O Unicórnio de Um Coelho
29 Não corra da assombração.
Notas iniciais
Margo bateu na porta do quarto de Francis e não teve nenhuma resposta. Apreensiva, ela abriu-a com cuidado e encontrou o montinho de edredom na cama, mesmo sendo um lindo dia de sol lá fora.
— Francis? — ela perguntou e o monte nem se moveu. — Eu tenho que ir para um almoço de negócios daqui a pouco. Você devia sair um pouco, sei que um sábado depois das provas é uma boa desculpa para recarregar a bateria sem sair da cama, mas precisa fazer alguma atividade... — Nenhum murmúrio. — Eu só vou voltar amanhã. Você vai ficar bem?... Francis? — ela empurrou-o te.
— Vou tia... — ouviu abafado e apático. Ficou aliviada por ele estar vivo e ouvindo-a.
— Certo. Qualquer coisa me ligue, está bem? Estou preocupada com você... E também, tente aproveitar do trabalho de seu irmão, ele saiu cedo para comprar coisas — riu ao se lembrar da animação do menino. — Se divirta um pouco na festinha.
...
Francis passou o dia na cama, pensando e repensando, frustrado de que Jack não lhe contou seu plano, parecia que o moreno o estava enganando desde sempre e iria abandoná-lo de qualquer jeito. Assim, naquele momento, ele não sabia se doía mais ser desconsiderado de uma informação importante ou descobrir que Jack iria para longe nos próximos anos, aonde ele não tinha como alcançá-lo ou acompanhá-lo. Só tinha certeza que, para alguém que tinha se empenhado e preparado há tempo nesse plano, ele não ia desistir desse futuro fácil.
A casa sempre tinha as vozes dos amigos de David e coisas sendo arrastadas ou guardadas na cozinha. Francis saiu do quarto antes da chegada da noite para tomar um banho e comer algo. Ao chegar à cozinha, notou que Charlie ia de um lado para outro, tentando tirar coisas que podiam quebrar do caminho, enquanto David estava no telefone, espalhando a notícia da festa com um sorriso constante no rosto.
— Você vai participar, não é? — Charlie perguntou, tinha o boné virado para trás e uma energia animada, já com um copo cheio na mão. — Vai ter um monte de bebidas e comida. Vai ser divertido! — Francis encarou-o confuso, estava sendo notado e tratado diferente por ele. — Não precisa ficar com medo. Vamos cuidar de tudo.
O Audrey mais novo sorriu fraco e deu de ombros, depois voltou para seu quarto em silencio e nada animado.
Em poucas horas a rua foi ocupada por carros estranhos e a casa ganhou música, conversas e muitas mais pessoas do que jamais a ocupou. E mais tarde, próximo da meia noite, a casa de Alex, do outro lado da rua, havia se tornado o segundo pólo da festa, porém mais libertina e pesada, apenas para os ousado, assim havia gente indo e vindo entre elas. Era um sucesso não imaginado.
Francis não conseguia dormir. O quarto estava bem trancado, mas a maçaneta se mexia muitas vezes com o avançar da comemoração e ele estava sem sono. O som abafado era alto e o perturbava, não o deixava pensar em nada. Decidiu ir atrás de alguma comida quando a barriga roncou, mas teve uma sensação ruim ao parar diante da porta, seu coração palpitava com o medo do que ia ver, algo lhe dizia que não devia seguir aquele plano, que devia permanecer ali e seguro, mas uma sequência de batidas da musica eletrônica ocupou seus pensamentos e ele conseguiu virar a chave e sair. Foi logo empurrando alguns desconhecidos que estava no corredor, supôs que muitos ali esperassem um chance de usar o banheiro, e desceu as escadas, desviando de varias pessoas e não olhando para ninguém, tentando manter-se em seu mundo, ignorando tudo e protegido, só queria comer alguma coisa.
