O Torneio dos Coroados
1 Ato I - A Capital de Irf
Ato I — A Capital de Irf
A Capital brilhava como só a Lua de Ivêf, a protetora de Irf e de seu povo, no festival que celebrava um momento único na seleção da liderança do reino: naquele festival de verão, financiada principalmente pela 'sui generis' guilda de mineração, Os Exdar, e as famílias Tedrey, Hetarey, assim como a própria família real, ocorreria o aclamado "Torneio dos Coroados". O campeonato, uma disputa entre nobres de hierarquia militar para disputar o cargo mais requisitado da região, fazia o reino ebulir em empolgação.
Junto aos audaciosos guerreiros afamados, pomposos marqueses e suas esposas, chegava a consagrada cavalaria de canho-anil, a guiar Dom Exdar, o homem mais rico do reino e líder da guilda de mesmo nome. Ele se locomovia confortavelmente dentro de sua couraça blindada, uma carruagem coberta pelos metais mais finos, recolhidos do sul, e guardado por, ao menos, 25 homens muito bem armados em cavalos vizinhos ao veículo.
Enquanto o preclaro Dom Exdar andava no compartimento frontal do veículo, acompanhado de sua esposa, no compartimento traseiro, seu filho, Mirthril Exdar, era seguido por Wasa, um esguio escudeiro recrutado na mesma região de mineração dos Exdar. Para trabalhar como servo, escoltando Mirthril em sua futura e maior investida, Wasa fora chamado com o intuito de auxiliar em sua iniciação na Academia Militar de Irf, onde os cavaleiros de Ivêf eram formados para defender a honra do Estado e de seu magnífico, o Primeiro-Senhor, maior título de poder entre todos os campos do domínio.
Era manhã, a relva clara misturada as partículas de pólen anunciava o fim da primavera, e o início da estação mais quente do reino. Naquela manhã clara de domingo, iniciava-se a semana do torneio, e todos do reino recebiam a partir de um mensageiro o anúncio em suas respectivas vilas, o convite da família real aos jogos públicos, e todos arrumavam-se em suas carroças, cavalos e carruagens para a longa viagem até a Capital. As rotas pelas serras e pelos campos de trigo faziam curvas e curvas, com milhares de caravanas atravessando o interior do país para assistir de perto as lutas, e aproveitar das bonanças vendidas no festival.
Enquanto o cenário interiorano do país, de economia fortemente agrícola, fortalecia os traços naturais com enormes florestas e cachoeiras, uma delas que desabava em seu maior rio que cortava o coração das terras, o curso de água Daffor, a Capital era uma metrópole como nenhuma outra. Ao longe, atravessando o rio Daffor e cortando as fazendas, via-se a iluminação das tochas, e castiçais que iluminavam as ruas e os grandes muros que cercavam a Capital.
O centro era divido por três níveis ou estágios, sendo estes: a primeira murada, mais alta e exterior que completava todo o distrito comercial, o separando dos casebres ao lado de fora; o muro central que definia as casas da elite aristocrática local; por fim, o muro do Castelo de Grey Brimor, onde residia a família real da dinastia Brimor e seu Primeiro-Senhor, e chefe da família, Vossa Majestade Maoz Brimor.
Enquanto a corpulenta caravana dos Exdar adentrava o muro em direção ao distrito mercantil, com a ponte de acesso levadiço sobre uma margem profunda de água verde e lodosa, Mirthril aproveitava a viagem a conversar entusiasmadamente com o escudeiro Wasa, que parecia tão animado quanto seu senhor.
— Você é de Straightford mesmo? — Perguntou Mirthril.
— Sou, sim senhor, respondeu o jovem escudeiro.
— Pois bem, deveria saber manusear uma espada como ninguém então, os maiores cavaleiros ao sul manejam a rapieira como só os santos fidalgos!
— Infelizmente, senhor, só tive acesso ao ensino da espada aos 14 ou 15 anos, durante infância nem se viam espadas onde nasci, além de enxadas e picaretas.
— Não se preocupe, Wasa, quando for aceito para a cavalaria, terás acesso a todos os artifícios militares que imaginar. Como meu escudeiro, é só uma questão de tempo...
— Sabe que sempre torci por ti. — Diz Wasa em tom de piada.
Enquanto as filas de caravanas dividiam-se pelo trecho da Praça da Cruz, no 1º bairro murado, ao trepidar pelos pedregulhos irregulares, Dom Exdar já enjoava-se, ao esticar sua cabeça para fora da carruagem em busca de ar fresco. Ao passo em que as filas agilizavam-se, encontravam-se novamente em um funil, onde oficiais fiscalizavam cada veículo que entrava e saia das vielas da capital. A carruagem continuava a mover-se lentamente, enquanto oficiais gritavam a pedido dos próximos veículos.
— Próximo! — Um guarda, ao lado de um tabelião, gritava a chegada da vez dos Exdar.
— Aqui está tudo. — Diz o cocheiro, sinalizando ao guarda a cavalaria que guiara a carruagem.
— Apresse a papelada — Disse o guarda ao tabelião — esta é a caravana do senhor Exdar, trate de engolir este papel todo!
— S-Sim Senhor! — Respondeu o tabelião, correndo para pegar, no interior da torre de vigilância, o carimbo e a tinta.
— Aqui está, podem prosseguir.
O cocheiro respondeu com um sorriso amarelo, e, agradecendo com um leve movimento de chapéu, seguiu atravessando ao interior do portão, guiando os cavalos com um assovio forte, antes de segurá-los pelas rédeas. Chegando ao distrito residencial da elite, serviçais já aguardavam os Exdar enquanto a carruagem parava próximo ao antro de entrada das acomodações caras. Uma edificação de arquitetura barroca, com detalhes de anjos e um albatroz, sobre o telhado centralizado as portas do prédio.
— Estou morto de fome, Joselin — dizia o Dom a sua esposa — espero que o café já esteja pronto. Mal espero para comer com os Tedray, eis uma família que respeita os dons culinários de nossas terras!
— Pelo amor dos 10 santos! — respondeu Dona Joselin — Você lanchou durante todo o trecho da viagem pelas fazendas tortas, é por isso que estás enjoado.
— Não seja tão ranzinza Joselin... Só estou curioso para provar o bolo de nozes.
...
Fale com o autor