O Torneio dos Coroados
5 A Biblioteca
— Você encontrou o Vraek, ontem durante a confusão? — Perguntou Julia a Mirthril.
— Não, mas me escute Julia, tenho que lhe dizer algo, sobre os acontecimentos de ontem a noite... Acredito que o me ocorre é estranho, e merece ser compartilhado. — Devolveu Mirthril, após o fim do discurso do general, na praça.
— O que é, Mirthril?
— Siga-me ao beco, não posso lhe mostrar aqui. — Ele olhou atento ao entorno, enquanto cochichava, prestando atenção se eram os únicos a escutar a conversa.
Assim que ambos pararam no beco, Mirthril ajeitou seu casaco, e removeu um frasco de seu bolso interno, continuando a falar baixo.
— Veja só, este frasco... É... Complicado.
— Desembuche de uma vez Mirthril, está me deixando ansiosa!
— Okay! — Ele respondeu no mesmo tom. — Ok... Escuta, este frasco não é qualquer frasco, mas sim um frasco do Primeiro-Senhor.
— Como assim?! — Ela disse, um tanto quanto confusa.
— Tenha calma, vou lhe explicar. Ontem a noite, no meio de toda aquela confusão... Vossa Majestade Maoz Brimor, deixou isso rolar quando caiu no chão e derrubou seu cálice, acredito que isto estava dentro de seu bolso.
— Pelos deuses Mirthril? Por quê está com isso, e não devolveu para as autoridades? Você sabe que isso pode ser utilizado como evidência? E se lhe pegarem com isso? Que líquido é esse...? — Ela o encheu de perguntas.
Ele cochichou, mas elevou a voz.
— Calma! Calma! Veja o que está escrito no frasco.
Julia então leu os dizeres, em alto relevo no frasco de vidro: "O quanto mais se afastava do mundo ao redor, mais exuberantes tornavam-se os sonhos".
Ela voltou a perguntar.
— Espere aí... Estes dizeres não são os mesmos talhados sobre a faixada de madeira daquela biblioteca em ruínas, da cidade média?
— Exato... Não acha um pouco suspeito? Não vou me desfazer do frasco, tem algo de muito errado aqui...
Neste momento, um vulto cortou rapidamente de um lado ao outro do exterior do beco.
— O que foi isso?! — Ambos se assustaram ao mesmo tempo.
— Tem alguém aí? — Mirthril gritou ampliando sua voz com as duas mãos, e ninguém voltou a responder.
— Escute você, Mirthril, isto está ficando perigoso, e não sei como consegue ver conspiração em tudo! Vamos sair daqui e trate de devolver este frasco.
— Está bem então! — Mirthril se irritou, guardando o frasco de volta em seu bolso. — Se não vai querer me ajudar, vou sozinho a biblioteca. Quero descobrir o que há por trás disso...
— Então vá, mas não me chame para sua aventura de louco.
O povo gritava em moderada empolgação dos palanques de madeira, armados com vista ao campo. O dia não era dos mais agradáveis. A luz do sol era tapada pelas nuvens, só revelando pífios raios cortando o horizonte. Mesmo assim, todos estavam entusiasmados, mesmo com tudo o que ocorrera, para assistir aos jogos, e todos esperavam a trombeta tocar, anunciando os competidores da justa.
Com seus cavalos, paramentos, armaduras, ornamentos, e lanças, todos os senhores cavaleiros moviam-se para fora de seus estábulos reais ao som de uma aguda trombeta de um arauto, quando começou a chover. Rodando ao redor da cerca que dividiam os dois corredores, os competidores mostravam ao público emocionado, suas decorações e seus apetrechos de cavalaria, assim como seus brasões de cada casa.
Vraek levava o brasão de seu patrono, já que o servia no torneio, e seu cavalo movia-se de forma tímida entre os competidores tão 'brilhantes'. Mesmo assim, Vraek fora um dos mais saudados. Com o seu capacete abaixado de bico longo, só levantou a mão, em agradecimento ao prestígio que o povo lhe conferia. A saudosidade era grande e só perdia para homens como Uldrael, Aatami, ou o honroso Hampus. O prestígio, por sinal, era tanto que intimidava outros competidores, e rapidamente invocou a inveja de alguns.
O Marquês Diffon, era tão conhecido pelo nome de "Espreitador", com de "Boca Grande", e não era a toa. Assim que se aproximou de Vraek com seu enorme cavalo, lançou-lhe pragas:
— Dizem que você é um coitado... — Disse de forma abafada, no meio do brado da multidão, alto o bastante para Vraek escutar.
Sentindo-se enfrentado, Vraek virou seu cavalo na direção do marquês, e Diffon prosseguiu:
— Mas você não é nenhum coitado, você é só um escravo fujão que conseguiu certa notoriedade, e agora com a morte do Primeiro-Senhor, ninguém te protegerá. Escute bem garoto... Você é só um merda, e não vai ganhar esta competição de forma alguma.
— Hahaha! — Vraek o respondeu com risadas. — E você acha que é algo de importante? No meio de todos aqui, não escutei uma pessoa na plateia a aplaudi-lo... Eu tenho certeza que sua notoriedade em breve vai morrer, junto com o nome "Espreitador". — Vraek virou-se de costas com seu cavalo.