Trombou em algumas pessoas e se esfregou em outras que quase não o deixaram passar por estarem distraídas demais com suas conversas, não se deu o trabalho de dizer palavras de desculpa e com licença. Chegou à cozinha e buscou um pote, ajuntou uma coleção de petiscos da festa e ao se virar viu como ali estava cheio. Comeu em um canto, observando todos, não conhecia ninguém e isso era estranho porque estavam em sua casa. De repente, alguém pegou sua mão e enfiou um copo grande de plástico, gelado e cheio.
— Beba! — gritou Charlie com um sorriso largo e corado. — Vamos! Vai! Vai! Vai! — Empurrou o copo na direção da boca do menino. Francis obedeceu, pensando que talvez assim ficasse menos tenso com tudo. Deu um gole amargo, fez careta e Charlie apoiou o fundo, o forçando a engolir tudo de uma vez porque, se não, ia derramar sobre ele. O garoto de boné uivou, aplaudiu e parabenizou-o enquanto Fran tossia, sentindo a quentura atingindo seu estomago. — É o melhor coquetel! Eu sei! — disse o outro com orgulho, depois puxou o copo da mão dele. — Vou pegar outro. Espera aí!
Sua voz negando não fez efeito nenhum na algazarra então deixou o lugar a fim de despistar Charlie. Observou que na mesa da cozinha um pessoal jogava cartas e havia uma garota sem a blusa disputando algo com um cara sem as calças e um público ansioso assistia. Com luta, Francis chegou à sala de estar, onde os moveis estavam afastados e um videogame posto na televisão grande. Por um momento, distraiu-se, analisando qual era o jogo, e de repente notou-se com calor e cercado de muitas pessoas.
Havia gente dos dois lados, atrás, na frente, nos cantos. Empurrou alguns, inspirando com dificuldade, tentando se afastar do contato, e sempre tinha gente. Alguns resistiram em sair de onde estavam, até que encontrou uma brecha, abaixou-se pelo vão e saiu da aglomeração, foi dando ré até encontrar as costas na parede. Respirando rápido e muito nervoso, seu pensamento gritava que a casa não cabia tantas pessoas e era sufocante, faltava ar. Não tinha muita noção de para onde ir para sair da confusão, fechou os olhos forte e tampou o rosto nas mãos. Podia ouvir sua própria respiração rápida, a sensação de falta de ar instalando o pânico, o coração disparado, uma vontade de gritar histérico e uma tensão se espalhando em seu corpo. Eram muitas pessoas dentro de sua casa, estava abafado, a música estava confusa junto com as conversas, gritos e risadas, o cheiro de álcool, algo azedo e o de fumo o deixando mais tonto e aflito. Ele não se via capaz de fugir dali, iria morrer em segundos. Era um unicórnio acuado entre os humanos.
— Francis, bebe isso — ouviu e logo sentiu que sua mão foi puxada e um novo copo foi posto. Sem nem pensar ou abrir os olhos, imaginando ser Charlie, bebeu tudo, nem ligando para o gosto ou o que era. — Você não parece bem. Que sair daqui?— a pessoa perguntou.
O garoto assentiu. Sentia-se tonto demais para sair dali sozinho e não queria olhar tudo então foi cegamente, de olhos fechados, sentiu ser segurado pelo braço e aquele que o levava foi abrindo caminho, não sabia para onde foram, mas logo atingiram as escadas e subiram, e finalmente entraram em um quarto onde o ar estava mais fresco e puro.
Só quando Francis ouviu a porta ser fechada as suas costas, ele abriu os olhos e inspirou o ar limpo de seu quarto imaculado e de luzes apagadas. Relaxou no ambiente com som abafado por longos minutos. Contudo, estar seguro ali não melhorou seu bem estar. Na verdade, inverteu seus sintomas e aquilo era de muita estranheza e temor. Se antes seu corpo estava ficando tenso e atento a tudo, o sobrecarregando, agora tinha a sensação de suar frio e sentia-se entorpecido e dormente, parecia que estava deixando de existir, talvez sua alma estivesse abandonando sua carne. Então ele olhou para sua cama e foi se sentar nela, abaixando o rosto e inspirando algumas vezes, tentando entender o que o fez se sentir assim.
