O Trono de Gelo e Fogo
7 O Escudo
Notas iniciais

Até aquele trecho da estrada de altitude tudo estava muito tranquilo, Sandor Clegane queria manter a corrida para alcançar o mais rápido possível o Portão Sangrento. Arya o seguia de perto montada em Covarde que não era um cavalo grande como o garanhão negro de Sandor, mas estava aguentando o ritmo imposto. A estrada não estava em seu melhor estado havia pedras aqui e ali que rolaram de algum lugar, carroças abandonadas, troncos de árvores e por duas vezes Sandor teve que parar o galope para tirar troncos grossos e rolar pedras grandes do caminho.
— Vamos garota, — Sandor olhou para trás fazendo sinal com a mão. — Temos que avançar o máximo possível e achar um abrigo para passar a noite nesses ermos.
Arya estava cansada e com o meio das pernas doloridas.
Sete infernos, pensou Clegane, ainda não tinha avistado nenhum sinal dos clãs que habitavam as Montanhas da Lua, mas sabia que estavam lá em algum lugar à espreita.
— O que foi? O que você viu? — Arya se aproximou de Sandor pela esquerda.
— Não tenho certeza — Sandor retirou o elmo em forma de cabeça de cachorro e puxou as rédeas de Estranho. — Veja ali na ravina.
— Não estou vendo nada — Arya forçou os olhos. — Vamos continuar.
Clegane bateu na nádega de Covarde que relinchou e avançou.
— Vai, siga na frente agora! — Exclamou Sandor. — Acho que não eram muitos e a luz do dia perdem o elemento surpresa. — O Cão estava preocupado mais pela vida de Arya do que a sua própria.
Eles cavalgaram por mais uma hora, já estavam na estrada há muito tempo e os cavalos precisavam descansar ou cairiam de cansaço ou pior quebrariam uma pata. Não havia sol, mas Sandor sabia que a noite não tardaria muito mais para cair sobre eles. Arya avistou uma pequena gruta em baixo de uma pedra, era o lugar perfeito para se abrigarem, pararam os cavalos e examinaram o local, havia ali restos de uma fogueira de muito tempo atrás e alguns pequenos ossos de galinha pelo chão empoeirado. A gruta não era tão ampla, mas era suficiente para abrigar os cavalos e seus donos.
— Fique aqui com os cavalos, vou procurar água. — Sandor checou sua espada longa de duas mãos enquanto falava.
Arya assentiu com a cabeça.
— Se alguma coisa passar pela entrada da caverna... — Ele sorriu com o lábio queimado se contorcendo.
A boca da caverna era pequena e estreita para passar os cavalos Sandor e Arya tiveram que tirar as selas e mesmo assim, Estranho ainda se arranhou na pedra cinzenta cheia de musgo.
— Se eu não voltar, espere a primeira luz e cavalgue o mais rápido possível para o Ninho da Águia. — Sandor não esperou a resposta e saiu da caverna. — Se eu não voltar espero que você consiga chegar até sua tia em segurança.
Ele subiu a encosta da estrada e se embrenhou na mata fechada, pegou lenha e turfa para uma fogueira, chegou a um brejo com o fundo escuro de folhas e encheu um odre grande para levar aos cavalos. Procurou pequenas frutas nas árvores, mas o que conseguiu foram algumas amoras murchas, depois de um tempo voltou pelo caminho que marcou com cortes de adaga nos troncos das árvores. A noite já estava caindo e alguns animais se movimentavam nas sombras, Sandor saltou de sobre a entrada da caverna e quando se virou Arya estava na borda com Agulha na mão esquerda.
— Que porra! Você me assustou — disse Arya.
— Isso te manterá viva um dia. — Sandor pousou a pesada mão no ombro de Arya para que ela saísse de sua frente. — Faça a fogueira enquanto eu dou água aos cavalos. — Ele tirou o odre das costas.
— Viu algo estranho? — Arya queria saber se Sandor havia visto selvagens.
— Não, se correr tudo bem, amanhã pela tarde chegaremos aos portões.
A fogueira de Arya já estava crepitando e ela tirou do alforje pedaços de carne de gato-da-sombra.
