O Unicórnio de Um Coelho
27 Um dia de Francis. O presente de Jack. A escolha de Kelly.
Notas iniciais
Havia um ultimo corredor atrás das camadas de cortinas e dos bastidores, cujo um dos lados era a parede de blocos. Por ali, havia as diversas estacas com cordas amarradas segurando as cortinas, roldanas e outros elementos pendurados do palco, também havia diversos fios de energia, holofotes extras no chão e caixas com peças ou ferramentas. Não era um lugar muito freqüentado no grande momento que se iniciava no auditório do colégio.
Mesmo parado ali, sob as lâmpadas laranja e empoeiradas, Francis roia as unhas e seu coração batia rápido. Há pouco, quando estava no meio dos colegas e todos estavam vestidos com seus personagens, o menino havia acreditado que estava pronto para o momento ao ouvir um discurso de motivação, mas, sozinho naquele canto abafado, estava se desesperando com a ansiedade crescente. Podia ouvir o falatório da platéia cheia e as movimentações do elenco entre as outras camadas de cortinas, indo do lado direto ao lado esquerdo do palco, agitados para os últimos detalhes.
De repente, ela chegou. Os cabelos cacheados estavam trançados para sua personagem, usava um vestido solto e sandálias, sua expressão estava preocupada, mas Francis compreendia, pois havia simplesmente pedido para ela buscá-lo. Logo atrás estava o moreno com cara séria e confusa. Miriam era baixa perto de Jack e a jaqueta vinho, a camisa estampada e o jeans dele não combinavam com as vestes um tanto medievais dos dois atores estudantis. Sorriu ao vê-los chegar.
— O que foi? — Jack perguntou confuso, parando ao lado da garota e em frente ao unicórnio, que lhe parecia pálido. — Você está bem?
— Sim. — Foi o que respondeu indo abraçá-lo e escondendo seu rosto em seu corpo, buscando acalma-se. Miriam abriu um sorriso fino quando Jack lhe lançou um olhar sem jeito, mas abraçou-o de volta.
Há certo tempo, Francis lhe contou que a garota desconfiava que eles tivessem algo e com o passar dos dias ela juntou provas e foi a primeira a apoiar o relacionamento jurando segredo, o que fez o Audrey passar a confiar nela, mas Jack ainda não tinha tanta certeza e era um pouco mais difícil para ele aceitar que a garota não iria lhes causar algum mal.
— Francis, você está tremendo... — Jack notou preocupado, apesar de ser sutil e com intervalos. — Isso não está te fazendo bem. Talvez seja melhor dar uma desculpa ou fugir.
— Não! — Francis e Miriam responderam juntos, com certo repudio a idéia.
— Ele treinou muito, — Miriam argumentou primeira — é capaz de fazer isso! Sabe de cor tudo o que tem que fazer. Eu já disse para ele que vai dar tudo certo, mas ele quis que você viesse.
— Eu não vou fugir. Só estou nervoso — complementou o garoto, ainda aquecido e protegido no abraço.
— Talvez se você se distrair um pouco, te ajude — sugeriu a garota.
— Tipo o que? — Francis perguntou, pondo o rosto na direção dela, mas ainda apoiado no peito de Jack.
Ela corou e deu uma leve olhada para o coelho que apenas observava. Claro que seus pensamentos foram sobre o que mais facilmente distrairia um adolescente com namorado, mas ela tinha vergonha demais para dizer ou mesmo para assistir os beijos deles, pois ela também não podia sair dali e deixar Francis sozinho porque ia levá-lo ao palco quando tudo começasse em alguns minutos.
— Não sei... — enrolou, pensando em outra coisa. —Conversar assuntos aleatórios?
Os dois garotos pareceram aceitar e pensar em algum tema que ainda não tivessem conversado. Era mais justo na mente de Miriam que Jack assumisse o momento para confortá-lo e ela ficasse com a parte de jogá-lo diante das pessoas sem dó nem piedade em dez minutos.
— Eu já te falei do fim do ano? — Jack subitamente contou, sorrindo de leve, olhando o longe e até balançando o menino ao qual estava abraçado.
— Não — Francis estranhou; realmente nas conversas e momentos que tiveram o fim do ano nunca tinha surgido, ficou curioso.
— Estamos organizando um acampamento — riu, e a expressão que o unicórnio viu nele parecia empolgada. — É principalmente para os alunos do ultimo ano, mas convidados podem ir, assim amigos de outros anos podem passar esse tempo juntos e deixar uma memória legal para nós. São uns três dias no meio do verde, numa área apropriada e longe de tudo. Dizem que tem até um lago e algumas colinas que dá para fazer trilha. — Jack o olhou, seus olhos azuis estavam sonhador. — E eu vou fazer você ir.
