O Unicórnio de Um Coelho
14 Jogo de três.
Notas iniciais
Não dava para evitar o sorriso no rosto, estava empolgado. Ele levou longos segundos limpando a parte da frente do carro, jogando garrafas, embalagens e outras coisas para os pés do banco de trás, logo o lugar do passageiro estava apresentável. Através do espelho retrovisor, via o ônibus dando sinais com o farol alto enquanto chegava mais perto. Então abriu o vidro elétrico do outro lado e esboçou seu melhor sorriso, arcando-se até a janela:
— Entra no carro — disse, olhando para o menino surpreso e de dezesseis anos. — Por favor! — olhou para trás, para o ônibus que estava mais próximo.
— E-eu tenho que ir para a escola — Francis indicou, apreensivo, o veiculo e se encolheu com os olhares das outras pessoas sobre ele.
— Eu também, por isso estou aqui! Vem comigo.
Samuel e ele se encararam. O ônibus parou atrás e buzinou. Irritado com o som, Sam fez o mesmo com a de seu carro e voltou a olhar, indiferente, para Francis, que também estava sendo culpado pelo incomodo.
Se ele não fosse, o rapaz iria insistir e obrigar aquelas pessoas a caminhar até o veiculo atrás; e, pelo outro lado, Jack pediu que não ficasse próximo dele. Ainda indeciso Francis viu o motorista do ônibus sair pela janela e dizer que ali não era lugar de parar e outras coisas. Num misto de impaciência e ignorância, Sam pôs uma mão fora do carro e lhe mostrou o dedo do meio, envergonhando Fran que resolveu atender ao pedido antes que as pessoas começassem uma discussão.
O sedã era igualmente escuro por dentro, de couro preto e costuras e detalhes pratas. Depois que puxou o cinto Samuel sorriu para Francis, engatou a marcha e acelerou com o motor silencioso. O mais velho tentou puxar assunto, mas o garoto respondia com frases curtas, pois estava mais atento, e assustado, com as manobras pelas ruas, onde ele logo se perdeu.
Samuel não gosto da pouca comunicação de seu carona, cansou-se de insistir em algum assunto, então ligou o som baixo e continuou distraído com o percurso até que parou numa rua qualquer, diante do longo muro de um terreno abandonado há anos.
— Aqui não é a escola. — Francis notou, olhando o lugar quase sem outros carros na rua.
— E você achou mesmo que estávamos indo para lá? — Samy disse tão inexpressivo e sério que o mais novo o olhou desconfiado e tenso, mas depois ele riu descontraído: — Foi só uma brincadeira! Ainda temos um tempo.
Em seguida o rapaz ficou olhando-o, não apenas o rosto ou as roupas, mas observava mais. Fran desviou sua atenção para rua durante o silêncio, sabendo que, mesmo que não visse, o outro estava o avaliando por inteiro e o deixando nervoso. De repente, assustou-se com um toque próximo da sua coxa, no moletom amarrado em sua cintura, e olhou Sam, que já estava com a mão erguida, rendido ao susto, mas sorrindo da reação. O mais velho então se debruçou no volante, com o rosto virado para ele:
— Você às vezes não se sente sozinho? — perguntou, mas o garoto ficou em silêncio. — Seu irmão te ignora, fala várias merdas sobre você; você não tem facilidade para fazer amigos; não tem companhia para fazer alguma coisa que goste e, provavelmente, sempre resta na sala de aula quando tem trabalhos em dupla ou em grupo, não é?
O de cabelos brancos olhava Francis nos olhos, quase como se enxergasse as lembranças que vinham na mente do menino enquanto falava desses momentos.
— Você é — continuou a dizer — como uma ilha. Não! Você é mais como uma pedra com algum valor que está enterra sob um monte de coisas que ninguém quer cavar para entender... Algo perdido nas sombras do mundo... — a fala mansa havia hipnotizado o pequeno Unicórnio, era um ponto de vista de quem ele era, e pensava distraidamente nisso quando, de repente, Sam questionou súbito: — Você é gay, Francis Audrey?
Fran recuou no banco, piscou, corou e olhou para fora. Ouviu um riso leve e olhou para Samuel, que sorria torto e não em desaforo:
— Acho que fui direto demais. — riu de si, desencostando do volante. — Não tem problema, pequeno. Eu só queria ter certeza depois de ouvir seu irmão.
— M-mas... Eu não disse nada!
— E não precisa. Eu já vi a resposta.
