O Trono de Gelo e Fogo
8 A Mensagem e o Reencontro

— Maldito seja Petyr e sua proposta! — Ela gritou para Mya com olhos ferozes e se agarrando com as mãos a gola do gibão de couro da amiga com tanta força que Stone ficou sem ar. — Mais uma vez estou sendo usada como joguete entre homens. — Sansa tinha os olhos marejados de lágrimas, mas não demostrava uma gota de tristeza, ela era puro ódio.
— Passarinho... se acalma — Mya não sabia como fazer Sansa parar de destruir a mobília do quarto. — Você disse que ele irá propor, ou seja, ainda não aconteceu.
— Pobre Mya, minha querida amiga... minha ingênua criança. Você não conhece Mindinho como eu o conheço —, Sansa ficou com o rosto rubro e jogou alguns vasos que estavam em um aparador próximos da janela ao chão. — Desgraçado! — Ela arfava e soluçava com lágrimas escorrendo pelo rosto.
A dois dias atrás Sansa Stark havia se reunido com Lorde Petyr Baelish para o desjejum e entre presuntos e ovos, torta de pombo e empadão de porco, Petyr anunciou sua vontade de casar “Alayne Stone” com Harrold Hardyng o herdeiro do Ninho da Águia por direito, dada a fragilidade de Robin Arryn um menino enfermiço e fraco, mentalmente incapaz de governar.
O plano de Mindinho era reivindicar o Norte em nome de Sansa Stark assim que Harrold a desposasse e prestasse vassalagem a única e verdadeira Rainha do Norte.
— Fazem dois malditos dias que estamos aqui trancadas —, Stone se sentou na poltrona e arfou. — Não sei mais o que fazer para animá-la. — Mya contou a Sansa tudo que ela sabia; contou que Harrold apesar de sua pouca idade já tinha dois filhos bastardos e mais um a caminho. E o sucesso de seus relacionamentos não eram iguais as vitórias nos torneios de justa. — Você quer ficar guardada a vida toda? Para quê? Ou quem? — Mya se ergueu e colocou a mão sobre o ombro de sua amiga.
— Isso não vai ficar assim Mya —, Sansa se virou para encará-la. — Eu vou fazê-lo pagar caro por me trair e me vender como uma meretriz qualquer.
— Mas você é ... — Stone não terminou a questão.
— Sim, é claro que sou. — Sansa fechou a camisola suja que usava já a dois dias.
Sansa pareceu se acalmar, nos últimos dois dias ela se trancou no quarto com sua amiga Mya Stone e tudo o que fazia era chorar, esbravejar quebrar a mobília e dormir. Às vezes Mya tentava fazer com que a garota Stark comesse alguma coisa, mas Sansa se recusava.
— Como eu queria te salvar — Mya fitou Sansa nos olhos. — Me diga ele vai a Porto Real? Vamos fugir deste lugar, só você e eu. Eu conheço essas te...
Sansa segurou o rosto de Mya entre suas mãos e se aproximou até que suas frontes se encontraram.
— Você é ... — Sansa foi interrompida por batidas na porta de seu quarto.
Mya Stone foi até a porta a passos largos a perguntar:
— O que quer? — ao mesmo tempo ela já tinha aberto a porta e se inclinando para encarar Iris Redfort.
— Preciso vê-la.
— Não, não precisa — Mya cruzou os braços e ficou no meio da porta impedindo a passagem de Iris.
— Sansa! — Iris exclamou enquanto tentava olhar por cima dos ombros da garota alta e de cabelos negros curtos que lhe barrava a passagem. — Lady Sansa!
Mya empurrou Iris com as duas mãos e a garota estatelou as nádegas no chão de pedra. Myrcalla saiu das sombras do corredor para ajudar Iris a se levantar.
— Eu disse não — Stone esboçou um sorriso sínico. — Ela quer apenas a minha companhia. — Entrou para o quarto e bateu a porta atrás de si.
— Essa maldita garota — Stone voltava para perto de Sansa. — Eu não confio nela.
— Em quem podemos confiar além de nós? — os olhos de Sansa voltaram a se encher de lágrimas.
Mya levou as mãos à cabeça como se tentasse arrancar os próprios cabelos. O quarto estava uma bagunça com cacos de porcelanas por todo lado, restos de comida pelo chão e mobília revirada por toda parte.
— Eu não sei, todas essas questões fazem a minha cabeça estourar. — Mya chutou o pé da poltrona —, eu não aguento isso! Eu não aguento vê-la sofrer.
— Os únicos homens em que eu confiava estão mortos ou longe demais.
— Homens... são todos iguais — Mya ergueu os braços ao falar. — Eles veem e vão ou morrem, quem se importa. — Ela abraçou Sansa que chorava e soluçava, ficaram assim durante um bom tempo.
Chorar não me fará livre, alguma coisa dentro de Sansa á forçava a procurar uma solução em meio ao caos onde ela se encontrava. Se ao menos Jon estivesse aqui comigo. Meu querido meio-irmão, meu herói sombrio. O pensamento trouxe um lampejo de esperança a Sansa, já que Jon Snow, pelo que ela sabia, ainda estava vivo.
Mya afastou Sansa e com a mão retirou uma mecha de cabelo acobreado da frente daqueles profundos olhos azuis como o céu.
