O Torneio dos Coroados
4 Ato II - Estado de Calamidade
Ato II — Estado de Calamidade
No meio do caos padronizado, alguém acabara por derrubar um castiçal ou um candelabro, que caíra ao chão incendiando um tapete longo e vermelho carmesim de pele. O fogo se espalhou até alcançar um barril, que também se incendiou, o pânico que já era certo causou uma correria em massa do salão do baile, que preencheu os outros cômodos como corredores de saída do castelo com centenas de pessoas, lançando a mobília abaixo.
— Por aqui! — Gritou Astoph a Julia, enquanto o fogo se espalhava pelo salão. Por hora, Mirthril e Zelina já haviam corrido pelo portal da frente.
Enquanto as pessoas corriam por suas vidas, na fuga desenfreada até o portão principal do castelo, o Capitão-Comandante Fitzgerald alcançara o bairro de beira-rio, descendo até chegar a murada principal, a procura de alguém que pudesse o levar até o subentendente. Após um breve diálogo com um oficial, ele procede:
— De qualquer forma, tenho um pedido a fazer. — exclamou o Capitão-Comandante.
— Um pedido? — Respondeu um oficial. Ambos se encontraram em um dos distritos inferiores, e os gritos já não os encontravam, o que deixava o militar baralhado pela forma lépida da fala de seu superior.
— Sim! Preciso que leve-me a Cordo Ado, o forte no distrito da sacada, a noroeste da capital. Preciso me encontrar com o subentendente, o reino está sofrendo com um pandemônio generalizado, e ainda não sabemos o responsável pelas suspeitas de assassinato do Primeiro-Senhor!
— O Primeiro-Senhor foi assassinado?! — Perguntou o oficial extasiado e arrebatado.
— As notícias ainda não lhe encontraram? Ele caiu envenenado ao centro do salão de baile.
— Prepararei uma carruagem imediatamente para o senhor.
— Rápido, por favor, se nada for feito neste instante, a sociedade civil entrará em colapso e a estabilidade fluirá por água abaixo!
Assim que preparada a carruagem, o capitão adentrou o veículo, e o cocheiro saiu rápido como carregando leopardos, e não cavalos. Cada curva fazia a carruagem quase virar, fazendo as desgastadas placas de carvalho rangerem como portas de calabouço. A cada distrito atravessado, a cada ruela estreita, uma pessoa corria para longe da viatura, quase sendo atropelada. Já no castelo, o fogo espalhava-se como que em contato com álcool, e Julia viu-se separada de Astoph, no momento em que um enorme tronco de sustentação no teto pendeu, e caiu incendiado entre os dois.
— Por aqui, Julia! Por aqui! — Gritou Astoph.
— Eu não consigo! — Ela respondeu em ânsia.
— É isto, você vai ter que saltar, Julia, eu lhe seguro!
Ela tomou um certo espaço para trás, removendo rapidamente com as mãos trémulas seus sapatos, e lançou-se por cima do tronco, minado por fogo. Assim que seu corpo atravessou as chamas, Astoph a segurou, e seu busto foi arremessado para trás com força, fazendo ambos caírem e rolarem. Assim que se levantaram, correram o mais rápido que conseguiram até uma das portas laterias do salão.
A vista do acampamento dos competidores dava acesso ao grande sala do baile, e Vraek não só escutava os gritos em apuros da multidão, mas observava o que ocorria lá acima, parando de golpear o boneco e perdendo-se em sua visão, as labaredas infernais estourando as vidraças, e consumindo o fragmento lateral do castelo. Enquanto as massas entupiam os canais de saída do castelo, Mirthril e Zelina pararam em um calçamento mais alto, com o intuito de identificarem seus colegas, e os viram correndo para fora.
— Pelos deuses, vocês estão bem? — Gritou Zelina, em ânimo, ao avistar seu irmão e Julia, ambos sujos de cinzas.
— Estamos! — Respondeu Astoph.
— O que está acontecendo lá dentro?! — Perguntou Mirhril, levemente absorto.
— Não sei o motivo do incêndio, mas posso lhe dizer que o Primeiro-Senhor fora envenenado... — Replicou Astoph.
— Nossa... — Repensou a senhorita Hetarey. — Será que o Vraek está bem?
Zelina se surpreendeu.
