Notas iniciais
Fim do primeiro "Ato"

Enquanto tudo ocorria de forma nada serena, com a chegada dos campeões eleitos pelas hordas acaloradas das multidões, e os nobres amontoavam-se em milhares no hall real, os Exdar já saiam do café com os bem-conceituados Tedray, em direção ao comício real, que iniciaria o baile de máscaras a noite, para celebrar o início da semana do torneio. Todos muito bem arrumados, com suas roupas de gala, a adentrar os camarotes armados em madeira sobre o portão de entrada do castelo. Acima de um enorme palanque de pedra, sobre a faixada do castelo e na frente do público que fora permitido entrar dentro dos muros reais, uma figura anunciava-se. Ao chegar e mover-se em direção ao pódio, surgia cercado de dois guardas o Primeiro-Senhor Maoz.

— É com grande graça, sobre a luz do povo, e a luz concedida pelas divindades, que venho hoje nesta cerimônia maravilhosa, anunciar um momento único na história de nosso reino... — Ele começa — Diferente dos tempos antigos, quando eramos divididos em facções bárbaras que brigavam entre si, possuímos o dom da paz, e o masterizamos. Quem se martirizou em nosso lugar? Meu avô, o primeiro da dinastia Brimor...

Contudo, ele não sacrificou-se para juntar as facções sobre uma bandeira a toa, ele possuía um sonho... O sonho de que um dia, estaríamos todos do reino, reunidos sobre as bandeiras que ele idealizou, lutando, não um contra o outro, mas unidos, como uma extensa família. Uma família não de sangue, mais forjada pelos mesmos interesses e por uma cultura fundamentada em princípios da moralidade.

Crescemos, expandimos e dominamos, agregando povos vizinhos não a partir da guerra, mais em pactos comerciais vitalícios, e a esperança de que pudéssemos propiciar-los com riquezas, seja com os recursos de nosso rico patrimônio aquífero, ou de nossas abastadas minas. Conseguimos, e tornamo-nos a segunda nação mais poderosa da Extensão Ocidental.

Hoje, inciamos um novo momento, e a seleção de um novo líder, escolhido pela voz dos arcanjos que pairam sob nossa região, para exercer o fundamental papel de General da Brigada de Irf. Um protetor, desafiado e selecionado por mérito, para comandar as armadas de nosso maior centro, e proteger nossos interesses, protegendo assim, o magnífico legado que meu avô deixará a todos nós.

É com grande prazer, e digo mais uma vez, grande graça, que anuncio nosso torneio único, o "Torneio dos Coroados". Que os jogos comecem! — Ele aumenta a voz, em empolgação.

Em resposta ao discurso do Primeiro-Senhor, a população já empolgada começara a soltar um alto brado de comemoração. Objetos eram lançados para cima no meio da interminável massa de pessoas, e dos camarotes, nobres e burgueses lançavam sobre o chão pétalas e grãos diversos, em festividade a solenidade singular que ocorria no país.

Mais tarde, já a noite, os nobres voltavam para o castelo, agora em direção ao salão de eventos, onde ocorreria o baile, um rito de passagem tradicional para qualquer grande evento do reinado. Enquanto Vraek ficara no acampamento, aprimorando sua perícia com a espada, dando incansáveis cortes contra o boneco de treino, Astoph e sua irmã, assim como Julia e sua família, os Hetarey, foram para o baile de gala.

Dom Exdar, ainda nauseado da viagem pela manhã, nem incomodava-se em levantar da cama, enquanto seu filho o cutucava e revirava, de um lado ao outro.

— Ngh... O que foi... Filho... — Disse o Dom a Mirthril.

— Pai, está na hora... Levante-se — Respondeu Mirthril em tom de decepção.

— Não vou levantar, ainda não me sinto bem, e além do mais, preciso descansar bem para o Torneio que começa amanhã.

— Mas pai, se não levantar, só se encontrará com os Hetarey depois do início do Torneio, o senhor precisa levantar!