Francis não era fã de insetos nem mato, mas naquele momento, com Jack, pareceu que poderia ser uma experiência bem diferente e nova que poderia enfrentar. Se o coelho estivesse junto, ele se sentiria seguro. E de repente percebeu que David também era de um ultimo ano.
— Meu irmão não iria deixar. Nem sou formando — entristeceu.
Jack observou-o, era fácil se comover com as expressões de desgosto do menino depois que soube de seu passado difícil, sorriu acariciando sua bochecha:
— Não se preocupe, eu vou fazer você ir — repetiu. — E vou fazer você ficar sozinho comigo muitas vezes.
Sonhando juntos, eles ficaram se olhando. Francis tinha se acalmado, parado de tremer e havia até cor em seu rosto.
— Hey! — Miriam disse fazendo-se ser notada ali. — Agora, nós temos que ir Francis.
Pegou-o pelo braço, conseguindo soltá-lo facilmente, mas depois de um passo, ele travou o pé.
— Eu não... N-não consigo... — murmurou, começando a respirar rápido, sentindo um falta de ar, olhou para Jack num pedido de socorro muito momentâneo.
O moreno então abriu um lado da jaqueta e lhe estendeu um frasco ornamentado e achatado.
— Não pensei que isso seria útil assim, mas talvez te ajude a relaxar em alguns minutos. É um pouco forte, mas vai ter que beber para dar certo.
Miriam assistiu com cara de nojo para o álcool que Francis virou na boca em grandes goles, confiando de que a idéia de Jack era boa. Sorriu, devolvendo o item meio cheio e se deixando ser arrastado.
O coelho teve que achar a saída do labirinto sozinho e voltar aos bancos da platéia, infelizmente tinha perdido seu lugar então ficou de pé, em um canto, quando tudo começou com as luzes do auditório se apagando e todos fazendo silencio. Subitamente, se percebeu nervoso e ansioso pelo garoto que surgiu sob uma luz forte no cenário, até olhou alguns rostos na platéia para ver que impressões tiveram. Logo, lhe pareceu que Francis havia fingido o medo do palco. O unicórnio estava bem e agiu perfeitamente no seu papel, até mesmo o impressionava que conseguisse elevar a voz o suficiente para todos escutarem durante suas falas.
Era um papel ridículo de um jovem sendo mal tratado e sendo julgado, mas pareceu fazer todo sentido com a vida real, Francis praticamente encenava sua própria história diante das pessoas sob o pretexto da peça. E na platéia, Jack e Kelly, mãe dos Audreys, acreditavam que o segundo ato também ia acontecer no futuro do unicórnio se ele quisesse. O menino poderia sim, se tornar o grande herói que retorna cheio das historias ao enfrentar todos seus desafios e crescer sempre mais forte, e todos de sua cidade natal veriam como ele era poderoso e que não deviam tê-lo julgado tão cruelmente.
...
Após o fim do evento no colégio, David encostou-se na parede de saída da escola junto com o padrasto Stan, ele quase morrendo de tédio para aquele momento passar. Ao menos Bianca sorria e estava feliz, comentando com o padrasto dele alguma coisa da historia encena que ele nem prestou atenção. Ela e Kelly também estavam se dando muito bem, a mãe ás vezes lhe dizia como a garota já parecia ser sua filha, e era estranho notar que até pouco tempo nem sem importava em envolver suas garotas com a família, Bianca o tinha mudado e ele nem percebeu.
Quando todo o lugar escurecido e fresco pela noite estava praticamente vazio, Kelly surgiu caminhando ao lado do filho mais novo, o abraçando e o elogiando pelo feito. Francis sorria corado, lhe agradava a felicidade que a mãe tinha depois de vê-lo passar por aquilo, que não foi nada fácil.
— Parabéns, Francis! — o padrasto lhe deu um aperto de mão e o puxou num abraço de urso. Não era novidade, mas era raro que Stan ficasse orgulhoso dele, afinal o menino não fazia muita coisa gloriosa. — Você foi muito bem! De verdade, garoto!
Francis agradeceu, envergonhado de ser o centro de atenção da família reunida ali, até mesmo Bianca lhe parabenizou com um abraço gentil, o que foi estranho, mas ela era simpática. Já quando, inconscientemente, olhou o irmão, foi encarado sem qualquer sentimento, então deixou David de lado.
— Então? Vamos comer ainda hoje ou não? — o mais velho questionou, quebrando o momento que a mãe apreciava. Esse era o principal motivo dele estar ali com a namorada, porque iam comer juntos e o padrasto pagaria.
