O corpo do cervo pesava nos ombros de Luthor, seus membros sem vida chacoalhavam e se chocavam contra seu corpo, a galhada pendia em seu ombro direito, causando um incomodo dolorido; o sangue que encharcava o animal se misturava com seu suor, escorrendo pelo corpo e fazendo suas juntas ficarem grudentas, suas roupas estavam coladas ao corpo e molhadas. O sol nascente brilhava forte, machucando-lhe os olhos e o frio o fazia tremer e ranger os dentes. Mas nada disso se comparava ao cheiro. O cheiro de morte e putrefação que começava a exalar do cervo enchia as narinas de Luthor lhe dando náuseas que o faziam ter que parar de tempos em tempos para respirar fundo e controlar sua tontura.

Ele já havia saído do bosque há algum tempo, agora passava por entre as plantações ao redor de Coroachifre. Caminhava lentamente pelos campos, no chão pequenos arbustos com flores mirradas demarcavam o caminho que normalmente era feito pelos trabalhadores. Mas naquela manhã os caminhos estavam vazios, assim como os campos. Não se ouvia nenhum lavrador trabalhar com a foice cantando as costumeiras canções sobre os dias antigos e heróis lendários, ouvia-se apenas o canto dos pássaros e o sussurrar preguiçoso do vento ao passar pelos ramos altos de trigo negro.

A pequena via entre as plantações continuava e se alargava à medida que ia se aproximando da vila e juntando mais caminhos que vinham de outros lados do grande campo, se transformando numa estrada de terra batida que se bifurcava um pouco mais a frente. Ao longe Luthor podia ver as muralhas baixas que cercavam Coroachifre, a pedra cinzenta reluzia por causa da fina camada de gelo que se formava em alguns pontos, as tochas das torres de vigia estavam sendo apagadas uma a uma, deixando-as escuras por dentro, o que lhes dava um aspecto distante como se caíssem num horizonte escuro. Ele parou no ponto onde as estradas se dividiam e olhou para o portão de madeira no muro de rocha. Depois daquele portão estava sua vila, sua casa. Seu coração se apertou e seus olhos arderam prenunciando as lágrimas. Ele respirou fundo e baixou a cabeça.

— Espero que estejam prontos, pois Luthor, filho de Gowthor, está voltando — Sussurrou, mesmo que ninguém pudesse lhe ouvir.

Ele secou as lágrimas com as costas da mão, respirou fundo mais uma vez, lançou um olhar solene para Coroachifre e então seguiu pela outra estrada. O outro caminho tomava o sentido contrário à direção da vila, e aos desejos do coração de Luthor. Enquanto a estrada se afastava cada vez mais de seu lar, sua mente era invadida pelas lembranças de quando ainda era uma criança, dos dias de verão que passara correndo pela vila e suas ruelas de pedra, saltando em telhados de madeira e palha, por dentro da muralha ou pelos campos ouvindo a história entoada em canções. E dos longos invernos, em que a neve cobria todas as casas, e ele se escondia no grande salão, ao pé da cadeira de seu pai, aquecendo seu corpo ao fogo da lareira, e seu coração com histórias de heróis que derrotavam monstros malignos e cavaleiros que montavam em dragões.

A paisagem acidentada pela qual Luthor andava era acentuada por pequenos morros cobertos de grama e grandes bétulas, seus troncos esguios mantinham sua coloração branca durante a Friagem, mas seus galhos longos continham apenas um emaranhado de ramos secos. A estrada serpenteava por entre esses morros, fazendo curvas acentuadas em vários pontos, curvas que já o haviam feito cair do cavalo várias vezes antes. Esse caminho também trazia lembranças, mas a mais forte delas lhe doía o coração, uma memória que o atormentava há tantos anos, uma que ele preferia esquecer. Era um caminho familiar, já havia o feito inúmeras vezes, mas a caminhada que durava no máximo vinte minutos durou quase uma hora, por conta do peso extra da carcaça e das constantes pausas que Luthor tinha que fazer para controlar seu asco. O alívio que ele sentiu ao ver o velho carvalho retorcido à beira do lago foi indescritível.

