O Unicórnio de Um Coelho

18 Nem tudo numa paixão secreta é bom.


Notas iniciais
Olá! Olha só, esse ano mal começou e aconteceram tantas coisas em vários lados do meu ser que... estou jogado aqui... e sorrindo bobinho. Enfim, primeiro: Tá brincando?! Esta historia recebeu sua primeira recomendação (e eu também!)! AAAH! Vou agradecer aqui porque eu sinto que merece (huehue): Deby, obrigado por suas palavras dedicada à nós! Sério, a li em um dia que estava muito, mas tipo muito mesmo afim de algo doce para comer e não tinha nada em casa e nem animo para ir até algum mercadinho comprar sorvete, e pá! A vontade se foi depois que entrei no Nyah aleatoriamente e li sua recomendação. Me fez muito feliz começar o ano assim. Este capítulo foi escrito em 2017 e finalizado esse ano, graças aos arco-íris que ando vendo. Musica (dessa vez vamos de nacional e coisa comum, que acho que é culpa do réveillon e esses shows...): Naira Azevedo – O que eu mais queria. Link:https://m.youtube.com/watch?v=5szbGUM6QPo Frase: “As pessoas pensam que estar sozinho faz de você um solitário, mas eu não acho que isto seja verdade. Estar rodeado por pessoas erradas, é a coisa mais solitário do mundo.” - Kim Culbertson. Leia bem!

Os dias deslizaram entre Jack e Francis como uma tarde morna e calma. Eles conversavam frequentemente pelo celular e se encontravam quando podiam, pois sempre estavam sob a tensão de alguém notar algo diferente e comentar. Assim, durante a semana que se passou, tinha vezes que Fran só tinha chance de observar Jack de longe e se tornava o solitário de sempre. Porém, depois de seu passeio, Miriam falava mais com ele na escola, e se o menino fosse um pouco mais consciente do que acontecia a chamaria de amiga sem problemas, algo que a garota já fazia há um bom tempo.

O mais velho ainda participava da sua rotina fielmente, embora ninguém soubesse que sempre havia uns minutos dedicados para Francis entre os treinos, exercícios, jogos ou roles com os amigos pela cidade, e talvez ninguém imaginasse que as mensagens que Jack digitava atento, parando tudo o que estava fazendo, era para outro garoto sentado em uma carteira há algumas salas depois da sua ou, quando fora do período de aulas, para um menino deitado na cama de seu quarto a quilômetros de distância.

E foi jogado em cima de seu colchão, numa tarde de casa vazia e com o celular na mão, que Francis descobriu que Jack não gostava de cachorros e não lhe deu nenhum motivo plausível para isso, mesmo ele insistindo para tentar entender. Em outra conversa, pouco antes de dormir, contou ao mais velho que gostava de pudim e unicórnios, e seu amado riu, dizendo pela primeira vez que ele era fofo, o que o fez corar sozinho e se sentir menor, porém acolhido. No intervalo de aulas, quando Jack estava reunido com o time diante de um treinador e ele livre para andar pelos corredores, Francis descobriu que a cor preferida de Jack era verde, e neste momento percebeu os pequenos detalhes nas suas lembranças: no tênis que o outro usava, na mochila que às vezes carregava, no relógio no pulso, no cós da cueca que às vezes aparecia sobre o jeans, tudo isso tinha a cor verde escura, e talvez esse fosse o motivo de Jack ser atraído pela lata de refrigerante de limão sempre.

...

A internet estava cheia de informações, toneladas dela, mas finalmente seu trabalho de filosofia para o dia seguinte estava feito e sendo impresso. Francis estava mais uma vez naquele momento vazio de sua vida, sem alterações em nada, sem calor, sem companhia e sem saber o que fazer com sua existência.

O fim da tarde de domingo chegou e em toda a casa imperava um silêncio abafado, então Francis resolveu descer e jogar algo na grande televisão da sala, que era melhor que o videogame portátil com meia bateria jogado no seu quarto. Pouco tempo depois estava bem acomodado no meio do sofá macio, atento aos movimentos do seu personagem em alguma paisagem de cidade abandonada, sombria e com ruídos baixos. Francis não gostava de zumbis ou suspense, mas precisava ter alguma emoção naquele dia chato e trabalhar sua coragem se no game tinha uma pistola e um facão em mãos.

De repente, ouviu o som das chaves na porta de casa e parou tudo na expectativa de quem seria. A mãe entrou pouco depois, com os cabelos presos em um coque e roupas claras, largando a porta aberta enquanto falava:

— Que bom que não foi nada grave dessa vez David. Eu já te disse muitas vezes para tomar cuidado com o que anda fazendo. Ah! Olá, Francis! Como você está? — Ela o olhou, sorrindo doce ao passar perto.

