O Traidor

1 - A face do traidor


Encapuzado, um homem caminhava solitário nas calmas ruas de uma pequena cidade no interior do reino, essas repletas de postes cujas chamas iluminavam ridículamente, fazendo com que a fúnebre escuridão permanecesse.

O vento sibilava tristemente, ecoando pelo local e assemelhando-se à uivos.
A lua era coberta por uma porção de nuvens acinzentadas, na imensidão daquele céu tétrico e negro.

As construções locais aparentavam estar abandonadas há algum tempo, possuiam paredes levemente desgastadas e destruídas com o tempo.
A fúnebre aparência daquela parte do reino era levemente apagada por algumas pequenas árvores frutíferas, coloridas porém descuidadas, firmes no meio daquelas velhas construções.
Uma pequena fila de amoreiras fora vislumbrada pela figura encapuzada, enquanto seu coração batia frenético, assemelhando-se à explosões.

Seus passos estavam firmes e rápidos, seguindo na fúnebre e deserta rua, aparentando pressa e desaparecendo na escuridão.
O nervosismo era claramente percebido, tanto nos passos, quanto em sua respiração, imperceptível porém ofegante.

Sua longa e esvoaçante capa negra batia nos gramados verde-esmeralda, frios e molhados.
O homem sentia seu tornozelo sendo molhado pelos pingos de água, passando fácilmente por sua bota de couro.

Desaparecendo naquela sepulcral escuridão, a figura encapuzada súbitamente cessa.
Frente à uma grande construção que aparentava estar abandonada há muito tempo, o homem desfere alguns olhares ao redor para certificar-se de sua solidão.
Abaixando sua mão até a cintura, o homem retira de seu bolso uma brilhante e prateada chave, possuia cuidadosos detalhes feitos à mão.

Abrindo a porta com uma extraordinária cautela, a mesma velha e levemente desgastada.
Sua cautela era destruída pelo ensurdecedor ranger da velha porta.

Tendo seus tímpanos destruídos pelo ranger irritante e ensurdecedor, seus olhos vislumbraram um ambiente esquecido e inóspito.
Quadros velhos e empoeirados jogados no chão, tendo suas molduras enferrujadas e levemente quebradas.
Lâminas inacabadas, destruídas e terrívelmente esquecidas estendidas no velho e sujo carpete vermelho-sangue.

Contemplou um velho retrato oval, uma garota com um fervoroso e felicíssimo sorriso estampado em sua pálida e quase esquálida face, porém belíssima e cheia de jovialidade.
Cabelos ruivos cacheados presos com uma flor metálica, possuia um olhar profundo e provocante, uma expressão calma e serena.
O cordão dourado fora cortado pelo retrato, somente tendo a parte de cima à vista e seu vestido azul claro levemente borrado.
A moldura era oval, dourada e desgastada, tendo seus detalhes ocultados pela poeira.

O esplêndido e imponente quadro estava estendido naquele local sujo e abandonado, o homem por um momento contemplou a belíssima face da misteriosa jovem no retrato, recordando-se de uma conhecida. Retirando seus olhos cravados no ilusório quadro, jogando sua vista no outro extremo da velha ferraria.
Sentindo-se confortávelmente entorpecido após contemplar o lindo retrato jogado com desdém, a figura encapuzada examina cada canto do local, como se buscasse por algo.

Vislumbrando uma pequena faca prateada e enferrujada, o homem encontra seu destino.
Uma porta extraordináriamente bem escondida, ansiedade e medo rasgaram seu peito, sentiu seu sangue fervilhar e suas batidas cardíacas explodirem novamente.
Elevando sua mão e logo após abaixando-a bruscamente, o homem consegue abrir a porta camuflada.

Descendo uma breve escadaria, o encapuzado sentiu como estivesse adentrando em seu próprio sepulcro, embora soubesse que não era nada pior do que aceitara fazer.
O homem se vê em um gigantesco, imponente e gótico salão, extremamente reluzente e o oposto daquele local sujo e deserto que estara há um tempo atrás.

A descomunal claridade atingira seus olhos, obrigando-o à fechá-los e fazendo-os lacrimejar levemente enquanto sua mão os cobria fracassadamente.
Forçou sua vista para contemplar as características do gótico esconderijo, abaixando sua mão novamente e deixando seus olhos descobertos, frágeis. À medida que seus olhos se acostumavam com a pequena porém cegante claridade, contemplou três luxuosos lustres dourados, detalhadíssimos e reluzentes fixados no branquíssimo teto, detalhista.
Suportado por imensos pilares de mármore negro, responsáveis pela aparência gótica e sombria, vislumbrou seu reflexo no chão esbranquiçado e ridículamente reluzente, feito de granito.