A cabana que ficava próxima ao lago era uma visão reconfortante, a pequena construção de madeira com teto de palha exibia vários feitiços: plantas, ossos, pedras e metais eram alinhados em cordas de diferentes materiais e pendurados para afastar toda sorte de malfeitorias e maus espíritos. Um cavalo cinzento estava preso a um toco um pouco mais afastado da cabana, Luthor andou até ele, saudando-o como um velho amigo.

— Oi, rapaz, quanto tempo, não é mesmo? — O cavalo relinchou em resposta.

Ele acariciou o dorso do cavalo e reparou que seu pelo cinzento estava coberto de branco, ele não parecia mais tão altivo como Luthor lembrava.

— É, faz tempo. Realmente faz algum tempo já.

Ele andou em direção à porta, se afastando do animal, um caminho marcado por tabuas velhas de madeira terminava na porta arredondada na cabana. Era cheia de crânios de vários formatos e tamanhos, alguns animais, outros humanos. Aquela porta sempre lhe dera calafrios, e até mesmo tinha lhe impedido de entrar nas primeiras vezes que fora ali sozinho. Ele colocou o cervo de lado, apoiado numa parede, esticou as costas, aliviado por tirar esse peso, e bateu. Ouviu algo caindo, um tintilar no chão, alguém resmungou alguma coisa indecifrável. Passos pesados se aproximaram.

— Espero que esteja me perturbando por um bom motivo, se for mais uma garotinha procurando por uma poção do amor é melhor correr antes que eu termine de abrir a porta! — O som metálico das trancas poderia ter intimidado qualquer um. Qualquer um, menos Luthor.

A voz do outro lado era rouca e cansada, mas sua língua era ágil e seu tom autoritário era forte o suficiente para transformar o maior dos guerreiros em um menino molhando as calças. Para Luthor, era apenas extremamente divertida. A porta se abriu.

— Então, quem é que me... — A frase foi interrompida no meio — Ah, é você. Achei que já tinha morrido, garoto.

Gáwyr era um Druida experiente, mas qualquer um que o visse andando por aí podia facilmente o confundir com um mendigo. Os cabelos eram brancos e desgrenhados num embaraço mal cuidado preso por uma fita de couro, sua pele era queimada de tanto andar ao Sol, nem mesmo sua túnica verde era distinguível por baixo das manchas e camadas de sujeira. A única coisa que lhe entregava, se a pessoa tivesse um olhar atento, eram seus olhos. Um deles era uma imensidão amarela, o amarelo da íris se fundia com o amarelado que antes havia sido o branco, o outro era apenas uma cicatriz, suas duas pálpebras eram costuradas e havia inscrições em cada uma delas. Luthor sabia onde estava aquele olho. Ele ficava na bolsinha de couro pendurada no pescoço do velho.

— Também é ótimo te ver, Gáwyr, e obrigado por sempre manter a confiança em mim.

— Ah, garoto, não me leve a mal. Você é inteligente e tudo mais, mas sempre foi um guerreiro meia boca, sabe? Por isso achei que sua decisão de seguir no caminho seria ótima, e também por isso tentei dissuadir seu pai dessa história de Rito de passagem. Sem muito sucesso, sabemos. O que se pode fazer? Tradições são tradições, eu como Druida sei como elas são importantes para... — Ele parou no meio da frase, olhou para os lados, cheirou suas roupas e então olhou pra Luthor — Que merda de cheiro é esse hein, garoto? E não me diga que sou eu, porque eu posso até estar sujo, mas não tanto assim.

— Bom, acho que sou eu dessa vez. Pelo menos uma vez o cheiro de morto não vem de você.

— Exatamente! Cheiro de morto. O que você andou fazendo, rolando em cadáveres?

Luthor arqueou as sobrancelhas e olhou para o corpo do cervo encostado na parede. Gáwyr acompanhou seu olhar.

— Ah, é. Rito. Cheguei a esquecer disso por um momento.

Luthor riu e disse:

— Senti sua falta nesses dois anos. Ninguém consegue ser tão incisivo e tão desatento ao mesmo tempo, diria que é um dom.

— É, tá bom, tá bom. Também senti falta desse seu sentimentalismo barato. Agora, eu preciso preparar essa coisa — Disse, apontando pro cervo — E você precisa de um banho. Então se lave no lago e espere eu voltar, não devo demorar tanto.