Ouviu passos, havia mais alguém no quarto, e ele levantou o rosto. O sujeito parou a um palmo diante dele, muito próximo, o fazendo olhar para cima. Francis facilmente reconheceu as mechas platinadas dos cabelos de Samuel, que lhe sorria torto com o olhar fixo nos dele. O menino estranhou sua presença com um frio correndo espinha acima até a nuca:
— V-você...? — balbuciou confuso, sua voz e pensamentos estavam lentos.
O mais velho passou as mãos nos cabelos do menino carinhosamente, mergulhando os dedos nas mechas castanhas mais crescidas na parte de cima e bagunçando-as, como se ele lhe pertencesse.
O unicórnio franziu o cenho ao ser tocado, encarou-o sério e arcou a cabeça para trás, afastando-se, mas foi rapidamente empurrado pelos ombros para a cama e caiu deitado. Apesar de surpreendido, Francis notou que Sam ia deitar-se sobre ele e girou o corpo para o lado até cair pela beirada da cama. Engatinhou para longe, atordoado e confuso, sua mente parecia bem devagar.
— O-o que... Você está fazendo? — Perguntou e sentiu-se fraco, sentando-se no chão.
Sam o seguiu calmo, segurou-o pela cintura, o fez ficar de pé e o empurrou até escorá-lo no armário. Depois o girou para ficarem frente a frente. Francis, assustado, apoiou as mãos contra seu tórax enquanto a suas costas estava no guarda-roupa. Aquilo parecia um pesadelo real, não queria estar perto daquele rapaz depois do ultimo encontro que tiveram.
— Relaxa — Samuel disse divertindo-se — você não vai poder fazer muita coisa nesse estado. — Em seguida pressionou os lábios no dele, sorrindo quando o unicórnio fechou a boca fortemente.
Francis escapou, desviando o rosto para o lado, mas não fugiu de caricias e beijos que foram espalhados em seu rosto e pescoço ou dos toques em seu corpo. Sam deliciava-se com a vulnerabilidade dele e pegou a mão que o empurrava no peito, esfregou-a em até sua boca, cheio de desejo, e chupou um par de dedos tentando soar sensual. Enojado, Francis o viu encará-lo e notou o olhar desperto e pupilas dilatadas, Sam estava alterado. Seus corpos estavam próximos, havia calor e anseio vindo do mais velho, assim como medo e repulsa do outro. Samuel estava mergulhado sexualmente naquilo e infelizmente era quem sustentava o mais novo de pé.
Sam voltou a aproximar seus rostos para beijá-lo e Francis buscou desviar-se com um grunhido arredio, mas foi contido por uma mão que segurou seu queixo doloridamente. Torturando-o, o mais velho apenas roçou os lábios nos dele, observando-o calmo, inspirando o mesmo ar e sem consumar o abuso de um novo beijo, parecia nem perceber que Francis não queria aquilo. Rindo sozinho, o platinado mordeu-o de leve no rosto e queixo e desceu distribuindo chupões. A área era sensível e causou arrepio involuntário na pele do unicórnio, o que agradou o seu agressor e o fez continuar. Apesar do menino até tentar empurrá-lo e afastá-lo, Sam forçava contra e resistia, segurava-o com força e até machucando-o. De repente, ele puxou a blusa de Francis para cima até tirá-la dele, jogando-a na cama, e atacou as partes exposta e pálida com as mãos, deixando marcas avermelhadas sem nunca deixar que o garoto fugisse.
Nisso crescia em Francis o desconforto e impotência. Nenhuma das suas tentativas de impedi-lo surtia efeito, era mais fraco que Samuel e era segurado com apertos bruscos e fortes, quase como se lutassem, e seus toques em Sam eram contra sua vontade, ele o segurava e movia sua mão no corpo alheio, nos lábios que arfavam, sobre a calça e seu volume excitado. A repulsa aumentava junto com o desespero de ser fraco demais e não conseguir fugir. Caminhava para o pânico com os pensamentos agitados, lembrando-se da invasão que sofreu quando era uma criança e a cena presente tão parecida.