Jogou sua visão encantada em uma gigantesca mesa dourada, totalmente feita de ouro, ricamente detalhada. O homem estava estarrecido com a grandiosidade do local, esperando algo menor e não tão exagerado. A iluminação provinha das chamas dos lustres dourados, não iluminando o grande local totalmente.

Atônito e deslumbrado, o coração do homem dispára novamente, após ouvir inúmeros passos estridentes vindo em sua direção, sua pele arrepiou-se, engoliu seco e pôde vislumbrar através da penumbra, uma figura feminina. Entreviu uma face morena, jovial e seca, porém belíssima.

– Reverencie-nos. – Sussurrou, em um inconfundível tom aterrorizante e estremecedor.

Seu corpo automáticamente caiu diante da figura ocultada pela semi-escuridão, ajoelhando-se e sentindo como se algo o forçasse contra o chão.
Pôde sentir uma espécie de respiração ofegante, vinda da misteriosa sombra à sua frente, agora tendo suas suspeitas confirmadas, sua voz aparentando desgaste porém poderosa, almejando um tom inescrupuloso.

Seu olhar estava cravado no reluzente chão, podia contemplar sua face encapuzada e aterrorizada, mas não conseguia distinguir a face da misteriosa forma.

– Ele está aqui. – Exclamou, sua voz recendendo ódio e desdém.

Sua voz ecoou estridentemente, incrívelmente alto.
A iluminação aumentara drásticamente, a penumbra desaparecera por completo. Vislumbrou, com seu olhar atônito, um trono no outro extremo, extremamente negro.
Não se importou com os detalhes refinados do mesmo, sua visão estava cravada em uma outra figura encapuzada.
Enfim, pôde contemplar a beleza do rosto da misteriosa dama à sua frente, aquela que em anos longínquos fora a razão do pavor e desespero dos seres. Pôde contemplar a face bela e esquálida de Cazeaje, a rainha da escuridão.

A belíssima face daquela que já fora a responsável por toda a maldade conhecida, seus olhos esverdeados encaravam o misterioso à sua frente.
O outro, levantou-se lentamente de seu trono, caminhando até as duas pessoas que estavam ali, provocando ansiedade e temor no homem ajoelhado.
Súbitamente parou ao lado de Cazeaje, que trajava um longo vestido esbranquiçado.
O reflexo da figura ao lado de Cazeaje era impossível de ser distinguido pelo homem, provocando as piores sensações possíveis. Virou-se lentamente para Cazeaje, que por sua vez, também estava atônita.

– Senhorita, não gaste suas energias. – Sibilou, possuia uma voz rouca e calma.

A mulher manteve-se cabisbaixa, seus odiosos olhos esverdeados observavam o chão esbranquiçado e a figura encapuzada ajoelhada à seus pés.
Seu estado era visível, seu nervosismo percebível e contagiante, seu sangue fervilhava e seu coração explodia.

– Sim... – Grunhiu Cazeaje, em um claro tom de indignação e ódio. – Senhor.

Suas últimas palavras demoraram para saírem de sua boca avermelhada, a dama nunca havia dito aquelas palavras, sentia-se péssima e como se não possuísse algum valor.

Elevando sua mão enluvada até seu capuz, e tirando-o lenta e calmamente, provocando nervosismo nos outros dois.

O odioso tom esverdeado dos olhos de Cazeaje sucumbiram à um tom púrpura e extremamente maligno, possuia uma pele branquissíma, assemelhando-se à um azul muito claro e cabelos ainda mais brancos, era Duel.
Assemelhando-se à um jovem, a forma humana do guardião da prisão de Mjölnir fora contemplada pelos outros dois, com desdém.

Forçando seu pescoço ao máximo, não querendo ser percebido, o homem ajoelhado ergue seu rosto até o pálido rosto de Duel, seu medo e nervosismo eram predominantes. Seus braços e pernas estavam trêmulos, corria o risco de despencar diante os dois lendários que estavam ali.
Jogou seus olhos no trêmulo e atônito homem encapuzado, sorriu sarcásticamente, em um lúgubre e amedrontador sorriso.