— Tudo bem. — concordou Luthor — Você tem comida aí? Felizmente a minha acabou, acho que se eu tivesse que comer cebola e maçã outra vez eu arrancaria minha língua.

— Posso trazer algo da vila. Algo mais, vossa alteza? — Disse, desdenhando

— Na verdade, eu queria uma camisa e um par de botas, tenho uma calça sobressalente, mas sujei minhas duas camisas e minhas botas de sangue.

— Retiro o que eu disse, nem inteligente você é. Por que em nome dos Deuses alguém usaria duas camisas para carregar uma carcaça. O tempo com os Sídhe fez você esquecer-se do sangue e sujeira? Francamente eu nem posso acreditar que... — O resto da frase se perdeu dentro da cabana quando ele fechou a porta.

Luthor foi rindo até o lago, sempre achara o Druida um tanto engraçado e toda vez que ia até a cabana para estudar com Gáwyr era uma alegria imensa. Lembrava-se de ter aprendido um pouco de tudo, sobre a história de seu povo, como manipular substâncias com alquimia, sobre as plantas e seus usos, sobre a religião e os deuses de Bräteliand e seus vários nomes em lugares pelo mundo, sobre os animais e seus corpos, entre tantas coisas. Luthor estava disposto a seguir O Caminho e se tornar um Druida, diferente de seus irmãos mesmo que soubesse se virar com uma espada, nunca fora um exímio guerreiro, mas sempre tivera uma mente muito mais afiada.

Ele tirou suas roupas e mergulhou nas águas do lago, que mesmo estando frias ainda eram mais quentes que o vento que o castigara pela manhã. Gáwyr saiu de sua cabana naquele momento, trazia seu cajado, que assim como a casa, era cheio de feitiços pendurados. Ele arrastou o corpo do cervo e o colocou no dorso do cavalo cinzento, que bufou uma clara reprovação da situação.

— Se você acha que eu estou confortável com essa situação está muito enganado, sua besta teimosa — Disse o velho. O animal relinchou uma resposta — Quanto mais rápido chegarmos, mais rápido você vai tirar isso das costas, então colabore — Respondeu. O silêncio que seguiu foi como uma concordância.

Ele montou no animal, e então partiram, o velho Druida e o velho cavalo, numa visão que dava à Luthor saudades de um passado não tão distante.

Luthor mergulhou sua cabeça no lago por um instante, as águas o envolveram fazendo todo o resto desaparecer, enquanto ele prendia a respiração sentia que aquele momento era o único de toda sua vida, que somente o ali e o agora existia. Quando levantou, respirou fundo algumas vezes, olhando para o lago e então riu, pois aquele, de todos os lugares, era o ultimo no qual ele deveria sentir como se o passado houvesse sumido. Naquele mesmo lugar havia começado a história de seu clã, ele se chamava Lago de Mawtrin em homenagem ao seu antepassado que havia lutado há mais de trezentos anos ao lado da primeira regente do reino de Lyand, Melian, A Garra Forte, que libertara o reino da tirania dos monarcas do leão. Era àquele lugar que ele ia sempre que precisava pensar antes de começar sua jornada para completar seu rito de passagem. Naquele mesmo lugar ele tinha pensado sobre se tornar um Druida, escrito sua primeira canção ao som do alaúde, chorado seu primeiro amor. Mas naquela fria manhã sua mente vagueava sem lugar certo, ele se perguntava se deveria realmente seguir O Caminho. Seu irmão sempre lhe dissera que quando ele fosse um Lyand ele poderia se juntar ao seu bando de guerreiros. Seu pai lhe dissera que sempre poderia viver em Coroachifre, e sua irmã completara dizendo que quando ela assumisse a Vila ele poderia continuar lá.

Luthor terminou de se lavar, vestiu sua calça e se recostou no velho carvalho à beira do lago, olhando para o horizonte ele viu o Sol lentamente subir no céu ele respirou fundo e se levantou, seguindo pela borda do lago. Mais a frente havia um velho píer, mas nenhum barco estava ancorado ali, para a felicidade de todos que viviam por perto. Perto dali, onde o lago encontrava o bosque de Sotarns, uma clareira havia sido aberta e dentro dela vários monumentos de pedra lisa se erguiam, uns mais finos, outros mais altos, mas em todos eles haviam inscrições. Nomes.