— Preciso escrever uma mensagem —, Sansa mordeu o lábio inferior. — Ninguém pode ficar sabendo do conteúdo — se dirigiu para sua mesa, onde em um fundo falso atrás da última gaveta guardava pena e tinta longe dos olhos de Mindinho. — Antes que me pergunte para quem, — Sansa olhou para Mya, fazendo um sinal com o dedo indicador em frente de seus lábios pedindo silêncio. Stone entendeu que a sua senhora não queria ouvir perguntas sobre aquilo.
Durante alguns minutos Sansa se concentrou no papel a sua frente, a pena não parava de se mover na sua destra. Ela sorria com lembranças passadas que vinham a sua mente, a época da inocência, da descoberta, do proibido em Winterfell. Querido Jon, como seria doce vê-lo novamente. Sansa se lembrou do sonho que teve com sua tia Lyanna, ultimamente pesadelos e alucinações a acometiam mesmo estando acordada a garota Stark via coisas, Lobo gigante junto a árvores-coração a figura encapuzada segurando uma coroa exigindo vingança, o lobo negro e medonho que vinha pelas Montanhas da Lua. Para decifrar suas visões ela orava aos deuses novos e antigos, mas até agora como antes, os deuses estavam calados.
Sansa Stark terminou de escrever a mensagem e a fechou com cera quente.
— Mya, faça o Meistre Colemon sair da torre.
— Como farei isso, aquele velho doente parece estar petrificado lá. — Stone posou as mãos na cintura e começou a bater o pé no chão. — Ele está de olho em nós — caminhou para perto da mesa onde Sansa ainda estava a escrever em outro pedaço de papel.
— Aqui está, — Sansa levantou o segundo papel para Mya. — A primeira mensagem que ela havia escrito estava guardada próxima a seus seios.
Mya demorou um tempo para ler.
— Para Harrold Hardyng? Não entendi?
— Sim, bobinha — sorriu —, em seguida peça á ele leite de papoula e faça de tudo para que Colemon venha ver o meu estado. Eu não estarei aqui. Pedirei a Myrcalla que suba comigo até a torre dos corvos e envie a minha mensagem, a verdadeira mensagem. Myrcalla sempre ajudou Colemon devido a muita idade que o meistre tem, ele não consegue dar conta de todos os seus afazeres por isso ensinou a garota de Asshai como lidar com os corvos mensageiros. — Sansa obteve o máximo de informações e referências das pessoas que a cercavam. — Você deve trazê-lo até aqui, não poderás falhar. Meistre entregará a Petyr tudo que eu escrever por isso tenho que manda a mensagem sem que ele saiba.
— Sansa, isso é perigoso, o meistre é muito desconfiado ele irá sair, mas fechará a porta da torre. — Mya já viu esse hábito do velho homem, de quando saía de seus aposentos serrava a porta com chave. — Como vocês farão para entrar?
— Não te preocupas, sei como contornar esse obstáculo — disse a Stark.
— Então irei avisar a Myrcalla para vir até você e em seguida, irei para a torre dos corvos. — Mya girou nos calcanhares e seguiu a passos largos para a porta.
— Não deixe que Iris venha junto! — Exclamou a ruiva aparecendo no anglo de visão de Stone.
A garota alta de olhos azuis e cabelo negro como carvão acenou positivamente com a cabeça.
Alguns minutos se passaram e Myrcalla apareceu arfando na porta, Sansa a esperava sentada na cama, ainda usando a camisola branca e suja com os cabelos ruivos soltos e bagunçados.
— Minha Senhora, chamou-me — fez uma reverência.
— Preciso que faça algo para mim — Sansa pegou a garota de cabelos escuros e olhos amendoados pelo braço e a levou pelo corredor. — Vamos, ande mais rápido Myrcalla.
Myrcalla não sabia o que Sansa queria.
— Minha Senhora o que quer que eu te faça? — perguntou a Asshai’i. — Por que ela está saindo pelo castelo de camisola?
— Irás saber quando chegarmos a torre do Meistre Colemon. — Sansa respirava com bastante ansiedade.
Elas cruzaram um grande corredor que ligava as torres norte e sul do castelo e em seguida Sansa e Myrcalla se abaixaram onde a escada da torre descia para se ocultar da visão de quem descia pela mesma escada.
— De quem estamos nos escondendo?
— Mya — Sansa fez sinal para Myrcalla se calar. — Mya vai levá-lo pelo corredor aí nós subimos até a torre.
A torre onde ficava os aposentos do meistre era o lugar mais deteriorado e sujo do castelo, as pedras da escada eram cinzentas e gastas pelo tempo as paredes não tinham nenhuma cor. As poucas janelas que tinham ao longo da subida eram estreitas e pouca luz passava por elas, o cheiro de excremento de corvo era horrível mesmo estando a certa distância dos aposentos do velho Colemon.
— Está vindo alguém — sussurrou Myrcalla. Deu uma olhada para a mão direita de Lady Sansa que estava sobre o cabo de uma adaga de aço valiriano. — O que ela faz com uma arma dessas?
— Fica quieta — a ruiva colocou a mão esquerda no ombro da pequena garota de pele morena para força-la a se abaixar.
O meistre vinha reclamando da pressa com que Mya o vazia descer os degraus.
— Calma minha jovem — ele apoiava uma das mãos nas pedras da parede da longa escada em forma de espiral. — Na volta enviarei a mensagem de Lady Sansa, assim que a ler primeiro obviamente.