— Não é não, jovem rapaz, faça o seguinte. Se está tão ansioso para a festa, porquê não vai sozinho e encontra-se com seu amigo Astoph, e a irmã dele ao caminho? Sua mãe também precisa dormir.

— Argh... — Bufa Mirthril — Está bem, mas não me venha pedir doces do festival no meio da madrugada.

— Traga ao menos um pequeno pudim para seu velho, você não recusaria tão pedido, não é?

— Eu trago seu pudim...

Mirthril terminara de arrumar sua gola enquanto conversava com seu pai, e saiu rapidamente, para tentar encontrar-se com seu colega pelo caminho, cortando uma das ruas principais, um boulevard muito bem arborizado, que terminava nas imediações do castelo de Gray Brimor. Agora o edifício mais bem iluminado da cidade ao cair da noite, o castelo dançava ao som das figuras ilustres que se juntavam no ato da cerimônia, e a música ambiente, que já começava a tocar com o aparecer da lua, com o som ecoando sobre as ruelas, nos distritos inferiores a fortificação real.

— Astoph! Zelina! — gritou Mirthril, ao meio da multidão que percorria o caminho ao castelo, para que sua voz os encontra-se. — Estou aqui!
Nesta hora, Astoph virou-se para trás, confuso, procurando a voz que lhe convocava.

— Estou aqui! — Repetiu Mirthril.

— Ah! — Soltou Zelina, indentificando-o primeiro. — Venha Mirthril, suba por aqui. — Ela apontou para degraus menos populados ao lado de um calçamento, para que os encontra-se mais rápido.

— Mirthril! — Zelina o abraçou. — É tão bom lhe ver aqui, eu jurava que você e sua família não viriam ao festival.

— E quase que não viemos, mas agora estamos aqui. — Respondeu Mirthril. — Tive que apelar ao meu pai para que viéssemos, ele iria passar o período desta semana nas habitações de minha tia-avó, acredita nisso?

— Nossa, haha — riu Zelina. — Sorte que seus esforços funcionaram.

— E você Astoph, como está? — Cumprimenta Mirthril.

— Estou tranquilo...

— Entendo, bom saber que ambos estão bem. De qualquer forma, meu amigo, soube que Aatami veio ao festival, não consegui assistir o Triunfo de perto, é verdade?

— Sim, mas não o vi, quem o fitou foi minha irmã, e continua empolgada até agora.

— Isso é verdade. — Ela replica.

Entre os nobres e a alta burguesia que entravam de forma direta ao salão, a entrada de Uldrael, o formoso conde e renomado por suas vitórias em campo, assim como o grande lanceiro Aatami, chamavam a atenção do público, que os aplaudiam com entusiasmo. Nesta hora, ao meio da multidão que ovacionava com ímpeto as figuras que iriam disputar o torneio, Zelina e Mirthril saíram para cumprimentar os membros da família Soothsor. Astoph procurava uma mesa para se sentar.

Entre as famílias nobres que começavam a preencher a gigantesca dependência, os Tedray e os Hetarey adentravam, seguidos de uma jovem peculiar, que rapidamente saiu do círculo para falar com Astoph... Julia Hetarey de Umma, uma garota como nenhuma outra por sua personalidade serena e seu toque angelical. Uma antiga conhecida da família Ignacius, a de Astoph. Uma garota singela, meiga, e entre tudo, pacífica. Cabelos castanhos, e soltos, com um ar leve como uma pintura de Botticelli. Muito diferente do ruivo Astoph, que agira até então de forma presunçosa e até radical.

Um contraste, que por ventura da natureza, servira de inspiração para contos clássicos, e não seria diferente entre os dois. Conhecidos desde a infância, dividindo ambientes da realeza, Julia e Astoph sempre conviveram de forma harmoniosa, e seu relacionamento sempre esteve entre uma grande amizade, e um pouco mais. A sincronia de ambos assemelha-se em alma, mesmo tão diferentes nos termos de personalidade.

