O Trono de Gelo e Fogo
20 Mudanças

O frio do inverno está se intensificando, ela pensou de olhos fechados largada em sua cama. Muita coisa se esfriou por aqui desde então, depois que voltou da busca Cão de Caça tem agido de forma caliginosa. Não me parece o mesmo homem que tenho lembrança. Ela se sentou na cama e se abraçou quando sentiu uma brisa fria tocar-lhe a pele por debaixo da camisola.
Sor Albar já havia mandando vários recados por Mya Stone que todos no Ninho da Águia deveriam descer para o Portão da Lua para se abrigarem do rigoroso inverno, era esse o costume dos Arryn. Durante o inverno todos os habitantes do castelo que fica no topo da Lança do Gigante desciam para a base da alta montanha. O frio é muito intenso aqui em cima mesmo para mim, A ruiva nortenha terminava de calçar suas grosas luvas de couro de Chinchila. A porta do seu aposento se abriu, Iris e Myrcalla vinham trazendo o desjejum, ambas com a pele pálida de tanto frio que sentiam.
— Bom dia Senhora — colocou a bandeja sobre a pequena mesa e correu para alimentar o fogareiro de chumbo preto e os quatro braseiros que foram espalhados pelo quarto. — Está muito frio hoje, não é verdade?
Por quanto tempo mais aguentaríamos ficar aqui sem fogo e sem comida? Ultimamente Sansa avaliava muito sua situação entre ficar no Ninho ou fugir e encarar o inverno até chegar no Tridente. Jon por que não me responde?
— Já está tudo pronto para descermos para o Portão da Lua. — Bebericou o leite quente cheio de condimentos, o cheiro de canela aqueceu o seu nariz.
— Já nos demoramos muito aqui —, Iris esfregou as mãos umas nas outras e depois as colocou em formato de concha na frente da boca e soprou. — A água está congelando e estamos consumindo muita lenha, com a neve aumentando, logo os carregadores não conseguiram mais subir aqui e nós vamos ser como os Outros. — Fez uma careta de monstro.
— Vá agora e busque Sor Marwyn para organizar a descida de nossos pertences. Sandor e eu desceremos com Mya assim que eu terminar o desjejum.
A aia fez uma reverencia e saiu.
— Lady Sansa ainda está desconfiada da história que o senhor Clegane contou sobre sua irmã? — Myrcalla se sentou em um acento acolchoado perto do fogareiro.
Os olhos azuis a fitaram com dureza. Não se pode confiar demais em ninguém, Sandor me disse que achou o rastro de Arya em Ferrobles e a perseguiu por um dia, será que ele a matou? Ou a deixou escapar? Em ambos os casos meu plano está dando certo.
— Tudo bem Senhora? — Sansa se virou como se Myrcalla falasse com ela pela primeira vez.
— Sim, o quê... o que disse? — Sorriu docilmente — Eu é que me pergunto o que sabe sobre este assunto? — colocou uma colher do mingau na boca.
Os olhos amendoados da garota morena brilharam.
— O que Sandor me contou é a verdade, Arya nunca foi uma lady, sempre se metendo em problemas. — Comeu mais umas duas colheradas do mingau — eu acredito que tenha omitido a parte que ele conseguiu detê-la e depois... por algum motivo a tenha deixado ir.
Passos soaram no piso de pedra o que fez Myrcalla se assustar, era Sandor Clegane com suas roupas todas negras exceto pelo gibão e suas longas botas marrons de couro fervido com peles envolta das extremidades.
— Senhora! — A voz era baixa e rouca.
— Deixe-nos. — continuou mexendo no prato de mingau para pegar os pedaços de maçã e a outra fruta branca que não lembrava o nome.
A serva fez uma reverencia e saiu de sua presença, Sandor ficou parado como uma torre sem dizer nada.
— E então... — ela evitou olhá-lo nos olhos. — Ainda com essa cara de cão pidão. — O homem não disse nada só ficou olhando para as cortinas. — Já está pronto para a descida?
— Sim, minha Senhora.
— O frio se intensificou muito esses dias, é mais seguro ficarmos perto da saída — começou a se levantar. — Da saída deste lugar!
Ela se aproximou de Sandor com o cenho franzido, ele inclinou um pouco a cabeça para olhá-la nos olhos.
