Notas iniciais
Tive alguns problemas com esse capítulo, pareceu faltar inspiração ou algo do tipo, então tirei meu tempo e escrevi ele como deveria ser escrito, mas peço desculpas pela demora Não esqueça de deixar um comentário sobre qualquer coisa que queira comentar, e seguir a história para não perder os capítulos novos Domingo vão sair dois, então fiquem ligados

O Sol já estava em seu ponto mais alto no céu quando Gáwyr retornou. O Druida galopava no velho cavalo deixando nuvens de poeira para trás. No dorso do cavalo, onde antes estava o cervo, haviam vários embrulhos cinzentos. Um vento frio soprava do norte. Luthor tremia, agarrando os próprios braços pra tentar se aquecer. O velho desceu do cavalo mais rápido do que aparentava ser possível para alguém da sua idade e condição física. Ele acenou para Luthor, e apontou para a cabana. Gáwyr entrou na cabana tão rápido quanto suas pernas cansadas e seu domínio problemático sobre o cavalo permitiam. Luthor correu logo atrás, batendo a porta ao entrar.

Ele ficou feliz ao perceber que quase nada havia mudado na cabana. O chão era todo coberto por uma palha clara, suave ao toque. Bem no centro havia um buraco coberto de pedras com alguns galhos já queimados, e, logo acima dele, um tubo de madeira no teto que passava pelo segundo andar e ia até o telhado. Era o que Gáwyr chamava de fumaceiro, ele dizia que era muito mais eficiente do que as pequenas janelas perto do teto dos salões de grandes senhores. No chão perto do buraco havia um tapete com várias almofadas espalhadas. Estavam visivelmente sujos e manchados pela fuligem. À direita havia uma mesa longa de madeira com toda sorte de coisas espalhada sobre ela, frascos de vidro contendo mais substancias do que Luthor conhecia, pedras e objetos das mais variadas substâncias, formas e tamanhos, e instrumentos com funções que Luthor nem tentava adivinhar. Embaixo da mesa havia uma pilha grande de galhos de madeira e toras cortadas ao meio. À esquerda havia uma escada que levava ao segundo andar, e próximo dela, estava Gáwyr e o cavalo.

O velho amarrava o cavalo à um pequeno poste de madeira no chão da cabana. O animal já estava deitado no chão e dava sinais de quem estava prestes a dormir. Aquela cena o fez rir e pensar em como a relação do Druida com o velho animal era complexa, mas bonita.

Dois velhos, pensou, eles devem conhecer um ao outro muito bem.

— O que você está olhando aí com essa cara de paspalho, garoto? — perguntou o Druida. Ele havia terminado de prender o cavalo e estava se levantando.

— Nada. Nada mesmo — respondeu — Só estava imaginando há quanto tempo você tem o velho ali — disse, apontando para o cavalo.

Gáwyr se virou, encarou o animal por alguns instantes, depois bufou, fechou os olhos se virando de volta e respondeu:

— Por tempo o suficiente, acredite.

Os dois tiraram os embrulhos do dorso do cavalo. Em um deles havia uma camisa, um manto e um par de botas, que Luthor vestiu imediatamente. Na outra havia carne seca, pedaços de frango e alguns vegetais já cortados, que Gáwyr colocou num caldeirão de ferro. O outro pacote, o menor de todos, o Druida não disse o que tinha, apenas o pegou e levou para o segundo andar. Sozinho, o rapaz andou pela cabana, lembranças se amontoavam naquele lugar, memórias e conhecimentos que ali haviam sido forjados dentro dele. Ele passou os dedos pela mesa, o toque delicado da poeira era tão familiar que se parecia com um velho amigo lhe apertando a mão.

