O Torneio dos Coroados
2 Astoph e Vraek
— Sir Gor Drey e os Hetarey estarão aqui em questão de minutos, não poderia sentir-me mais ansiosa! — Dizia a garota em ambiente palaciano, para seu irmão.
— Sabe que não estamos aqui para brincadeiras baratas. Se quiser ir ao baile, não esqueça de nossa missão oficial, Zelina. — Respondeu o irmão.
— Nossa... Como consegue ser tão ranzinza, Astoph?
— É o meu dom maior, agora, trate de arrumar-se para a cerimônia de encontro real, mocinha, ou terá problemas sérios com nosso pai. — Replica Astoph em tom de comando.
— Ok, ok... Mas sabe que você cuidará do pestinha hoje, escutou? As serviçais estão ocupadas demais arrumando nossa acomodação, e eu não sei trocar fraldas. — Diz Zelina em tom de birra.
— Hunff — bufa Astoph — está bem, vá logo.
Após a cidade lotar-se, com acomodações e hotelarias recheadas de turistas com fome de festival, ao centro, inúmeras figuras nobiliárquicas e ricos beneficiários notáveis, preenchiam toda a extensão do salão real, onde ocorreria a confraternização nobre pré-torneio. Já ao distrito residencial da elite, atravessando pelo "Triunfo", estrutura de 15 arcos de marfim, com adornos dourados e cercados de ciprestes, que formavam um corredor em direção ao castelo, os heróis do torneio já moviam-se dentro da capital em suas caravanas próprias, ao meio da multidão os ovacionando com gritos de animação e pétalas de rosas.
O momento de louvor as figuras participantes do torneio nobre, não só glorificava a imagem do Estado, e a popularidade de seu digníssimo Primeiro-Senhor, como chamava aos cofres públicos, uma margem absurda de contribuintes vorazes, para gastar suas moedas em regalias durante o período de uma semana. O brado da população ecoava pelo Triunfo, e poderia ser escutado no portão da urbe, assim como próximo ao castelo, entretanto, o número de pessoas que aumentava gradativamente nos salões do castelo quase interrompiam os sons exteriores dos distritos abaixo.
Ilustres notoriedades nobres, clamadas pelo público, cortavam por dentro do Triunfo, como Sir Aatami, o maior lanceiro do reino; Lorde Hampus, barão e líder da Cavalaria da Custódia da Honra; Marquês Diffon, conhecido em campo como o "Espreitador"; Conde Uldrael, senhor de um histórico impecável de vitórias em duelos individuais; ainda o mais esperado pelos espectadores, Sir Vraek "O Indomável", um ex-escravo que conseguiu libertar-se, e provou seu valor em combate tornando-se cavaleiro.
Ao passo em que as caravanas moviam-se e terminavam de atravessar o Triunfo, apressavam-se entre gritos eufóricos do povo, em direção ao distrito de Madstone, ao sul da cidade. As caravanas, que antes encontravam-se juntas, separavam-se, abrindo um enorme delta de veículos sobre os acampamentos, com as cabanas já montadas e fogo já acesso a espera dos nobres guerreiros do torneio. Então, cada um grupo, a equipe e seus campeões, seguia para suas barracas, montadas com uma grande placa, com o símbolo respectivo de cada uma de suas casas nobres.
A chegada tão esperada de homens abastados como Uldrael, ou o Marquês, um enorme bufê os aguardava. Ao outro lado do acampamento, Vraek chegava exaurido da viagem, e ainda mais cansado com papo moralista de seu patrono, Conde Barnabas Altman, que receberia o cargo no seu lugar, caso tornar-se campeão. Era simples: quando ainda escravo, Vraek assinara um contrato, um documento um tanto quanto malicioso com o lorde Altman, no intuito de libertar-se. Mesmo conseguindo sua tão almejada "libertação", não fora a liberdade que o aguardara após a quebra de suas correntes, mas sim um trabalho muito próximo ao que fazia antes, deveria servir a um senhor, e promovê-lo em disputas locais, até que completa-se uma margem de lucros determinada pelo próprio conde.
Só alcançando esta margem pré-determinada de lucros altíssimos, conseguiria livrar-se do contrato, porém outra oportunidade bateu a sua porta: "O Torneio dos Coroados", a maior disputa do reino, que definiria o posto de maior relance e poder. Só atrás do próprio General-Maior a mando do Primeiro-Senhor, o posto de General da Brigada de Irf disputado no torneio, concederia ao proprietário desta dignidade, gerir não só a maior brigada do reino, a da capital de Irf, e de toda a inteligência interna do perímetro da capital, como também concederia-lhe poder sobre a formação dos novos cavaleiros de Ivêf, na Academia Militar de Irf.
