O Unicórnio de Um Coelho
17 O diferente e seu extraordinário
Notas iniciais
Havia um incomodo no pulso enquanto andava para dentro da escola logo no dia seguinte ao seu acidente com a escada de casa. As faixas apertavam-no incomodamente, mas, talvez, além dos analgésicos, ela ajudasse a melhorar a torção escondida. A mãe disse que em alguns dias ele já estaria melhor, mas Francis duvidava que a vida iria ser boa e deixá-lo ter esse milagre sem fazê-lo sofrer um pouco mais. Contudo, um lado bom havia, David se contentou com o que fez e o deixou em paz nas horas seguintes.
O menino havia acabado de parar diante de seu armário para pegar um livro de química, quando uma dor no pulso resolveu agir e o fez soltar o caderno que ele ia guardar, caindo esparramado no chão. E Francis devia aprender a jogar folhas soltas em outro lugar, porque as que estavam no caderno se espalharam sobre o piso, correndo o risco de serem pisoteadas pelos outros alunos.
Ao mesmo tempo em que se abaixou para buscar o primeiro papel, outra pessoa se agachou perto e o ajudou. O unicórnio levantou o olhar distraído, pegando seu caderno, e rapidamente evitou dizer uma frase de desgosto. Samuel sorriu torto, estendendo-lhe a pequenina pilha mal organizada de folhas e acompanhou-o ao ficarem de pé.
— Olha só isso — Sam puxou o pulso do menino, analisando as faixas e pressionando-o entre seus dedos. — Um dia que não tomo conta de você, pequeno, e isso acontece. Coitadinho... Andou se cortando ou foi só um incidente?
— Cortar? — Fran repetiu sem entender. Não queria estar perto dele mais, não queria falar com ele, mas não sabia como escapar logo cedo.
— É — Sam riu baixo com sarcasmo, achando diversão no que dizia. — Quando alguém de cabeça fraca se sente mal e faz isso fisicamente só para, sei lá... Sentirem algo de verdade — deu de ombros e encarou Fran por um segundo. — Não que eu tenha algo contra quem gosta de sentir um pouco de dor...
— Que besteira! Que besteira você esta falando para ele! — Miriam foi notada por Francis quando ela lhe empurrou uma de suas folhas perdidas. — Francis não faria isso consigo mesmo. Tenho certeza! — Ela encarava o rapaz de cabelos platinados, indignada. — Deve ter se machucado em alguma brincadeira ou acidente. Isso é o mais logico de pensar se você fosse um pouco mais inteligente.
Samuel sorriu para a garota, debochado, arcando um pouco a cabeça para o lado o encara-la de volta por ser tão intrometida e não a respondeu, mas seu olhar desceu um pouco, para os seios dela, e a menina reagiu ocultando-os rapidamente com os braços:
— Está olhando o quê, pervertido?! — Ele riu corando e reparando as pessoas que olharam para eles quando a menina falou aquilo alto, mas Samuel não estava envergonhado. — Quer saber! Vamos, Francis. Vamos deixar esse tipo para lá.
— Esse tipo é você, que não tem grana para arrumar esse cabelo. — o mais velho murmurou e, quando foi encarado, ele sorriu dissimulando o insulto, como se não tivesse pronunciado nada.
Miriam, séria, pegou o caderno da mão de Francis e o enfiou na mochila dele. O menino ágil rápido para puxar o livro do armário e batê-lo, trancando, enquanto ela já o arrastava pelo corredor pelo braço.
O garoto agradecia mentalmente por ela ter o ajudado a se afastar de Samuel. O rapaz mais velho as vezes o deixava assustado, mas lhe incomodava mais pensar se Jack tivesse que falar com ele sobre Sam novamente.
A menina o acompanhou até a porta da sala, falando sobre alguém do elenco do teatro que estava querendo deixar a peça que ensaiavam, o que o distraiu um pouco com a opção dele mesmo sair. Depois de semanas de ensaios, começava a deixa-lo nervoso pensar que um dia aquela plateia estaria cheia de gente o assistindo, gente da escola e de fora, e por mais que ele tentasse aceitar e enfrentar, ficava ansioso antecipadamente.
— Então, o que aconteceu com você? — a indagação dela cortou completamente o assunto quando pararam diante da porta.
Francis desviou o olhar para o braço:
— Meu irmão. Ele me derrubou na escada. Só foi um mau jeito, nada demais.
— Que tipo de irmão faria algo assim? — Miriam estranhou, mas não esperou comentários. — Você deve ser um ótimo irmão. Eu não tenho irmãos Francis, eu acho que já te contei, mas é só ver uma criancinha que logo baixa em minha a ‘irmãzona’ e vou lá, tentar fazê-las rir. Riso de criança é meio contaminante, não acha? Aquelas de verdade — e a menina sorriu, lembrando-se de algo. O sinal tocou. — Ah, pronto! Tenho que ir indo, Tch...