— Vraek, O Indomável?! Você o conhece pessoalmente? — Então voltou sua mente ao mundo real. — Temos que sair logo daqui.
Por sua vez, Mirthril a respondeu:
— Nós três o conhecemos de nosso tempo na Velha Nóguia... — O resto de seu discurso foi reprendido por Astoph.
— Vraek, sério? Não vou me encontrar com aquele babaca.
— Por favor, Astoph, pare com isso... Sei que tem desentendimentos com ele, mas só quero ver se ele está bem.
Astoph, parou pensativo por alguns rápidos momentos.
— Vá você e Mirhril, Julia, eu vou com minha irmã procurar meu pai.
Com encontros e desencontros de informações dentro das forças armadas de Irf, a carruagem acabara ficando parada por alguns minutos no ponto, onde o Capitão-Comandante encontraria-se com o subentendente, pois fora avisado ao subentende que encontrariam-se em outro bairro, dificultando seu contato. Após quase meia hora de espera, o subentende reapareceu no ponto de encontro, extremamente frustrado pela informação incoerente que recebera.
— Hunf... Olá, capitão. — Apresentou-se o subentende a Fitzerald, já frustrado.
— Estou tão descontente quanto você, Vilkaham, mas precisamos resolver isso logo. — Disse o Capitão-Comandante.
— Está certo, está certo, além do envenenamento, fora me alertado que as pessoas estão lotando as ruas, desesperadas com o acontecimento.
— Exato, um plano de contenção?
— Sim, já está tudo pronto, pode ordenar o decreto marcial, o "Plano de Março" está em vigor.
— Ótimo.
Com a virada da desesperadora madrugada de domingo, para o escuro ensolarar do início da semana, coberto de pesadas nuvens, todos reuniam-se encabulados em uma das praças principais num dos distritos superiores, para escutar a voz que ecoava pelas casas e ruelas transversas, a fala do General Jakim. O clima de tensão pairava no ar, e a incerteza era mais do que clara. Dali, conseguia-se ver a catastrófica visão de parte do castelo incinerado com sua estrutura de madeira exposta e pedregulhos ao chão, cobrindo o entorno. Fumaça ainda saía dos destroços, e ao lado do palanque onde o general se posicionava, um enorme quadro de Maoz Brimor.
— O Primeiro-Senhor está morto! — Anunciava o general. A sua esquerda, o Capitão-Comandante e o subentente.
— O Primeiro-Senhor está morto, e não deixara herdeiros para prosseguir com seu magnífico legado. Este momento mais do que trágico na história de nosso reino marca o fim do glorioso governo de nossa majestade, Maoz Brimor... É com muito peso no coração, que venho anunciar aqui, hoje, seu catastrófico falecimento.
Mas não fiquemos sem resposta! — Ele altera o tom, para um menos fatídico. — Mas não ficaremos simplesmente nos lamentando pelo resto de nossas vidas por isso, pois a luz de Ivêf ainda paira sobre nossas cabeças, e mesmo com tudo o que ocorreu ontem a noite, que fique claro, o Torneio dos Coroados seguirá seu rumo natural.
Agora, enquanto nos recuperamos pelo falecimento de nossa majestade, em luto, posso lhes assegurar que as forças armadas de Irf estão fazendo tudo o que é possível para capturar o nefasto assassino que tirara a vida de um homem tão honrado como Maoz Brimor. O Conselho de Irf estará com cuidado revendo todos os possíveis candidatos para o posto de Primeiro-Senhor, e o conselho decidirá em um prazo de um mês, o futuro líder de nossa nação.
Que os deuses saúdam o povo, e que o Primeiro-Senhor seja louvado. — Parte das pessoas faziam o símbolo religioso de Ivêf, em preces ao falecimento de Maoz Brimor, enquanto outros, pareciam ainda extasiados demais, ou em choque pelos eventos da noite passada.
A atmosfera permaneceu dramática por todo o início da manhã, até que as barracas começaram a ser armadas, e o povo começou a se juntar novamente no Triunfo, para assistir a passagem de volta dos gloriosos guerreiros. Agora voltando do acampamento para a região inferior dos muros da capital, onde ocorriam os festivais, o povo mais uma vez saudava os combatentes por sua destreza incomparável.
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