O Torneio

13 Capítulo 13


— Kunos Malditos ! — Ranma reclamou com sua voz soprano.

Ela seguia em direção a clínica depois de decidir não participar do período pós-almoço da escola.

Alguns minutos atrás, Tatewaki Kuno o atacou durante o horário de almoço. Nada que ele não estivesse acostumado. O grande problema foi quando a família toda decidiu participar da confusão para piorar mais ainda a situação. Kodachi roubou seu lanche e lhe ofereceu algo que ela tinha feito durante sua aula de culinária. É claro que Ranma recusou, afinal, ele não estava disposto a passar o resto do dia paralisado. O diretor Kuno, pai dos dois lunáticos, tentou cortar seu cabelo e puni-lo alegando mau comportamento.

Decidindo que sua cota diária de insanidade já havia sido completada, Ranma rumou até a consultório para começar seu expediente mais cedo. Talvez isso lhe permitisse sair antes do horário estipulado e, consequentemente, chegar em casa mais cedo. Isso evitaria que Ryoga e sua noiva passassem mais tempo sozinhos no dojo. Ele estava disposto a redobrar seus esforços, especialmente depois de ontem à noite quando Ryoga tentou ativar sua maldição para se esgueirar para dentro do quarto de sua noiva. Seu plano teria dado certo se Ranma não o tivesse nocauteado e o largado dentro do dojo.

Os deuses devem ter um senso de humor bem duvidoso. Assim que o garoto saiu da escola, um nuvem negra se formou acima da sua cabeça e começou a chover. Não choveu nem por um minuto inteiro, entretanto, isso foi o suficiente para transforma-lo em garota.

— Kunos maltidos! o que é que vocês têm contra mim ?

Ranma tentou abrir a porta da clinica, mas ela estava trancada.

— Estranho. O doutor Tofu não disse nada sobre passar a tarde fora. Talvez ele esteja descansando no segundo andar.

A garota rodeou a clínica e usou uma árvore para chegar até uma janela que daria acesso ao segundo andar.

Haviam três cômodos no andar de cima da clínica: O primeiro era uma sala simples com apenas duas camas hospitalares. No segundo cômodo, o menor de todos, era o local onde eram guardados os equipamentos de limpeza da clínica. O terceiro e maior cômodo, era o pequeno apartamento do quiropraxista.

Ranma saiu da sala com as duas camas e entrou no corredor que o levaria até o lugar onde o doutor Tofu descansava. Ele não queria incomodar o médico, apenas confirmar sua teoria e avisá–lo de sua presença. Por essa razão, ele decidiu caminhar na ponta dos dedos para não fazer qualquer ruído.

A entrada ficava no final do corredor. Ranma percebeu que a porta não estava completamente fechada e ouviu duas vozes vindo de dentro da sala. Curioso, ele abriu poucos centímetros da porta e colocou parte de sua cabeça para dentro da sala. Quando ele viu quem eram o dois ocupantes, o garoto voltou para o corredor, correu até a primeira sala e fechou a porta.

— Eu não posso acreditar! Como ? — ele se perguntou tentando controlar sua respiração, tamanho era o choque da cena vista.

"Talvez minha mente esteja pregando alguma peça."

"Eu acho que não. Aquilo me pareceu bem real." Disse a segunda voz em sua cabeça.

"Mas isso é impossível. Todo mundo sabe disso."

"Só existe uma maneira de sabermos a verdade."

Ranma entrou no corredor novamente e com a mesma furtividade de instantes atrás, seguiu até porta aberta. Vendo a cena novamente, o artista marcial voltou correndo para sala que ele usou para entrar na clínica.

"Não pode ser !"

"Isso foi assustador."

O garoto abriu a janela e ficou observando a rua como se estivesse procurando algo.

"Os quatro cavaleiros do apocalipse cristão não estão cavalgando, o céu continua azul e sol ainda é a única estrela do sistema solar. Eu devo estar tendo alucinações."

"A Kodachi tentou jogar algum gás durante sua visita no horário do almoço."

"Você está certo, deve ser isso. Acho que um pouco de ar fresco deve resolver o problema."

Na maior sala do segundo andar, um casal sentado em um confortável sofá trocava carícias e palavras amorosas.

— Cada vez que eu te vejo você parece mais bonita. — O homem elogiou sua parceira.

— E você parece mais jovem do diz ser.

O homem começou a beijar o pescoço da mulher e depois subiu procurando seus lábios.

— Hum... parece que alguém está sendo bem ousado hoje. — A mulher provocou com uma voz vagarosa.

— O que eu posso fazer se eu me apaixonei pela mulher mais linda e perfeita de todo Japão. Além disso, já faz um bom tempo desde a última vez que você veio me visitar.

— Você sentiu minha falta ?