— Espera! — Fran a chamou antes que a afobação de Miriam a afasta-se dele. — Sobre a feira, eu... vou com você.
A atenção da menina mingou.
— Ah, Francizinho... Não vai dar. — Ele estranhou o tom abatido, sendo que no dia anterior ela estava muito empolgada. — Meu avô não vai poder nos levar. Ele pegou aqueles resfriados monstros, sabe? Que faz ficar de cama e tudo. Aí, não vai dar.
— Mas você queria muito ir
— É. Eu sei disso — ela sorriu fraco. — Ia ser legal, mas sem ter quem nos leve... — deu de ombros, desanimada. — Vai ter que ficar para uma próxima. —Ela fez uma pausa, sem animo de ir para qualquer lugar, até uma ideia surgir, fazendo-a sorrir com esperança: — Conhece alguém que pode nos levar?
O menino pensou rapidamente em todas as opções. David estava descartado, a mãe provavelmente trabalharia ou estaria buscando descanso e o padrasto não voltaria a tempo... mas havia Jack.
—Talvez — respondeu hesitante, e viu um brilho cintilar nos olhos da menina.
De repente Miriam olhou em volta e se surpreendeu:
— Estou atrasada! Falamos disso depois, Fran! Tenho que ir! — ela correu pelos corredores vazios, os cabelos cacheados chacoalhando. Aparentemente, estava mais disposta.
***
Jack o apertava com força em um abraço de consolo, pressionando as costelas de Francis e inspirando fundo em seu pescoço, causando cosquinhas e um riso abafado do menino.
A antiga sala de musica, de um corredor sem movimento, era mais uma vez o refugio do Coelho e seu Unicórnio. Era tão bom para Jack poder finalmente confortar Francis e estarem juntos sem impedimentos, que compensava a noite mal dormida depois que o menino deixou de dizer algo por mensagens. Então, soltou-o um pouco e beijou calmamente a linha do maxilar do mais novo, trazendo calor progressivo ao encontro e acabando com o aconchego simples do abraço. O carinho seguiu seu caminho até os lábios do outro, provativo, e enfim Jack o beijou. Mal tinham falado alguma coisa quando se encontraram, Jack só perguntou sobre o recente pulso enfaixado e depois um pouco do que David fez, pareceu perturbado, mas, enquanto experimentava o toque de suas bocas, seguindo um mesmo ritmo e sem pressa, se esqueceu de tudo, até precisar respirar mais profundamente.
— Eu não entendendo... — sussurrou baixo o moreno, de olhos fechados, sem soltar Francis de seus braços. — Porque com você é diferente?
— O quê?
Jack sorriu, não tinha grande intenção de o outro ouvir isso.
— Não sei. É isso que não tendi ainda — sorriu novamente, olhando a expressão do menino e o pegou pela mão, levando-o para o banco da sala. Assim que sentaram o coelho apoiou a mão no rosto do outro e se aproximou para beija-lo mais uma vez enquanto tinham algum tempo, mas foi interrompido:
— Jay — Jack parou e olhou Francis. — Quer estar comigo no sábado?
— Claro — sorriu torto.
— Mas... É que tem uma amiga que quer ir numa feira e precisa de alguém para levá-la. — Jack recuou seu toque, mudando a expressão e ajeitando a postura, confuso com a ideia. — Você pode nós levar, não? Passaremos a tarde juntos e será diferente.
Ele encarou o mais novo por uns segundos. Suspirou, analisando as opções:
— Quem é ela?
Francis sorriu e respondeu, informando o que era necessário para Jack deixar de desconfiar da menina, principalmente sobre o momento que Miriam o ajudou a se afastar de Samuel.
Apesar de Jack estar sempre tentando manter-se próximo de Francis, sua rotina normal o levava para longe do garoto, o deixando sozinho por horas em sua vida pacata, o deixando a mercê dos mesmos ataques que já sofria, e não havia como o coelho estar mais próximo para protegê-lo ou ajudá-lo. Miriam, no fim das contas, era uma aliada sem saber, se fazia o que Jack gostaria de fazer se pudesse deixar claro que gostava de Francis mais que uma simples amizade.
****
Era um carro branco e comprido, mas não uma minivan. Jack usava um boné preto e óculos de sol quando parou diante do endereço de David sem expressão alguma no rosto. A menina no banco do passageiro o tinha o perturbado durante todo o trajeto. Ela estava feliz e empolgada, dando comentários do que via até a casa de Francis e assustando Jack com os cliques repentinos de uma câmera semiprofissional que ela já carregava pendurada no seu pescoço.