— Não achei muito que comer nesse maldito lugar — Sandor jogou as amoras para Arya. — Estou exausto — ele caminhou até a entrada da caverna e sentou-se em uma pedra. — Vou ficar de guarda, você pode dormir um pouco. — Disse Clegane.
A neve caia serôdia lá fora e o silêncio impregnava a noite, Sandor saiu mais uma vez e pegou alguns galhos secos e cortou alguns das árvores mais próximas da estrada, os colocou na entrada da caverna para melhor camuflar a sua presença ali. Tudo o que ele mais queria era levar Arya em segurança até sua tia Lysa e receber sua recompensa, talvez um lugar no exército dos Stark ou na corte de Arryn. Todos nos Sete Reinos sabiam a fama do Cão de Caça e como era feroz em batalha e sua moral aumentaria quando todos soubessem que Sandor Clegane salvou a filha de Eddard Stark e a entregou ilesa para sua família. Ilesa e virgem. O Cão sorriu com o pensamento, no início da jornada, Arya não passava de uma menina com cabelos desgrenhados e de rosto sujo, que não sabia lutar nem cantar.
Alguns raios de luz passaram pelas folhas dos galhos que Clegane havia colocado na entrada da caverna e ele percebeu que já era dia, foi até Estranho e levantou o cavalo.
— Hora de partirmos — Ele estava conduzindo o seu corcel para fora.
— O que... já é dia? — Arya começou a limpar os olhos.
— É sim — Sandor voltou para pegar a sela. — Acredito que não teremos problemas com os selvagens. Mas que merda... — Ele colocou a mão onde havia sido mordido.
— O que foi? Deixe-me dar uma olhada nisso! — Arya se aproximou para ver a ferida do Cão de Caça. — Isso está bem irritado — o rosto de Arya ficou bem próximo do pescoço de Sandor e ela percebeu que ele a encarava. — Seria bom que ele tirasse a armadura, — A garota se aproximou mais para poder olhar por dentro do gorjal e Clegane colocou uma mão no quadril dela. — O que está fazendo? — quis saber Stark.
Sandor levantou-se e foi para fora da caverna terminar de colocar a sela em Estranho.
— O que está acontecendo entre nós? — Arya saiu da caverna com os braços cruzados e sem seu gibão de couro escuro.
Sandor a olhou por baixo de seus cabelos negros sem dizer nada enquanto afivelava os arreios da sela.
— Não há nada. Não posso fazer nada do que quero fazer. — Sandor manteve os olhos na fivela do arreio.
Arya caminhou para perto de Clegane com os braços cruzados.
— O que fará depois de me entregar a minha tia?
— Receberei minha recompensa. — Ele olhou para a garota com uma expressão de dor, mas deu um risinho para disfarçar. — E talvez aceite fazer parte da guarda da sua tia. Me diga ela é doida como dizem lá na corte?
Arya não disse nada só ficou olhando para o chão.
— Muito depende de você menina loba — o Cão a encarou. — Nesse instante, sua bela irmã deve estar sobre tortura... ou morta. — Ele pegou o rosto da garota forçando-a a olhá-lo. — Sua mãe, irmão... quem sabe dos outros? — Sandor a segurou com força pelos ombros.
Os olhos de Arya ficaram marejados e vermelhos.
— Irei vingá-los! — Ela soluçou as palavras como se estivesse entalada.
O Cão de Caça passou o polegar no rosto de Arya para secar uma lágrima que escorria. Com um movimento muito delicado para um homem do seu porte.
— É claro que irá — Sandor viu a fúria crescer nos olhos de Stark. — Espero que eu possa te ajudar, e redimir meu nome com esse feito. — Pensou Clegane, mas disse:
— Mas se você ficar aí choramingando não matará ninguém com suas lágrimas.
— Todos irão morrer — Arya parecia nervosa —, todos na minha lista.
Sandor a largou, a menção da lista o intimidou. Ainda sente ódio por mim. Depois de tudo que fiz por ela, não sou merecedor do seu perdão...