De repente, Francis puxou a mão, nervoso para sair daquilo, mas Samuel o empurrou contra o armário, o encarando e, beijando-lhe mais agressivamente, ao ponto de fazer seus lábios arderem.
— P-para... Para! — repetiu mais forte, virando o rosto e com os olhos ardendo pelas lagrimas acumuladas.
O mais velho se afastou, olhou-o e riu em deboche, depois o levou com movimentos possessivos e bruscos, o derrubando na cama.
— Não vamos parar até terminamos, meu pequeno — e logo ele segurou o cós da calça alheia e a tirou com alguns puxões, apesar de Francis grunhir e tenta evitar, já quase chorando. — Não sabe o quanto sonho com isso. E você quer.
— Socorro! — gritou, olhando para a porta que era a sua saída. Juntou sua força e ar novamente: — Soco... — sua boca foi tampada. Fran encarou Sam que já subia sobre ele. O mais velho encarou a porta e nada aconteceu, deu um sorriso sádico e travesso:
— Não. Não. — Olhou para Francis, ajeitando as pernas ao lado do corpo do menino seminu. — Porque disse isso, amor? Você vai gostar, tenha certeza. É uma experiência nova entre nós. Jack também gosta de uma coisa mais... Afoita, de dominância — sorrindo, ele liberou a boca de Francis para tirar sua própria blusa e a segurou na mão.
— Eu não quero! — aproveitou para esclarecer.
— Ah... — a expressão de Sam ficou aborrecida. — Não faça essa desfeita comigo. Eu já estou pronto para isso há dias... Se te deixa mais calmo, pense que é só dessa vez.
— Não! — as mãos de Francis foram determinadas a empurrá-lo para longe, mas houve uma breve luta. Samuel segurou-as e enfiou-as nos braços de sua camisa, torceu o tecido e juntou os pulsos do menino em uma amarra que o prendia como algemas. Francis tentou desesperado soltar-se e não conseguiu, enquanto Sam esticou-se para alcançar a camisa do mais novo há um tempo perdia e a pôs sobre a boca dele, para que não gritasse mais os ‘nãos’ insistentes.
Contudo, com o choro que começou a escapar, o calor no corpo, a pulsação rápida do coração, a exigência de uma respiração acelerada, o desespero diante da impotência e um sentimento de que sua vida ia acabar se aquele rapaz sobre ele conseguisse o que queria, deu ao unicórnio uma nova energia de sobrevivência. Deixou de lutar contra a vedação de sua boca, esticou os braços para o criado mudo e pegou dois livros de uma trilogia que decorava o móvel. Antes que Samuel percebesse, o golpeou no rosto com a quina mais dura junto com um grito selvagem.
O mais velho ficou tonto e foi agredido de novo na cara e com fúria, o que o obrigou a fugir dos golpes seguintes até sair da cama bagunçada. Sangue escorria de um rasgo abaixo do olho esquerdo, outro na sobrancelha e de algum ferimento no interior de sua boca, os grossos pingos vermelhos caíram no corpo do menino na cama e no quarto quando Samuel ficou de pé, surpreso. Por um segundo, viu insanidade nos olhos do antes vulnerável Francis e o garoto avançou contra ele possuído, gritando alto e deferindo mais golpes com os livros até que os jogou contra ele e fugiu, abrindo a porta e desaparecendo entre as varias pessoas da festa, ainda com as mãos presas e uma única peça de roupa no corpo.
Contendo a frustração e raiva, o mais velho grunhiu e desdenhou a clara negação de Francis em ficar com ele, ignorando alguns curiosos que olharam o quarto para saber do que o garoto fugia. Se o menino podia gostar de Jack, porque não ficava com ele também? Seriam um trio perfeito se o mais novo não frouxo e fujão.
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