O Unicórnio de Um Coelho
22 Um plano ardiloso de separação ou vingança?
Notas iniciais
Depois da escola, Jack abriu a porta do apartamento inspirando fundo. Assim que entrou descobriu que a casa não estava vazia.
— O que aconteceu com você?! — sua mãe perguntou muito preocupada, largando os papeis e o notebook na mesa e indo até o filho.
O rapaz deu as costas, cogitando ir se esconder no quarto, mas as dores no corpo e o olho inchado incomodando, o fez aceitar receber os cuidados da mulher. Seu rosto estava dorido pelos socos, ele não sentiu direito o toque das pequenas mãos frias e ela fez perguntas com uma expressão séria, o levando ao banheiro onde havia o kit de primeiros socorros do apartamento. Jack optou por ser mudo, como ia explicar sua briga com aquele que seus pais conheciam como seu melhor amigo?
Na verdade, se contasse a historia completa, daria para perceber que Samuel não se envolveu naquilo diretamente. Foi um garoto gordinho e ranzinza, mas amigo de Sam, o responsável pelo roxo ainda verde em sua costela exposta quando a mãe o fez tirar a camisa. O peso do rapaz foi bastante no pisão que ganhou, e não seria uma surpresa se algum osso tivesse trincado. Outros dois rapazes foram os criadores do roxo no olho, do corte na bochecha, das dores na cabeça e de tantos outros golpes que depois de uma hora Jack não sabia se era sua imaginação exagerando ou se realmente aconteceram.
— Nós vamos para o hospital! — determinou a mulher de olhar arregalado depois de verificar os hematomas no corpo do filho.
Jack estava distraído demais no que aconteceu que mal percebeu o quanto sua mãe ficou nervosa e tremia, segurando uma bolota de algodão vermelha de sangue nos dedos. Ela tinha até parado de perguntar o que aconteceu, tentando acudi-lo nos ferimentos. A mulher loira o puxou pela casa, o largando no sofá, e foi atrás da chave do carro enquanto ligava para o marido no trabalho com o celular na orelha. O rapaz viu a mulher com o telefone na mão, chorosa e agitada, passar por ele na sala algumas vezes, ainda perdida do que tinha que pegar.
— Eu não sei o que houve! — gritou ela — Ele só apareceu assim e não está respondendo nenhuma pergunta!... Acho que ele deve ter batido a cabeça ou algo assim. Estou muito preocupada. Vou leva-lo para o hospital!... Não, eu te mando noticia assim que possível. Depois do trabalho você nos encontra lá! Entendeu?!
— Mãe, eu estou bem... Calma. — Jack disse quando ela o levantou do sofá e foi o guiando para fora.
— Não, não está! — respondeu ao trancar a porta, tentando soar firme, mas estava bem aflita.
Durante o caminho, no banco do carona do carro, um pouco entorpecido por dois ou três analgésicos, o moreno lembrou-se do que houve em silencio:
Depois de fugir de David para ir atrás de Samuel, não conseguiu o encontrar na escola. Apenas quando deu o horário de saída, e em meio a uma multidão de alunos fugindo do colégio, que Jack o viu com a amiguinha dele e os seguiu. Exatamente como no passado, a certa distancia da escola, Sam o esperava encostado na porta de seu carro sedan brilhante e estacionado. O de cabelos platinados sorriu torto, mascou o chiclete e o olhou de cima abaixo enquanto Jack se aproximava pronto para arrancar todo o plano que Samuel tinha ao levar David para a sala de musica justamente quando ele, Jack, estava com Francis.
— Olha quem voltou para mim — disse Sam fingindo desconhecer o motivo do encontro.
— O que você fez! Porque fez aquela cena para o David? Ele sabe que eu e você não somos mais amigos.
Sam sorriu:
— Não teria tanta certeza assim, Jack — respondeu ardiloso.
Jack o empurrou contra o carro ao entender que tudo aquilo realmente faria David desconfiar dele, Sam sabia. E, se conhecia algo de David, era que ele tinha pouca paciência com mentiras que fossem para enganá-lo.
— Não me use para suas brincadeiras! — o coelho rosnou, segurando Sam pela gola da camisa, pronto para descontar sua raiva por ser prejudicado.
— Ei! — disse a menina punk, surgida de algum lugar. Jack não sabia por que a garota defendia Samuel, mas já a conhecia como a seguidora fiel dele.
— Ah, Jack... Saudades dessas suas aproximações bruscas — Chacoteou Sam, apreciando estar perto dele e ignorando a raiva na expressão. — Saudades dessas mãos... — e tentou pegar as mãos dele, mas Jack se afastou.