Jack ainda estava constrangido pelo que houve no inicio daquela manhã de sábado, quando foi até a casa da menina que mal conhecia e trocou sua moto pelo carro dos avós da garota. Ele foi recebido cordialmente pelo casal, com um café da manhã fresco e farto, e acabou sendo questionado sobre algumas coisas que deixaram a avó de Miriam curiosa. A senhora falava como a garota, sem freios, e Jack soube mais do que o necessário sobre eles, apesar disto evitar que ele tivesse que dar respostar muito elaboradas.
O coelho olhou para a entrada da casa, esperando que Francis saísse rápido, e, de repente, Miriam desceu do carro e saltitou até porta, foi atendida pela Mãe dos Audreys, que sorriu largamente para ela e a deixou entrar depois de uma breve conversa. Pouco depois Miriam trouxe Francis e sua mochila para fora da casa, ambos acenando para a mulher que sorria da porta, desejando que se divertissem.
Num primeiro olhar, Fran estranhou a pessoa dentro do carro branco. Era misterioso e inexpressivo enquanto o encarava se aproximar, mas sorriu ao se dar conta de que não podia ser outro se não Jack, cujo ele convenceu a levá-los até o festival.
Durante a viagem de vários quilômetros, ao som de várias musicas tocando no rádio e o vento entrando pelas janelas, os garotos se olhavam pelo espelho retrovisor, sem trocar muitas palavras, mas acabaram sorrindo quando se olharam ao mesmo tempo algumas vezes.
— Eu vou mostrar as coisas para vocês! Se elas não mudaram muito de lugar — Miriam disse depois que deixaram o carro no estacionamento e passavam pela entrada da feira, ficando diante de um corredor de estandes, em um espaço aberto e a mercê do sol no céu limpo do dia.
Ela seguia sempre alguns passos rápidos a frente dos dois, curiosa com os produtos, conversando com os vendedores, puxando a câmera e tirando fotografias. Estava aproveitando cada momento e atração.
Vários minutos e passos depois, a garota se afastou dos dois, indo até um casal de conhecidos que ela encontrou andando pelo lugar e ficou conversando com eles. Jack suspirou, enquanto esperava e observava a roda gigante, virando do outro lado das tendas, através das lentes escuras dos óculos de sol. Não era um ambiente festivo em que estava acostumado. Era interessante, mas ele não sabia aonde ir ou o que fazer naquele lugar cheio de opções em um campo aberto. Ao olhar ao seu lado, encontrou Francis distraído e corado pelo calor, fazendo sombra nos olhos com uma das mãos e olhando as barracas próximas.
— Você está gostando desse passeio? — Jack tirou o boné e colocou na cabeça de Fran, bagunçando o próprio cabelo amassado.
O menino se virou para ele, sorrindo:
— Sim. É diferente. Tem tanta coisa para ver, comprar, comer... — E o unicórnio já olhava para outro lugar, analisando as bugigangas penduradas com curiosidade. Jack apenas sorriu, conformado e feliz com o ar renovado que a experiência ali estava trazendo ao mais novo.
...
— Vamos lá! Você não é o esportista no nosso trio? Acerta alguma então! — Miriam gritou e em seguida deu um soco no braço de Jack, que segurava a bola de tênis na mão.
— Sabe que esses jogos são manipulados, não? — contou para ela, rindo do incentivo provocativo.
— Não sei de nada! — Ela riu, forçando-se de desentendida. — Só que você ainda não acertou. Só isso! Vai, Jack! Não deixa esse homem tirar meu dinheiro assim — ela brincou e apontou para o senhor da barraca, que sorria da brincadeira.
— Mas essa vez é Francis que está pagando, lembra-se? Você que quis pagar para errar — ele contestou.
— Para de enrolar! É por isso que dessa vez escolhi você. Vai Pokémon! Derruba a pilha!
Jack riu e viu Francis rir, o menino estava parado mais atrás, segurando os pacotes de pipoca que havia comprado há pouco tempo. Então ele se preparou e certou de raspão o primeiro lance de três, ouviu um “ih” duvidoso de Miriam, e na segunda acertou embaixo da pirâmide, deixando um copo de pé e por isso ninguém atrás dele comentou algo, ou o rapaz se concentrou sem ouvir nada e conseguiu acertar o mais difícil, o único copo de pé.
A garota comemorou o abraçando e tentando pular ao mesmo tempo, o que lhe foi estranho, mas Jack não podia negar a felicidade de vencer o jogo, e talvez admitir que nem tudo ali fosse manipulado.