— Vá buscar Covarde e vamos partir imediatamente. Eu não acredito que ainda me quer morto. — Sandor se voltou novamente para seu cavalo colocou o alforje amarrado na sela. — Ela não compreende que eu era escudo juramentado de Joffrey e por isso fiz o que fiz. Estava seguindo ordens daquele demente. — Pensava o Cão, preparando Estranho para a perigosa cavalgada pela estrada de altitude.
Arya já tinha trazido Covarde para fora da caverna e equipado a montaria. Eles montaram e começaram descendo uma pequena encosta, mantiveram o silêncio por um longo tempo. As montanhas estavam encimadas por mantos brancos de neve, não havia pássaros cantando nem flores pelo caminho era a imagem da desolação causada pelo inverno. A visão estava limitada a uns quinze metros à frente devido à névoa que se espalhava como um véu. Quando chegaram a um vasto campo aberto Sandor desmontou e seguiu a pé levando Estranho pelas rédeas por cima do chão congelado, Clegane pegou uma grande pedra e a arremessou contra o gelo que se partiu e viu que havia água naquele lugar Arya e ele saciaram-se e também deram de beber aos cavalos. Quando pisaram em terra firme novamente, Clegane apertou o passo e Arya o seguiu com dificuldade se abaixando em cima de Covarde aqui e ali para não ser derrubada por galhos que surgiam no meio do caminho. O Cão de Caça mantinha um ritmo furioso seu manto negro era um turbilhão rodopiando ao vento e muitas vezes parecia uma assombração nas curvas da estrada.
Sandor Clegane parou bruscamente e fez um movimento com a mão, Covarde relinchou quando Arya puxou as rédeas com toda força para pará-lo.
— O que foi? Por que paramos? — A respiração de Arya saiu em lufadas de fumaça. Seu cavalo começou a andar em círculos.
O Cão de Caça sacou sua espada longa das costas.
— Ataque! — Falou enquanto abaixava a viseira do elmo.
Um grupo de selvagens usando pedaços de armaduras, alguns com machados, foice, forcados e lanças apareceram correndo no caminho oposto. Gritando e amaldiçoando golpeando a esmo, Sandor esperou até que eles entrassem em um estreito corredor ladeado na esquerda pela rocha lisa e pela direita grossas árvores.
— Venha atrás de mim! — Ele gritou para Arya e em seguida esporeou o grande corcel negro que obedecendo ao comando e avançou.
Arya sacou a espada média que Clegane havia lhe emprestado, a arma era pesada, mas ela havia enrolado uma tira de couro em volta do cabo e da própria mão às pressas para que a arma não caísse no chão.
— Malditos! — Bradou Clegane antes de fazer seu cavalo atropelar três selvagens que eram mais baixos que Arya. — Vamos, lutem. — Os forcados batiam na armadura cinzenta de aço do Cão de Caça e resvalavam sem sucesso. Sandor rodopiou sua espada longa cortando vários selvagens ao meio enquanto, Estranho mordia e escoiceava.
Arya acertou a cabeça de um selvagem que se aproximava dela, com um golpe usando as duas mãos no cabo da espada, quando o selvagem caiu ela percebeu que não passava de uma garota de uns treze ou quinze anos. Arya olhou em volta e aparou um golpe dado em direção de seu pescoço, rodopio a espada para cima e depois a desceu no ombro de seu atacante que não teve chance em se defender usando um pedaço de madeira como escudo. Mas a frente Clegane estava deixando um rastro de corpos pela estrada, Arya viu a neve ficar vermelha.
— Não os mates! — Gritou. — Pare Sandor!
O Cão de Caça pareceu não ouvir e continuou estocando, cortando cabeças e pisoteando pessoas com seu cavalo bem treinado.
— Avançar! Avançar — esbravejou Clegane.
Arya esporeou seu cavalo e saltou por cima de alguns corpos no chão conseguindo se aproximar de Sandor. Em seguida teve que atacar outro selvagem que estava segurando sua perna na tentativa de derrubá-la, ela o acertou com o cabo da espada entre os olhos e o garoto caiu. São só garotos, pensou enquanto cortava o braço de um jovem que brandia um machado velho e enferrujado, o selvagem caiu choramingando e amaldiçoando-a.
— Pare! — Ela voltou a gritar para Sandor. — São só garotos... não está vendo?