O homem moveu sua cabeça e tascou um beijo passional em sua companheira. O movimento fez mulher escorregar e acabar deitada no sofá com seu companheiro por cima.

— É claro que eu senti. — Ele respondeu quando os lábio se separam.

— Parece que o meu médico favorito está carente de afeto.— a mulher beliscou o homem na bochecha.

— Você não sabe quanto. — Ele abaixou sua cabeça para mais um beijo. Quando ele afastou para recuperar o fôlego, a mulher o puxou pela nuca e invadiu sua boca com sua língua.

— Parece que eu não sou único aqui carente aqui. — Ele disse ainda se recuperando. A mulher apenas sorriu.

Depois de alguns minutos de muitos beijos, a mulher perguntou:

— Me diga, Tofu, a pessoa que apareceu na porta é quem eu estou pensando que é ?

— Sim, é ele mesmo.

— O que ele estava fazendo aqui, esse não é o horário de trabalho dele, correto ?

— Algo deve ter acontecido para ele chegar aqui mais cedo. Não se preocupe, eu tenho certeza que ele não vai contar nada para ninguém.

— Você tem certeza, Tofu ?

— Absoluta, Kasumi. Ele está voltando. — Quando o médico sentiu que sua assistente próxima a porta, ele beijou Kasumi mais uma vez e só parou quando ela foi embora.

— Por quê você fez isso ?

— Ela provavelmente vai ficar em estado de choque e não vai contar nada para ninguém. Caso faça, vão achar que ela enlouqueceu.

— Você é um médico bem malvado. — Kasumi disse em tom de brincadeira.

— Eu não ouvi você reclamando.

Naquela tarde, Ranma(ainda em sua forma feminina) voltou a clínica no seu horário usual. Ela não conseguia olhar seu patrão sem se lembrar da cena presenciada mais cedo.

"Eu ainda não consigo acreditar. Kasumi... doutor Tofu... como ? ele parece bem normal agora. Mais cedo ele estava... eu não sei como dizer. Esquisito talvez."

O médico percebeu que sua assistente estava um pouco distraída, mas não falou nada.

"Eu vou falar com ela depois."

— Será que isso vai dar certo, Ryoga ? — Akane perguntou, incerta. — quero dizer, eu ainda estou aprendendo a controlar meu ki e ontem foi a primeira fez que eu fiz uso consciente dele.

— Não se preocupe, Akane, vai dar tudo certo.

Os dois continuaram lutando até a chegada da garota ruiva. Ela lançou um olhar furioso para Ryoga assim que entrou no dojo.

— Ranma, o que nós vamos treinar hoje ?

— Vamos continuar de onde paramos ontem a noite. Você e o Ryoga passaram a tarde lutando, certo ? você estava usando o seu ki ?

— Não muito. — Ela admitiu.

— A partir de agora você só irá lutar usando o seu ki. Melhor, você fará tudo usando seu ki, até mesmo quando você estiver caminhando.

— Isso não é um pouco de exagero ?

— Talvez sim. O objetivo é ajudar o seu controle e aumento das suas reservas de energia. Chega de papo e vamos começar.

Ranma assumiu sua posição de luta e Akane fez o mesmo. Antes de começarem, Akane procurou Ryoga com seus olhos. Ele apenas olhou para ela e acenou com a cabeça. Isso não passou despercebido pela garota de rabo de cavalo.

— O que há como vocês dois ?

— Nada. Se eu fosse você, prestaria atenção no seu oponente, Ranma. — Ryoga avisou.

Akane seguiu os mesmo passos do dia anterior e concentrou seu ki em torno de seus pés. Ela avançou com tudo que tinha para atacar a garota ruiva quando se sentiu pronta.

Ranma se esquiva dos ataques e mantinha um olhar crítico na face. A cada ataque disparado, ela fazia comentários sobre o que deveria ser corrigido. Depois de passar alguns minutos na defensiva, Ranma decidiu atacar. Sua sequência de ataques era implacável e Akane estava tendo dificuldades para se defender, entretanto, ela percebeu que sua movimentação estava melhor que anteriormente.

Os dois continuaram assim por cerca de dez minutos. Ranma viu um brecha na defesa de sua noiva e atacou com um chute lateral a meia altura. Ryoga escolheu essa hora para se manifestar e gritou:

— Agora, Akane !

Em uma fração de segundos, Akane pôs em pratica o que ela e Ryoga treinaram durante toda a tarde. Em vez de tentar bloquear, ela usou todo o seu ki restante para proteger a lateral de seu corpo.

Ryoga havia previsto que os ataques de Ranma não estavam carregados com muita força, portanto, a quantidade de ki usado por Akane para parar o ataque seria ideal.

Ranma sentiu como se tivesse chutado um bloco de concreto. Porém, o que mais lhe surpreendeu, foi que sua noiva recebeu o ataque, mas não caiu. Na verdade, Ela apenas se moveu alguns centímetros com a força do impacto.

