O Unicórnio de Um Coelho
16 Sinais de sentimentos que não se admite.
Notas iniciais
Muitos pensamentos estavam na cabeça de David. Na maior parte do tempo era assim, estando no último ano de escola, tendo projetos com os amigos, os campeonatos dos esportes que participava, o seu serviço de meio período na cidade, a garota que o tinha cativado e, por último, o fato intrigante do que seu irmão mais novo estaria fazendo em segredo, afinal até onde David sabia Francis nem tinha amigos.
Naquela noite que pegou o irmão saindo com algum estranho, tudo que pode fazer foi quase acabar com o estoque de bebidas que Alex, o vizinho da frente, e depois assistiram ao jogo de basquete de um time que buscava entrar na final do campeonato, mas David não prestou atenção, pois não ficou calmo. Francis ainda era infantil e ingênuo, era o que David pensava, e não entendia como ou quem poderia estar levando seu irmão para um lugar que ele não conhecia e nem sabia o que poderiam estar fazendo.
Na manhã seguinte, depois que acordou, a casa continuava silenciosa, o que significou nenhum sinal do irmão mais novo que sempre acordava antes. A mãe provavelmente estava dormindo em seu quarto e nem sabia do provável desaparecimento de Francis. E David não se deu o trabalho de procurar o irmão, apenas arrumou suas coisas, comeu algo e foi para o colégio. Mas, bem distante em sua consciência obscurecida, queria encontrar Francis e finalmente poder acreditar que tudo foi coisa da sua cabeça, como um sonho sem importância, e assim sua inaceitável preocupação seria uma paranoia idiota com um fim.
Logo no intervalo entre as aulas, sua Bianca estava entre suas pernas e com as costas em seu peito enquanto estavam sentados no pátio. Ela tinha um perfume doce e sutil que o deixava mais calmo, mas o melhor era que a garota não o perturbava naquele dia fazendo perguntas, ela estava conversando mais com os colegas próximo deles. David gostava muito dela, e nem sabia quando aquilo tinha começado de verdade, se foi na primeira vez que ficaram ou pelas vezes que estavam juntos e próximos sem perceberem, como se fossem simplesmente atraídos.
— Está tudo bem com você? — Bia perguntou, pegando em sua mão e virou o rosto para trás, para vê-lo. Ele sorriu, observando a cor verde folha dos olhos dela, e assentiu enquanto puxava uma mecha dos cabelos escuros dela para trás da orelha. — Você está quieto hoje — disse ela, estranhando. — Tem certeza que está se sentindo bem? Algo te preocupa?
Ele suspirou, cedendo, enquanto a encarava e seu sorriso se tornando mais afetado:
— Eu não sei se Francis veio para escola. Ele não parece estar... normal.
— Hm. Eu não o vi. Será que ele pode estar doente?
David riu. Não era esse o sentido de normal que quis dizer, era mais no sentido de Francis estar agindo diferente há uns meses. Ele gostava do normal do irmão de antes, onde sabia que o menino não sairia de casa, não o enfrentava, o obedecia, tinha até medo dele, e não fazia mais que ficar em casa, lendo ou jogando videogames solitário e era o bom filho da mãe deles.
— Você tá com cisma de todo mundo estar doente, Bia? Qualquer coisa que falo você responde assim — ele descontraiu com leve deboche. — Podia jogar isso encima de algum professor? — riu ao receber dela um tapa no braço, enquanto a garota reclamava que não lançava praga em ninguém.
***
O sono pesava nos olhos e no corpo, então Francis debruçou o rosto sobre os antebraços jogados sobre sua mesa, onde o caderno ainda estava aberto mesmo sendo intervalo. Ficou apenas pensando no passeio da noite anterior e naquela manhã, em que chegou atrasado à escola. Ele havia acordado ao lado de Jack, mas logo se deu conta do horário e o fez despertar também. O mais velho tentou persuadi-lo a faltar, mas Fran o convenceu quando disse que tinha um trabalho importante que seria aplicado em sala.
Subitamente sentiu um toque apertar seu ombro e isso o assustou. Ele ergueu o rosto rapidamente para quem estava parado ao seu lado, entre as fileiras de carteiras da sua sala.
