O Unicórnio de Um Coelho
21 Um lugar escurecido...
Notas iniciais
Uma longa estrada cortava uma área desabitada, e não seria errado dizer que um dos lados da rodovia fosse área de floresta selvagem. No meio de um nada assim, e com o sol prestes a se pôr, David desceu da cabine do pequeno caminhão guincho.
Jack ainda tentava entender por que aceitou ir tão fácil, podia ter insistido mais quando tentou uma forma de ser deixado no caminho, mas o Audrey mais velho não deixou e ficou um pouco irritado, mandou se calar. Entretanto, David estava animado com a missão de resgatar um carro, enquanto o coelho nem sabia se ele tinha habilitação para dirigir um caminhão, mas também não importava tanto, ele seria apenas um acompanhante. Porém sua função no plano ficou esclarecida quando foi obrigado a ajudar a levarem o carro velho do acostamento para cima do guincho.
— Já deve ter feito isso muitas vezes, não, Jack? — David falo quando mexiam no cabo que lentamente puxava o veiculo para a plataforma. O moreno, com alguns dedos doendo depois de machucá-los em alguma parte do gancho que colocou debaixo do carro sozinho, apenas o olhou irritado. — Que é? Sei que você já deve ter ajudado Samuel com coisas assim.
Jack não estava envolvido com o negocio de seqüestro de carros com Samuel. Tirar carros de locadoras distantes com documentos falsos e desaparecer com tudo não parecia um plano seguro para o moreno como parecia para Sam. E apesar de saber desse negocio, Jack jamais se intrometeu.
— Claro que não. — respondeu — Você que é burro demais para entender como esse negocio funciona!
David riu torto. Era verdade que nem se deu o trabalho de perguntar para o chefe como o guincho funcionava, mas ele deu um jeito, um jeito chamado: trazer alguém para fazer para ele.
— E o que aconteceu entre vocês?
— Nada — Jack disse tentando dar pouco caso a pergunta, sabendo que estava sendo observado de forma atenta. Já fazia um tempo que ele notava que David tinha olhares de estranhamento quando Sam passava por ele e nem o cumprimentava, como costumava fazer antes.
— Tô perguntando serio, Jack. Você passava bastante tempo com ele, agora volta e meia está sobrando com a gente.
Dava para saber quando alguém não ia deixar uma pergunta sem resposta, então Jack fez o melhor que pode:
— Ah, nada... Você estava certo — respondeu com leve desgosto e sem parar de prestar atenção no avanço do carro quebrado sobre o caminhão. — Não dava para confiar nele...
— Hunf! Estava mesmo! — David estava convencido e antes que cavasse mais no assunto o senhor dono do carro o abordou e fez perguntas.
Depois, a volta para a civilização foi silenciosa e apertada entre dois homens na estreita cabine do caminhão guincho.
***
Era manhã fresca de um novo dia de colégio. Francis deixava sua mãe descansar sempre então preparava seu café sozinho. Quando já estava desperto o suficiente e terminado o desjejum, ouviu risos desconhecidos em algum lugar da casa. Meio assustando, o menino parou imóvel, prestando atenção, pois àquela hora a casa devia estar completamente adormecida e quieta como um túmulo.
Então a risada de garota veio novamente, súbita, alta e bem divertida. Francis estranhou mais, pois não havia garotas em sua casa e seu irmão nunca ousou trazer alguma.
Ele esperou para ver o que aconteceria e, de repente, Bianca apareceu com passos rápidos e rindo. A moça estava feliz logo cedo, o olhou com um sorriso fino, lhe dizendo um bom dia simpático e foi arrumar seu café da manhã como se já conhecesse tudo da casa. Pelo short curto e a blusa sem manga, eram roupas de dormir, ela tinha passado a noite e o inocente unicórnio nem percebeu.
Fran observou-a atordoado e logo David veio atrás da namorada. Ele estava mais desperto que o costume, e Francis ainda viu um sorriso em seus lábios antes dele murchá-lo ao vê-lo na mesa da cozinha. Não se olharam muito tempo, era fácil fingir que não coexistiam.
— Você já vai para a escola? — Bianca perguntou para Francis chamando sua atenção.
— Ah! V-vou, sim. — O menino lembrou-se que estava mesmo indo e se levantou para sair do cômodo.
— Espera! — e Bianca riu. Mesmo com os cabelos desalinhados e com roupas simples, ela mantinha uma beleza que atraia o olhar de qualquer um facilmente. — Nós também vamos. Não é, David?
— Só porque você insiste... — ele murmurou, mexendo um cereal perto dela e de costas para Francis. — Eu queria ficar com você, na cama, até quando quisesse... — e ele se aproximou dela, beijando-a por alguns instantes na frente do unicórnio.
Enojado de assistir o grude, Francis deu as costas e ia se afastar.
— Espera! — Bia se desvencilhou do abraço e fez Fran parar novamente. — Você pode ir com a gente. Só nos dê alguns minutos.
Ela era gentil demais para ser merecida por David, eram um oposto, concluiu o unicórnio com pesar.
Os irmãos se encararam sem respostas.
Claro que David não queria saber de Francis perto, mas não ia desagradar a namorada logo na primeira vez que ela ficou em sua casa. E Francis não saberia discutir com uma garota, Bianca parecia do tipo que insistia.