— Bem — ele respondeu com um sorriso e logo depois o desfez e suspirou ao ver o irmão entrar com um sorriso torto e em silencio, seguindo Kelly para a cozinha e o ignorando completamente.

— Só quero um analgésico, mulher... Onde deixou?

O menino no sofá franziu o cenho por notar que David deixou a porta aberta, mas rapidamente foi atraído por um movimento na passagem e seus olhos se uniram aos azuis que surgiram. Jack sorriu de volta ao vê-lo, mas logo desviou sua atenção para outro ponto da sala, pois Charlie, melhor amigo de David, entrou logo depois dele, lotando mais a casa de repente e fazendo Jack voltar alguns passos para fechar a porta.

Charlie se sentou espalhado e folgadamente no outro sofá com um sorrisinho debochado no rosto e arrumando o boné de aba reta, o que obrigou Jack a acomodar-se ao lado de Francis. Charlie riu de repente:

— David é louco! — Constatou em tom baixo, enquanto ouviam a conversa entre Kelly e o filho na cozinha:

“Você não pode tomar isso, já deram para você no hospital... David! Eu estou te avisando!... Droga, menino! Se você tiver alguma reação colateral, eu vou só te enterrar no quintal! Porque falar não adianta...”.

— Se a mãe dele soubesse que ele tentou pular o vão de cinco metros... — Charlie conteve um risada mais alta, apesar de achar admirável o feito, depois olhou para Francis de relance, parecendo se perguntar porque ele estava olhando para ele. O menino então agiu logo, tirando o jogo da pausa e fingindo dar mais atenção à televisão, ignorando a presença dos dois.
Jack balançou a cabeça, concordando com o comentário, apenas lembrando-se do ocorrido que acabou deixando David desacordado por alguns minutos e tiveram que convencê-lo a ir ao hospital por estar andando cambaleante e desequilibrado.

Charlie continuou falando do fato daquele dia para Jack, do que David inventou para os médicos e quando a mãe apareceu na área de emergências e eles se encontraram. Enquanto isso, Francis apenas tentou olhar para o lado por um tempo a mais, havia uma sensação desesperadora e ao mesmo tempo aliviada dentro de si por estar ao lado de Jack, e em sua casa na frente de todos depois de um sábado em que não estiveram um na presença do outro. O menino quase podia sentir o toque do calor emanado do rapaz a centímetros da lateral de seu corpo, e algo em si sussurrava que Jack também estava se distraindo em estar ao lado dele, tão próximo, pois o mais velho parecia tenso e mal prestando atenção em Charlie como deveria.

— Vai acabar tendo pesadelos com esses jogos! — Ouviu de repente e recebeu um tapa na nuca. Com a dor, Fran olhou enraivecido para David, parado diante do sofá e segurando uma bolsa de gelo na lateral da cabeça e em meio dos cabelos castanhos em um tom mais claro que o seu. E o irmão logo tomou o controle em sua mão sem nenhum cuidado, dizendo: — Vai se isolar em seu quarto, pipoquinha. Charlie, você quer jogar isso?

O rapaz de boné e largado no sofá menor olhou de Francis para David, deu de ombros e estendeu a mão sem vontade, recebendo o controle e logo assumindo o personagem de Francis.

— Não me ouviu? Saí daqui! — puxou o mais novo pela blusa, o tirando do sofá com brutalidade e se jogando no espaço com um tropeço rápido.
Jack não conseguiu evitar observar a cena entre os irmãos enquanto Charlie comentava sobre a péssima coleção de armas do jogo de Francis. Teve vontade de se por de pé e fazer alguma coisa, empurrar David também ou falar alguma coisa sobre a forma que tirou o mais novo do sofá. Mas se conteve, fechando o punho dentro da mão esquerda e apenas sentindo os músculos sobrecarregados, pois Kelly logo gritou da cozinha:

— Não trate seu irmão assim, David! — a mulher avisou brava.

Francis voltou a si com a voz dela e seguiu para o andar de cima com um suspiro cansado, dando algumas olhadas em Jack enquanto se afastava. E, neste momento, Jack sentiu uma vergonha por deixar que aquilo acontecesse tão perto, incomodando consigo mesmo por ser covarde e manter as coisas escondidas. Refletindo rapidamente, o que mais lhe impedia era David, o conhecia o suficiente para saber de sua arrogância, e se ele soubesse que estava namorando seu irmão, não o deixaria voltar nem ao seu bairro e, de alguma forma, ia fazê-lo se separar de todos os colegas que compartilhavam e talvez até dos times de esportes. Se David já conseguia destruir a vida do irmão, tinha capacidade para fazer isso com um desconhecido para quem não devia nada... Era difícil admitir, mas aquilo era medo de David, e isso deixava um sabor amargo na boca e um desequilíbrio entre o que seria mais certo de fazer... O que valorizava mais? Seria mesmo sua vida e reputação ou salvar alguém que sofria solitário? Alguém por quem ele carregava uma paixão e deseja que tivesse sempre motivo para sorrir...