– À propósito, meu filho. – Exclamou, a voz rouca e calma estava poderosa e extremamente diferente. – Não precisa mais se esconder, retire seu capuz.

Essas palavras penetraram nos ouvidos do encapuzado, como pregos, rápidamente e atrapalhadamente, elevou sua mão direita até seu capuz e o retirou em um rápido e atrapalhado movimento.
Duel demonstrou um outro sorriso, contemplando a face do homem.

Sua capa negra batia no reluzente esbranquiçado chão, contemplou seu próprio reflexo, um par de grandes orelhas élficas, uma expressão desconfiada, olhos atônitos e ligeiros roxo-escarlate, um longo cabelo púrpura, como os olhos de Duel e por último, um par de estranhos chifres possuíndo um tom negro porém azulado.

– Seja bem-vindo, Dio. – Exclamou, percebendo o nervosismo do rapaz. – Meu filho.
– Obrigado. – Respondeu, no mais atônito e atrapalhado tom possível, sua pele formigava e seu coração explodiu. – Meu pai.

As últimas palavras vieram no mais extremo desdém, aparentando insatisfação e indignação.

O rapaz não estava calmo, sentia algo impossível de ser descrito, algo que nunca sentira antes, sua cabeça doía, muitas questões vieram à tona, como lâminas cravadas na mesma.
Seu pai o observava atentamente, possuíndo aquele mesmo odioso sorriso estampado em seu branquíssimo rosto. Jogou seu olhar para trás, curvando-se bruscamente.

– Venham comigo. – Disse, em um perceptível ansioso tom.

A dama começou à seguí-lo, sem questioná-lo, ela já sabia o que viria. O jovem demônio levantou-se, esforçando-se para manter suas pernas firmes, porém as mesmas estavam trêmulas e amolecidas.

Caminharam juntos, calados, apenas com o estridente som de seus passos, olhando apenas para o corredor.
Os longos cabelos negros da dama, negros como o céu noturno esvoaçavam para trás, como uma névoa lúgubre e obscura, porém lindos.

Súbitamente, se deu conta da magnitude de sua visão.
Os três estavam em uma outra sala, não possuia decoração ou qualquer tipo de iluminação, apenas possuia o chão de grânito negro.
O chão estava manchado de sangue, possuia uma cor escarlate, estava há algum tempo ali, pôde ouvir uma respiração lamentosa, sibilando tristemente. Observou a poça de sangue por um breve período, com desdém do que estava à cima.

Sua expressão automáticamente ficara aterrorizada, seus olhos se arregalaram e o rapaz engoliu seco, após observar o que estava àcima.
Seus longos cabelos dourados estavam cinzas e horríveis, possuia um profundo corte em sua barriga, os braços estavam fracos como gravetos e seus lábios incolores e enegrecidos,
suas mãos brutalmente atravessadas por uma das correntes, ensangüentadas e violentamente retorcidas e por último, aqueles olhos verde-claro lindos e esperançosos estavam caídos e negros.
Suas pernas possuiam pequenos cortes, ambas se contorciam involuntáriamente.

A deusa Gaia estava pendurada, violentamente presa à correntes, àcima de suas cabeças.

Entreviu, no meio da escuridão, lágrimas secas presas no rosto da deusa e um pequeno coágulo formado em seu pescoço.
Seus cabelos batiam em seus olhos, forçando sua vista usando o máximo de sua vontade.
As flores usadas em seu cabelo dourado estavam caídas, envoltas na grande poça de sangue. Sua pele esquálida e aparência cadáverica, motivo de espanto para o rapaz.

A expressão fria e perversa de Cazeaje mantinha-se firme em seu rosto, sem se importar com a deplorável situação da deusa.

O corpo estava bem preso, envolto pelas correntes cravadas no mesmo, impossibilitando cair ou fugir, apesar de ser práticamente impossível naquele estado crítico.
Trajava uma fina malha branca, avermelhada com seu sangue, e por último, uma esfera negra em sua testa.

Forçando seus olhos púrpura, vislumbrou no último canto da sala, uma árvore avermelhada, correntes cravadas na árvore iam até o corpo da jovem deusa.

– Gaia? – Perguntou Dio, extremamente atônito e confuso. – O que você pretende?

O rapaz questionou, encarando os olhos da mesma cor de seu pai, perdendo-se na imensidão dos mesmos.
Duel sorriu, um breve e demoníaco sorriso, sua ansiedade era claramente percebida enquanto seus lábios se abriam lentamente.