— E aí, tudo bem? — Jack perguntou e logo olhou em volta um pouco inquieto.
— Sim. — Francis respondeu e depois se deu conta do quanto a presença do mais velho podia ser estranha em sua sala. Olhou a sala e encontrou apenas uma dupla de amigos no fundo, distraídos o suficiente para não dar atenção à Jack. — O que faz aqui? — perguntou, sem entender, mas sorriu no fim.
— Só saber se está bem — eles se olharam e ele acabou dando-lhe um sorriso. Jack sentou-se na cadeira na frente do menino, virando-se para ele, e sempre olhava quem estava na sala, atrás de alguém que estranhasse sua presença. — Vi David hoje. Ele está mais sério que o normal, Francis. Claramente algo o está o incomodando.
Por um momento, o coelho mostrou-se preocupado por não poder intervir no encontro que David estaria preparando para Francis. Por mais que quisesse, não podia, pois não era o momento certo. Na verdade, era bem o momento errado para ele fazer algo já que ainda tinham meses até o fim de ano.
Ao mesmo tempo em que encantava Francis encontrar a preocupação no parceiro, o fazia sentir-se mal por vê-lo assim, sem poder fazer algo.
— Jack — o unicórnio esticou a mão até a do rapaz, segurando-a por um momento. — Você não pode fazer nada, eu entendo. Mas... — Fran riu fraco e baixo com a ironia que ia dizer: — ainda somos irmãos. E acho que minha mãe não vai deixar David me torturar como quer para me fazer dizer alguma coisa, ela estará em casa hoje.
O coelho apertou os dedos que estavam enroscados em suas mãos, sem palavras para trocar. Era sua culpa Francis estar naquela situação. Se não tivesse o convidado para o passeio, se tivesse marcado outra hora ou se empenhado em garantir que David não estaria lá, talvez estivessem em paz naquele momento, fazendo mais que segurar em sua mão. De canto de olho, Jack notou um movimento próximo da porta e olhou na direção, depois rapidamente soltou a mão de Francis e ficou de pé, pronto para sair dali com uma expressão indiferente.
Francis não entendeu aquela reação até que Jack se afastou dois passos e parou na frente de uma menina que bloqueava seu caminho, o olhando desconfiada.
— Espera aí — a garota baixa disse o encararam enquanto o Unicórnio não reagiu, tenso e surpreso de ela estar abordando Jack. E o olhar de Miriam encontrou o de Francis. — Agora vocês são amigos? É isso? — ela ergueu o olhar para o rapaz. — Porque você está aqui?
— Não é da sua conta — Jack tentou passar, mas ela o bloqueou sem medo da proximidade em que ficaram ou dos olhares dos poucos alunos dentro da sala.
— É sim, moço! Não é a primeira vez que noto você perto dele. Por que não assume de uma vez?
Nervoso, o moreno olhou a sala, os dois colegas de Francis, que estavam distraídos, agora assistiam a cena.
— Eu não... Não tenho nada para assumir — tentou ser firme, mas não convenceu a menina.
— Olha... — Miriam adotou um tom compreensivo e baixo. — Eu sei que você gosta do Francis — ela revelou e Jack prendeu a respiração, observando-a com cuidado e atento ao rumo da conversa. — Ele é um garoto gentil, legal e muito bonzinho. Só um pouco deprimido, ás vezes, mas não tem como não gostar! E é um ótimo amigo. Então, pode assumir que mesmo você sendo como é — ela cutucou o peito de Jack —, cercado daqueles tipos de pestes colegiais, Francis te conquistou e vocês são amigos!
O mais velho olhou para trás rapidamente, voltando a respirar ao encontrar o olhar do unicórnio, e voltou-se para a garota:
— Está bem — e relaxou, desviando o olhar para o chão um segundo. — Eu... gosto dele. E se os outros souberem dessa nossa ‘amizade’ — em mente, Jack substituía a ultima palavra — eles vão me perturbar muito, se não coisa pior. Então, fica quietinha. Ok?
