O Teste da Deusa

17 Capítulo Dezesseis – Encontro uma velha amiga morta


Notas iniciais
Oi povo! Tudo bom? Boa leitura! [ATUALIZADO 01/02/2017]

Eu nunca me imaginei invadindo a casa grande.

Pelo menos, não a parte que me lembro.

Eu estava no chalé de Nico pela segunda vez hoje. Estou começando a passar mais tempo aqui do que no meu próprio, onde milagrosamente meus irmãos não perguntam de mim constantemente.

Depois que fui tomar banho e trocar de roupas, um dos garotos de Hermes veio me avisar que Nico queria que eu o esperasse em seu chalé, então aqui estou eu.

Agora, onde Nico está é outra questão.

Desde que ele sumira do treinamento eu não o vi mais, nem no jantar, e acho que ele está realmente chateado comigo. Ele tem feito de tudo e mais um pouco para me ajudar a lembrar e mesmo assim eu continuo agindo dessa forma. Não é como se eu estivesse usando-o, mas acho que precisamos conversar. Nico tem que entender que eu não lembro de nada e ele não pode me obrigar a algo assim, por mais que meu coração se parta. Eu realmente quero lembrar e viver confortavelmente com tudo isso, mas até agora... só vejo o vazio nas minhas memórias.

É uma coisa complicada, eu sinto as inquietações de tudo aquilo que deveria saber, mas não consigo, de fato, me lembrar. É como se meus vinte e três anos como semideusa tivessem virado massinha na minha mente. As vezes a informação estava lá e de repente sumia. Era assim com Nico. Eu lembrava dos nossos momentos e então eles simplesmente iam embora.

E foi enquanto eu pensava nisso, deitada em sua cama, que ele apareceu.

— Você chegou cedo. – Ele resmungou enquanto deixava uma bolsa na escrivaninha.

— Eu estou muito ansiosa. E nervosa. E se não der certo?

— Vai dar. – Ele murmurou enquanto tirava a jaqueta e jogava na cama ao meu lado. Nico, assim como eu, usava uma camiseta do acampamento acompanhada de um jeans escuro. O observei se dirigir ao banheiro e logo o chuveiro foi ligado. – Nós já resolvemos tudo. Vai ser simples. Nós entramos. Vamos até o sótão. Você fala com o oráculo. Nós saímos. E aí... fazemos o que quer que a profecia diga que é necessário pra você... Lembrar.

A voz de Nico soava abafada através dos cômodos, apesar de a porta estar aberta. E fria. Uma voz muito fria.

Fiquei em silêncio esperando que ele saísse do banheiro. Eu queria olhar para ele enquanto falava, enquanto ele me ouvia. Eu podia não estar... apaixonada por Nico ainda, mas ele era tudo o que eu tinha.

Ele saiu com a toalha presa ao quadril, como eu já notara que era costume. Depois de passar a última semana com Nico, exatos sete dias, já havia me habituado com sua presença e manias. Era como se as gavetinhas da minha mente abrissem essas memórias vez após vez.

Virei de costas, encarando a parede quando ele provavelmente estaria se trocando.

— Por que saiu cedo do treinamento?

— Você não parecia estar precisando de mim.

— Você estava irritado.

— Percy estava fazendo um bom trabalho.

Girei na cama, voltando-me para ele e olhei em seus olhos.

— Você ainda está irritado.

Ele suspirou cansado.

— Droga Annabeth... eu não quero falar sobre isso, tudo bem?

— Acho que não.

Ele esfregou as mãos no rosto e levou uma mão até o pescoço, deixando-a lá.

— É só que... eu estou ficando cansado. Você me ignora as vezes, em outras fica fazendo coisas que nunca fez, e agora se aproximou do Jackson desse jeito estranho. Não consigo afastar a sensação de que ele está te usando. – Abri a boca para responder, mas ele me impediu. – Mas eu também sei que isso pode ser coisa da minha cabeça. Eu só... preciso me organizar novamente. Isso é novo para mim. Eu preciso me acostumar com isso de não termos nada.