— Viu? — o coração de Francis deu uma pulsada. Será que Sam poderia ter notado algo para ser tão convicto?
— É, sua reação de agora, seu jeito e a forma que olha para os outros garotos da escola — Sam divertia-se observando as expressões do mais novo. — Você até que é muito bom em parecer indiferente, mas até para mim... —arcou-se na direção do Unicórnio, mais próximos a cada frase: — esses olhinhos querem ver mais do que podem. E por mim, pequeno... Não teríamos problemas.
— Para! — Fran parou o avanço de Sam levantando uma mão entre eles, o coração batendo rápido de susto e olhou para fora.
Por alguns segundos, o rapaz esperou que o bloqueio abaixasse, mas, quando não aconteceu, sentou-se direito, encarando a frente e mordendo o lábio inferior internamente, descontente.
— Tudo bem — Samuel disse depois de alguns minutos. — Vamos ser amigos por enquanto — e batucou os dedos no volante. Esperou alguns instantes e então olhou para o menino no banco de passageiro, era um menino bobo, com medo, mas Sam podia dar um jeito com um pouco mais de tempo. — Tenho uma coisa para você... — esticou-se até o porta-luvas, abriu-o e remexeu os papéis que tinham ali. Francis ficou apreensivo com o que seria, ainda mais por ver um ou outro preservativo no compartimento, não queria aceitar algo dele. — Aqui — segurava um pirulito. — Vamos, pegue!
O unicórnio olhou Sam, tentando ver alguma intenção a mais ou se era apenas a simpatia marcando presença. Um doce ele poderia aceitar, pensou. Levantou a mão, hesitante, porém, no último momento, o rapaz soltou sem que ele estivesse pronto e o item caiu entre suas pernas.
— Ops! — Sam falou já colocando a mão no espaço para buscar o doce e procurando-o sem qualquer necessidade.
Francis segurou o pulso rapidamente e o puxou:
— Eu pego! — avisou tenso e o parando. Vendo um riso travesso no rosto de Samuel ao afastá-lo. Depois o rapaz riu ao observa-lo buscar o doce e guardar num bolso da mochila aos seus pés.
— Aah, esperava poder assistir — Sam comentou bobo, mas se ajeitou no banco, religando o carro e partindo para a escola.
Assim que o sedã estacionou próximo do colégio, Francis saiu do carro dizendo um obrigado e seguiu caminhando para entrada.
***
Alice o cutucou:
— Ei! A aula já acabou. É intervalo — a menina de óculos de lentes grandes era dupla de Jack nas aulas desde que ele entrou no colégio. Não tinha nada demais na aparência, era só ‘fofa’. — Não vai sair com seus amigos? Disseram que iam combinar alguma coisa.
Jack a olhou, despertando de seus pensamentos sobre o final de semana:
— Ah, tá. Vou sim — fechou o caderno, juntando as poucas coisas e depois se levantou.
— Jack! — a garota o chamou, sentada em sua carteira na sala vazia. — Gostei do cabelo, faz você ficar menos “menino mal” — ela sorriu.
— Sabia que você curtia os certinhos — debochou, rindo, e a menina corou:
— Não tem nada a ver! É só que você... parece mais confiável, agora.
— Hm? — ele parou de se afastar. — Antes você desconfiava de mim, Alice?
Ela riu baixo.
— Acho que falei de mais — simulou estar decepcionada e sorriu em seguida.
Jack deu um tchau com os dedos e um sorriso rápido e deu as costas, indo para os corredores do colégio.
O final de semana não foi fácil, o tio o levou para conhecer alguns homens e as conversas eram sempre sobre as mesmas coisas sérias de guerra e exércitos, o que exigia concentração e maturidade e isso o deixou cansado. Mas também não deixou de pensar em Francis, desejava encontrá-lo logo, porém não tinha como chamá-lo pelo celular.
Entretanto, ao acaso, enquanto andava pela escola tentando encontrar uma maneira de vê-lo, que notou o menino no balcão de recepção da escola. Dissimuladamente, se aproximou e parou do lado, observando o espaço com prateleiras e a mesinha da mulher atendente, que não estava no local. Olhou para Francis, o garoto estava distraído preenchendo uma ficha e nem o notara. Então a mulher chegou de uma salinha e veio até o balcão:
— Disse que perdeu ontem? — Francis deixou a folha e concordou. — Sinto muito, não tivemos nenhum celular.