Miriam abriu um sorriso e balançou a cabeça concordando, depois saiu do caminho e deixou Jack ir, sustentando um sorrisinho fino.
— Francis! — ela gritou, surpreendendo o menino que temia a vez dele de falar com ela, e foi se sentar onde Jack estava, murmurando: — Eu vi mais que amizade de lá de fora.
Fran, nervoso, encarou-a, contendo suas reações e simulando uma confusão. Entre risinho Miriam segurou a mão dele sobre a mesa sugestivamente e riu boba. O menino puxou a mão e engoliu em seco, desviando o olhar para mesa e odiando sentir o rosto aquecer. A garota ficou em silencio em seguida, o deixando em paz, pois sabia que ele era tímido e falar daquilo o constrangia.
— Ah! Lembrei — ela o chacoalhou, mudando de assunto. — Tem uma feira muito legal acontecendo numa cidade perto daqui! Eu queria ir e fazer umas fotos, mas meu avô é o único que dirige e poderia me levar, e como ele é meio que... velho, vai ficar na área da praça de alimentação. Só que eu queria uma companhia, Francis! Quer ir comigo? Você é meu melhor amigo neste lugar, os outros são tão... sei lá, me deixaram de lado ultimamente. E a Daniela fez uma coisa terrível, disse para os outros que não me suporta falando, então não somos mais amigas. E, sabe o pior, Francis? — Miriam encarou Francis, esperando alguma resposta que não veio, então continuou: — Ela nem olha mais para mim quando nos encontramos nos corredores. Mas, deixa ela, vou seguir minha vida porque eu tenho outros amigos além dela, não é? Como você Franciszinho! Você vai, não vai?! Só por algumas horas, no sábado. Diz que sim!
— Ahn... Que chato, isso da sua amiga... — foi o que o unicórnio conseguiu dizer. Sabia que Miriam não era uma pessoa ruim, só um pouco agitada e interessada.
— Ah, não, tudo bem. Melhor assim do que conviver com falsos, né?
Ele assentiu e um silêncio se instalou, mas ele foi salvo da conversa quando o sinal tocou.
— Pense nisso, tá Francis, e me diz — Miriam se levantou e foi saindo enquanto os colegas do menino retornavam.
***
Com as costas na parede do corredor, pouco depois da porta de seu quarto, o sangue parecia correr frio por suas veias, como água gelada e rápida, pois o coração estava acelerado. Ele encarava David, seu irmão mais velho que estava irritado, porém calculista com suas ações, e o mais velho o bombardeava com varias perguntas, acusações e provocações difíceis de ouvir, quase sem lhe dar tempo para respirar ou pensar em respostas.
Porque ele causava isso nele? Esse medo, esse estresse, essa vontade de tampar os ouvidos e se esconder gritando até explodir-se. Seria a forma que o encarava, o culpando? Seria aquela sensação de que ele não podia esconder nada dele, porque, se o fizesse, ia ser mais dolorido quando David arrancasse o segredo dele? Ou será aquele sentimento de vulnerabilidade e impotência que o irmão alimentava com tudo o que dizia para ele? Talvez fosse a combinação de tudo isso.
E era muita pressão para a mente passiva de Francis. David não parava de falar, seu tom era inflexível, repetia perguntas, o cutucava, jogava alguns fatos do presente e do passado. Seu interrogatório estava pressionando Fran muito bem. E o menino não conseguia responder, estava bloqueado pelos movimentos bruscos do irmão, pois podia ser mais uma agressão, apensar de, na maioria das vezes, ser apenas enganado com as erguidas de mão dele. David sabia que o enganava.
Pouco antes de estarem ali, Francis estava assistindo televisão na sala, sozinho e calmo, enquanto a mãe foi comprar um jantar diferente para eles. Ouviu a porta da cozinha e estranhou, então desligou a tv e deu uma espiada. Assim que viu que era David chegando sorrateiro e seu olhar para ele revelou o momento, Francis correu, tentando ir para seu quarto e evitar o encontro. Entretanto, o mais velho o seguiu rápido, escadas à cima, e empurrou a porta antes que ele conseguisse fechá-la. E foi ali que começou as perguntas, a diversão de David misturada com sua curiosidade malévola.