De repente estava muito incomodado em ficar entre David e Charlie como amigo deles, enquanto na verdade queria abandona-los e ir encontrar seu pequeno unicórnio no andar de cima. Levantou-se e seguiu para a cozinha que já conhecia, procurando por um copo de água para esfriando seus pensamentos bagunçados e confusos. E deu de cara com Kelly pondo algo no fogão distraidamente. Agora que estava ali não podia recuar, se não alguém na sala iria rir de sua timidez súbita, então inspirou e segui até alguns copos próximos da pia, se servindo do líquido.

A mulher o notou, olhando-o brevemente e dando um sorriso fino em cumprimento enquanto terminava de jogar alguns temperos numa panela. Assim que ela terminou, se virou para Jack, observando-o beber água de forma contida. O menino percebeu sua expectadora e, com custo, evitou beber muito rápido e acabar engasgando ou algo assim, sorrindo afetado ao fazer uma pausa quando ficou sem graça. Parecia que a mulher queria lhe fazer alguma pergunta, mas ainda pensava se ia dizê-la ou não.

— Você é meio quieto, não é? — Disse ela, intrigada e ainda analisando sua expressão, pois, já que concluirá isso, precisava de outros meios para compreendê-lo.

Jack abaixou o copo meio cheio e balançou a cabeça negativamente, com um sutil sorriso constrangido:

— Só não sei o que dizer... diante de algumas pessoas. Eu acho.

Ela riu gentilmente. Jack podia notar no jeito dela algo que Francis copiou, mas o que era exatamente ele não sabia. Enquanto ela o olhava, seu coração batia mais assustado, e isso só apoiava a sensação de que qualquer outra palavra que ele dissesse seria o suficiente para a mulher saber de tudo e despi-lo de suas camadas e aparências chegando ao seu amor cultivado pelo filho mais novo. Ele corou.

— Tudo bem — Kelly se aproximou, apoiando a mão pequena em seu ombro e o olhando nos olhos, parecendo saber que Jack pretendia correr daquela breve conversa se ela não o segurasse, exatamente como um coelho recusa a aproximação de um humano que desconhece. — Pode falar do que quiser comigo, Ok? Não vai ter nenhum problema, só vou querer ajudar. Ah, e principalmente se for sobre David. Não sei o que ele anda aprontando então só posso contar com vocês para por algum juízo nele. Entende? Assim, minha forma de retribuir é sendo mais... parceira de vocês? — Ela curvou as sobrancelhas em duvida, também achando que a palavra não combinava com o que queria dizer, depois riu brevemente e tirou a mão de Jack, mas ficou ali, parada a um passo dele e vagando os olhos cor de madeira por seu rosto, em silencio, o que deixou o menino incomodado e fez soltar qualquer comentário que surgisse em sua mente:

— Ele é meio impulsivo, mas acho que resta alguma coisa prudente nele.

— Ah, eu sei! — Finalmente ela virou-se para outros potes, dando alguns passos para longe e falando mais tranquilamente: — É impulsivo, louco e rebelde. O pessoal do hospital vive dizendo isso quando ele aparece chamando atenção para algum curativo ou para algum dos amigos que se machucam. Aliás, — ela se virou novamente curiosa — eu acho que já vi você lá.

O coração de Jack pulsou, ele não se lembrava dos rostos das pessoas que via nas emergências ou de quem o atendia, e algumas vezes nem se lembrava do que foi fazer lá.

— Mesmo? Eu não me lembro.

— Tudo bem. Eu também não sou de ficar lembrando de todo mundo — riu doce. Kelly se mostrava agradável e isso ajudava a relaxar Jack. — Mas tem algo em você que cutuca minha memoria, sabe? — Ela ficou em silencio por poucos segundos movendo as mãos nos utensílios de cozinha. — Ah! Você não foi com aquele menino que foi esfaqueado?

A saliva que engoliu parecia mais sólida que o normal ao descer pela garganta. Jack desviou o olhar do dela, que ainda o questionava, e bebeu um gole de água, imaginado que impressão a mulher não teria ao lembrar daquilo e saber da amizade que tinha e do que foi relatado no relatório do motivo do ferimento.

— Sim, teve uma vez — confirmou hesitante.

— Então é isso! — Mas Kelly não mudou sua simpatia com ele. — Aquele garoto levou alguns pontos, mas teve sorte de não ser algo muito mais grave. E ele está bem? Vocês eram bem amigos que me lembre.

— Está sim, com certeza.