— Ah, sim! — Kelly não perdia o sorriso. — Você deve estar com fome depois disso, não? — falou para Francis e logo os cinco seguiram para os únicos dois carros parados na rua da escola, o de David e o da mãe.
— Francis! — eles ouviram alguém gritar quando chegavam ao portão do colégio. O unicórnio olhou para trás e viu Miriam correndo pela trilha cimentada até ele, mas também viu Jack sentando nos dois degraus da entrada do prédio, como se não quisesse nada. Ele seria irreconhecível aquela distancia se Francis não soubesse que roupa estava usando naquela noite.
David, Stan e Bianca seguiram para os carros, enquanto Kelly, curiosa, esperou que a garota chegasse ao filho mais novo. Miriam sorriu os dois e se dirigiu para Francis.
— Obrigada por ter ficado até o momento de despedida! Espero que tenha se divertido hoje! — ela lhe disse, tomando fôlegos. — Nem acredito que tudo aquilo já acabou. Vou sentir falta de te ver todo dia no próximo semestre e também das suas ajudas.
— Eu também — respondeu o menino com um sorriso sutil. Em seguida ela lhe deu um abraço demorado e, apesar de nenhum dos dois ver, Kelly sorriu.
— Ah, isso aqui é para você! — Miriam lhe entregou um panfleto todo dobrado bem pequeno e ao estilo cartinha, porém havia um peso dentro. — Não é meu... — ela murmurou, lhe piscando com um sorriso cúmplice e um sutil apontar de dedo para trás. Surpreso, Francis acabou olhando Jack à distância.
Uma buzina súbita assustou Miriam, que estava esperando o menino descobrir o que era. Kelly brigou com David por aquilo.
— Bom, estou atrapalhando, tenham uma boa noite! — despediu-se, olhando para a mulher e para Francis, não querendo atrasá-lo, depois voltou para escola.
Enquanto caminhava em direção ao carro, seguindo a mãe, o unicórnio descobriu que na dobradura estava o colar de Jack com o mesmo pingente que o fez reconhecê-lo naquela distante festa de máscaras, aonde beijou um desconhecido coelho branco de olhos azuis. Por um momento pensou em volta para a escola para agradecer, mas Jack não estava mais do lado de fora da escola e Stan ligou o motor do carro.
...
— Vocês deviam ir, eu super apoio! — Bianca sorria. — Precisam de um tempo só para vocês dois, afinal a vida de vocês é sempre corrida, não é? Acho que merecem.
David sempre a observava falar e interagir, entretido com o seu milk-shake de sobremesa. Ele não estava completamente confortável em estar em família num restaurante, mas admirava como ela era bonita, inteligente e sabia lidar tão bem com todo mundo. Estava se mantendo de fora da conversa, crendo que a garota faria de tudo para convencer o casal adulto de que seus planos eram bons.
Enquanto a mãe contava o que podiam fazer numa viagem e sua namorada expunha mais argumentos a favor, David olhou para Francis e sorriu torto. Se o casal realmente viajasse por três dias no final de semana, ele teria a casa para ele, só teria que fazer alguma coisa com aquela escória com cara de bobo que ficaria na casa, mas não seria um problema tão grande.
— Ah, eu não sei — Kelly disse receosa, mas dava para ver que ela queria. — Deixar vocês dois sozinhos em casa por tanto tempo...
— Que isso mãe, a gente já fica sozinho mesmo — David disse sem medir conseqüência ou considerar sentimentos. Fran até o encarou porque aquilo deixava a mãe deles triste, fazia-a sentir-se culpada por trabalhar demais, não foi legal.
— O que David quer dizer é que estamos dispostos a sobreviver sem você por uns dias, mesmo sendo bem difícil. — O unicórnio complementou e, agora, David o encarou irritado, mas foi ignorado. — Você sempre cuidou de nós dois, merece um descanso e um momento para ficar com Stan.
— Viu! Eu disse que os meninos ficariam bem — apontou o homem para Kelly.
A mulher olhou do filho ao marido, refletindo. No fundo, seu receio era uma simples encenação necessária para que fosse boa mãe, já a vencia há tempos o desejo de conhecer uma das cidades mais antiga da região e seus pontos turísticos, além disso, o hotel que ficariam seria o melhor, um luxo que não tinha há muito tempo.
— Certo! — concordou e sorriu quando os rapazes e Bianca comemoraram. — Mas eu vou falar para Margo ficar de olho em vocês, não quero dor de cabeça quando voltar e a tia de vocês — olhou seriamente para os dois adolescente — vai ser sincera se eu perguntar algo.
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