— Certo, mas vamos logo — Mya desceu três degraus na frente do velho Colemon. — A Senhora Sansa não dorme a dois dias. — Ela viu Sansa e Myrcalla se esconderem na curva da torre.
— Com essas pernas — Colemon olhou para as nádegas musculosas da bastarda que eram salientes na calça de couro cozido —, poderia me levar nas suas costas.
Stone limitou-se a dirigir-lhe um olhar de nojo.
Sansa e Myrcalla começaram a se esgueirar pela parede e subiram a escada aos saltos de dois degraus por vez, alcançaram o topo arfando de cansadas.
— Vamos Myrcalla abra a porta do quarto do meistre.
— Sim — A Asshai’i tateou a parede com as mãos e retirou uma pedra quadrada do lugar e enfiou a mão dentro da cavidade trazendo uma chave nas mãos. Tocou a fechadura e a porta abriu. — Os corvos estão em gaiolas no sótão.
— Suba até lá e pegue o corvo mais esperto e mais forte para enfrentar uma viagem até a Muralha ao norte. — Sansa ficou no quarto enquanto a sua serva subia uma escada de madeira para chegar até um sótão de madeira improvisado.
Os corvos começaram a fazer barulho.
— Acalme-os, não podemos ser vistas aqui.
— Já estou descendo — Myrcalla apareceu na ponta da escada com uma gaiola grande nas mãos.
Sansa viu o corvo dentro da gaiola, era grande e tinha uma cicatriz do lado esquerdo de sua cabeça negra e uma bola branca no lugar do olho.
— Ele é caolho?
— Sim minha Senhora —, Myrcalla já estava preparando a pequena bolsa de couro atada na pata da ave. — Ele já voou mais de sete vezes para a Muralha.
Tomará que ele consiga vencer a neve e o frio. Sansa meditou como se estivesse rezando.
— Dei-me a mensagem... Senhora?
Sansa hesitou, mas pegou o pequeno papel e o beijou e em seguida o entregou a sua serva. Myrcalla não perdeu tempo e o colocou no recipiente de couro atado na pata do corvo e levou a ave até o parapeito de uma grande janela.
— É agora, — ela fez um impulso e lançou o corvo para o céu.
Sansa Strak correu para perto da janela e ouviu o grito da ave quando ela bateu as asas e fez uma curva em direção ao norte.
— Asas escuras... — uma lágrima escorreu — promessa de esperança. — Sansa desejou com todo coração que aquela ave chegasse até Jon Snow. — Jogue a gaiola no abismo, não vamos deixar provas.
Myrcalla não entendeu, mas obedeceu a sua Lady sem questionar.
Quando se virou Sansa viu uma grande estante cheia de vidros lacrados e catalogados. Estendeu a mão para o fundo onde havia um pequeno frasco com algumas pedras azuladas dentro.
— O que é isto? — inquiriu Myrcalla
— Lágrimas — Sansa olhava o frasco contra a fraca luz de uma vela. — Vamos sair deste quarto fétido. — Ela colocou o frasco perto dos seios.
Um sorriso brotou no rosto da ruiva e ela se sentiu aliviada do que tinha conseguido, todo o plano tinha sido um sucesso, Myrcalla já estava abrindo a porta novamente quando Sansa olhou para a escada e viu Colemon subindo os degraus segurando sua toga e com o rosto vermelho e suas narinas delatadas.
— O que estão fazendo mocinhas? — o meistre pegou Myrcalla pelos cabelos —, me digam... o que fizeram.
Myrcalla lutou para se libertar das mãos de Colemon.
— Pare com isso agora! — Sansa falou com autoridade, e foi tentar libertar a garota das garras do homem magro e de cabelos brancos e ralos.
Colemon empurrou Sansa para trás e jogou Myrcalla no chão e depois chutou o estomago da garota.
— Está muito encrencada Senhora — ele andou em direção a Sansa. — Irei disciplina-la com pra...
Antes que terminasse a frase, o meistre levou um forte chute nas costas e cambaleou.
— Sansa fuja! — Gritou Mya Stone.
Colemon se levantou e jogou alguns frascos da estante em Mya que levantou os braços para se proteger e levou um soco no estômago.
— Maldita bastarda — o velho meistre olhou para a própria mão direita que estava trêmula. — Vou te punir mais que as... — Colemon soltou um gruído de dor.
Mya levantou o rosto e viu que sangue negro escorria da boca desdentada do homem, em seguida viu a ponta de uma adaga atravessar-lhe o peito. Colemon caiu de joelhos no chão e Stone viu Sansa em pé com a mão suja de sangue.
— Eu tinha que fazer algo.
As garotas se entreolharam.
Colemon agonizava no chão se engasgando com o próprio sangue.
— O que faremos agora?
— Ajude-me aqui — Stark colocou o pé nas costas de Colemon e arrancou a adaga puxando-a pelo cabo de osso de dragão. — Vamos Mya, segura ele pelos braços. — Ela segurava as pernas de Colemon. — Myrcalla pare de choramingar e venha logo aqui.
— O que vai fazer?
— Vamos jogá-lo — Sansa e Mya carregavam o cadáver que ainda se movia. — Lance-o pela janela. — O que faço com Myrcalla e Mya. — Ela temia que Myrcalla contasse o ocorrido a Iris e logo Petyr ficasse sabendo e desistisse de sua viagem para Porto Real.