O garoto ficou frustrado, pensando logo no que ia fazer agora.
— Mas com a ficha do seu perdido, talvez ele apareça esses dias — a mulher tentou reconforta-lo e depois notou Jack, sorriu para ele, supondo que esperava ser atendido, e de repente seu olhar deu um estalo de surpresa. — Ah, lembrei! Teve um celular hoje! — ela riu sem graça. — Desculpe, estava ainda sonolenta de manhã.
Ela entrou na salinha novamente, trazendo esperança para o garoto e Jack não resistiu, segurou a mão de Fran levemente sobre o balcão e o menino recuou, olhando-o assustado antes de compreender quem era:
— Jack?! — o unicórnio analisou o rapaz de olhos claros e cabelos escuros cortados baixos nas laterais e um pouco espetados em cima. Jack sorriu pela reação dele e pelos olhos que o vagaram rapidamente, porém teve que soltá-lo com o retorno da mulher.
— Você me ajudou a lembrar — ela comentou, olhando para Jack — seu amigo que deixou isso aqui. — Depois falou para Francis, pondo um envelope com um volume e com algumas anotações em cima do balcão: — Veja se é o seu.
— É sim! —o menino ficou feliz logo que tirou o aparelho e olhou o mais velho, que retribuiu a animação com um sorriso.
— Quem bom! Assine aqui no envelope e pode levar — a atendente entregou o papel e logo se voltou para o outro jovem: — E você, em que posso ajudar?
Jack a olhou por uns segundos, pensando, então falou:
— Não achei minha blusa de frio. — Sorriu torto, pressentido Francis o encarar, enquanto a mulher concordava, dizendo que ia buscar a caixa de agasalhos. Então se virou para lado: — Espero que tenha tido um bom final de semana com minha blusa — sorriu, olhando para a roupa na cintura do outro. — Aonde quer ir agora?
— Ah! Olha só! — bastou levantar os olhos do rosto de Francis para a expressão de Jack sumir diante daquele sorriso enganador do rapaz que chegou apoiando-se no ombro do seu unicórnio. — Que coincidência achar os dois garotos que ia procurar hoje juntos! Muito oportuno, não acha, Robinson?
Francis olhou de Samuel para Jack, desconfortável e tenso no meio deles; ainda não havia comentado sobre a carona, nem a conversa, e Sam ainda chega agindo como se fossem bem amigos.
— O que você quer? — o moreno quis saber logo, fechado a cara.
Samuel riu irônico e olhou para Francis:
— Que tal passarmos esse tempo junto? Te pago um refrigerante.
O menino olhou para Jack, que parecia irrita-se e ficar desconfiado, precisava se livrar de Sam e conversar.
— Fala logo, o que você quer comigo? — Jack interrompeu-os, chamando a atenção do ex amigo e livrando o pequeno de dar uma resposta.
— Calma. Quanto estresse — Samuel soltou Francis — O treinador de natação voltou e disse que vai continuar com a gente. Isso significa que vai ter você e eu novamente, muito em breve.
Jack, agora, odiava aquele sorriso com uma sobrancelha levantada que dizia que tinha mais coisas por trás. Forçou o maxilar o encarando, gostaria de responder rebeldemente que ia deixar a equipe, mas não podia, sua mãe gostava de falar da participação dele justamente nesse esporte.
— Tenho que resolver uma coisa de música! — o mais novo deles pronunciou do nada, olhando Jack mais fixamente antes de seguir andando.
— Você o assustou, Jack — Samuel acusou decepcionado; e também não tinha entendido a fala sem sentido, deixando passar. — Desde aquele dia o pequeno está achando que sou mal por sua culpa, hunf... Mas um dia explico o que você fez.
— Afinal, o que está fazendo?
— Eu? — dissimulou, depois riu. — Nada!
— Está perseguindo o garoto, isso não é nada, Sam.
Samuel parou lhe lançou um olhar de desconfiança.
— Como você... — pode saber? Ele ia perguntar, mas se calou e deu de ombros. — Só estou afim. Ele tem um ar de, hm, ‘inocente’, não acha? — e sorriu inquieto, virando-se e se afastando pelo outro lado, cumprimentando conhecidos.
Pouco depois a atendente voltou com uma caixa preenchida com algumas roupas e Jack simplesmente respondeu que não era nenhuma delas, indo atrás de Francis.
...