— Escute você, Diffon, assim que eu terminar com você no Torneio dos Coroados, seu nome não será nem lembrança, nem sonho ruim...
Diffon sorriu, e acudiu-se:
— Continue tendo seus sonhos ruins, não estou com uma corrente em meus pés e durmo bem.
Após ambos seguiram em direção as filas, o tempo seguiu seu rumo com o segundo tinido da trombeta, e os gritos de cada impacto de lança aos escudos fazia o público zunir em comoção. Um por um, os competidores iam entrando de cada lado do corredor, e entre os dois um era eliminado. Aatami era impecável em seus impactos, e em apenas uma abordada, conseguia lançar seu oponente para fora do cavalo.
A visão da lança de Aatami e de outros competidores audaciosos fazia Vraek engolir a seco, mas não de medo, não temia seus oponentes. Estava ansioso com a represália de seu patrono, pois não queria arruinar sua única chance, e não tirava de sua cabeça uma jovem donzela. Quando chegada sua vez, segurou firmemente a lança com sua manopla metálica, e o primeiro impacto que recebera, chacoalhou com força sua cota de malha, permitindo-se escutar o ruído do metal se torcendo.
Com a cabeça um tanto confusa, respirou fundo e apontou sua lança para frente, guiando seu cavalo a correr, após virar a cerca. Com uma investida feroz, seu impacto gerou um cruel atrito que fora escutada por todo o campo derrubando seu oponente na terra abaixo. Assim que seu oponente chocou-se contra o chão, o público o prestigiou com uma alta salva de palmas. Entre os espectadores, as famílias da alta nobreza assistiam de seus camarotes. Julia, Mirthril e Zelina levantaram-se, o aplaudindo.
Nesta hora, ainda suando bicas, Vraek removeu seu capacete, o segurando sobre o braço. Levantando uma de suas mãos ao público, seus olhos foram de encontro a Julia. Astoph, que permaneceu sentado, o encarou de volta, e o sorriso de Vraek se desfez quando devolveu o olhar. Ambos se encararam por uma fração de segundos que mais pareceu uma eternidade, e quando quebrou-se a troca de olhares, Vraek seguiu aos fundos enquanto era saudado pelos dizeres "O Indomável!", que se repetia.
Julia seguiu aos fundos, andando de forma rápida para encontrar Vraek em sua tenda. Vraek, na hora, descia de seu cavalo enquanto toda a arquibancada o saudava. Pela outra porta de saída, Mirthril deixou os camarotes, mas não para se encontrar com seu amigo Vraek... Mirthril saiu rapidamente em direção a antiga biblioteca, com os mesmos dizeres que seu misterioso frasco. Mal ele sabia o que lhe aguardava.
Adiante então, seguiu por todo o perímetro do muro central em direção ao que acreditava ser o edifício que tanto procurava, a antiga biblioteca da cidade, agora caindo aos pedaços. Sua estrutura exterior, carcomida por fungos e colônias de cupim, e com suas arrestas corroídas pelo apreço do tempo, demonstravam a idade da edificação, esquecida a muito, e abandonada próxima ao movimentado centro da cidade. Mirthri subiu suas escadas, e assim que encostou sua mão no portal principal de entrada, o edifício inteiro estalou, soltando um alto ruído de madeira podre. Sobre o telhado da faixada via-se escrito "O quanto mais se afastava do mundo ao redor, mais exuberantes tornavam-se os sonhos", em mármore.
Vendo-se ser impossível abrir a enorme porta, emperrada, resolveu entrar por uma das vidraças, e já que haviam abandonado o prédio, agora cercado por nada discretas vegetações, decidiu-se por estourar a janela com uma pedra. Entrando, notou o cheiro do lugar, era podre como só sua madeira. No ar, partículas de poeira planavam sobre a mobília, e Mirthril tampou sua boca e narinas com um pedaço de pano que guardava consigo.
Explorando um pouco, notou que alguns dos móveis haviam sumido, provavelmente tinham sido roubados. Meia hora ou pouco mais adentro, encontrou a sessão de informações sobre a biblioteca, e um livro com a frase escrita tanto em seu frasco como na entrada do estabelecimento. Abrindo o livro, passou por muitas páginas aparentemente inúteis a sua exploração, até que deparou-se com notas, que mantinham dados adicionais sobre o lugar.
Dizia a história, que a frase da biblioteca vinha de um frasco desconhecido por seu dono. O criador da biblioteca estava no início de suas obras, e comprara em uma loja de penhores um frasco com um belo líquido dentro e dizeres estampados em seu vidro. 31 dias após comprar o frasco, o homem que ficou obcecado pelo produto acabou morrendo, assim como seu futuro dono, e o próximo, e o próximo...
Entre as páginas dizia: "Um veneno mágico poderosíssimo, mais potente que qualquer veneno feito pelo homem, ou pelos mortos. Os condenados ficaram com a pele flexível como a de uma cobra. Qualquer um que possuir o frasco, estará subitamente amaldiçoado, e que os deuses tenham piedade de sua alma fadada ao óbito".
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