Elas jogaram o corpo do Meistre Colemon pela mesma janela de onde Myrcalla havia despachado o corvo com a mensagem. Mya Stone e Myrcalla ficaram olhando para Sansa Stark com olhos atônitos. Até onde ela iria por seus objetivos? Um silêncio tumular se seguiu, as três garotas saíram do quarto e o fecharam por fora. Sansa desceu as escadas sempre com a destra pousada sobre o cabo da adaga. Foram para o quarto onde Sansa mandou que Myrcalla fosse buscar Iris Redfort para preparar seu banho e roupas limpas. Ela se banhou e se vestiu toda de púrpura por cima da roupa colocou um longo casaco de lã lilás, seus cabelos foram presos em duas longas tranças enroladas por cima das orelhas como dois tapas ouvidos. No pescoço uma corrente de ouro branco com uma águia abrindo as asas com olhos de safira, para completar os adornos duas pulseiras também de ouro branco uma em cada pulso com entalhes de penas de águia faziam Lady Sansa Stark parecer a Senhora do Ninho da Águia. Ela comeu frutas secas e bebeu vinho doce de Dorne, mascou menta para refrescar o hálito. Deixou Myrcalla e Iris junto com mais duas servas organizando seu quarto e desceu para o Alto Salão.
Petyr estava parado com as mãos nas costas olhando o trono do salão que ficava abaixo.
— Minha Senhora —, Petyr saldou sem se virar para a garota. Ele estava usando um manto carmesim sobre o ombro direito que pendia até o chão, sustentado por um broche de prata em formato de Tejo, seu casaco era de lã negra com o colarinho debruado com pele de zibelina, botões de ouro com arabesco entalhados e um cinto também de ouro completavam seu visual.
— Está de partida para Porto Real? — Sansa disse mantendo uma expressão séria.
Baelish se virou e tomou a mão direita de Sansa e a beijou.
— Sinto muito, mas terei que me ausentar por alguns dias. — Ele a olhou e sorriu com o canto da boca. — Alguma ordem?
— Por que você arranjou esse casamento? — Sansa retirou sua mão de sobre a mão de Baelish. — Eu não irei. Hora do jogo, pensou a Stark.
— Não? — Mindinho a segurou pelos ombros. — Por uma vez, me es...
— Não, não e não! — Sansa balançou a cabeça negativamente. — Não vou me casar com esse aventureiro.
— Sansa! — Petyr a fitou —, por quanto tempo mais irá se esconder aqui? Você tem sido uma sombra desde a morte de seu pai. Está na hora de tomar uma atitude e agir. Você é a legítima herdeira de Winterfell.
— Não! — Sansa exasperou-se. — Não pode me obrigar me lançarei pela Porta da Lua.
— Sansa... — Baelish a segurou com mais força.
— Não me force — os olhos da Stark ficaram marejados. — Acredite, eu tirarei a minha própria vida. A armadilha aqui é para um Tejo e não para uma loba. — Sansa se lançou de joelhos no chão e abraçou as pernas de Lorde Petyr. — Eu imploro não me obrigue.
Petyr Baelish ficou imóvel por alguns minutos, em seguida ergueu a garota do chão e a abraçou.
— Eu não a forçarei a fazer nada. — Mindinho a olhou nos olhos e sentiu uma satisfação em ver sua Sansa tão submissa à sua vontade. — Ainda não percebe como me importo com você? Ela não quer casar-se porque está atraída por mim. — O pensamento apareceu tão rápido em sua mente que Petyr não acreditou que ele era ele mesmo. — Basta então! Eu cuidarei de você, vingarei sua família e darei o que é seu por direito, mas preciso de ajuda para isso. — Petyr fez um afago no rosto de Sansa e secou suas lágrimas com um lenço de seda.
Sansa sorriu, ela sabia que Mindinho não cancelaria o noivado dela com Harrold Hardyng assim tão facilmente.
— Você precisa entender, que Harrold é um grande guerreiro e através dele você reconquistará seu lar novamente. — Mindinho beijou os lábios de Sansa de forma suave. — Preciso ir agora — ele deu alguns passos em direção a grande porta do salão. — Você estará bem guardada aqui, dei ordens expressas para que não seja incomodada por ninguém. — Saiu pela porta acompanhado de Sor Lothor e mais dois homens.
Sansa olhou para Mya Stone que estava encostada a parede em um canto escuro perto da escada do trono. Agora começa o jogo de verdade, pensou. Tenho que me preparar para sair desta gaiola. Ela se dirigiu para seus aposentos e no caminho percebeu que a segurança havia aumentado, ao chegar em seu quarto despiu-se e se deitou para dormir, solicitou que a deixassem a sós.
Acordou com um arranhar na porta de seu quarto, ela se levantou da cama sentiu o chão frio quando pisou com os pés descalços. Quem está aí? Não escutou vozes nem barulho de passos ou batidas, só o arranhar como de garras de algum animal. Continuou andando até chegar a porta e encostar o ouvido na madeira para tentar ouvir com mais atenção, silêncio, nada mais se ouvia e lentamente abriu a porta para ver se tinha alguma coisa do outro lado. Seu coração saltou dentro do peito quando viu um lobo todo negro com o focinho cheio de cicatrizes e olhos brilhantes como as chamas das velas, estava sentado olhando diretamente para ela. O Animal mostrou os dentes e começou a rosnar, Sansa teve medo e se afastou, era tarde demais, o animal saltou para cima dela.