Cada uma das vilas por perto tinha vários monumentos onde marcavam o nome de seus moradores. Três Clãs também mantinham seus monumentos ali, eles eram facilmente distinguíeis por serem muito maiores que os monumentos comuns, e a família de Luthor, por ser a protetora daquela região, tinha o maior e mais imponente deles. Ficava ao fundo da clareira, uma pedra que era maior que o próprio Luthor, cheia de espirais e desenhos circulares. Bem no topo havia o desenho de um cervo, com inscrições que o circundavam. Ele aprendera as letras há muitos anos, mas não precisava ler para saber o que estava escrito: “Em meu sangue corre a fúria”. Essas palavras eram parte dos dizeres de seu clã. O Clã Gandryl. O Clã dos Cervos.

Luthor passou a mão pelo monumento, ajoelhando-se e deslizando seus dedos, até o último dos nomes, e então parou. Ele tocou as letras, uma por uma, e sorrindo disse:

— Oi, já faz um tempo desde que eu vim aqui, eu sei. Mas eu te prometi que seria a primeira coisa que faria quando voltasse, não prometi? Bem, eu estou aqui. Achei que você deveria ser a primeira pessoa a saber que eu consegui. Quero dizer, ainda falta uma parte do Rito, mas ninguém nunca falhou naquilo. Se bem que eu sempre tive um dom para fazer as coisas irem contras as expectativas, não é? — Disse, rindo

Um vento forte bateu e ele olhou para o céu, as nuvens rolavam rápido exibindo uma coloração acinzentada.

— Chuva — Disse, sussurrando — Ainda não nevou esse ano, como naquele. Talvez chova como naquele dia também.

Seus olhos arderam, e ele se lembrou de anos atrás, quando ainda era um menino, do dia daquela tragédia.

— Eu não sei mais o que fazer. Achei que ser um Druida era pra mim, mas meu tempo com os Sídhe me fez repensar muita coisa. Eles forçam você a pensar, sabe? Talvez eu deva ser um guerreiro, como o pai, como Haethor e Lyn, como você. Talvez seja a única forma de te honrar. Eu sei que você me diria para parar de ser bobo e que eu deveria seguir apenas o que o meu coração diz, mas e se eu não souber mais o que ele está dizendo? Eu tenho estado tão confuso, eu não sei mais qual caminho seguir. Queria que você ainda estivesse aqui, com certeza seria a única pessoa que conseguiria me ajudar. Coisas estranhas aconteceram. Coisas das quais só você acreditaria. Talvez eu ainda saiba quem eu sou, mas não faço ideia de para onde vou.

Luthor retirou a mão do monumento e examinou a palma queimada, a marca vermelha estava aos poucos se abrandando, mas com certeza deixaria uma cicatriz, ela era bem visível através da vermelhidão. Era como três círculos, um dentro do outro.

— Qual é o meu destino?

Algo sussurrou em seu ouvido, como um distante sopro gelado, mas não era uma palavra, era um som, uma canção.

A canção de Beli Mawr era uma poderosa magia antiga, somente um valente guerreiro, um líder, poderia entoá-la. Luthor havia a ouvido apena uma vez e o refrão dela nunca deixara sua cabeça. A melodia forte era imemoriável até para aqueles que a cantavam, mas um verso da musica, mesmo na língua antiga, era muito claro para todos que a ouvissem.

A música parou de repente, ele se levantou e olhou em volta, não havia ninguém por perto, apenas ele estava ali, o único som que se ouvia era o das folhas se remexendo ao vento, pássaros cantando ao longe e do lago com suas ondas suaves beijando a margem de terra e grama. Lágrimas rolavam de seus olhos, mas um sorriso estava estampado em seu rosto. Ele cantarolou baixinho, quase como se sussurrasse de volta:

— De espadas nas mãos nós seguimos, sem pesar no coração, pois todos os caminhos levam à morte.

E o mundo pareceu se silenciar naquele momento.

Notas finais
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