De repente Sandor colocou o braço na frente de Arya que ouviu um barulho de pedra batendo em aço. Arya gritou, Clegane havia aparado uma flecha com o antebraço esquerdo coberto pela manopla da armadura, ele soltou um urro e pegou a adaga na cintura e com um movimento rápido a arremessou entre os olhos do arqueiro. Meu escudo, meu protetor. Pensou Arya Stark.
— Mate os bastardos ou eles nos matam. — Clegane não olhou para Stark. — Flechas com pontas de pedra não penetram armaduras, mas podem matar se te acertarem em um local desprotegido.
— Vamos seguir em frente! — Arya exasperou-se. — Ele me protege com sua própria carne, levaria uma flechada por mim...
Clegane já estava saltando por cima de mais uns quatro selvagens amaldiçoando suas mães e cortando cabeças e braços com sua espada longa. Todo homem deve morrer. Pensou Arya, mas eram apenas garotos e garotas não mais velhos que ela nenhum garoto que vira correndo tinha barba no rosto. Jovens demais para morrer. Por que estavam atacando? O último selvagem gritava por misericórdia enquanto Sandor cortava sua barriga e suas vísceras caiam na neve.
Sandor limpou o sangue da lâmina da espada e a embainhou, retirou o elmo da cabeça.
— Não viu que eram crianças? — Arya questionou.
— E daí? — o Cão de Caça tinha o sorriso de troça nos lábios. — É matar ou morrer garota. — Fungou e cuspiu no cadáver de um selvagem com cabelos emaranhados amarrados com tiras de couro.
Sandor viu uma selvagem chorando e se arrastando pela estrada.
— O que vai fazer? — Arya estava boquiaberta.
Sandor desmontou e foi até o cadáver do arqueiro e pegou sua adaga de volta em seguida se voltou para a selvagem chorona.
— Não! — Arya gritou.
Clegane continuou com a caminhada.
— Não a mate! — Arya desceu de Covarde e correu para deter Sandor,
Era tarde demais Cão de Caça havia atravessado a selvagem com um forcado de três pontas pelas costas.
— Desgraçado! Maldito seja pelos deuses. — Arya começou a esmurrar a placa peitoral da armadura de Sandor.
Clegane a olhava com uma expressão vazia.
— Cale-se sua puta louca — Sandor segurou os pulsos de Arya.
Arya começou a se debater e a gruir.
— Pare com isso — Sandor a empurrou contra uma pedra arredondada e Arya ficou com as costas arqueadas para frente.
— Me solta... me larga. — Arya percebeu algo de diferente no modo como Clegane a olhava.
— Ou o quê? — Sandor segurava a mão de Arya acima da cabeça e mantinha seu quadril pressionando o dela contra a pedra. — Você me risca da sua listinha? Eu poderia tê-la aqui e agora. — O pensamento passou pela cabeça do Cão como uma brasa que desce da cabeça para as calças deixando tudo aquecido.
O medo corta mais profundo do que a espada. Arya engoliu em seco, era melhor se acalmar precisava de Sandor para chegar até o Ninho da Águia se estivesse enfrentado os selvagens sozinha talvez fosse ela caída ali na neve e não aquela pobre selvagem. Calma como águas paradas. Encarou Clegane com o olhar mais calmo que conseguiu.
— O que você está fazendo? Já pode me soltar. — Arya disse as palavras em voz baixa. — Sandor?
Clegane tinha um olhar sombrio no rosto e não se moveu.
— Sandor... o que...
— Estou pensando — ele olhou diretamente para os seios dela.
Arya sentiu o cabo da adaga contra a sua virilha, é claro que isso não é uma adaga. O pensamento fez seu coração saltar dentro do peito. Espero que seja rápido.
— Vamos logo — o Cão de Caça já havia libertado Arya e estava andando em direção a Estranho. — Que merda foi essa? Pense na recompensa seu asno.
Arya não entendeu por que Sandor a libertou, ela sentiu a violência nos olhos dele e sabia que seria estuprada.
— Anda logo garota-loba! — Gritou Sandor. — Vamos antes que apareçam mais desses vermes.
— São garotos!