O Indomável fizera um acordo com seu patrono, e seu patrono fizera um acordo com o reino, aproveitando a oportunidade única. Vraek fora permitido lutar a mando de seu lorde por dificuldades de saúde vindas deste, e caso consegui-se garantir ao conde o posto tão desejado, o contrato entre os dois seria quebrado, e pela primeira vez na vida de Vraek, ele estaria livre como uma ave, pronto para saborear o que a de melhor no mundo... Todos os desejos de viver uma vida plena e aproveitar as mazelas e os sossegos da vida como alguém normal, era tudo o que ele mais cobiçara desde que nasceu, filho de uma mulher escrava, e trabalhadora de minas.
Assim que entrou dentro do cômodo único da cabana, Vraek debruçou-se sobre o longo sofá de veludo, a frente de um fogaréu de tamanho médio, com uma saída de fumaça no topo da estrutura. Aproximando-se do ápice de sua forma física aos 19 anos, Vraek já possuía um corpo bem estruturado e adulto, digno de um verdadeiro campeão de arenas. Cortes espalhados pelo seu abdômen e braços, marcado com estreitas cicatrizes de lâmina, entregavam rapidamente seu serviço como lutador. Seus cabelos curtos e castanhos, e as laterias quase que completamente aparadas, olhos pequenos e uma carranca de cansaço sobre o rosto. Nesta hora, seu patrono saíra para fazer algo no acampamento, e só ficara na cabana ele e seu cuidador, Lester.
— O que está fazendo, Lester? — Perguntou Vraek.
— Nada demais, só estou ajeitando a armação da cabana, não quero que caia sobre nossas cabeças, ainda mais com esta fogueira ao centro.
— Entendo, mas passou o dia a viajar. Descanse um pouco e volte a arrumar tudo mais tarde.
— Sir Vraek, posso lhe perguntar algo.
— É só dizer, estou a escutar.
— O clima entre você e seu patrono, meu superior o conde, não parece estar da melhor forma possível. Sei que tu não gostas do contrato, e desanima-se com tudo o que aconteceu, lá em território Imperial, mas aquilo foi muito longe ao leste, e já fazem meses...
— Você sente?
— Não pude deixar de notar, meu senhor, agora, você está com algum problema que possa ajudá-lo, de qualquer forma?
— Infelizmente, não a nada que possa fazer Lester, meus incômodos são os mesmos de sempre, só quero me livrar logo deste ultraje, e seguir com minha vida. Mas não posso! — Esbraveja Vraek — e ainda por cima, ele não se cansa de me entregar lições fajutas de moral, para tentar comprovar que minha situação é a melhor possível, e isso é deplorável.
— Eu entendo, eu entendo, mas tenha calma... Você é provavelmente o indivíduo mais confiante que conheço, você sabe melhor do que ninguém, que tem garra para vencer este torneio, será mamão com açúcar para ti, acredite em minhas palavras.
— Não sei Lester, sinto-me cada vez mais desanimado, mas sou também um tolo, não sou?!
— O Senhor não é.
— Eu sou! — Começa a se irritar Vraek, levantando-se e sentando com a postura ereta sobre o sofá, com os olhos perdidos sobre o fogo.
— Sou um tolo, pois não lhe escutei quando falou que já faziam meses desde os acontecimentos em solo imperial, e mais. Ele para por certo tempo.
— E mais, não consigo tirar outros pensamentos da cabeça, mas com estes pensamentos consigo lidar com mais tranquilidade.
— E quais seriam estes pensamentos, Vraek?
— Ainda estou pensando nela, ela não sai de minha cabeça. Só não quero que isto tudo atrapalhe minha performance em treino e combate.
— Julia Hetarey, senhor.
— Ela mesmo, e o pior é que já tentei aliviar de outras formas, seja dando duro em combate, e me distraindo com os socos, ou bebendo... Não funciona, Lester, nada disso funciona.
— Senhor, tenho uma constatação a fazer, o que me parece óbvio.
— Pode me falar.
— Acredito que você está apaixonado pela jovem, Vraek. — Diz Lester, de forma cômica.
...
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