— Legal! Vamos juntos! Só espera por nós! — Ela sorriu, virando-se rapidamente para David, que forçou um sorriso como se apreciasse sua decisão, e pegou um torrada, voltando todo o caminho pela cozinha. — Eu vou me arrumar.
Minutos de silencio decorreram, Francis estranhou o irmão não virar para ele e obrigá-lo a dar um jeito de ir sozinho para a escola.
— Você não negou... — disse suavemente expressando seu estranhamento.
David olhou Francis sem qualquer expressão e botou mais uma colherada de cereal na boca.
— Você também não... Eu até poderia te chutar porta a fora antes que ela volte, mas... Bia ia arrumar um jeito de te carregar com a gente — deu de ombros. — Por alguma razão estranha... ela acha que você é gente.
O irmão não considerá-lo como gente não o espantava, mas David, o David que ele conhecia aceitar tão fácil a decisão de outra pessoa? Isso o fez ficar paralisado por uns segundos, tentando compreender, antes de ir sentar-se na sala para esperar cheio de reflexão.
***
Não era fácil conter sua empolgação. David Audrey quase ria safadamente ao caminhar para um lugar enquanto os outros alunos voltavam para suas salas com o termino do intervalo. Bianca o tinha pegado tão de jeito que ele seguiria qualquer coisa que ela falasse, mesmo que se roesse por dentro por não ter dito não; Nem ele mesmo sabia explicar o que sentia.
Pouco antes, naquele dia, uma menina da sala de Bianca lhe deu um recado: o casal ia matar aula juntos e muitas coisas podiam acontecer. Então, ansioso, David entrou em um corredor meio escurecido conhecido apenas por alguns alunos que sabiam da história da velha sala de música. Aquele lugar era perfeito para encontrar sua namorada por bons minutos.
Ao segurar a maçaneta da sala, a porta se abriu e David foi afastado de surpresa pelo corpo de Jack. O moreno, extremamente surpreso, fechou rapidamente a porta atrás de si e ficou o encarando, completamente assombrado em encontrá-lo ali e naquele justo momento.
O Robson, pálido e incerto, segurou a maçaneta com toda sua força, sem ideia de como sair daquela situação.
— Jack? O que está fazendo aqui? — David perguntou com estranheza.
O coelho tentava captar o que ele sabia e o que estava fazendo ali ao olha-lo fixamente. Mas antes que uma resposta aceitável surgisse, a porta atrás dele se mexeu revoltada, Francis não tinha idéia do que estava prestes a encontrar. Com isso a expressão de David mudou e um pensamentos de traição e Bianca surgiu em sua mente.
— Sai dai, Jack — mandou sério, já que a única razão do moreno não sair de sua frente podia envolver sua namorada.
Jack já suava frio, qual explicação daria para David ao ver seu irmão sair da sala? Então ouviu murmúrios e risadinhas, típica de expectadores secretos de alguma pegadinha, virou o rosto para a saída do corredor e percebeu parte do corpo de Samuel tentando se esconder atrás da parede. Logo uma das amigas do rapaz arcou olhando diretamente a cena e logo recuando rindo e dizendo que foram pegos, Sam também olhou com a fala dela e depois fugiu, feliz de mais para ser alguém que não sabia de nada.
— Sam! — Jack chamou irritado. Entre as dúvidas e a raiva, agiu pela revolta e foi atrás do garoto de cabelos platinados. E apenas distante um pensamento sobre Francis chegou na sua consciência, infelizmente desejou que o garoto soubesse sair ileso, estava determinado a ter explicações de Sam.
David seguiu-o com o olhar e com estranheza. Ele ficou confuso e perturbado ao ser abandonado ali, mesmo sua raiva pela possibilidade de estar sendo traído ficou em segundo plano.
De repente, a porta se abriu e os irmãos se encararam. David não pensou em mais nada, o sentido de tudo havia desaparecido por alguns segundos...
Francis já esperava algo de diferente, mas encontrar o irmão e ninguém mais no corredor o deixou assustado. Inesperadamente a expressão séria de David ganhou um sorriso fino e logo gozador. Fran nem mesmo podia chutar o que aquele maluco estava pensando. O irmão riu sozinho e disse convencido:
— Te livrei de ficar preso aí a tarde toda, né?! Nossa, eu estava mesmo acreditando que Sam e Jack não eram mais amigos, mas... agora entendi! — e riu mais um pouco. — Depois que eles brigaram com você na frente de metade da escola, se tornou o alvo deles, ameba. — Deu um empurrão em Francis que o fez bater as costas no batente da porta. E tirando descontraidamente um pequena chave prata do bolso, David encerrou: — Parece que estraguei o plano daqueles idiotas.
Com um puxão no ombro de Francis, David o empurrou para o corredor e bateu a porta da sala de musica. Para a surpresa do mais novo, ele conseguiu trancar a porta com sua chave e foi o empurrado para frente, o fazendo ir para os corredores sem lhe dizer mais nada.
O que havia acontecido? O unicórnio não sabia. E o que ia vir? Também não tinha nem como imaginar. Mas algo, lá no fundo, preocupava Francis. Como uma luz reconfortante que é apagada em um quarto escuro... Algo no olhar de David estava escondendo uma coisa que era estranha para o unicórnio
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