— Aaah! — Sansa acordou com o barulho do próprio grito, estava suada e arfando.
Ouviu batidas a porta.
— Sim! — Exclamou a Stark.
— Senhora, sou eu Iris.
Sansa foi até a porta para abri-la.
— O que quer?
Iris fez uma reverência.
— Lady Sansa, Albar Royce está no Alto Salão — Iris arregalou os olhos. — Ele traz notícias do Portão Sangrento.
— Quais?
— Ele disse que Sandor Clegane... — Iris foi interrompida.
— Quem? Ele disse que estou aqui? — a respiração de Sansa ficou entrecortada. — Ele não pode estar aqui a mando dos Lannister. Ele desertou na Batalha do Água Negra.
— Não Senhora — Iris caminhou até uma janela e a abriu. — Este cavaleiro diz que está acompanhando a sua irmã Lady Arya Stark.
— Minha irmã? — Sansa disse as palavras pausadamente. — Inacreditável a sorte deste Cão. — Você os viu? Não Sandor não sabe que estou aqui é impossível. Pensou e em seguida questionou:
— A quem estão procurando? — Sansa passou a mão embaixo de seu travesseiro onde guardava a adaga de aço valiriano.
Iris colocou um dedo na boca antes de falar.
— Eles não sabem que está aqui — Ela arrumou uma mexa do cabelo loiro-arruivado. — Sandor Clegane procura por Lady Lysa.
— Interessante — Sansa largou o cabo da adaga. — Ajude-me a se vestir.
Iris molhou um pano com água quente e colocou nele óleo de especiarias e passou nas áxilas de Sansa e no meio de suas pernas. Depois de limpá-la, pegou um vestido de seda-areia todo rendado com renda de Myr e encrustado de rosas de tecido com ramos verdes. Pintou os olhos de Sansa para disfarçar as olheiras e passou pó nas maçãs de seu rosto, nós pés sapatos de couro com saltos de madeira.
— O que quer que faço com seu cabelo?
— Deixe-os soltos, obrigada. — Sansa passou os dedos entre as longas madeixas ruivas que pendiam no seu ombro e seguiu para a porta.
Mya estava no corredor conversando com um dos soldados que fazia guarda, Sansa Stark a olhou com desaprovação e Mya logo deu fim no sorriso e foi para perto dela.
— Onde estamos indo? — questionou Mya andando às pressas para acompanhar Sansa e Iris.
— A Sala do Trono — Iris respondeu de pronto. — Antes que me pergunte o que iremos fazer lá...
Sansa a interrompeu.
— Vamos nos encontrar com Sor Albar. — Sansa jogou os cabelos para trás dos ombros. — Ele tem notícias sobre minha irmã, Arya.
No Alto Salão próximo a Porta da Lua, Sor Albar usava seu uniforme costumeiro. Um gibão púrpuro de couro cozido com o brasão do grande portão negro sobre a lua crescente e runas de bronze, usava botas de couro marrom com hastes de bronze a cota de malha tinha a mesma cor. A touca de anéis de bronze pendia solta de seu pescoço caindo sobre as costas.
— Lady Sansa — ele virou com as duas mãos nas costas e fez uma reverência.
Sansa estendeu a mão direita, Albar a beijou.
— Diga-me Sor, viu o visitante?
Albar passou a mão pelos cabelos negros desgrenhados.
— Sim minha Senhora. — Ele sorriu —, não esqueceria aquele rosto nem se quisesse. A cara de Sandor Clegane é muita feia. Eu já o enfrentei em alguns torneios.
— E a garota que está com ele, você falou com ela?
— Sim, ela diz ser Arya Stark sobrinha de Lady Lysa. — Albar se aproximou de Sansa. — Chegaram ao Portão Sangrento a um dia atrás, e agora estão em uma cela no Portão da Lua.
— Entendo... — Sansa fez um suspense — Traga-os até mim.
— Sansa é perigoso, Sandor Cle... — Mya foi interrompida por Sansa que fez um sinal com a mão para que ela se calasse.
— Não há perigo, ele veio apenas entregar minha irmã Arya. — Sansa olhou para o trono do Ninho da Águia. — Já que Sandor quer falar com a Senhora do Vale vamos dar a ele uma oportunidade.
— Senhora, é provável que Clegane peça um valor em resgate de sua irmã. Visto que ela seja realmente sua irmã. — O Cavaleiro balançou a cabeça negativamente. — Lorde Nestor está resistente em deixá-la vê-los.
— Traga-os até mim — Sansa começou a subir a escada que dava para o trono. — Peça a Lorde Nestor uma escolta e que ele venha junto se quiser. Maldito sanguessuga, mais um dos lacaios de Mindinho. — Quanto mais o tempo passava, mas Sansa sabia onde estavam os espiões de Petyr Baelish.
— Sansa... o que irás fazer? — Iris á seguia de perto.
— Vamos brincar de Senhor e Senhora do Vale — Sansa a olhou por cima do ombro —, diga-me Iris, você quer ser rainha?
Albar ainda estava no meio do salão.
— Lady Sansa, meu pai me disse que era melhor esperarmos pelo retorno de Lorde Petyr e...
— Sor Albar, se a garota que está com o Cão de Caça for mesmo minha irmã — Sansa passou o dedo sobre a árvore retorcida que era o trono do Ninho da Águia. — Petyr não vai gostar nada de saber que; vocês a mantiveram como cativa em uma cela comum. — Sansa tencionou o maxilar, e sua boca se transformou em uma linha dura e reta.