— Você está graciosa hoje. — Astoph dizia a Júlia, abrindo um acalorado sorriso.

— Obrigada. — Ela respondeu com certa acanho. — Você também está uma graça. — Brincou.

— Importaria-se, se lhe chama-se para uma dança? — Perguntou Astoph logo de cara.

A jovem simplesmente sorriu, e afirmou, fazendo um 'sim' com a cabeça. Enquanto dançavam juntos, conversavam sobre as questões do reino, o festival, e afins. Finalmente, ao meio de aplausos, o Primeiro-Senhor, apresentou-se sobre o tablado central, saindo dos fundos escoltado por meia dúzia de guardas.

— Digo, com minha maior impressão de que... de quê... de... — Ele para por um instante — Ngh! — Então se engasga, soltando um ganido de dor, que assusta sua esposa ao lado, no momento em que cospe uma abundância de sangue pela boca.

Durante o momento de tensão, todos o encaram com susto, e seus olhos não se separam de Maoz, até que seu corpo despenca no chão, levando seu cálice atulhado de vinho tinto ao solo. Sua esposa tenta segurar seu corpo, e falha. Sua queda causa um estrondo, que cessa completamente a música. Rapidamente, o silêncio entre o corte da música, a queda, e o vinho a escorrer pelo tablado se torna em um caos sem medidas. Um grupo de pessoas perguntam-se entre gritos:

— O que está acontecendo?!

Um guarda responde, em apuros:

— O Primeiro-Senhor foi envenenado!

Pessoas gritam em desespero, e outras correm para fora do ambiente de baile, enquanto guardas tentam fechar as passagens para que qualquer possível assassino fosse embarreirado. Também fracassaram, pois a massa de pessoas era muito superior a quantidade de guardas. Os maiores empurravam os menores ao lado, e contra as bordas do portal de entrada, enquanto pessoas menores ou mais fracas ficavam para trás, ou eram pisoteadas pela frenesi da fuga sem medidas da população da aristocracia, que corria por sua vida. Os guardas, rapidamente, se recompuseram, ao perceber que não conseguiriam conter a população em fuga, e resolveram correr em direção ao corpo do Primeiro-Senhor, com sua cabeça sobre uma poça de vinho, e sua mulher, em choque e segurando seu corpo.

— Guardas, unam-se! — Berrou o Capitão-Comandante Fitzerald Kin, ao colocar seus dedos indicador e médio sobre a garganta de Maoz Brimor, e notar sua falta de sinais vitais. — Dividam-se em duas unidades, preciso que partam imediatamente e avisem todos sobre o acontecimento! — Ele aponta para seu subordinado direto. — Subcomandante Drake, leve o corpo de vossa senhoria, e espalhe a notícia. Eu preciso encontrar-me com o subentendente agora!

O capitão então subiu em seu cavalo e correu, galopando como um raio em direção ao exterior dos portões do castelo. Enquanto pessoas corriam pelas ruas, abaladas, anunciando pelas casas e comércios do festival a catástrofe, o subcomandante Drake havia levado o corpo da majestade, e saíra, com o intuito de divulgar o trágico acontecimento. Com a luz de tochas sobre o andar térreo, e os pesados toques na porta de seu apartamento, Dom Exdar e sua senhora acordaram assustados. Dom Exdar desceu correndo as escadarias, enquanto um de seus funcionários atendia a porta.

— Boa noite oficiais, qual o motivo de toda a gritaria na rua, o que está acontecendo?

— Precisamos falar com o lorde Exdar neste exato instante! — Replicou o subcomandante Drake.

— Sim, senho... — O homem que segurava a porta fora interrompido na metade pelo próprio Dom Exdar, que rapidamente colocou-se em seu lugar.

— O que está acontecendo aqui?! — Exclamou Dom Exdar, ainda vestido em seu pijama, para o subcomandante. Sua expressão era confusa e cobria os olhos sonolentos das luzes de tochas.

— A Capital está em estado marcial, senhor. Vossa majestade, o Primeiro-Senhor, está morto.

...