– Como vocês devem ter notado, a árvore rouba todos os poderes da garota. – Exclamou, olhando para as folhas vermelho-sangue. – Quando os jovens da Grand Chase converteram a árvore corrompida, uma última semente ficara presa no corpo de Gaia.

Dio ficara estarrecido, alternando sua visão para seu pai e a expressão irônica de Cazeaje.

– A semente transformou-se em fruto, após sentir minha presença. – Sibilou, elevando seu braço até seu pescoço. – Há alguns meses atrás, a garota continuara sua vida sem estar ciente, tive de esperar longos meses até os preparos, porém agora posso continuar.

Elevou seu braço até uma das correntes, soltando-a, fazendo com que o corpo acorrentado fosse jogado diretamente para a árvore.

O corpo bateu na árvore com uma velocidade extremamente rápida, permitindo que o sangue da garota se espalhasse pelo chão negro, percebeu com seus olhos púrpura, que a esfera negra em sua testa suja e pálida brilhava fortemente.

Algumas pétalas e folhas vermelho-sangue caíram, após o estrondo. Seus branquíssimos e fracos braços estavam ao lado de sua cabeça, como se estivesse crucificada.

Inexplicável e súbitamente, as correntes começaram a prender o corpo, apertando violentamente seu pescoço, braços e pernas, obrigando-a à gritar com o resto de suas forças. Suas mãos perfuradas pelas pontas das correntes estavam unidas, no topo da árvore, tocando na copa avermelhada.
Uma característica peculiar, a lúgubre árvore possuía galhos em forma de serpente, curvados e esguios. A extrema escuridão não permitia que o deplorável estado da deusa fosse visto pelos outros, seus olhos apenas vislumbravam o sangue que escorria frenético.

– Este lugar está horrível. – Exclamou Cazeaje. – Não perca tempo, explique para o garoto!

O homem pálido virou seus olhos para os olhos de seu filho, ambos possuíam a mesma cor. Apenas o fitou, percebendo a expressão atônita e surpresa de seu filho. Abaixou sua mão esquerda até sua cintura, um breve período, retirou de seu bolso um pequeno invólucro do tamanho da palma de sua mão, as outras duas pessoas jogaram sua visão ao máximo para poder contemplar o que estava oculto.
Retira do tétrico invólucro, as essências roubadas anos atrás.

Escorregando entre seus longos dedos, as essências ainda brilhavam. A expressão do jovem demônio era indescritível, pavorosa e ao mesmo tempo, orgulhosa. As essências escorregaram até o vão de seus dedos, uma em cada parte.
Luz, fogo, equilíbrio, destruição e vida, as cinco essências. Cada uma representava a vontade de um certo deus, seu símbolo, sua representação.
Brilhavam como jóias, chegando a ofuscar sua visão, Cazeaje possuia um brilho ávido em seu olhar, sua hesitação não era discreta, o jovem demônio observou seus lábios vermelhos como o sangue se abrirem, estampando uma adulação.

– Então é verdade. – Grunhiu, com sua voz cuidadosamente controlada, não queria demonstrar ansiedade. – Você não mencionou este detalhe.

O pálido homem saiu dos olhares de seu filho, voltando sua visão para a dama, emitindo uma expressão sarcástica e odiosa, suas mãos se elevaram até a face da mesma, seus longos dedos a acariciavam, perceptívelmente um ato odioso. A dama começara a ofegar, como se o homem exercesse uma certa influência sobre seu corpo, seu olhar tornou-se vítreo, inexpressivo como um espelho, apenas refletindo a vontade de seu superior.

– Sua forma humana é tão linda... – Bradou, seu sorriso era excêntrico, cínico. – Uma pena que seja tão fraca.

A influência exercida pelo homem demonstrou-se falha, fora quebrada pela vontade da dama, seu olhar tornou-se odioso, arquejou e seus lábios se abriram, a mão do homem escorregou até os mesmos, impedindo suas palavras, transformando-as em meros grunhidos incompreensíveis.

– Não se irrite. – Exclamou, retirando sua mão dos lábios de Cazeaje, contemplando a vermelhidão alastrada ao redor dos mesmos. – Você poderá permanecer assim, contudo...

Cazeje elevou suas mãos até a gola do homem, não almejava seu pescoço, Dio hesitou.

– O quê? – Questionou, com o ódio refletido em sua face.