Eu ia responde-lo, mas parei novamente. Ele estava certo? Estava errado? Nós não éramos namorados? Mas, eu realmente quero isso?

— Talvez você esteja certo. Mas... você não precisa fugir de mim. Eu não vou deixar você sozinho.

Ele sorriu triste e sentou ao meu lado, abraçando meus ombros.

— Sei disso.

Olhei para as paredes e respirei fundo.

— Eu queria muito que seu chalé tivesse janelas. Ai eu poderia saber se lá fora já escureceu o bastante ou não.

Nico riu e levantou.

— Já escureceu. Quando eu cheguei já estava escuro.

— E nós vamos que horas?

— Acho que depois que todo mundo dormir. Só mais um pouco.

Repassei o plano entre nós. A casa grande ficava ao sul dos chalés, precisaríamos atravessar o arsenal e as forjas.

O Olimpo queira que todos estejam dormindo.

— Será que eles trancam a casa durante a noite?

— Provavelmente. Ou não. Nunca fiquei muito tempo em um lugar só, inclusive aqui. E é por isso que nós vamos entrar pelas sombras. Na verdade, nós podíamos ir pelas sombras.

— Não tenho certeza. – Mordi meus lábios e evitei encará-lo. Hoje à tarde eu lembrei de uma coisa. Nico trazendo a Atena Parthenos e quase sumindo. Um Nico criança parecendo quase um morto-vivo pelos esforços incansáveis de usar o novo poder. – Não sei se quero você viajando nas sombras por nada. É muito longe e não quero você virando fumaça.

— Nova Roma até aqui era longe. Do meu chalé até a casa grande é longe. Quantos metros você vai considerar aceitável?

— Eu não sei. No máximo uns cinco metros?

Nico revirou os olhos e pisou no espaço entre a escrivaninha e o chão, sumindo.

Prendi a respiração. Eu tive vagas lembranças dele viajando desse modo, mas eu ainda não havia visto. Pelo menos, não desde que acordara.

Ele apareceu no espaço entre a cama e a parede, à minha esquerda. Levei uma mão à boca e outra ao coração tentando sufocar meu espanto, enquanto ele me oferecia um morango.

— Você... você... não faz mais isso! Você foi até os campos? Você quer sumir, não é mesmo?

Eu conseguia me lembrar de Nico tentando usar o seu poder e cedendo espaço em si à escuridão. Sumindo. Precisando de ajuda para voltar à luz.

— Annie. Annie. Calma.

— Eu... eu sei o que pode acontecer. Não faça mais isso.

— Você está lembrando, não é? É por isso que não quer que eu use meus poderes? Isso já tem cinco anos. Eu já aprendi a controlar. Eu estou mais forte. Mais recuperado e saudável do que nunca. – Ele levantou a mão com o morango, para que eu olhasse – Está vendo? Totalmente sólido.

Respirei fundo e peguei a fruta.

— E pálido também, já pensou em tomar um sol? Acho... acho que eu posso estar confundindo um pouco as realidades.

Ele assentiu.

— Mas se você se sente melhor, podemos ir andando até lá. A gente só viaja pelas sombras na hora de entrar na casa.

— Melhor assim. Acho que podemos ir, não é?

Ele levantou e me estendeu a mão.

— Vamos?

Eu estava tentando ser sorrateira enquanto caminhava ao lado do final da parede das forjas, e dali eu já podia ver a casa. A porta estava aberta.

— Eu vou transportar a gente até lá, tudo bem? Prefiro que não fiquemos expostos nessa faixa aberta. Mais uma coisa: nós não podemos ir direto para o sótão. Não sei porque. Vamos parar na entrada dele, na escada. São quatro lances para subir. Pronta?

Assenti enquanto Nico pegava na minha mão e procurava o canto mais escuro ao nosso redor.

— Aqui. – Ele pisou e fui absorvida pelo vazio.

Era frio, e meu estômago deu diversos nós antes de parar no lugar novamente.