Jack deixou de lado que não era mais amigo de Samuel, mas não tinha duvidas de que aquela situação do corte de faca foi muito bem superada e só restava a cicatriz fina na área da costela para lembrá-lo de não se meter com qualquer mendigo que encontrava na rua durante a madrugada.

— Vai ficar para o Jantar, não vai? — Kelly quis saber depois que o rapaz deixou o copo vazio sobre a bancada.

— Ficaria, mas eu tenho que ir para casa.

— Ah — ela soltou desapontada. E por um momento aquela expressão era a de Francis e ele precisou dizer algo a mais para se desculpar:

— Meus pais já devem estar me esperando.

— Mãe, você precisa de ajuda?

A voz veio da entrada da cozinha e foi como se tivesse gritado o nome de Jack, pois ele se virou imediatamente. Francis o olhou rapidamente, surpreso em vê-lo ali, pois o menino tinha imaginado que o moreno já tivesse ido embora, já que não estava na sala quando a atravessou.

— Talvez, sim — a mulher respondeu, olhando as panelas rapidamente, sem notar que o olhar trocado entre os dois garotos era mais que um reconhecimento da presença. — Acho que vou trocar de roupa e tomar um banho, se você puder ficar de olho nas panelas.

O menino voltou a encarar a mãe quando ela se virou para ele.

— Pode deixar, então — concordou, resistindo a vontade de olhar para Jack e sorrir por vê-lo.

Kelly largou as coisas para seguir seu plano, dando um aperto na bochecha do filho mais novo ao passar por ele, só para envergonha-lo.

Apesar de saberem que no cômodo próximo David e Charlie estavam jogando e discutindo alguma coisa, Coelho e Unicórnio finalmente estavam juntos. Fran caminhou para verificar os status das panelas antes de interagir com Jack, podendo chegar mais próximo sorrateiramente, e o mais velho apenas observou sua movimentação.

— Eu sinto muito por aquilo — murmurou indo até Francis e parando bem próximo. — David é realmente o pior irmão que já vi.

O menino sorriu fraco, aconchegado na preocupação e no calor que o atraída vindo do seu lado. Ele já tinha esquecido aquele momento anterior, estava bem acostumado com coisas assim para ficar perdendo tempo pensando.

— Não tenho como pedir outro irmão, então... — deu de ombros.

Como que ele podia aceitar isso assim? Francis merecia ser mais bem cuidado, ser protegido e até mimado, não ser violentamente tratado por qualquer coisinha. Envolveu o menino em seus braços e foi facilmente correspondido no abraço. E daquela vez, Francis soltou um suspiro de alivio, que deixou um pouco mais de culpa em Jack, apesar daquilo ter sido apenas por ter algo de bom naquele dia chato do menino. Antes mesmo que pensasse em se afastar, Fran puxou seu rosto para o dele e o beijou calmo, e o coelho desejou um pouco que ele não fizesse isso porque logo se entregou e tornou o ato mais intenso e caloroso — como supôs — e não queria soltá-lo tão fácil, arriscando tudo para poder senti-lo daquela forma e de outras por mais tempo do que tinham.

— Jack! — Francis o afastou bruscamente e sério, o mais velho viu as sobrancelhas quase se juntando e não entendeu porque ele estava perturbado. — Seu telefone está tocando — e sentiu a mão no menino pressionar seu bolso de trás do jeans.

Afastaram-se e ao atender era sua mãe exigindo saber dele. Jack não tinha percebido que o aparelho fazia barulho, ou estava o ignorando perfeitamente; então Francis, apesar de distraído com os lábios que ansiavam os seus, foi obrigado a afastá-lo e chamar sua atenção, pois o som poderia atrair a curiosidade de seu irmão no outro cômodo.

— Eu tenho que ir — Jack, agitado, informou com um suspiro depois de terminar de falar com a mãe. — Mas eu quero ficar com você amanhã, depois da escola, aqui, pode ser?

Sorrindo, Francis assentiu.

— Mas você não tem algum treino?

— Eu vou faltar — Jack disse já decidido. Por fim, com um ato que se tornou costumeiro, deu um selinho rápido nos lábios do mais novo e caminhou para longe, o olhando até um ultimo momento. Jack havia criado o habito há uns dias, para ele era como retirar um curativo numa puxada, o fazendo ter que superar logo a despedida e se recompor para encarar o mundo que não o conhecia tão bem.

Notas finais
Por hoje é isso. Espero que tenham gostado e continuem acompanhando. Se tiverem sugestões (musicas, frases ou qualquer coisa), observações de erros que me passaram e o que quiserem, podem comentar para eu melhorar. Até um próximo (que não prometo quando, porque a inspiração oscila). Abraço! E que tenhamos um ano bom! PS.: esse capítulo pode estar estranho, tive q trocar de celular e ainda estou levando uns tapas com o navegador ...