Duel sorriu fracamente para a mulher à sua frente, elevou seus braços e tirou as mãos da mesma da gola de sua roupa, empurrou Cazeaje levemente, a mesma cambaleou para trás.

– Desgraçado... – Arquejou, torcendo para que a barra de seu longo vestido não a fizesse ir para o chão.
– Meu filho, óbviamente você já sabe da humilhante derrota desta senhora perante à escória. – Iniciou Duel, visualizando a cômica e humilhante situação de Cazeaje, lutando contra seu próprio vestido. – Procurando por uma salvação, eu a encontrei.
– Salvação? – Indagou Dio, satírico. – Meio constrangedor a rainha da escuridão clamando por salvação...
– Cale a boca desse seu filho ou eu mesma o faço! – Exclamou Cazeaje, irritada.
– Então... Ela me mostrou seu antigo esconderijo, em seus gloriosos tempos, que finalmente retornarão... – Continuou Duel, visualizando o local. – Aqui, eu pude espiar cada movimento da família real e da escória, assim como cada passo dos moradores.
– Espiar? – Indagou Dio, novamente.
– Exato, um pequeno exemplo, há algumas semanas atrás, após você receber o meu chamado, o imortal e o arcano concluíram que algo em você estava estranho.
- Já é o suficiente! – Disse Dio, claramente perturbado. – Vocês pretendem vigiá-los para qual finalidade?
– Pretendemos eliminá-los, é claro. – Exclamou Duel, excêntrico. – Será maravilhoso, tanto para mim, quanto para a senhorita Cazeaje.

Cazeaje fitou Duel, como se algo estivesse extremamente errado, não poderia parecer suspeita.

– Ela busca poder, eu possuo tal poder. – Finalizou Duel, visualizando a sangrenta face da deusa. – Nosso plano é eliminar tais obstáculos, e então, dominar a política e os poderes do reino, conquistando e julgando.

O gigantesco esconderijo fora tomado por um silêncio arrebatador, não era possível ouvir o sibilar do vento e muito menos, os lamúrios da arruínada deusa. Uma incontrolável questão veio em sua mente, seguida de uma dor lancinante em seu coração e por fim, um enorme arrependimento, sem seu consentimento. Cazeaje mantinha-se fria, não tirava os olhos da expressão suspeita de Duel, algo iria acontecer.

– Mas... como vocês planejam fazer isso? – Questionou Dio, sentindo como se seu peito fosse esmagado por um grupo de Golens e tendo seu coração cortado por uma afiadíssima lâmina.
– Será seu trabalho os trazer até nós, consegue fazer isso? – Guinchou Duel, expressando dúvida.
– Sim... meu pai. – Grunhiu Dio, em uma constrangedora e falsa resposta.
– Muito bem. – Disse Duel. – Sem a escória para nos impedir, a família real não será uma preocupação.
– Você ainda não respondeu a minha pergunta... – Arquejou Dio, suas palavras foram seguidas por um constrangedor ranger de dentes enquanto Cazeaje o fitava assustadoramente.
– As essências serão usadas para a recriação das duas lâminas gêmeas. – Sibilou Duel, fechando seus olhos em uma espécie de excitação póstuma à sua duvidosa expressão. – Eclipse e Crescente.
– A Crescente nunca fora criada, será a primeira vez que tal lâmina pisará em nosso mundo, Eclipse, por sua vez, será recriada novamente, após sua destruição de anos atrás. – Disse Cazeaje, fitando Duel.
– Não os perdoarei por isso, a escória será aniquilada. – Gritou Duel, lembrando-se do ocorrido, Eclipse destruída pelas mãos da Grande Caçada e seu peito perfurado pela mesma. – Seus companheiros acreditam que estou morto, será fácil.

Dio engoliu seco, ocultando sua profunda lamúria, olhou ao redor e contemplou o cadavérico corpo da deusa. Cruelmente negligenciado e destruído.

– Dio... por favor... – Grunhiu Gaia, sentindo o sangue percorrer sua garganta, recorrendo a um descomunal esforço para prosseguir com suas palavras. – Éramos amigos, por favor...

Os outros dois jogaram seus olhares no jovem demônio, seu rosto estava empapado com seu súor, sua ansiedade era explícita e seu olhar estava fixo no enegrecido olhar de Gaia, que o fitava aparentando súplica.

– Nunca mais dirija suas palavras a ele, entendidos? – Vociferou Duel, aproximando-se lentamente da deusa, que aparentava já saber o que lhe aconteceria.