— A guerra levou seus pais — Clegane já galopava. — O maldito Duende tinha uma guarnição de trezentos selvagens de estimação em Porto Real. Muitos morreram na batalha da Água Negra e também na batalha do tridente entre Lorde Tully, seu irmão e Tywin Lannister.
— O Duende passou por aqui enquanto era prisioneiro da minha mãe. — Arya ainda estava com a espada desembainhada na mão esquerda. — Só falta aparecer um gato-da-sombra. — Pensou enquanto olhava para as árvores que passavam a apenas alguns metros de seu flanco. — Ele me protegerá, ele agora é o meu escudo fiel.
Stark percebeu que o Cão de Caça estava cavalgando sempre entre ela e a floresta como um escudo. Se os selvagens saíssem aos gritos novamente, teriam que passar primeiro por ele. A floresta, antes densa começou a desaparecer e a rocha cheia de musgo ladeava os dois lados do caminho. Arya percebeu que o musgo e o capim que crescia entre as rochas ainda estavam verdes, aquilo era um sinal de que a neve era recente naquelas terras. O perigo de uma avalanche ou de cair em uma fenda escondida por uma fofa camada de neve não era eminente, ali naquele trecho da estrada aberta entre as rochas à terra negra saltava sobre os cascos dos cavalos. Eles começaram a subir uma encosta muito íngreme e Sandor achou melhor descerem dos cavalos e seguirem a pé, o caminho era estreito e as pedras escapadas lisas como lodo. Por cinco vezes Estranho escorregou na beira do precipício fazendo pedaços de rochas caírem para o nada. Arya evitava olhar para baixo, mas quando olhava não via nada além de um grosso nevoeiro. Covarde era menor que Estranho e não era difícil conduzi-lo pela estreita trilha, Arya e covarde seguiam na retaguarda enquanto Sandor e Estranho iam à frente.
— O sol já vai se por — Sandor olhava para as nuvens.
— Os que faremos no meio desse precipício, não têm onde deixar os cavalos nem onde descansarmos. — Arya falou alto, porque o vento uivava forte.
— Vamos continuar. — A voz de Clegane soou áspera.
A estrada começou a fazer uma curva para a direita e de repente ficou mais larga, mesmo assim o Cão de Caça não achou seguro seguir a galope, ele preferiu seguir a pé.
— A nevasca aumentou muito — Arya mal conseguia se afastar da parede de pedras. — Precisamos nos abrigar.
— Não! — Exclamou Clegane, estava determinado a avançar o máximo possível. — Sete infernos como estou cansado, só me falta ser morto por um desses filhos de rameiras. — Sandor tentava parecer o mais autoconfiante possível, estava cansado e com fome.
A montanha subia cada vez mais rumo ao céu e o ar rarefeito dificultava a respiração. Os cavalos relinchavam nervosos, mas o Cão de Caça abriu caminho pela tempestade e uma vez no topo tentou visualizar o Portão Sangrento, mas tudo o que viu era branco como a neve e não se podia distinguir entre os topos das Montanhas da Lua e as nuvens.
— Sandor por favor, não aguento mais. — Arya arfava e o ar saia por sua boca em longas lufadas de fumaça. — Estou tonta —, os pés de Stark vacilaram e ela escorregou para abismo. — SOCORRO! — Arya gritou o mais forte que conseguiu e tentou se agarrar as pedras que de tão afiadas rasgaram a pele de suas mãos. Ela fechou os olhos no desespero da morte sentiu um frio súbito no estômago.
— Segure-se com mais força! — Arya abriu os olhos e viu o rosto queimado de Sandor Clegane se contorcendo entre um emaranhado de cabelos escuros agitados pelo forte vento. — Te peguei! — Ele rugiu para ela enquanto a segurava pelo braço esquerdo. Clegane começou a içar Arya para cima novamente.
Clegane vacilou e Arya escorregou.
— Não! Não me largue por favor. — Arya começou a chorar.
Sandor soltou um gruído alto.
— Não á soltarei! — O Cão de Caça sentia os músculos dos braços arderem. Lentamente ele recomeçou a içá-la novamente até trazê-la para seus braços.