O homem da barraca, sem surpresa alguma, lhe entregou a pequena pelúcia de prêmio, Jack não deu atenção ao que era e estendeu para Miriam.
— Ah, não, obrigada! — ela recusou. — Eu já tenho pelúcias demais. Fica para você, você merece.
— Eu não sou o tipo que coleciona isso, Miriam — ele insistiu e ela riu da cara dele, depois virou-se e foi para a próxima barraca, ainda interessada em tudo mesmo depois de horas.
Fran chegou ao lado dele, devolvendo seu pacote de pipoca.
— Hm. Ganhei um pônei para você — Jack falou entregando o prêmio ao menino, que sorriu, observando o presente e seguiu caminhando ao lado do mais velho em direção onde a menina estava
— Não é um pônei, Jay — ressaltou, e foi observado com estranheza. — É um unicórnio. — Francis puxou um pouco a crina branca, felpuda e arrepiada, mostrando o único chifre prateado escondido. Isso fez os dois se olharem e rirem pelo acaso. Só eles sabiam que era essa a máscara escolhida por Fran na festa à fantasia do primeiro encontro deles, meses atrás. Jack o fez parar ao dar-lhe um abraço surpresa de apenas alguns poucos segundos, um ato que serviu para deixa-lo com vontade de ficar ali, aconchegado com Francis em seus braços e em meio as pessoas.
— Ei, dois! — a voz de Miriam, dez metros longe, sobressaiu a da algazarra da movimentação entre as barracas. — Que tal irmos nos escrevermos para algum concurso? Tem de comida, corrida e alguns outros!
— Vai com calma, garota — Jack respondeu cansado, já caminhando para mais perto dela. — Agora é a vez da casa assombrada — sorriu com ar malicioso, e a empolgação da menina amenizou.
— Ah, Jack... Qualquer outra coisa menos isso — ela pediu. — Lá, é assustador até mesmo de dia!
— Ah, é mesmo? Então vamos deixar para ir de noite — ele provocou decidido.
A garota olhou para Francis, assustada e o apontou:
— Olha o Franciszinho também não quer ir lá. Não quero deixa-lo assustado.
...
A noite estava caindo quando Jack e Francis estavam no carro branco parado no estacionamento do festival, esperando Miriam voltar do banheiro. E, de repente, o unicórnio de pelúcia surgiu no alto do banco do passageiro vazio ao lado de Jack, trotando por ali e chamando a atenção dele para o garoto que estava sentado atrás.
— Obrigado por ele e por vir, Jay. — Francis agradeceu, arcando-se entre os bancos e guardando o bicho ao ser observado pelo motorista. — Eu gostei muito.
Jack assentiu sorrindo e observou os olhos castanhos do menino que o afrontavam com atenção. Era estranho vê-lo de perto e, com um esforço de concentração, podia notar alguma sutil semelhança dele com David, mas logo voltava a enxergar apenas Francis, o unicórnio escondido que encontrou numa noite em que não estava pensando em outras pessoas e que naquele momento era só seu.
— No que você está pensando? — os lábios alheios moverem-se e Jack sorriu, escapando de seus devaneios.
— No seu irmão. — Francis o estranhou. — Ah, não se preocupe. Só estava tentando comparar vocês, mas... não dá. Não dá para comparar você com outra pessoa, Francis. Muito menos com ele.
Jack se aproximou do rosto do menino e uniu seus lábios calmamente. Porém o beijo se tornou acalorado e ansioso para ocupar os poucos minutos sozinhos que tinham, isso não compensaria toda a vontade que Jack passou naquele dia, estando ao lado de Francis sem muitas chances de ficar com ele como desejava, mas chegou muito perto de tentar de tudo para compensar.
Subitamente o mais novo o afastou, estavam arriscando serem pegos por Miriam ao demorarem tanto naquilo. Apesar disso Jack não quis se afastar com o sinal, segurou o rosto de Fran e o beijou levemente, depois provocou, mordendo o lábio inferior do outro, antes de beija-lo mais intensamente, mantendo-o ali, apesar de torcido no banco da frente do carro.
— Jay... — Fran sussurrou em seus lábios, interrompendo o momento. Sua própria respiração estava oscilando, mas a de Jack estava mais forte, podia ver o tórax do moreno movendo-se rápido e sentir o calor em sua pele. Jack assentiu, mantendo os olhos fechados, e se virou para frente, contendo sua onda de desejo que o inundava. Sabia que sua necessidade carnal estava dando sinais, mas acreditava ter algum controle.
Miriam chegou minutos depois, entrando pela porta da frente e logo jogando uma nova sacola para o banco de trás, pedindo para Francis pega-la e comentando que passou num brechó perto da saída, não resistindo a uma blusa de lã com preço bom.
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