A caminho da antiga sala de música, ouviu alguém chamá-lo. Viu Kyle, David e Lawrence, mais um do grupinho, e foi até eles. Os amigos falaram de um plano de arrumarem um jogo com um colégio da cidade vizinha para passarem um tempo fora. Jack ouviu e concordou sem muita opinião, como normalmente fazia, mas naquele momento deixava transparecer um pouco de pressa em acabar o assunto, sendo ele a se despedir e continuar seu caminho pelos corredores antes que o intervalo acabasse.
Contudo, talvez tenha sido notado por um deles, que o observou se afastar lembrando-se de como Jack havia ficado mais próximo dele e de seu melhor amigo, Charlie, há algumas semanas, os três estavam se dando muito bem juntos, mas agora parecia ter recuado sua aproximação. Perguntou-se o que andaria acontecendo.
...
Jack entrou na sala de musica que virara um deposito que poucos conheciam e hesitou em se aproximar de Francis, analisando-o distantemente depois que ele se levantou do banco em que estava sentado sem dizer nada, apenas com uma expressão de angústia.
— Tem alguma coisa acontecendo, não é? — questionou.
Os olhos castanhos o encararam tenso:
— Ele surgiu no ponto de ônibus hoje e ofereceu carona. Acabei sendo obrigado a aceitar porque as pessoas ficaram me olhando e culpado por ele parar no lugar errado.
O mais velho refletiu os fatos demoradamente e então suspirou:
— Certo. Sam é bem capaz disso.
— E ele conversou comigo... e-ele sabe Jack! — Fran falou apreensivo, apertando os dedos de suas mãos.
— Sabe o quê? — o menino hesitou, deixando o outro preocupado. — Sabe sobre nós, Fran? Deixou isso claro para você?
— Não. Ele sabe que eu prefiro garotos. — O moreno sorriu brevemente, o deixando sem entender: — O que foi?
— Nada. Só que... Seu irmão vive falando isso Francis, é estranho se preocupar porque o Samu-...
— Jay! É diferente meu irmão ficar falando essas coisas para me provocar, de Samuel, o popular e conhecido da metade da escola, saber! E ele parece não ligar em interagir com isso e... — Jack o olhava, ouvindo-o — não pretende ser só meu amigo.
O relaxamento do coelho se foi. Jack se aproximou e sentou-se no banco, sendo acompanhado de Francis, refletindo até ter uma conclusão:
— Ele quer jogar com você, Fran.
— Jogar? Por quê? Eu não tenho nada de interessante, sou um inútil que ninguém olha.
Jay o observou:
— Você não é um inútil. Faz companhia para sua mãe, ajuda a menina do teatro, vai bem nas matérias, e deve ter mais coisas que você faz. Além disso, — aproximou seu rosto do de Fran, falando mais baixo , olhando nos olhos castanhos amadeirados — sob sua camada solitária e assusta, tem alguém que quer ser mais e é gentil com os outros, alguém que chama atenção pela força que carrega ao resistir a tanta coisa e ainda estar lutando... E quem disse que ninguém nunca te notou? Você só não ficou sabendo, Fran.
O garoto sorriu para Jack e o beijou não resistindo à proximidade, sendo logo puxado para mais perto enquanto o toque foi se aprofundado e aquecendo. Seus dedos não se prenderam em mechas longas, o que foi estranho, mas a nova sensação de cocegas nas mãos passadas nos cabelos curtos era reconfortante. Deixaram-se levar pelos beijos, toques e caricias pelos minutos seguintes, o assunto e o que faziam naquele prédio se perdeu.
Quando o unicórnio se deu conta, Jack estava em seu pescoço, ansiosamente abraçando-o e apertando-o contra seu corpo que exalava calor, e o sinal do fim do intervalo tocava abafado. Fran o afastou sutilmente, com beijos mais calmos e recuando. O menino precisava de uns minutos para livrar-se da quentura do rosto antes de ir a público, e o mais velho apenas o observou-o, compreendendo, mas não satisfeito com só aquele tempo.
— Posso roubá-lo para mim hoje? — Jack perguntou.
— Como assim?
— Vamos sair. Posso te levar para um lugar.
— Mas é segunda, Jay.
— Qual o problema? Pelo menos vamos ter ficar juntos e nos divertir. — O rosto preocupado do mais novo se iluminou e ele sorriu, concordando. — Ótimo! Umas... oito horas me manda mensagem. Se seu irmão estiver em casa, espero você na esquina, senão, vou até sua porta.
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