Sor Albar fez a mesma expressão, em seguida fez uma reverência rígida e saiu.
— Qual o plano? — Iris pareceu animada. — O que faremos?
— Vamos te fazer Lady Lysa Arryn —, Sansa tinha um sorriso de canto de boca —, vamos nos preparar. Se der algo errado talvez Sandor me livre de você como me livrei de Colemon. — Sansa passou as mãos nos cabelos de Iris.
As garotas voltaram para o quarto de Sansa Stark, e começaram a preparar Iris Redfort para que se parecesse com uma senhora. Ela vestiu o longo vestido de seda púrpura que Sansa havia usado antes da partida de Mindinho para Porto Real. A garota Stark lhe emprestou algumas joias, e por fim colocaram um manto debruado com penas de águia no colarinho e nas bordas. A indumentária ficou um pouco grande demais na garota de rosto sardento e cabelos loiros-arruivados, isso se deu porquê Sansa era uns dez dedos mais alta que sua dama de companhia. Iris Redfort e Mya Stone retornaram para o Alto Salão, mas Lady Sansa ficou em seu quarto. Ela saiu em seguida e foi até o antigo quarto de sua falecida tia, havia lá uma estátua de uma águia feita de mármore branco sem manchas com olhos de safira. Atrás da base quadrada de mais ou menos um metro e trinta centímetros havia uma alavanca feita de bronze, Sansa a puxou com toda a sua força para baixo e a estátua começou a se mover para frente com um ruído de metal sobre trilhos. Aos poucos foi-se revelando no local um alçapão com uma escada de madeira, o ambiente era escuro e Sansa pegou um archote para descer até lá embaixo. Lá era o cofre secreto do Ninho da Águia, Sansa o descobriu em uma noite em que dormia com seu primo Robin Arryn, o garoto delirava em meio a uma febre e fortes tremedeiras. Robin balbuciava palavras e mencionava um esconderijo a prova de Lannister. O cofre era abaixo do piso do quarto, era uma sala com uns oito metros quadrados abarrotada de baús e peças de ouro, prata e cobre e na parede leste uma única janela estreita com barras de ferro e uma cama logo abaixo. Sansa pegou uma bolsa de veludo vermelha ornada com renda da mesma cor e colocou nela cem dragões de ouro e voltou a subir a escada. Puxou a alavanca para cima e a águia de mármore voltou para cima da abertura a ocultando completamente.
No Alto Salão, Sansa encontrou Iris Redfort sentada no cadeirão feito com o tronco retorcido de um árvore-coração, estavam ao lado Myrcalla e Mya Stone que usava vestido negro sem adornos.
— Vestindo-se como uma Lady? — questionou a Stark com um ar de zombaria.
— Oras... não me venha com piadas de saltimbancos. — Mya jogou os cabelos negros e curtos para o lado. — Se é para fingir façamos bem.
— Iris use isto —, Sansa tirou da manga do vestido uma tiara de prata com vários pendentes que ocultariam parcialmente a face da garota Redfort.
— O que falo a este homem?
— Deixa que ele fale primeiro. Ficarei atrás do trono para dizer o que responder e ver se a garota é mesmo minha irmã. Tomara que seja mesmo a Arya, ao menos uma alegria nestes dias tão frios.
A luz do dia entrava pelas muitas janelas que rodeavam o Alto Salão, mas os servos começaram a espalhar braseiros para esquentar o ambiente e acenderam as tochas, archotes e as grandes lanternas pendentes de bronze para melhor iluminar a grande sala oval.
Após algumas horas Albar Royce apareceu na porta dupla.
— Senhora — Fez uma reverência. — Trago a sua presença Sandor Clegane. — Sor Albar subiu a escada até o trono para avisar a Sansa que Nestor Royce sabia que Iris Redfort fingiria ser Lady Lysa, mas não havia concordado de bom grado.
Ouviu-se um barulho de botas batendo contra a pedra e de aço de cota de malha e três soldados do Portão da Lua entraram em seguida um homem alto com cabelos negros bagunçados usando uma armadura de um tom de cinza fuliginoso, ao lado uma garota de cabelos castanhos olhos acinzentados e frios usando uma esfarrapada camisa que um dia foi branca e um gibão curto de couro totalmente negro, usava calções e botas de montaria. Arya minha irmãzinha desafortunada, Pensou Sansa ao espiar por detrás do trono. Ela mesma, não tenho dúvidas. Entraram mais três soldados e antes que a porta se fechasse Lorde Nestor Royce apareceu segurando seu elmo em baixo do braço esquerdo usando sua armadura com a placa do peitoral de bronze com runas entalhadas, sua armadura estava tão polida que parecia feita de fogo.
— Lady Lysa — ele andava a passos largos. — Trago a sua presença o criminoso Sandor Clegane e está garota —, ele apontou Arya com a mão enluvada — que se nomeia Arya da Casa Stark, filha de Catelyn e Eddard Stark.
Sansa Stark sentiu o coração saltar dentro do peito quando olhou o rosto do Cão de Caça; é o Sandor mesmo. Ela sussurrou para Iris:
— Pergunte o que ele quer.
Iris Redfort se arrumou no trono e com uma voz torpe perguntou:
— O que deseja de mim Sor?