Jack estava tentando conter sua irritação e entender o jogo de Samuel. Precisava pensar a frente e não pisar em cada pegada que Sam tinha preparado, mas a expressão do outro era tranquila demais, sem informações uteis. Enquanto o encarava, de repente, seu cangote de sua blusa foi pego e logo foi arrastado para a calçada por um rapaz gordinho e alto. Não conseguido reagir, foi rapidamente imobilizado por outros rapazes irritados que surgiram o agredindo. O coelho não tinha ideia do porque aqueles outros caras estavam dispostos a atacá-lo, e ele só pôde lutar por sua vida diante de sua desvantagem, pois era mais o alvo do que o atacante naquela situação de três contra um.
Deste momento, lembrou-se de Samuel entrar no carro e ir embora. Após isso havia um preto em sua memória até ser despertado por um casal que tinha intenção de acudi-lo. Acordou deitado na calçada e ferido. Os desconhecidos insistiram em levá-lo para um hospital ou chamar um resgate, mas Jack, atordoado, só foi embora.
— Jack?... Jack?!... Jack não durma!...ica acord... — Era a voz de sua mãe no carro, dirigindo. Estava distante, mas gritando tão baixo que ele dormiu.
***
Sabe o que pode ser esquisito na vida de alguém? Seu pior inimigo o esperar para levá-lo para casa. E assim foi com Francis naquele dia estranho em que foi pego na porta da sala de musica pelo irmão mais velho. David o esperou para leva-lo para casa, o jogou para o banco de trás como um objeto, só por diversão e para ninguém o ver, claro. Todo o percurso foi em silencio, apesar de Fran ter vontade de saber se Bianca tinha algo haver com aquilo, talvez ela estivesse olhando.
Ao chegarem na porta de casa, o unicórnio estava pronto para sair do carro e ganhar a maior distancia possível, mas David não se moveu, apenas começou a murmurar, o deixando ouvir, o que deixou o mais novo surpreso:
— Aqueles babacas... — comentou encarando o nada, remoendo algum pensamento. — Jack mentiroso! Pior que eu até estava achando ele legal... Vão de se arrepender de tentar me enganar... — e riu sarcástico rapidamente — Era só para te pegarem! Devia ter percebido antes. Você é tão molenga e inútil — o olhar pelo espelho foi para Francis — que deve ter agradecido por esses dois estarem atrás de você para ser vitima... Deve até estar famoso no meio dos viados da escola, não é? Sendo o motivo das sacanagens do loiro tingido e do moreno falso em lugares vazios... É melhor eu não te ver novamente perto deles, arrombadinho, ou vai se virar sozinho com eles. — Francis o observou tentando entender aquela conversa incomum. — Agora saí do carro logo! Tá esperando o que? Um chute?
...
Havia uma pizza quente e cheia de queijo sobre a mesa e os pedaços distribuídos entre a família. O padrasto dos Audreys, Stan, contava sobre a viagem através do estado e de algum apuro que passou. Ao menos quando o homem narrava suas historias trazia algum humor e normalidade para a casa, e era sempre bom ouvir e ver a mãe rindo boba.
— E como foram os dias de vocês? — o homem perguntou aos meninos.
David respondeu por mais tempo, relatando sua semana e ganhando um sorriso e um tapa no ombro, orgulhoso, ao dizer que agora tinha um namorada e contou mais sobre Bianca. Francis respondeu que foi tudo igual. E a mãe ocupou um longo tempo também, parecendo reservar suas melhores historias das semanas para aquele dia que via o marido.
— Ah, aliás, hoje no pronto atendimento teve o registro de um colega de vocês que foi agredido há apenas algumas quadras da escola. Não sabia que lá fosse tão perigoso. — as sobrancelhas de Francis já franziram com a novidade que o chamou mesmo sem dar pista alguma de quem era. — Vocês dois devem tomar cuidado... Sobre o garoto, não sabem bem o que aconteceu. Ele não quis dizer, mas foi por pouco, poderia ter um problemão se os traumas fossem mais intensos ou não recebesse um tratamento adequado...
— Ele está bem? — Fran perguntou curioso e preocupado.
— Ah, sim, querido. Fizeram o melhor para ele. Hoje vai ficar em observação, tomar alguns remédios e vai ter algumas marcas e um olho incomodando, mas vai se recuperar.
— Aposto que sei quem pode ter feito isso — David comentou de boca cheia e sem nenhum sentimento pelo que ouviu.
— Como assim?
— Ah, mãe, estava um inferno para os débeis da escola hoje. E Samuel e o Jack estavam com o fogo e o tridente na mão.
— Você não pode saber se foi eles — contestou Francis, irritado com irmão estar criando uma nova imagem de Jack para a mãe deles.