Francis não tinha força física ao ficar do outro lado da porta, tentou afasta-lo, mandando-o ir embora, mas não adiantou nada, e logo sua pulsação aumentou, pois sabia que não ia escapar. Quando cedeu, a porta se abriu e sua tortura começou. David estava mais calmo do que imaginou e não chegou agredindo-o, falou e falou se deliciando mais em ver o medo crescendo no rosto pálido do unicórnio acuado. O menino até poderia reunir coragem e dar as respostas sem dever nada da opinião do irmão, mas ele não conseguiu libertar nenhuma verdade, ficou engasgado com o pavor que o consumiu tão de súbito ao encarar David. E essa reação paralisada e sobrecarregada podia ter sido remediada com os medicamentos que devia ter tomado na noite passada, cujo ele esqueceu completamente, mesmo depois de anos a consumindo.
O unicórnio não sabia ao certo como foi tirado do quarto e ido para o corredor, mas foi quando ele tentou fugir uma segunda vez, movido pela necessidade de não ser questionado, que foram parar nos primeiros degraus da descida da escadaria. David alcançou-o, o segurando pelo braço num aperto forte antes que conseguisse descer, e continuava querendo respostas.
Entretanto, enquanto era obrigado a ficar ali, Fran só enxergava seus olhos sedentos de raiva e acusação, o queimando, e poucas palavras tiveram sentido para seus ouvidos. De repente, numa reação súbita, ele fechou os olhos, pedindo para David parar e se negando a ceder à pressão, sentindo o arder atrás dos olhos das lágrimas se acumulando. Em seguida, liberou o braço com um puxão e deu um passo para trás, não pisando em nada, ficando instável e apenas caindo.
Naqueles curtíssimos instantes de queda, ficou confuso se David tentou segura-lo ou era uma tentativa de pegá-lo de novo para ele não fugir. Francis rolou sobre os degraus e parou no chão do térreo. O mais velho não expressou intenção de ajudá-lo, apenas observou imóvel.
Logo Francis tentou sentar-se e uma dor aguda veio do pulso que, sem perceber, usou como apoio. Soltou um grito rápido até preferir conter os sons da dor.
— Não vá chorar que nem uma criança. — Francis tinha acordado do torpor de pavor gerado pelo interrogatório de David, e levantou o rosto, encarando o irmão no alto da escada, notando sua insensibilidade com o acidente. — Já que se acha homem o bastante para fazer o que quer de madrugada, suporte isso como um.
O unicórnio se esforçou para suportar a dor no pulso e nas partes que bateram nas quinas dos degraus, engasgado com um nó na garganta por não querer chorar na frente do irmão estúpido e frio que tinha. Grunhiu com uma nova pulsada de dor, e foi quando a mãe deles chegou, entrando na casa e logo indo em direção a ele, preocupada. Ela era seu anjo por voltar momento certo. Fran não queria preocupá-la, mas ficou aliviado de vê-la ali para ajudá-lo. Kelly sentou-se no chão, ao lado dele, pegando sua mão mais dolorida para examinar como a boa enfermeira que era. Apesar dos choques de dor, ela lhe tratou com ternura e cuidado até ter certeza que não era algo grave, passando a mão em seus cabelos com carinho.
— O que aconteceu? — ela perguntou olhando um de cada vez.
— David me empurrou! — Francis acusou liberando a trava e irritação que sentia. A mulher então lançou um olhar bravo para o filho mais velho parado no alto da escada.
— Mentira! Eu não tenho nada a ver com esse perna-torna! — o rapaz rebateu e encarou Francis. Pelos olhares, ambos se acusando e ainda discutindo, porém sem dizer qualquer palavra por que não queriam que a mãe entendesse o que os levou àquilo.
Francis não contou a verdade, pois não queria preocupar a mãe ao revelar que aos dezesseis anos estava fazendo coisas que podiam preocupá-la. E David não queria mostrar para ela que tinha interesse em saber e cuidar do irmão. Então acabou como um acidente.
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