Clegane fez um meneio de cabeça.
— Que brincadeira é essa? — Sandor olhou para Nestor. — Essa aí não é Lysa Arryn. Não sei o que está acontecendo, com tanto que me paguem ao inferno os nobres e seu joguinhos.
Essa aí não é minha tia, essa garota não deve ser nem dois anos mais velha que eu. Pensou Arya Stark.
— Responda à pergunta Cão de Caça! — Albar exclamou de cima da plataforma onde estava o trono.
— Trago a sua sobrinha Arya Stark, ilesa — Sandor olhou para a garota a seu lado com um sorriso sínico nos lábios meio-queimados.
Iris esperou as instruções de Sansa.
— Pergunte qual a recompensa que ele deseja por tal feito.
Iris fez conforme o ordenado:
— Qual a paga que deseja por seu feito? — Iris percebeu que o homem a olhava diretamente nos olhos com o cenho franzido.
— Setenta dragões de ouro! — Exclamou Clegane.
Arya deu um olhar de incredulidade ao Cão de Caça, e pensou: É aqui o fim da nossa jornada.
Sansa sussurrou novamente para Iris concordando com o valor e a mandou fazer mais uma pergunta. Ela sabia que Sandor não poderia voltar para Porto Real e gostaria de saber para onde ele iria.
— Concordo com o valor do resgate Sor. Mas diga-me, o que fará depois que se for do Ninho da Águia?
— Viajarei pelo Mar Estreito rumo as terras livres.
— E seu juramento a Casa Lannister?
— Eu o quebrei quando percebi a loucura do rei menino na Batalha do Água Negra. — Sandor pareceu engasgar-se com as palavras. — Tentei resgatar sua outra sobrinha, Lady Sansa Stark, mas ela teve medo e não confiou em mim para a realização deste feito. Espero que me ofereçam um lugar na guarda do castelo. Sandor divagava com o pensamento quando ouviu:
— Vejo agora que é um homem de palavra Sandor Clegane. — Sansa se revelou.
— Não pode ser! — Sandor ficou boquiaberto. — Pelos Sete Cretinos... — seus olhos ficaram marejados. — Passarinho... você está viva.
Arya soltou uma longa gargalhada.
— Agradeço por ter trazido minha irmã —, Sansa se aproximou do corrimão da escada que dava para o trono. — Arya venha até mim.
— Cuidado Senhora —, Sor Albar sussurrou para Sansa e colocou a mão direita no botão de sua espada.
Arya hesitou e vagarosamente começou a subir os degraus olhando para sua irmã como se estivesse vendo um fantasma. A luz difusa que entrava pelas grandes janelas que ficavam atrás do trono refletiam na seda branca do vestido de Sansa Stark lhe conferindo uma imagem altiva de inigualável beleza.
— Sansa... como conseguiu fugir das garras dos Lannister? — Arya ainda duvidava que aquilo estava acontecendo.
Sansa abraçou Arya Stark, é mesmo ela, não há dúvidas. Em seguida disse:
— Calma irmãzinha tudo vai dar certo agora que estamos juntas novamente. — Sansa a segurou pelos ombros e a encarou —, o que passou hoje não importa mais, juntas faremos justiça contra aqueles que nos afligiram.
Lady Sansa percebeu que Nestor Royce estava inquieto com alguma coisa, vamos ao jogo. A Stark sabia que ele iria tentar se comunicar com Mindinho; isso será impossível já que Meistre Colemon deu um salto para o nada. Sansa resolveu fazer o teatro das nobres senhoras e senhores.
— Senhora Stark! — Exclamou Lorde Royce — irá libertar este criminoso procurado pela coroa? — ele apontou Sandor Clegane.
Sandor se limitou a soltar um risinho rouco-arranhado.
— A coroa a qual refere-se Lorde Intendente não é reconhecida aqui no Ninho da Águia e tão pouco pela minha família, o rei que decretou a sentença sobre este homem —, Sansa fez um sinal com a mão para o Cão de Caça. — Está morto e sua corja de assassinos procura matar-me. — Ela segurou Arya pela mão e andou até o centro da plataforma ficando na frente do trono onde Iris Redfort estava assentada. — Este Cão ficara sob minha custódia até que me conte tudo sobre a viagem até aqui e depois será livre para ir. — Os olhos azuis celestes de Sansa fitaram Clegane.
Sandor parecia não acreditar no que ouviu e viu até agora.
Sansa deu ordens para manterem Sandor Clegane em uma cela enquanto ela conversava com a sua irmã Arya Stark. Elas foram para a Sala Comum onde Arya comeu um guisado de carneiro com pão preto e melões de sangue como sobremesa. Arya contou toda a história de como assistiu à decapitação de seu pai na praça do Septo de Baelor e como se fingiu de menino para viajar com Yoren rumo a Winterfell. A conversa se estendeu por toda a noite e só na madrugada quando Sansa já estava bocejando, decidiram parar e continuarem em outro momento. Arya foi levada a um pequeno quarto onde se banhou durante horas e se deixou cair em sono profundo na sua cama com colchão de penas de ganso.
Ao sair da presença de sua irmã mais nova, Sansa Stark não foi dormir como disse que iria. Ela voltou a Sala do Trono e pediu a quatro guardas que trouxessem Sandor Clegane para ser interrogado.
