O Véu Da Bruxa
2 Cuidado Com O Que Deseja
Notas iniciais
1984
O outono em Yaak era diferente das outras cidades de Montana. Enquanto todas as outras cidades tinham árvores depenadas e tapetes de folhas avermelhadas sendo sopradas pelo vento gélido de setembro, em Yaak as árvores mantiam suas folhas e quase não havia brisa.
Quando Ruby Bonnet chegou à cidade pela primeira vez, dezenove anos atrás, se encantou com a simplicidade das pessoas que ali viviam. Era uma cidade pequena, sim, e talvez, naquela época, não era um bom lugar para se viver, considerando as coisas pelas quais passou quando tinha apenas dez anos de idade.
Mas aquilo era passado e ela já tinha decidido na noite anterior, quando assoprara as velas do bolo de aniversário, não viver mais no passado.
A festa que suas amigas fizeram para ela era marcante, emocionante até. Cantaram parabéns no bar, convidando todos para cantarem com elas. Beberam margueritas e, cortejaram rapazes, dançaram e se divertiram.
Ruby estava feliz.
Tinha amigos, um maravilhoso noivo e futuro marido — iam se casar naquele final de semana — e um ótimo emprego como gerente de uma livraria. Não lhe dava muito trabalho e a deixava ficar no comando, adorava estar em controle.
Parecia que não poderia ser mais perfeito.
Mais tarde, pouco para meia noite, elas voltaram para a casa de Chelsea. Ela e Ruby moravam juntas, mas somente até aquele final de semana. Terça feira, a mudança chegaria e sua sogra arrumaria suas poucas coisas na casa de seu marido, enquanto Ruby e Frank se divertiam em sua lua de mel.
—Espera, a noite ainda não acabou. — Chelsea disse, chamando Emily para ajudá-la. Ruby se jogou no sofá. Quando voltaram, traziam um bolo branco com a palavra "Parabéns" desenhada em vermelho.
—Eu te disse que ia ter bolo. — Emily disse, rindo. Colocaram o bolo com cuidado na mesinha de centro, e, Chelsea voltou para a cozinha e voltou com 30 velas, a idade de Ruby.
—Aqui, me ajuda a colocar todas. — Disse, entregando metade das velas para Emily.
—Espera, o bolo é de morango, não é? — Ela disse, sorrindo. As duas sorriram e reviraram os olhos. Afinal, Ruby só comia bolo de morango.
—Acredite, é de morango. Eu não faria outro tipo de bolo para você. — Emily disse, enquanto colocava as diversas velas no bolo.
Ruby limpou uma lágrima que escorreu de seus olhos enquanto encarava as velas iluminando seu bolo na escuridão da casa. Estavam tão animadas que tinham esquecido de acender a luz.
—Assopra e faz um pedido. — Chelsea disse, sentando-se ao lado de Ruby. Emily sentou-se do outro lado.
—O que eu devo pedir? — Ela perguntou, dando de ombros. — Eu tenho maravilhosas amigas, um lindo marido me esperando...
—Uma linda cerimônia. — Chelsea completou.
—Um lindo vestido. — Emily disse.
—Uma boa vida. — Ruby concluiu.
—Mesmo assim, é tradição. Você tem assoprar as velas e fazer um pedido. — Chelsea disse, sabendo que se continuassem, Ruby ia desistir de assoprar a vela. Teria de impulsionar a amiga, como sempre.
Ruby fechou os olhos, imaginando seu pedido, mentalizando as palavras. Assoprou as velas e suas amigas bateram palmas. Cortaram o bolo e comeram, e, pouco tempo depois, adormeceram no sofá, as três lado a lado.
E nos sonhos de Ruby, talvez para contrariar seu desejo, ela sonhou mais uma vez com o seu passado. Memórias ensanguentadas e imagens assustadoras de seu falecido pai.
"Desejo que nada mude em minha vida"
***
Na manhã seguinte, Ruby foi a primeira a acordar. Acordou com um susto, um barulho de algo batendo contra as paredes. Ruby acordou assustada. Levantou-se cautelosamente, indo até a janela, procurando o motivo do tal barulho. Olhou para um lado e para o outro. E, quando estava a ponto de desistir de procurar a fonte do barulho, olhou para baixo. Se não tivesse tapado sua boca a tempo, talvez teria gritado e acordado suas amigas.
Rapidamente e silenciosamente, saiu pela porta da frente, dando a volta para chegar até a janela. Ajoelhou-se em frente ao animal preto e o cutucou com um graveto.
Estava morto.
Era um corvo, e estava morto. Seu pescoço quebrado num ângulo que não poderia ser causado por uma simples batida na janela fechada.
Ruby mordeu seu lábio inferior nervosamente. Olhou para os lados, como se estivesse procurando por alguém. Ela não sabia se deveria se preocupar ou não com a ausência de olhos observadores.
Ela ficou de pé e se espreguiçou. Olhou pela janela, para suas amigas ainda dormindo no sofá. Emily se mexeu, encostando-se no ombro de Chelsea. Ruby mordeu o lábio de novo.
Teria de se livrar daquele animal morto antes de suas amigas acordarem. Ela não teria uma lógica para explicar porque aquele animal caiu ali e se recusava a contar a verdade para suas amigas.
Não quando ela achava que finalmente tinha se livrado daquela vida.
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