Em cima da mesa havia um objeto estranho, era uma placa lisa e negra, cujas bordas eram tortas e pareciam ser altamente afiadas. Luthor o pegou, tomando cuidado com as extremidades, quando o virou, uma imagem que estava dormente em sua memória lhe saltou aos olhos. Mesmo que partido e sem forma, o espelho refletia perfeitamente seu rosto. Era um espelho de vidro e prata, um item raro, que normalmente se achava apenas em casas de nobres muito bem abastados. Pela primeira vez em muito tempo, o rapaz viu os contornos do próprio rosto bem definidos. Surpreendeu-se ao ver como os cabelos haviam crescido. O ruivo suave havia se transformado numa cor intensa e inflamada, uma barba rala começara a dar seus sinais nos contornos de seu queixo. Mas nada o deixou mais intrigado que seus olhos. Seus próprios olhos lhe pareciam estranhos. Durante o tempo que passara com os Sídhe, era constantemente chamado de Tângwer, Chama Verde, eles diziam que seus olhos eram como dois sóis verdejantes, acalentadores e imponentes, mas tudo o que conseguia ver era um verde opaco emoldurado por olhos cansados. Aquele era um espelho da mais alta qualidade que o refletia perfeitamente, mas Luthor sentia-se borrado, não conseguia se ver completamente naquele reflexo.

Ele suspirou ao baixar o espelho

Talvez eles estejam certos, pensou, talvez espelhos sejam apenas ilusões que vemos e pensamos ser nós mesmos, mas não poderiam estar mais longe disso. Talvez esses reflexos sirvam apenas para nos fazer concentrar em nossas aparências e esconder as verdades que habitam dentro de nós. Mas como descobrir essas verdades?

E, suspirando novamente, disse, para si:

— Acho que eu preferia me reconhecer num reflexo a reconhecer que esse reflexo não sou verdadeiramente eu.

Quando o Druida desceu, Luthor estava sentado no tapete, remexendo as cinzas antigas com um galho.

— Vou ao velho poço pegar um balde de água, faça algo de útil e acenda o fogo para o guisado — disse. Ele fez uma pausa, pegou um dos panos cinza que embrulhavam os pacotes e colocou ao redor dos ombros — Pelas barbas de Dagda, a senhora negra está nos castigando com vontade hoje.

— E o Príncipe dos Ventos também não fica para trás. Achei que uma Dança de Silfos iria se formar bem diante dos meus olhos.

— Dança de Silfos? — resmungou o Druida — Desde quando chama um Olho de Vento assim?

— Bom, foi você que me ensinou que Olhos de Vento eram formados pela reunião de Silfos ao redor de uma dança em celebração ao Regente do Ar — respondeu Luthor.

— Sim, claro. Mas, ainda sim, Dança de Silfos é um termo muito formal para uma conversa casual, garoto.

— Mas em todas as nossas conversas você sempre usou termos formais, mesmo quando não estava me ensinando.

Gáwyr carregou o sobrolho num olhar que Luthor podia jurar que arrancaria um pedaço dele se fosse estendido por muito mais tempo

— Quando eu voltar falaremos sobre isso. Acenda a fogueira. — disse. Então saiu, batendo a porta.

Luthor o observou sair e suspirou. Talvez o tempo que passara com os Sídhe tivesse o feito mudar mais do que ele pensava, mas ele não saberia dizer. Ele se levantou e pegou alguns galhos e troncos partidos, os colocou devidamente alinhados e pegou uma pederneira e alguns ramos secos na mesa. Coma fogueira já acesa ele se recostou numa das almofadas por um tempo. O crepitar leve do fogo o levou para memórias dos anos anteriores, suas incursões dentro da Floresta Longa ao lado de seus companheiros. Baranan e Leindeil foram irmãos de Casa de Luthor. Sua despedida havia sido difícil, por dois anos eles haviam sido aqueles que o ajudaram em tudo. O ensinaram a lutar, falar, cantar e fazer musica ao jeito dos Sídhe, lhes ensinaram seus costumes e suas histórias, eles lhes deram tudo aquilo que o rapaz poderia pedir. Foram seus amigos. Baranan do sorriso acolhedor, humor forte e inseparável de sua flauta. Leindeil, com sua língua afiada, pés ágeis, sempre subindo em alguma árvore.