Respirei fundo quando paramos na escada, e teria dado um grito, caso Nico não tivesse coberto a minha boca. Pelo visto, ele recobrou a consciência antes de mim. Minhas costas estavam prensadas contra seu peito, e seu braço livre prendia minha cintura a ele. Não respirávamos fundo. Não nos movíamos. Eu nem piscava.

Da escada, eu podia ver Quíron conversando com alguém. Era uma mulher, com certeza. Mas seu rosto estava oculto por um capuz. Ela usava um vestido, talvez. Não pude ver muito através da capa que ia até seus pés. A cauda de Quíron balançava de um lado para o outro e ele olhava constantemente para fora. A conversa aos sussurros, sobre o que quer que fosse, parecia ser muito importante.

Como eles não tinham nos visto ainda?

Virei minha cabeça em direção à Nico, que ainda cobria minha boca e sufoquei um arquejo – na verdade, Nico sufocou com sua mão – ele não estava em lugar nenhum visível. Quase cai da escada ao notar que eu também não estava.

Senti seu rosto chegar perto do meu ouvido e suas palavras foram quase tão baixas que eu podia não ter escutado.

— Estou dobrando as sombras para nos ocultar. Nós vamos embora.

Neguei fervorosamente com a cabeça. Nós vamos entrar. Eu ainda estava com meu corpo preso ao dele.

— Tudo bem. Do seu jeito então. Vou soltar a sua boca e tentar abrir o alçapão.

Assenti lentamente, Nico ainda nos mantinha juntos. Creio que ele não consiga dobrar a sombra em um espaço muito grande.

Ele deu um passo de costas na escada e me instruiu para fazer o mesmo. Seguimos nesse ritmo ao longo de todos os lances. Ao chegarmos no último degrau, não distribui bem meu peso e a escada rangeu. Congelamos.

— Quem está aí? – A mulher gritou. Eu a ouvi correr até a varanda e voltar para dentro outra vez. As portas dos cômodos nos andares abaixo de nós começaram a abrir.

De cima, pude ver Quíron caminhar até a base da escada, como que impedindo sua passagem e olhou diretamente para meu rosto e me perguntei se ele sabia de nossa presença, mesmo tão de longe.

— Acho melhor checar a área. Nossos assuntos são muito pertinentes, Lady. Esclarecemos os detalhes em campo aberto, onde podemos vigiar melhor. Talvez leve algum tempo, e ficar dessa forma, inquietos, é muito desconfortável. Ficaremos fora por um tempo.

A mulher concordou com ele, já que saiu sem que eu conseguisse enxerga-la nitidamente, sendo seguida de perto por Quíron.

Só percebi que estava prendendo a respiração com Nico quando eles saíram. Ele me largou, fazendo-nos ficar visíveis novamente, e eu me apoiei no encosto dos degraus.

— Você acha que eles desconfiaram de algo?

— A mulher, não. Mas Quíron... Ele deve ter ganhado tempo para nós.

— Mas... por que... – quanto mais tempo passava, mais dúvidas preenchiam a minha cabeça.

— Não podemos discutir agora. Você precisa entrar e falar com o oráculo. – Ele abriu a passagem. – Cuidado. A maioria das pessoas não gosta da experiência. Na verdade, não conheço alguém que tenha gostado da experiência. Não tente fugir.

— Não tente...

Fui interrompida com o baque das escadas despencando para que eu subisse.

Respirei fundo e me arrependi um pouco. Havia um forte cheiro de conservantes ali. Cheiro de animais. Encarei Nico e ele assentiu para que eu subisse.

Ao entrar no cômodo, lembrei que já estivera ali. Recebi uma profecia muito tempo atrás que quase me destruiu, mas não consigo pensar com clareza nela. A porta do sótão se fechou, me mantendo ali. Me perguntei se deveria entrar em pânico outra vez.

Todo ele era estranhamente familiar e atolado de bugigangas que haviam triplicado em tamanho desde a última vez que eu estivera aqui.