David o encarou de forma séria e ameaçadora:
— Lembra-se daquele olho roxo de meses atrás? — Fran lembrava-se, o mesmo que David causou depois de cair na pegadinha dele sobre o carro. — É claro que foram eles! Eles gostam de bater em gente como você, mas agora tiveram sorte com algum outro bunda mole.
O unicórnio não falou com o irmão no resto daquela noite, e a mãe ficou preocupada, pedindo que se cuidassem. Assim, a noite em família terminou calma. Contudo, para Francis, logo se tornou preocupante Jack não ligar ou responder suas mensagens para dar noticias de como estava. Só seu coração sabia que havia algo acontecendo como coelho.
Um longo dia se passou. O mundo parecia ter perdido seu astro principal, o ídolo dos ídolos, e tudo estava em segundo plano e sem sentido. Francis esperou um contato de Jay e depois ligou até o celular dele parar de chamar, o que foi apenas depois de duas ligações. Não entendia aonde o moreno tinha ido parar. Mal conseguiu dormir e no dia seguinte, na entrada, ficou na espera de vê-lo surgir com um sorriso em algum canto, pronto para se explicar.
Depois de dois dias, o unicórnio já cogitava ir até a casa de Jack Robson e saber o que estava acontecendo, mas teve um momento que Francis pensou na possibilidade de seu coelho ter encontrado um novo amor e por isso não iria mais voltar ou se importar em dizer que a relação deles tinha acabado, afinal Jack tinha feito isso com Samuel. Mas, sendo mais racional, percebeu como aquilo era exagerado, Jack gostava dele, não ia simplesmente sumir.
Miriam estava com Francis no gramado de uma das áreas da escola, falando sem parar sobre uma atividade de historia que tinham que escrever algum tipo de resumo de seu momento preferido marcado na historia. E o garoto estava jogado de lado na grama, como um saco plástico que alguém larga de qualquer jeito, o caderno aberto perto só iludia algum interesse em fazer o trabalho; as formiguinhas próximas de seu rosto era o algo mais atraente de se ver na movimentação do colégio.
— Francis? O que está acontecendo? — Miriam se debruçou sobre ele, analisando-o preocupada. — Você está tão apagadinho hoje. Está com dor de barriga? Com a alma morrendo? Ou o quê? Olha, eu sei que a apresentação do teatro está perto, mas é cedo para ter alguma coisa.
Ele a empurrou sem dar nenhuma resposta, voltando a sua atuação de saco plástico abandonado no gramado e em silencioso, observando formigas.
— Nossa! O que aconteceu com você? Está tudo bem, Jack?
Francis ouviu, estranhando a fala da garota, e se virou, ficando surpreso. Assim que viu o moreno, se pôs de pé, entusiasmado, e foi abraçar Jack que nem tinha chego até eles ainda. Apensar de notar o rosto marcado de roxo e um corte costurado, Fran só quis matar a saudade que sentiu o apertando o máximo que podia.
Jack ficou feliz em ser recebido assim, mas facilmente sentiu as dores em pontos ainda sensíveis do corpo, e notou Miriam os encarando com sutil estranheza. Ele buscou encerrar o abraço, soltando-o e tentando dar um curto passo para trás, mas Francis se agarrou a ele e acabou o desequilibrando. Os dois caíram no chão.
— Ah, nossa! Vocês tão bem? — A garota ficou mais preocupada com o som da queda, afinal Jack já parecia machucado antes, mas deixou de se aproximar quando Francis a ignorou completamente ao falar com o outro:
— Onde você estava? — o menino questionou, sem se mover de cima do moreno com dor. — Nem seu telefone estava funcionando! Espera... — ele olhou melhor o rosto de Jack — O que aconteceu com você?
— Sai de cima de mim um pouco, Fran — pediu, com sutil grunhido de dor.
O garoto obedeceu, cuidadoso, e ajoelhado esperou mais informações, mas os olhos de Jack se direcionaram para Miriam, ficando um pouco envergonhado.
— Eu tive que enfrentar alguns amigos de Samuel. Foi de surpresa, mas já estou bem melhor.
— Você podia ter me falado alguma coisa.
— Como Francis? Eu estava à base de analgésicos e anti-inflamatórios, sem contar as dores nos ossos.
— E porque fizeram isso? — Perguntou Miriam, fazendo Francis se lembrar dela.
— Eles não precisavam de motivo — respondeu Jack, dando de ombros.
— Robson! — um grito alto ecoou. Não era amigável. Ao olhar na direção, Jack viu David, o rapaz estava sério. — Vem aqui!
O coelho estranhou. O tom de voz do Audrey estava diferente com ele e algo na sua expressão não parecia boa. Trocou um olhar com Francis e se levantou, obedecendo apesar das suspeitas. Viu David se virar para os outros quatro amigos que sempre estavam ao seu redor e os dispensar, o grupo seguiu andando o deixando a espera dele.
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