O Unicórnio de Um Coelho
20 Devia trancar sua porta.
Naquela tarde, Francis Audrey, o caçula da pequena família, não esperava receber visitas em sua casa além de Jack. Ao menos a jovem mulher que entrou sorrateira era conhecida. Então o menino forçou-se a atuar, fingindo que ela não viu nada de mais.
— Tia Margo? — e foi caminhando até ela — O que faz aqui?
Jack ficou de plano de fundo, apenas assistindo. A tal Tia de Francis era jovem, e talvez, apenas na opinião dele, fosse um pouco mais bonita que Kelly, com seus sapatos de salto e cuidado com a aparência.
Margo abriu um sorriso normal e simpático, dando alivio aos dois meninos:
— Vim trazer essas doações de roupas para sua mãe — e mostrou um saco de plástico gordo. Todos da família sabiam que Kelly arrecadava doações para entregar à instituições que fazem bazar. — Aliás, ela pediu para você separa-las para ajuda-la.
O garoto encarou o pacote com um pouco de cansaço e concordou.
— É por uma boa coisa, tente se lembrar disso! — Ela incentivou-o, oferecendo a entrega. No curto segundo que Francis tomou o pacote e o deixou em um canto, os olhos de Margo foram até Jack com um sorrisinho escondido nos cantos dos lábios avermelhados, mas ela não disse nada sobre ele ou o que viu.
— Quer ficar para comer um bolo, está no forno?
— Não, querido, obrigada! Eu tenho uma lista de coisa para fazer hoje, só vim fazer isso mesmo. Fica pra próxima, ok?
E a mulher acenou para Jack e deu meia volta. Francis a seguiu para acompanha-la até a porta, onde no ultimo momento ela se virou e abriu um sorriso estranho, ansioso e alegre que assustou o unicórnio a principio.
— Interessante o seu “amigo” — fez aspas no ar e riu travessa. Fran fez uma cara estranhada, atuando o que podia, mas no fundo ele sabia que ela sabia.
— Tudo bem. Tudo bem, bebê. — Margo disse gentil, dando uns tapinhas no ombro de Fran. — Seu “amigo” — fez aspas de novo — é bem bonitinho e parece ser uma boa pessoa. — Eles se encararam até ela dar um breve ataque de empolgação: — Ah! É tão legal saber que não sou a única fora da casinha dessa família! Hahaha! Vou cuidar de vocês, pode deixar. Guardar numa caixinha e levar para minha casa para deixar numa gaveta! Hahaha!
— T-tia! Por favor... não insista nisso assim. Somos amigos...
— Vou fingir que acredito — e piscou um olho para ele, sorrindo.
Assumindo um som mais gentil e compreensivo, ela falou mais um pouco:
— Mas, sério Francis, está tudo bem por mim. A vida é sua, a felicidade é sua, você é seu. Se fosse algo ruim, eu não ia deixar quieto, mas por enquanto... Eu estou aqui para te ajudar, entendeu? Vou ficar do seu lado da melhor forma que eu puder. — De repente ela o abraçou, apertando bastante e inspirando profundamente. — Humm! Francis! Ele tem um perfume bom! — riu, fungando o cheiro impregnado no sobrinho algumas vezes antes de se afastar risonha, acenando e atravessando a porta com um até logo.
Ainda abobalhado com pela atitude da mulher, Francis riu encarando a porta e medindo o que ouviu.
— Acha que ela será um problema? — O coelho surgindo de repente, caminhando até o sofá na sala e se sentando. Sua expressão trazia um pouco de preocupação.
— Não. Ela estava sorrindo — Fran se juntou a Jack, acomodando-se logo ao lado. — E ela gostou de você. Disse que tem um cheiro bom.
— Como ela pode saber disso? — intrigou-se, afinal nem tinha chego perto dela.
— Ela só me abraçou — o menino contou com um sorriso divertido. E os dois sorriram um para o outro por um bom tempo. — Você não ia ter um treino hoje, como na semana passada?
— É natação, Fran. Eu tenho um bom motivo para não ir.
Jack respondeu lembrando-se da presença de Samuel na mesma equipe e em como ele ainda insistia em olhá-lo e oferecer carona para casa em qualquer oportunidade. Jay sabia que suas caronas tinham algum preço.
Enquanto ele pensava nisso, Francis o observava distante. Era estranho pensar que há pouco tempo não sabia muitos detalhes de Jack e agora sabia vários do seu físico, do nariz, do sorriso, as bochechas e até como os olhos mudavam sutilmente de cor, mas estava apenas descobrindo quem era ele por trás do que qualquer um podia ver, e não tinha pistas para concluir qual seria o motivo.
Sem jeito para perguntar, o mais novo ligou a televisão e arcou-se sobre Jack, o abraçando aconchegado enquanto assistia a um programa qualquer com o rosto sobre cada batida do coração alheio.
Os minutos passaram rápidos e o cheiro de bolo chegou ao cômodo de repente. O unicórnio levantou num pulo, simplesmente surpreendendo Jack que riu quando o menino acertou a canela na mesa de centro com a pressa de ir salvar o que cozinhava.
E tudo pareceu acontecer no momento certo.
Assim que Francis sumiu alguém entrou pela porta de súbito. A expressão da pessoa denunciava a expectativa de surpreender, mas não conseguiu o efeito em Jack, que assumiu seriedade e estranheza de onde ainda estava sentado.