Luthor sorriu. Ele pegou sua bolsa e tirou um embrulho do fundo dela. Ao desdobrar o pano branco, um pequeno vidro com um pó verde e uma flauta de madeira rolaram para fora. O rapaz segurou a flauta e a observou por um momento. Sua madeira era vibrante de tão polida, cheia de inscrições do Ogham à moda dos Sídhe. Eles chamavam de Lizhsat, As Letras de Luz, e diziam que elas eram imbuídas de um poder místico. Luthor não ousava duvidar. Todos os instrumentos de Bardos continham as Lizhsat, era assim que eles encantavam o fogo. Ele destampou o pequeno frasco e pegou uma quantidade mínima do pó verde entre os dedos, então, soprou delicadamente na pequena fogueira. Levou a flauta doce à boca, tomou um instante para respirar, posicionou os dedos e tocou.

A música que ele tocava não era nada complexa, muito pelo contrario, era uma das músicas mais simples que ele já ouvira, mas seu tom suave era cadenciado de uma forma que qualquer um que ouvisse era hipnotizado por ela. Era uma canção que fazia parte de uma das histórias preferidas de Luthor, chamava-se A Dança das Violetas. A canção narrava a valsa de uma Guerreira Humana com a Princesa Sídhe. O fogo respondeu ao som da musica, elevando-se e mudando sua cor para um violeta intenso. Dentro dele, duas figuras de cabelos longos podiam se vistas, uma dela usando vestido, a outra armada com espada, escudo e armadura. Uma nota alta narrava o momento em que as armas eram jogadas no chão, seguida por uma sucessão de sons doces que faziam as duas figuras no fogo se tocarem e dançar. Logo depois, a melodia se acalmava, fazendo brasas voarem e se abrirem, desabrochando no ar como pétalas de flor. Era uma canção simples, mas uma das mais belas que Luthor já havia ouvido.

Quando a música estava chegando a seu ápice, as figuras arroxeadas quase juntas demais para serem distinguidas, seus lábios de chama se preparando parar o beijo que encerrava a canção, a porta da cabana se abriu com um estrondo. Luthor estivera tão imerso no som da flauta que não percebeu que uma chuva torrencial caía do lado de fora, fazendo o céu da tarde ficar escuro e cinzento, trovões rugiam com força estremecendo a terra sobre seus pés. A fogueira chispou e se apagou ao toque da água e ele correu para a porta, fechando-a e colocando uma tora de madeira para segurá-la.

Arfando, ele se recostou na porta e suspirou. Então seus olhos encontraram o cavalo. O animal estava em pé, relinchando e se sacudindo, desesperado para se secar. O rapaz olhou ao redor e viu um dos panos que embrulhava um dos pacotes, mas ele era pequeno demais. Uma ideia surgiu em sua cabeça. Ele andou até o tapete e afastou as almofadas, puxou o pano comprido e o colocou sobre o cavalo, esfregando com leveza para tentar retirar a umidade de seu pelo.

— Shh, calma, amigo, já está tudo bem — disse, em um tom tranquilo.

Alguns minutos se passaram e o cavalo se acalmou, decidindo se deitar novamente. Luthor sorriu ao ver que ele estava confortável e relaxado.

— Já sei, vamos esperar aquele velho maluco juntos — disse. O animal pareceu bufar em resposta

Ele recolheu as almofadas que estavam espalhadas, colocando-as perto o cavalo, e se deitou de lado no chão, recostando as costas na barriga do animal. Foi então que percebeu algo diferente no chão. Perto da fogueira uma marca escura se destacava. Luthor levantou e chegou perto da marca, afastou a palha no chão e soltou um súbito riso de surpresa. Um alçapão de madeira escura, com pregos e tiras de ferro se escondia bem no centro da cabana. Ele destacou o pequeno aro de fero que ficava em um buraco redondo na madeira e tentou puxar, mas nada aconteceu. Foi somente quando ele afastou toda a palha em volta que conseguiu ver. Uma tranca enorme de ferro negro segurava o alçapão no chão, o buraco da chave estava arranhado, como se fosse usado frequentemente. Luthor estava de joelhos, tentando descobrir um jeito de abrir a passagem quando a porta se abriu com um estrondo pela segunda vez, mas, dessa vez, não era o vento.