Arya soluçava e lágrimas escorriam pelo seu rosto. Sandor á abraçou e a segurou ali por um momento.
— Estou aqui — Sandor falou no ouvido de Stark —, calma... vou te proteger.
Arya não parava de chorar e Clegane segurou seu rosto com as duas mãos.
— O que é isso? Você não é dessas coisas, — Sandor limpou as lágrimas dela.
Arya não sabia o que dizer, então se abraçou ainda mais forte a seu salvador e ficou abraçada por um instante até que ele a afastou.
— Venha — o Cão a ergueu pela cintura e a colocou em cima de Estranho, pegou as rédeas de Covarde e continuou o caminho. — Eu tenho que entregá-la intacta, pela honra que me resta. — Ultimamente os pensamentos de honra e glória estavam povoando a mente de Clegane.
O Caminho começou a suavizar, as altas paredes de rocha bruta de ambos os lados da estrada impediam que o vento frio os açoitasse. A noite já havia caído e Sandor Clegane montou um acampamento próximo a uma pedra escapada que fornecia alguma proteção contra a nevasca. Ele não quis acender fogueira, naquela altitude seria fácil serem localizados pela fumaça, manteve os cavalos juntos de si e manteve guarda enquanto Arya se deitou exausta da viagem até aquele trecho.
— Cersei, Ilyn Peyne, Meryn Trant, Dunsen... — Arya estava citando a sua lista, mas foi interrompida.
— Ora vamos... continue e diga meu maldito nome. — Disse Clegane tentando ver o rosto da Stark que estava deitada e envolta no manto negro do Cão de Caça.
A tempestade havia passado e não se ouvia nada.
— Não quero mais... — Arya suspirou. — Não o quero morto.
O que será que está tramando agora? Clegane não conseguiu acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Não vai dizer nada? — Arya sentiu que Sandor se aproximou dela e se virou para encará-lo. — Vamos, diga algo...
— Tipo quê? Que vamos ser felizes para sempre? — Sandor se agachou perto de onde Arya estava deitada. — Não vai acontecer garota.
Arya não conseguia ver a expressão no rosto de Clegane por causa da escuridão.
— Não é tão complicado assim ...
— É claro que é — retrucou Clegane. — Se eu não te levar para seus parentes para onde iriamos? — Sandor se sentou em uma pedra e se encostou. — Sobre o que estamos falando? — fez um muxoxo com a boca como se não entendesse o motivo daquela conversa. — Ela é incapaz de falar sobre isso.
— Por que você não descansa agora e me deixa montar guarda, já estou melhor. — Arya se levantou segurando o manto envolta do corpo.
— Por mim, tudo bem — Clegane pegou o odre de vinho e bebeu um gole. — Me tirou da lista e flertou comigo, foi isso mesmo que aconteceu? A recompensa Cão, pense nos malditos dragões de ouro.
Não demorou muito para que Clegane adormecesse, o frio não incomodava tanto por baixo do grosso acolchoado de sua armadura que lhe mantinha bem aquecido. Ele deixou seu manto com a garota Stark que só trajava um gibão de couro por cima de uma camisa e calças de couro cozido. Sandor tinha forrado o chão com a pele de gato-das-sombras que ele havia pego do animal que assaltou Arya no acampamento no início da estrada de altitude, aquela pele era macia e quente o que fazia esquecer o seu cheiro horrível.
Sandor acordou com o crepitar de uma fogueira.
— Você finalmente acordou — Arya estava sentada comendo alguma coisa. Era uma coxa de coelho.
Sandor limpou os olhos e viu um coelho assando na fogueira.
— Por quanto tempo dormi? — estava nauseado.
— Coma —, Arya deu outra dentada na carne.
Sandor não esperou pela segunda ordem e sacou o punhal e cortou uma pata do coelho. A carne estava salgada e macia e o sumo escorreu pelo queixo barbudo.
— Temos que ir depressa — Clegane estava cortando mais um pedaço do coelho assado. — Podemos chegar ainda hoje ao portão, se esses malditos selvagens não estragarem tudo no resto do caminho.
