pareciam sem pressa.

— Então você trabalha nos campos? — perguntou Artur.

— Quando precisa.

— E quando não precisa?

— Eu trabalho também. — Artur sorriu.

— Isso não respondeu minha pergunta.

— Foi exatamente por isso que eu falei. — Pela primeira vez. Artur riu. Uma risada sincera. Elisa não esperava aquilo.

Os nobres normalmente não pareciam pessoas de verdade.


*******


Do outro lado da praça. Bento carregava bancos. Ou pelo menos fingia carregar. Na verdade observava. Observava Artur. Observava Elisa. Observava os dois juntos. Dona Marta apareceu novamente.

— Isso tá te fazendo mal.

— O quê?

— Ficar olhando.

— Não estou olhando.

— Claro que não. — Ela foi embora. Bento continuou olhando.


*******


Perto da igreja. Conde Álvaro caminhava ao lado de Helena.

— Seu pai fala muito bem de você.

— Meu pai fala muitas coisas.

— Você sempre responde assim?

— Só quando estou sendo educada.

Álvaro segurou uma risada. Helena era completamente diferente das mulheres nobres que conhecia. E isso estava começando a ser perigoso.


*******


A praça esvaziava. Gabriel observava a peça metálica encontrada no rio. A coroa partida. Mateus esperava.

— Então?

— Eu já vi esse símbolo antes.

— Onde?

— Nos registros antigos. — Mateus ficou sério.

— E o que significa? — Gabriel demorou para responder.

— Eu ainda não sei. — Mas pela expressão dele. Sabia mais do que estava dizendo.


*******


Tomás explorava a parte antiga da igreja. Algo que era proibido. Portas velhas. Corredores estreitos. Poeira. Silêncio. Até encontrar uma pequena escada. Nunca tinha visto aquilo. Subiu. Degrau por degrau. No topo encontrou um pequeno cômodo. Abandonado. Dentro havia: um baú. Trancado. Tomás abriu um sorriso.


*******


Clara observava mercadores desmontando suas carroças. Um deles contava histórias. Falava de cidades enormes. Pontes gigantes. Navios. Bibliotecas. Mercados. Clara escutava fascinada. Pela primeira vez. Percebeu que realmente queria sair do vale.


*******


No castelo. Lady Constança caminhava sozinha. Chegou aos estábulos. O homem encapuzado estava esperando. Como da outra vez.

— Você demorou.

— Estavam me observando.

— Encontraram alguma coisa? — O homem negou. Constança respirou aliviada. Mas apenas por um instante.

— E o padre?

— Continua investigando. — O rosto dela endureceu.

— Então precisamos agir primeiro.


*******


Nas montanhas. O Barão Rodrigo observava o vale. Um de seus homens aproximou-se.

— Temos gente dentro do feudo agora. — Rodrigo sorriu.

— Ótimo.

— O que devemos procurar? — O barão olhou para o castelo ao longe.

— Tudo.


*******


A noite já havia caído. Artur retornava para o castelo. Elisa voltava para a vila. Cada um por um caminho diferente. Mas ambos olharam para trás no mesmo instante. Por um segundo. Se viram novamente. À distância. Depois seguiram. Sem perceber que alguém observava os dois. Escondido entre as árvores. Uma figura encapuzada. Imóvel. Silenciosa. Como se estivesse esperando o momento certo para agir.

O festival havia terminado. Mas as conversas continuavam. No Vale das Cervas as notícias demoravam para morrer.


*******


A primeira luz da manhã atravessava os vitrais da igreja. Padre Gabriel observava a estante vazia. O documento roubado continuava desaparecido. Mateus estava ali. Esperando.

— O senhor sabe alguma coisa. — Gabriel continuou olhando os livros.

— Sei que alguém roubou um documento que não tinha valor para quase ninguém.

— Então tinha valor para alguém. — Gabriel finalmente virou. Mateus insistiu:

— O que estava escrito nele? — O padre demorou. Ele queria proteger o pescador. Mas também precisava de ajuda.

— Falava sobre uma criança.

— Que criança?

— Uma criança que desapareceu muitos anos atrás. — Mateus ficou imóvel. Agora ele queria saber mais. E Gabriel percebeu que não conseguiria mais afastá-lo da investigação.


*******


Tomás voltou para a torre abandonada. O baú continuava lá. Fechado. Trancado. Provocando sua curiosidade.

— Você vai abrir. — Ele puxou. Empurrou. Tentou usar uma pedra. Nada.

— Eu vou descobrir o que você esconde. — Sem perceber. Já estava entrando num problema muito maior do que imaginava.


*******


Clara ajudava Joaquim na ferraria. Mas sua cabeça estava longe. Muito longe.

— Pai.

— Hum?

— Quanto custa uma viagem? — O martelo parou.