— Ataque agora ! — Ryoga gritou novamente.

Akane não tinha mais muitas forças, tudo o que lhe restava foi usado para parar o ataque. Entretanto, para atacar Ranma, ela sempre tinha uma reserva extra. A garota de cabelos azuis levantou seu braço esquerdo e colocou um soco no queixo da ruiva. Não foi um golpe muito forte, mas que teve bastante significado para ela. Essa havia sido a primeira vez que ela conseguiu acertar um golpe em sua(eu) noiva(o) durante uma sessão de treinamento.

— Eu consegui ! — Ela comemorou. — Finalmente eu consegui.

— Meus parabéns, Akane. E você, Ranma, não tem vergonha ? depois de passar dez anos em uma jornada de treinamento esse é o melhor que você consegue fazer ? — Ryoga provocou. — Ela só está treinando a duas semanas e conseguiu te acertar. Uns seis meses vai ser o suficiente para ela te alcançar ou talvez até te superar.

— O que foi que vocês fizeram ? — Ela perguntou, indignada.

— Enquanto você trabalhava, eu mostrei para a Akane como usar o ki para se defender.

— Por que motivo você fez isso ?

— Não é esse o meu propósito aqui ? o que foi, não gostou ?

Ranma estava queimando em ciúmes. Pimeiro o Ryoga aparece e começa a treinar sozinho com sua noiva. Agora está começando a ensiná-la esses truques com o ki.

— Você não pode fazer isso, Ryoga ! — Ranma saltou e aplicou uma voadora no tórax do garoto de bandana.

Ryoga girou o corpo no meio do ar e conseguiu se preparar para a queda.

— Por que não ? Eu sou o professor dela também.

Os dois rivais se engalfinharam em uma luta feroz regada a muitos insultos.

— Se vocês dois não se importam, eu vou tomar um banho. Eu estou exausta.— Akane sabia que a troca de 'sutilezas' de seus dois professores poderia se prolongar por uma noite inteira. Sendo assim, ela decidiu encerrar seu treino e ir se lavar.

Ranma e Ryoga nem perceberam quando Akane se retirou do dojo.

Akane saiu do banheiro meia hora depois e os sons do combate ainda não haviam cessado. Ela estava pronta para entrar em seu quarto quando ouviu um sonoro 'Splash' vindo do quintal. Em seguida, duas figuras apareceram correndo em sua direção. A primeira, com cerca de 20 centímetros de altura, se escondeu atrás de sua pernas.

— Volte aqui seu porco imundo ! — A segunda figura era seu noivo ainda na forma amaldiçoada.

Ela tentou pôr as mãos no porco, mas foi desistiu assim que viu sua noiva com seu tradicional martelo em mãos e sua aura vermelha em volta de seu corpo.

— Deixe o P-chan em paz, Ranma. — Ela ameaçou.

Ranma engoliu seco e recuou. Quando viu sua noiva recolhendo o animal e o levando para dentro do seu quarto, ela disse.

— Você vai pagar por isso, porco maldito.

Akane voltou e retrucou :

— Francamente Ranma. Qual é o seu problema com P-chan ?

— Qual o meu problema ? É ele quem fica me provocando e me mordendo.

— Ele é só um porquinho, Ranma.

— Faça o que você quiser então. Eu não ligo, eu não ligo e eu não ligo.

— Veja como ele está sendo infantil, P-chan. — Akane deu um selinho na ponta do nariz do seu animal de estimação, deixando a garota de rabo de cavalo furiosa.

— Você não pode fazer isso, Akane ! — Ela gritou revoltada.

— Por que não ?

— Ele é um porco !

— Eu estou cansada e não estou com tempo para seus ataques de ciúme, Ranma.

Ranma queria começar seu discurso de impropérios, mas lembrou-se da promessa que fez a sua mãe de não ofender sua noiva. Entretanto, isso não o impediu de fazê-lo mentalmente.

— Eu não tenho ciúmes de você, especialmente com esse porco !

— Então você tem ciúmes quando eu estou com o Ryoga ?

Ranma desandou com os olhos esbugalhados.

"Bem no alvo" pensou Akane.

— Boa noite, Ranma.

— Ei, ainda não terminamos Eu não tenho ciúmes de um garo...

— Boa noite.

Antes que a porta fosse fechada, Ranma viu seu rival sorrindo provocantemente em sua direção.

"Isso não vai ficar assim, Ryoga. Você me paga."

Notas finais
Eu prometo explicar a relação do Tofu com a Kasumi em algum capítulo futuro :D Críticas construtivas serão sempre bem-vindas. Percebeu algum erro de português, concordância, formatação ou qualquer outro tipo? me avise para corrigi-lo. Até a próxima.