Havia em cima de uma bancada, um lenço rosa de seda com uma etiqueta. Me aproximei para observá-lo melhor e consegui ler a inscrição.

LENÇO DA DEUSA AFRODITE
RECUPERADO NO PARQUE AQUÁTICO

AQUALÂNDIA, DENVER, CO.
POR ANNABETH CHASE E PERCY JACKSON

Fiquei surpresa. Eu não conseguia me lembrar disso. Porque eu guardara o lenço? Afinal, meu nome estava ali e a letra era minha, sem dúvidas.

Mas o choque pior veio quando virei o corpo e encarei a janela. Sentada num banco com três pés, uma múmia humana estava me encarando. Ela não era coberta por faixas, ou ataduras, pelo contrário: usava um vestido floral amarelo. Sua pele estava ressecada e presa aos ossos, mas o pior veio a seguir, quando sua mandíbula cresceu tanto que eu mal achava possível e de dentro dela, saiu uma névoa verde que criou vida, se enrolando em camadas e camadas ao chão.

Dentro da minha cabeça, uma voz serpenteava num zunido de vinte mil cobras.

Eu sou o espírito de Delfos, porta-voz das profecias de Febo Apolo, matador da poderosa Píton. Aproxime-se, você que está perdida, e pergunte.

Coloquei as mãos nos meus ouvidos, mas o zunido permanecia. Quis descer e dizer à Nico que eu não ligava pra essa bobagem e não precisava recuperar minha memória. Aquilo era antinatural. Inumano. Tenebroso. Aquilo não estava vivo de forma alguma. Era um receptáculo. Era um destino terrível.

Reuni toda a minha força interna e dei um passo em direção a ela, ou o que quer que seja. Eu devia fazer a pergunta em minha cabeça? Em voz alta?

— Como recupero minha memória?

A névoa aos pés do... da... Coisa, rodopiaram até tomar forma. Em um segundo, uma versão verde horripilante de Nico surgiu na minha frente. A voz em minha cabeça não era dele. Por vingança a sabedoria foi roubada, ele abriu as mãos, e acima delas, uma mulher estava sentada no chão, olhando para um lago, A beleza em uma caverna está, a imagem mudou, e um grupo de garotas corria, disparando uma flecha direto para mim, que sumiu no ar. No frio do norte a verdade se revelará. O Nico verde fechou as mãos, esmagando as imagens que se dissolveram em névoa. O passado terá de vencer. A voz era arrepiante, seguindo a mesma linha fantasmagórica das cobras. Ele olhou em meus olhos e o quarto virou um imenso salão de névoa, decorado com flores e faixas, à nossa frente um altar e ao mesmo tempo, todos os itens do sótão eram visíveis. Realidade e visão misturadas. A decisão final concretizará, Nico olhou em meus olhos, sem foco, Morte ou verdade permanecer.

Tão rápido quanto tudo começou, a Névoa começou a recuar, e se enroscando de volta para a boca da múmia.

— Espere! É só isso? O que significa?

A múmia ficou parada, como se nunca tivesse me movido. Como se eu nunca tivesse estado ali.

Quando desisti de tentar fazê-la falar comigo, abri o alçapão e desci.

— Graças aos deuses, – Nico sussurrou –achei que...

Ele foi interrompido quando a voz da mulher cortou a dele. Eles estavam na varanda.

— Segure-se em mim.

E então, ele pisou na sombra que o alçapão fazia e fomos engolidos pelas trevas.

Quando finalmente consegui abrir os olhos, estávamos no chalé de Nico.

Ele sentou na cama, visivelmente abalado.

— Você não devia ter se esforçado tanto!

Sua pele havia ficado claramente mais pálida e seus olhos faziam força para se manter abertos.

— Está tudo bem. – Ele sorriu fracamente – Temos muito o que conversar. Eu só... Preciso de um cochilo.

Enquanto Nico caia na cama, já inconsciente, eu só conseguia pensar em como não estava tudo bem.

Notas finais
E ai? O que acharam? Beijão!