Duel segurou os cabelos esbranquiçados e maltratados de Gaia e os puxou, brutalmente, fazendo com que a mesma soltasse um urro ensurdecedor e desesperado, por meio de suas últimas forças. Após o grito, seus lábios ficaram encharcados com o sangue que caía de sua boca, frenético.
Em um último e desesperado ato, a deusa forçou sua língua à sair de dentro da sua boca avermelhada, a deusa almejava o suícidio.

– Não a deixe morder a língua! – Gritou Cazeaje, desesperada.

Duel rápidamente colocou seus dedos dentro da boca da deusa, impedindo seu impetuoso ato.

– Esperta, porém... – Disse Duel, colocando sua outra mão no tronco da árvore. – Vamos acelerar o processo, venham cá.

Ambos aproximaram-se, Dio mantinha-se relutante, profundamente chocado com o que acabara de presenciar.

– Nos dê as lâminas. – Exclamou Cazeaje, estendendo sua mão.

Duel rápidamente tira sua outra mão da boca de Gaia e retira três lâminas douradas de suas costas, distribuindo-as.

– Finquem no tronco. – Disse, impiedosamente.

Duel segurava fortemente sua lâmina, recendendo uma energia maligna púrpura, a energia pairava livremente pelo local, motivo de espanto para seu filho.
A lâmina estava embebida com sua energia maligna.

Duel sorriu para a negligenciada face da deusa e fincou a lâmina no tronco, fortemente enquanto a deusa gritava incontrolávelmente. A lâmina havia transpassado o tronco da árvore.

– Agora são um só. – Grunhiu Duel. – Façam.

Cazeaje foi em seguida, demonstrando ódio e sem a menor piedade, não dava a mínima para o sofrimento da deusa.

– Filho.

Dio aproximou-se, incerteza e remorso rasgavam sua carne. Como um gancho.
As folhas tornaram-se maiores, sua coloração estava enegrecida, galhos, pétalas e folhas caíram, formando um tapete avermelhado. Uma esfera dourada emerge do tronco da árvore, ocultando Gaia, somente seus gritos eram audíveis, abafados. As correntes estouraram lentamente, seus pedaços voavam pelo local.

O tronco crescia descontrolado, sua forma estava mudando, aparentando gigantesca cobra.
Uma colossal serpente surge do restante da árvore, a copa da árvore havia se convertido em gigantescos espinhos e os galhos em serpentes menores. Gaia estava dentro da esfera que havia se formado no pescoço da serpente.

Balançando seu pescoço frenéticamente, a serpente destrói a parte de cima da sala, fazendo com que estranhas estátuas caíam. Os olhos da serpente eram avermelhados como fogo e seu pescoço negro, dentes gigantes e mortais.

– O QUE SÃO ESSAS ESTÁTUAS?! – Gritou Dio, espantado com a magnitude da serpente formada. – DROGA!
– Acalme-se, ela não nos atacará. – Disse Duel. –Tais estátuas são nossos aliados, eles ressuscitarão.
– Do que está falando? – Indagou Dio, indeciso, fitando a gigantesca serpente e ao mesma tempo as estátuas.
– Ande logo! – Bradou Cazeaje, em um estridente e poderoso grito. – Sacrifique as menores para que ela comece o lamento!

Dio não estava bem, seu coração era tomado pelo medo e sua face devorada pelos crueis olhos avermelhados da serpente. A curiosidade afetava seu raciocínio, tais estátuas eram imponentes e cada uma possuia uma forma humana.

Fechou seus olhos, tentou respirar fundo, uma lembrança longínqua veio à tona afetando-o novamente. Ao forçar seus olhos, abrindo-os, uma aterrorizante e irreal visão, uma das cabeças das serpentes menores estava estendida à seu lado, decapitada. Uma poça avermelhada saía da cabeça da serpente, aproximando-se do jovem demônio, causando pânico.

A serpente-mãe urrava de dor, seu olhar mortífero chocava-se com o olhar frio e sádico de Duel. Dio, após liberar-se do transe, visualizou um Duel imponente, empunhando uma lâmina azulada e ensangüentada e uma sorridente Cazeaje, cujo sorriso deixava à mostra seus branquíssimos dentes. Os galhos da árvore tentavam atacá-lo, sem sucesso.

Em um curto período, quatro cabeças estavam estendidas, em um interminável rio de sangue.