— Sabe, as vezes me parece que está com remorso de algo ou... por alguém. — A última palavra foi dita com um toque de desconfiança. — Passou a mão no couro esticado do gibão que cobria o peito de Clegane. — Aconteceu alguma coisa entre eles, que não quer me contar.
— Ainda entalada com a história que contei? — Os olhos escuros ganharam um fulgor furioso. Sansa ouviu o couro rilhar quando Clegane moveu a mão para segurar seu braço. — Esqueceu com quem está lidando?
Sansa se manteve calma. Não Cão, você que não sabe mais com quem está lidando.
— Isso me pareceu perigoso, tratou Arya com mesmo ímpeto? — sorriu com desdém. — É melhor não tentar nada imprudente — passou a mão no cabo de osso de dragão de sua lâmina. — Isso não importa agora — ela não sabia o motivo da frieza de Clegane a incomodar tanto. — Só preciso de sua espada, o resto, ele pode fazer o que quiser com quem achar melhor.
Iris Redforte adentrou abruptamente no aposento acompanhada de dois jovens rapazes:
— Desculpem, pensei que estava sozinha — disse olhando para Sansa com o rosto rubro de vergonha.
A Stark se afastou de Sandor com a cabeça baixa, os rapazes foram pegando os baús que estavam próximos da porta e Iris ficou parada como uma estátua ali. Aquele momento durou um bom tempo, Clegane não falava nada e Sansa muito menos, só trocavam olhares furtivos. Essa cobra está desconfiada de algo, Iris estava muito quieta nos últimos dias. Ela é o contato de Mindinho aqui, mas sem o meistre como estão se comunicando? Sansa pensou indo em direção a porta e saindo pelo corredor rumo ao Alto Salão onde ficava o trono feito com uma árvore retorcida. No Caminho encontrou com uma serva que jogava sal na neve que se acumulava no corredor, o vento levava a neve por qualquer fresta, janela porta que se esquecesse aberta naquele castelo. Não é seguro ficar aqui.
Ao chegar na sala, algo chamou a atenção da Stark, um corvo negro bicava o grande encosto do trono grasnando sem parar.
— Maldita ave, asas escuras palavras escuras — Cão de Caça fez uma careta com os lábios arqueados.
“ Grão, grão, Snow” crocitou o corvo.
— Ouviu isso? — Sansa apontava o dedo para a ave que parecia olhar diretamente para ela.
Moveu a cabeça para a esquerda e para a direita repetidas vezes e o pássaro fez o mesmo. Que terrível experiência estou vivendo, será um sonho? Sua respiração ficou entrecortada, ela fez sinal para Sandor não se mover.
— Tem um embrulho enrolado na pata dele — disse aos sussurros. — Será uma mensagem do meu querido bastardo? Ou de Petyr? — Desceu o último degrau com cautela.
O Corvo beliscou as tiras de couro que estavam amarradas em sua pata, “Stark, Snow, Snow” grasnou lentamente cada palavra. Sansa agarrou a ave negra em seguida Sandor se aproximou para ajudá-la dizendo:
— Aqui Passarinho deixe-me segurá-lo — pegou a ave que gritava sem parar enquanto a garota Stark pegava o pequeno embrulho em sua pata.
Ansiosa, Sansa ficou ofegante e começou a desatar os nós e a puxar as fitas de couro com violência, Myrcalla veio correndo pela parte inferior do salão, subiu as escadas as presas segurando as saias do vestido e bufando pelo esforço.
— Ouvi um barulho, vim depressa — conseguiu dizer com lufadas de ar saindo pela pequena boca.
Sansa desenrolou o pedaço de pergaminho e se virou de costas para as duas pessoas que estavam ali e começou a ler.
Senhora Sansa
Perdoe-me por demorar em respondê-la, tive contratempos no Gargalo.
Estou a caminho do Vale de Arryn para resgatá-la.
Espere por mim.
Seu irmão Jon.
Sansa fechou os olhos e apertou a mensagem contra o seio, ele está vindo por mim. Meu cavaleiro, meu herói, estava ainda pensando quando uma voz a chamou:
— Passarinho!
Quando se voltou para Sandor e Myrca, ela trocou olhares com ambos, e disse:
— Preciso mandar uma mensagem imediatamente, Myrcalla. — Pegou o corvo das mãos de Clegane com um solavanco brusco e o deu a tacanha Asshai’i.
Sansa tinha pressa, saiu puxando Myrca escada abaixo e correu pelos corredores para chegar até a torre de onde se enviavam os corvos.
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