Era um rapaz magro e alto, de barba rala no rosto, tinha os cabelos claros cumpridos, ondulados e bem desleixados, possuía olheiras nos olhos castanhos e o sorriso em seu rosto era meio maníaco.
Alex, o vizinho da frente, encarou Jack rapidamente, depois passou os olhos alucinados pelo que podia enxergar da casa, ouvindo tudo atentamente. Então caminhou para a sala como quem não quer nada, mas atento ao que acontecia nos andares de cima, como se esperasse ver a qualquer momento um movimento brusco e suspeito.
— Ah! Olá, John! — falou alto e súbito, mas não olhou Jack, ainda encarava paranoicamente a casa e seus movimentos. — Há quanto tempo, não?
— Sou Jack, não John — o moreno corrigiu sem muita paciência.
O rapaz parou na ponta do tapete por alguns minutos, com o olhar fixo no alto da escada e depois para a passagem para a cozinha, ainda com a expectativa de ver algo.
— Curioso... — murmurou e depois Alex abaixou o olhar em Jack. — O que você está fazendo aqui, Jack?
O coelho estranhava a presença dele ali, sentia que Alex estava cheio de suspeitas, e assim como David não gostava de Samuel, ele não gostava de Alex, por isso agiu como sempre, suspirando por ter que o responder.
— Só matando o tempo enquanto espero David.
— O que você está fazendo aqui? — Francis interrompeu qualquer coisa que Alex ia falar, surgindo no cômodo. — Não pode invadir as casas das pessoas assim!
— Calma aí, menino — Alex estranhou-o tão bravo, agora agindo menos paranoico. — Eu conheço vocês há anos, não vou fazer mal nenhum, sou praticamente da família.
— Mesmo assim, não poder ir só entrando! Isso não é educado! — a palavra não era própria para o tipo de rapaz que Alex era, mas teve que usá-la.
E Alex conteve o riso em sua boca, riu pelo mesmo motivo que Francis já sabia. A ‘educação’ não pegou nele de forma eficaz, era quase inexistente desde seus oitos anos e sendo criado só pelo pai igualmente desleixado.
— Blábláblá — o vizinho desdenhou, rindo de Francis. — A porta estava aberta! Aliás, devia tomar cuidado se costuma ficar aqui tempo demais sozinho, garotinho — e apontou um dedo para Francis, como se lhe desse uma lição, depois se voltou para Jack: — Quanto a você, sabe que não precisa ficar aqui, com essa criança, né? Eu moro do outro lado da rua, lembra? David também é meu amigo então pode passar o seu tempo lá. Garanto que vai ser mais divertido do que ficar aqui... Nesse lugar sem graça com... — e riu, olhando Francis rapidamente — com esse antissocial.
Segurando um folego, o mais novo desviou o olhar constrangido. Não havia mais qualquer clima naquela casa, Alex até se divertiu em ver aquela reação.
— Antes ele do que um drogado solitário como você — Jack comentou, recebendo um olhar irritado do rapaz e eles se encararam. — Ficar ouvindo suas historinhas tristes de papai que some Alex, não é algo que eu goste. Então... se manda daqui. Estou bem, apesar de quem quer que seja Francis — O vizinho, sério, não se mexeu. — Vai logo que não estou com bom humor.
O rapaz deu as costas, meio perturbado, e foi embora, esquecendo-se completamente do esquisito de roupa laranja que viu entrando na casa e tinha desaparecido.
— Francis, é melhor você trancar essa porta — Jack comentou para o menino.
— Eu não posso. David odeia ter que destrancar e minha mãe já está acostumada.
— Mas é perigoso para você.
Francis apenas deu de ombros, infeliz, pois não podia fazer muita coisa a respeito daquilo. E a porta se abriu de novo, mas antes de ficar irritado com Alex, percebeu que era David e seu sangue esfriou um pouco. Contudo, o Audrey mais velho só a abriu e falava algo com Alex, que pela conversa estava se afastando sem falar direito com ele.
— Tsc. Doido... — David entrou, distraído e parou ao ver Jack. — Ué?
O moreno estava instantaneamente tenso. Naquele mesmo dia avisou David de que ia ter um compromisso com a mãe, uma mentira, e então não se veriam, mas agora estavam na mesma casa.
Entre as trocas de olhares, Francis fez o que lhe cabia, recuou para cozinha e se isolou como se não ligasse para eles. Mas por dentro esperando o desenrolar do encontro.
— Pensei que só saísse mais tarde do trabalho. — Jack falou.
— Pois é. Que coisas estranhas, não? — David respondeu com estranheza. — E eu pensei que não ia aparece hoje.
— Eu fugi antes que minha mãe arrumassem coisa demais para mim.
— Compreensível — aceitou rápido. — Mas ótimo! — e foi andando pela sala, atrás de uns documentos nas gavetas de cômodas e aparadores. — Vou precisar de você para uma coisa. Vamos indo! — com um papel em mãos, David retornou para a porta, onde parou para observar Jack se levantar e o seguir contrariado apenas internamente. Sua tarde com Francis tinha acabado e nem mesmo saberia se a receita do menino tinha dado certo. Não houve despedida entre Unicórnio e Coelho.
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