Eles terminaram de comer e jogaram neve em cima da fogueira, começaram a cavalgar o mais rápido que os cavalos aguentavam. A estrada agora era uma longa descida que serpenteava ora para a esquerda ora para a direita. Alcançaram um pequeno vale onde o chão de terra batida estava bem escuro e Sandor percebeu que ali não fazia muito tempo, haviam estado alguns animais e pessoas. A terra escura estava cheia de pegadas com marcas de ferraduras e de solas de botas, Clegane não sabia se eram cavaleiros do Ninho da Águia ou selvagens, em todo caso ele optou por continuar na corrida rumo ao Portão Sangrento. Arya avistou uma pedra com uma inscrição numérica e uma seta apontando para à frente, aquilo era um sinal de que estavam se aproximando. A estrada voltou a se estreitar e tiveram que descer dos cavalos novamente, naquele pedaço já era possível ver alguns camponeses e soldados usando no gibão o símbolo da casa Arryn ou o brasão do grande portão sobre um campo vermelho, os soldados se empoleiravam em cima das colinas que ladeavam o caminho.
— Não está feliz? — Sandor Sorriu.
— Pensei que me deixaria feliz, mas não deixou. Arya estava enrolando a rédea de covarde na mão direita.
— Nada lhe deixa feliz — Sandor pegou o odre de vinho.
— Muita coisa me faz feliz... — Arya olhou Sandor nos olhos.
— Como o que? — A voz de Clegane saiu rouca
— ... Matar o Polliver, Rorge...
— Há, então está triste porque não pode matar o merdinha do Joffrey? É isso? — o Cão deu uma longa golada no vinho. — Eu sei que não é por isso. Ele pensou.
— Eu pelo menos queria ter visto ele morrer. — Arya confessou com um ar altivo. — Queria ver o olhar dele quando soube que estava acabado.
— Sim... nada no mundo supera aquele olhar — disse Sandor, e bebeu mais um gole do odre.
— Você o protegeu-o boa parte da vida. Acha que podia salvá-lo? — Arya viu os soldados se agitando e apontando para ela e o Cão de Caça.
— Eu não era a porra do degustador de vinho. — Sandor parou um pouco e olhou o portão —, o merdinha merecia morrer, mas veneno... É arma de mulher. Homens matam com aço.
Arya soltou um risinho afetado.
— É por isso que você nunca será um bom assassino — disse Arya enquanto limpava o rosto. — Eu mataria Joffrey com um osso de frango.
O Cão de Caça soltou uma gargalhada.
— Eu pagaria um bom dinheiro para ver isso. — Ele começou a coçar o pescoço onde havia sido mordido.
Arya começou a observá-lo, essa ferida deve estar totalmente infeccionada, ela pensou.
— Devia ter me deixado cauterizar isso.
— É mordida de pulga. — Retrucou o Cão de Caça.
— Essa mordida de pulga está fazendo você ficar lento.
— Bem... não teremos que andar por muito mais. — Clegane viu o Cavaleiro do Portão se aproximar.
— Acha que minha tia pagará por mim o quanto pedires?
— Ela pagará — a resposta saiu quase um sussurro.
— Você a conhece? — questionou Stark.
— Isso não importa, são do mesmo sangue. — Sandor olhou para um soldado que estava armado com uma longa lança à sua frente. — Família, honra... toda essa merda. Vocês senhores e senhoras são assim. — Sandor viu um grupo de arqueiro aparecer no flanco esquerdo por cima da colina.
— Não sou uma Lady.
— Quem quer passar pelo Portão Sangrento? — Um cavaleiro usando elmo e uma armadura prateada questionou de cima do passadiço entre as duas torres do portão.
Sandor parrou ao ouvi-lo e ver que os arqueiros tencionaram as cordas de seus arcos.
— O Cão de Caça, Sandor Clegane. E sua... — Ele olhou longamente para Arya, e seus olhos ficaram presos nos dela. —... Companheira de viagem Arya Stark, sobrinha da Senhora Lysa Arryn.
O Cavaleiro de armadura prateada tirou a mão do botão de sua espada e fez um aceno com a mão para o outro lado da montanha. Abram o portão! Sandor ouviu uma voz ordenar e as correntes de ferro começaram a estralarem e o grande portão começou a subir lentamente.
Fale com o autor