Após uma hora de espera Sandor se apresentou, estava sem a armadura e desarmado com sua camisa suja e uma ferida no pescoço seus cabelos estavam despenteados e ele parecia muito cansado.
— Diga-me senhor, está sendo bem tratado? — inquiriu Sansa assentada no trono todo retorcido. — O que será que ele sentiu ao me ver sã e salva? — Sansa questionou a si mesma.
Sandor balançou os grilhões que lhe prendiam os pulsos.
— Oh, por favor tirem os grilhões dele. — Ela acenou positivamente com a cabeça.
Os guardas hesitaram lançando olhares uns para os outros até que um deles tirou a corrente de ferro que prendia o Cão de Caça.
Sandor passou a mão nos pulsos doloridos.
— Como saiu de Porto Real? — disse Sandor olhando para as próprias mãos.
— Petyr Baelish e Sor Dontos. — Sansa fez um sinal para os guardas se afastarem. — Saiam! — Disse entredentes.
Clegane sorriu tristemente.
— Salva por um cafetão e o bobo... — ele pareceu perdido com as palavras. — Por que confiou neles? Como ela pode ter ficado ainda mais bela do que já era... os deuses são cruéis por me fazerem vê-la novamente.
Sansa começou a descer as escadas.
— Isso importa agora? — disse ao se aproximar do homem.
— Não, o que importa é que está livre da sua gaiola Passarinho. — Clegane desviou os olhos —, livre da porra dos Lannister — voltou a encarrar a garota ruiva a sua frente. — Perdoe-me Senhora... — o Cão de Caça estava confuso, um misto de sensações passava por sua mente embebida em vinho doce de Dorne. — Irá me pagar a recompensa?
— Sim —, Sansa pegou a bolsa de veludo e a entregou nas mãos do Cão de Caça. — Irá mesmo para as terras livres? Acredito que não, não depois da minha proposta. — Apertou os olhos formando uma linha azulada.
— O que mais me resta? Os malditos Lannister colocaram minha cabeça a prêmio. E seu irmão fodido morreu nas Gêmeas no próprio casamento. — Ele sentiu o peso da bolsa que estava com as moedas de ouro dentro. — Não há mais um lado por quem devo lutar.
Os olhos de Sansa se encheram de lágrimas.
— Como pode dizer isso? — sua face ficou rubra —, ainda há duas Stark vivas e uma delas deve isso a você. Em Porto Real você me disse que me manteria a salvo. — Ela soluçou e se virou para esconder o rosto. — A oportunidade não pode ser desperdiçada.
Sandor ficou alí parado sem saber o que fazer, ele se lembrou de como Joffrey abusava da garota Stark e mandava seus lacaios covardes espancá-la.
Sansa se virou para encará-lo novamente.
— Você ainda pode ser útil a mim, sou herdeira de meu pai, Winterfell me pertence por direito. — Engoliu em seco e secou uma lágrima que escorria na face. — Ainda pode lutar ao meu lado. Ele está balançando e vai cair.
Sandor queria segurá-la nos braços, mas se manteve firme e com olhos frios.
— E o que ganho com isso? Além de mais problemas e vagabundos tentando me matar? Eu ficaria por você, é só pedir... — olhou para o alto. — Tem mais disso aqui? — ele levantou a bolsa com as moedas de ouro e a balançou na frente do rosto meio-queimado.
— É isso que quer de mim? — disse Sansa e pensou —, agora você ouviu a doce música do seu Passarinho. — Eu sou uma Lady sozinha neste mundo — chorou ruidosamente. — Mais dou-lhe minha palavra que será recompensado.
Sandor estendeu a mão para ampará-la, mas antes que o fizesse viu um guarda espreitando de um corredor e hesitou em tocar em Sansa.
— Seja meu escudo juramentado — seus olhos passavam rápidos pelo rosto de Sandor. — Ajude-me e serás recompensado. Eu sei que morreria por mim, não é o monstro que aparenta ser. O cão será domesticado.
— Juramento? — Cão de Caça hesitou — juramento de cavalaria? — os lábios de Clegane fizeram uma linha dura. — O que quer de mim? Ela me pergunta, como se não soubesse o que eu quero... — passou a mão na frente dos calções para certificar-se que tudo estava mole. Colocou a bolsa de veludo na frente da genitália. — Se seu irmão estivesse vivo iria me juntar a seu exército, por que não ao seu? Como fica ainda mais desejável quando está chorando —, Sandor se excitava vendo as pupilas dilatadas dos belos olhos azuis de Sansa e seu colo subindo e descendo com sua respiração entrecortada. — Eu prestarei o juramento apenas a Senhora de Winterfell. Espero que meus feitos de agora apaguem meus erros passados. — Sandor se ajoelhou em uma perna só e tomou a mão de Sansa na sua.
A boca de Sansa formou um “O”.
— Se com a minha vida ou morte eu a puder protegê-la, eu o farei. A Lady, tem a minha espada. — Ele posou a mão dela sobre seu largo peitoral.
A mão de Sansa tremeu ao tocar a pele áspera e suja do Cão de Caça.
— Obrigada Sor — ela gentilmente o beijou na fronte.
Sansa chamou os guardas e mandou que um deles declarasse ao Lorde Intendente do Vale que Sandor Clegane havia prestado juramento a ela, e mandou um dos servos ceder seus aposentos para que o Cão de Caça pudesse tomar um banho comer uma comida quente e ter um descanso apropriado a um cavaleiro.
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