— Viagem para onde?

— Qualquer lugar. — Joaquim observou a filha.

— Quem colocou isso na tua cabeça?

— Ninguém. — Mentira. Os mercadores. As histórias. Os sonhos. Tudo isso.

— Tem gente que nasce para viajar, tem gente que nasce para ficar.

— E quem decide isso? — Pela primeira vez. Joaquim não soube responder.


*******


Artur visitava os campos. Sem guardas. Sem criados. Apenas ele. Pedro estava trabalhando. O pai de Elisa.

— Senhor Artur.

— Só Artur está bom. — Pedro não gostou. Nobres que tentavam parecer simples geralmente causavam problemas. Artur apontou para a plantação.

— Quanto dessa colheita fica para vocês? — Pedro continuou trabalhando.

— O suficiente.

— O suficiente para quê? — Pedro ergueu os olhos.

— Para sobreviver. — A resposta ficou no ar. Artur percebeu. Algo estava errado. E talvez estivesse errado há muito tempo.


*******


Mais tarde. Elisa encontrou Artur novamente. Perto dos campos.

— Está fiscalizando?

— Tentando entender.

— Então começou pelo lugar errado.

— E qual seria o lugar certo? — Ela apontou para a vila.

— Lá.

— Por quê?

— Porque castelos enxergam números.— A vila enxerga pessoas. Artur ficou em silêncio. Aquilo o atingiu mais do que ela imaginava.


*******


Bento carregava os sacos de grãos ao lado de Elisa. A estrada estava quase vazia. O sol começava a descer atrás das montanhas.

— Você não precisava ajudar — disse Elisa.

— Precisava sim.

— Eu faço isso todo dia.

— E eu continuo podendo ajudar. — Elisa sorriu. Pequeno. Quase sem perceber. Aquilo já era mais do que Bento costumava conseguir. Ele respirou fundo. Precisava falar. Precisava.

— Elisa… — Ela virou o rosto.

— Hum?

— Eu estava pensando… — Antes que terminasse. O som de cascos interrompeu a conversa.

Os dois olharam para a estrada. Artur vinha montado. Sozinho. Sem guardas. Sem criados. Quando viu os dois, diminuiu a velocidade.

— Boa tarde.

— Senhor Artur — respondeu Bento imediatamente. Artur olhou para os sacos.

— Parece pesado.

— A gente está acostumado. — A resposta veio de Elisa. Artur percebeu. Ela sempre respondia como se estivesse defendendo alguém. Ou alguma coisa.

— Eu visitei os campos hoje.

— E gostou do passeio? — Artur ignorou a provocação.

— Descobri que muita gente trabalha mais do que eu imaginava.

— Agora descobriu? — Elisa respondeu. Bento observava os dois. A conversa parecia uma disputa. Mas também não parecia. E isso o incomodava. Artur desmontou do cavalo.

— Seu pai me ajudou a entender algumas coisas.

— Meu pai é inteligente.

— Percebi. — Um pequeno silêncio surgiu. Então Bento decidiu tentar recuperar a conversa.

— Eu estava levando ela para casa.

— Eu consigo andar sozinha — respondeu Elisa.

— Eu sei.

— Então por que continua dizendo isso? Bento não respondeu. Artur escondeu um sorriso. E isso irritou Bento ainda mais.

— Preciso voltar — disse Elisa.

— Eu acompanho você — falou Bento.

— Não precisa.

— Eu já estou aqui.

— E eu tenho pernas. — Artur começou a rir. Não conseguiu evitar. Elisa também acabou sorrindo. Bento sentiu que estava perdendo alguma coisa. Mesmo sem entender exatamente o quê. Quando Elisa foi embora pela estrada. Os dois homens ficaram observando. Até ela desaparecer entre as casas da vila. Então Bento falou:

— Ela não gosta muito de receber ajuda.

— Acho que ela gosta de escolher. — Os dois continuaram olhando a estrada vazia. Mas agora já não estavam falando apenas sobre Elisa.


*******


No castelo. Conde Álvaro voltou. Helena já estava irritada antes mesmo dele falar.

— Vim convidá-la para cavalgar.

— Não.

— Nem terminei.

— E eu já respondi. — Álvaro sorriu.

— Você sempre luta contra tudo?

— Só contra aquilo que tentam escolher por mim. — Pela primeira vez. Álvaro não viu apenas uma moça rebelde. Viu alguém presa. Assim como ele.


*******


Naquela noite. Uma figura encapuzada entrou novamente na igreja. Desta vez não procurava documentos. Procurava alguém. Chegou até uma parede antiga. Passou a mão sobre as pedras. E encontrou um símbolo. Uma coroa partida. A mesma marca. Então sussurrou:

— Eles estão chegando perto demais. — E desapareceu na escuridão.